Vítima e Sacerdote

Thursday, June 19, 2008 22:30 | Filled in Poesia

De manhã,
quando a lâmpada da noite se apaga…
e a suave luz da aurora enche
de ouro as cândidas corolas
e os cálices dos lírios, eu me ergo
e subo os degraus do Vosso Altar
para – trêmulo e comovido – celebrar
o mistério do Vosso Amor profundo…

De manhã,
Quando eu ordeno onipotente
e Vós aniquilado como servo,
em silêncio, desceis às minhas mãos…
Quando, Senhor, eu Vos imolo e Vos elevo
e, rasgando o Vosso peito dolorido
arranco, pulsando, o Coração
para fazê-lo sangrando e, assim ferido
uma migalha paupérrima de pão…
Quando reduzo um Deus três vezes forte
à impotência, à última expressão,
é que sois VÍTIMA e eu o sacerdote!

Mas, depois, dia afora,
- quando eu desço a montanha sagrada para a luta,
vou ao campo que me destes por partilha,
na renúncia total absoluta,
sangrar os meus pobres pés feridos
nos trilhos que me deixastes, já marcados
com o Vosso rastro divino e ensagüentado,
sem ter, para os lábios ressequidos,
outra fonte que a ferida gotejante
que, de manhã, rasguei em Vosso peito…
Quando eu sinto o Vosso amor me devorando
sem nunca Vos sentirdes satisfeito…
Quando, exausto, eu ergo a minha fronte
buscando com ansiedade no horizonte,
uma nesga iluminada do Infinito
para matar a minha sede de mais luz
eu não diviso, senão, os braços nus
de uma cruz, em um cume de granito…
Quando, só, despojado, incompreendido,
depois de ter dado sem medida,
o suor… o sangue… e até a vida,
eu sinto o Vosso golpe redentor,
e sou – como sândalo – cortado e retalhado,
para que, só Vós, Senhor,
o aroma sintais do meu Amor…

E, à noite, quando chega a solidão,
exausto… moído de cansaço
e, olhando como o homem do fracasso,
não recolho, entre espinhos – e misturado
com o joio – senão o grão escasso
do meu campo que só há de florescer
e lourejar, depois que eu for lançado
no túmulo – para ser o grão fecundo,
é que estou – como homem consagrado
lentamente… consumindo a Vossa morte!
Estou sendo, Senhor, o Vosso PÃO,
Vossa VÍTIMA e Vós o SACERDOTE.

Irmã Dutra.

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6 Comments to Vítima e Sacerdote

  1. Luiz Henrique says:

    June 20th, 2008 at 9:48 am

    Belíssimo!!!

  2. Pe. Anderson says:

    August 4th, 2008 at 9:42 pm

    Emocionante poema que traduz a verdadeira face do sacerdócio católico: ser por Cristo, com Cristo e em Cristo, vítima para a redenção do mundo.

    Obrigado, Jorge, por nos proporcionar este belíssimo texto de Irmã Dutra.

    Que Nosso Senhor abençoe a todos os sacerdotes do mundo para que sejamos – apesar de nós mesmos – fiéis instrumentos de Sua Graça.

  3. Respeitar a Liturgia para participar da Santa Missa « Deus lo vult! says:

    November 13th, 2008 at 5:23 pm

    [...] infinitamente qualquer coisa que nós poderíamos fazer por nós próprios; n’Ela, é Cristo Sacerdote e Vítima quem é o verdadeiro [...]

  4. Beni Soares says:

    April 30th, 2010 at 1:29 pm

    Irmã Dutra tirou essa Poesia do profundo de seu coração, a partir de uma divina conpreenção do Sacerdocio. Parabens!!!

  5. Beni Soares says:

    April 30th, 2010 at 1:34 pm

    Irmã Dutra possui verdadeira alma sacerdotal. Parabens!

    . . . Quando eu sinto o Vosso amor me devorando
    sem nunca Vos sentirdes satisfeito. . .

  6. Deus lo Vult! » Parabéns, pe. Nildo! says:

    August 10th, 2010 at 1:50 pm

    [...] a ser oferecida ao Pai Santo em união às dores de Nosso Senhor no Calvário. Vêm-me à mente os versos da Irmã Dutra que já pus aqui outra vez, mas que são extraordinariamente adequados à vida sacerdotal e, por isso, trago-os de novo na [...]

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