Delírios positivistas

Tuesday, July 1, 2008 16:52 | Filled in Filosofia & Teologia, Ética & Moral

Saiu na VEJA um artigo sob o título de “A Fé dos homofóbicos”, da autoria de André Petry (aqui de segunda mão, para os não assinantes).

Não vou tecer considerações sobre a interpretação exposta no artigo referente ao alcance e aos limites do projeto de Lei, pois podem ser encontrados comentários pertinentes sobre o assunto tanto da autoria do padre Lodi quanto no site do Veritatis Splendor. No mínimo, a opinião de Petry de que o temor dos cristãos é infundado vale tanto quanto a opinião dos cristãos de que eles têm sim motivos para temer injustiças; afinal, o articulista dizer que a alegação cristã é uma interpretação tão grosseira da lei que é difícil crer que seja de boa-fé é tão-somente a opinião dele, e não me consta que o Petry vá ser referência consultada quando, nos tribunais, a Lei da Mordaça Gay for posta em execução.

Vou, todavia, comentar sobre um problema sério que vejo no texto (aliás, descobri agora que o Reinaldo Azevedo já fez o mesmo comentário antes de mim): é sobre o relativismo doentio destilado no artigo. Está escrito, lá nas páginas da VEJA:

Matar é crime não porque seja imoral, mas porque a sociedade entendeu que a vida deve ser preservada.

Não sei se André Petry é ateu. Mas, ainda que não o seja de fato, ele é, pelo menos, um “ateu-lógico”, posto que as posições por ele defendidas só se justificam dentro de um universo onde não haja Deus. A quarta via tomista - quarta via sumitur ex gradibus qui in rebus inveniuntur - para provar a existência de Deus refere-se, exatamente, aos graus de perfeição que existem nos entes. De maneira sucinta, argumenta o Aquinate que duas coisas só podem ser comparadas se houver um referencial de comparação; assim, um ser é mais belo do que outro porque há um referencial de Beleza, Absoluto, do qual as coisas aproximam-se mais ou menos. E este Absoluto é Deus

Retirado o Referencial, o que sobra? Ou o nada, ou a arbitrariedade. Se não houvesse nada, então nada poderia ser comparado com nada; mas esta opção é repugnante demais à inteligência humana, que compara coisas o tempo inteiro. Resta, como alternativa “aceitável”, a arbitrariedade. Deus não é mais o Belo e, portanto, bonitas são as modelos que têm o corpo dentro dos padrões ditados pela “moda”, e belos são os quadros que estejam dentro da última corrente artística. Deus não é mais o Verdadeiro e, então, verdade é aquilo em que você acredita. Deus não é mais o Justo e, então - e esta é a tese de Petry - justiça é o que “a sociedade entendeu” que era justo.

É fácil perceber que o positivismo jurídico conduz ao ateísmo pelo menos prático; afinal, qual seria a razão de se adotar como critério de Justiça a “definição da Sociedade” se houvesse a Suma Justiça à qual recorrermos? Se é preciso recorrer à arbitrariedade, é porque não há absolutos. Se o Direito é positivista, é porque ele reconhece (ao menos) implicitamente que não há Deus. E, se as pessoas vivem em uma sociedade atéia, elas fatalmente perderão de vista o Absoluto e tenderão cada vez mais para a arbitrariedade - como conseqüência, cada vez mais a sociedade, elevada ao patamar de Magistério Infalível para definir o certo e o errado, vai degenerar no caos e na barbárie, porque, sem absolutos, vale a lei do mais forte - e sempre é só uma questão de tempo até os “mais fortes” descobrirem isto.

Não é possível ser sempre imparcial; para salvaguardar os direitos mais básicos da pessoa humana, é preciso proclamar em alta voz que Deus existe. Porque, se recuarmos o estandarte de Deus, a natureza, que tem horror ao vácuo, vai preencher o espaço com alguma coisa - mas esta coisa, não sendo absoluta, será necessariamente relativa. E há valores que não podem ser relativizados.

Como a dignidade humana, por exemplo. É desnecessário lembrar que princípios como a proteção à vida não podem ser deixados para “a sociedade entender” se devem existir ou não, pois sociedades distintas podem entender distintamente o problema e, nesta história, os que sofrem são os mais fracos - como os judeus na Alemanha da Segunda Guerra ou os cristãos em Cuba até hoje, todos vítimas de um Estado que subscreveria integralmente o que é defendido por Petry. Não é justo que os homens, criados por Deus por amor e para o amor, estejam sujeitos às arbitrariedades de pessoas que n’Ele não acreditam. O positivismo de André Petry é potencialmente genocida. É necessário trazer Deus de volta às praças públicas. Urge levantar a Cruz bem alto! Antes que os escombros da modernidade - que caminha fatalmente para a auto-demolição - terminem por soterrar, em sua sanha atéia, ainda mais inocentes.

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No Comments to Delírios positivistas

  1. Normanda says:

    July 1st, 2008 at 7:03 pm

    Sem mtas palavras… só sublinhando e repetindo algumas das tuas próprias palavras Jorge -nas quais acredito e pelas quais quero viver…

    “para salvaguardar os direitos mais básicos da pessoa humana, é preciso proclamar em alta voz que Deus existe. (…)
    É necessário trazer Deus de volta às praças públicas. Urge levantar a Cruz bem alto!”

    Parabéns pelo texto!
    A paz!
    Normanda

  2. franc1968 says:

    July 2nd, 2008 at 9:43 am

    Publiquei um post sobre o tal artigo do Petry. Peço sua autorização para publicar esse seu artigo e assim propiciar uma outra visão sobre a postura do articulista e sua idéias atéias.
    O artigo: http://franc1968.wordpress.com/2008/06/30/a-ultima-do-andre-petry/

  3. Os tentáculos do monstro gayzista « Deus lo vult! says:

    July 22nd, 2008 at 3:46 pm

    [...] sobre o texto. Por exemplo, em coluna da Veja do mês passado, saiu um artigo do André Petry (que já foi devidamente comentado aqui no BLOG) no qual o temor dos cristãos de que a sua liberdade religiosa estaria sendo ameaçada pelos [...]

  4. Anne says:

    November 8th, 2008 at 5:25 pm

    Artigo de péssimo gosto, baseado em premissas faltas e com uma conclusão igualmente absurda.

  5. Luciano Perim says:

    November 8th, 2008 at 6:47 pm

    Jorge,

    O comentário da Anne (você vê como são as coisas !) me fez descobrir esse artigo que é da época em que não conhecia seu blog.

    Parabéns pelo texto, que é inteligente, profundo, e importante para o tempo em que vivemos.

    Existe uma certa “idolatria da maioria”, onde tudo, até os valores essenciais estão sendo colocados em questão/votação, o que por si só é um absurdo. Só em um mundo que virou as costas pra Deus é possível uma situação dessas.

    Mais uma vez parabéns, e que o Espírito Santo continue iluminando sua mente para nos edificar com textos tão bons e necessários.

    Fique com Deus.

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