Comentando o adeus do Arcebispo – 01

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Comentei aqui no BLOG sobre o especial do Jornal do Commercio do dia 04 de julho, que consistiu em um caderno de oito páginas voltadas para atacar Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Olinda e Recife. O assunto foi comentado também no blog do Marcio Antonio, jornalista de Curitiba e meu amigo. Neste post e em subseqüentes, tecerei comentários sobre os artigos que constam no especial “O adeus do arcebispo”, seguindo o índice aqui disponível e que reproduzi no BLOG na sexta-feira última. Os artigos comentados ficarão sempre em anexo, no fim do post. Comecemos.

1 – O fim da era da discórdia?

Sob este título está a introdução do caderno especial do JC. Já no título fica patente o “julgamento” que o jornal faz do arcebispado de Dom José: uma “era da discórdia”. Mesmo que os responsáveis pelo caderno tenham conhecimento zero ou próximo de zero sobre a Doutrina Católica, sentem-se no direito de proferir sentenças sobre casos que não competem a eles e sobre os quais eles não foram consultados: assim funciona a mídia recifense. O primeiro pressuposto do caderno especial – gratuito e colocado como se fosse um axioma – é o de que Olinda e Recife vivem uma “era da discórdia”.

[O] papa João XXIII ensinou que era preciso “abrir as janelas do Vaticano para que os ventos da história soprassem a poeira que entulha o trono de Pedro”

Eu já tinha lido que João XXIII tinha falado em “abrir as janelas da Igreja”, mas o objetivo seria deixar “entrar n’Ela um ar fresco do mundo exterior” (segundo a citação de segunda mão deste site), e não soprar a poeira que entulha o trono de Pedro. A citação do JC, embora esteja com as aspas no original, não indica a fonte deste “ensinamento”.

O arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, trilhou o caminho contrário.
[…]
Sob a complacência de Roma, desmontou tudo o que havia sido erguido no espírito da Teologia da Libertação e do Concílio Vaticano II

Aqui, o autor do texto parece um “católico” modernista. Dizendo que Dom José trilhou o caminho contrário ao que havia ensinado João XXIII, e dizendo que isto foi feito sob a complacência de Roma, o que está dito é que Roma caminha “ao contrário” do que ensinou o Bem-Aventurado João XXIII.

E, não, eu não aceito que as coisas santas sejam colocadas em pé de igualdade com o lixo! A “Teologia da Libertação” é uma heresia e o Concílio Vaticano II é uma legítima expressão do Magistério da Igreja! “Heresia” e “Magistério” estão tão separados entre si como trevas e Luz; a Teologia da Libertação está tão distante do Vaticano II quanto o erro está distante da Verdade. Ao ler que esta “teologia” está relacionada com o espírito […] do Vaticano II, impossível não pensar que o modernismo está fazendo escola até nas redações dos jornais recifenses.

Por que o articulista não foi procurar o que a Igreja diz sobre a Teologia da Libertação e sobre o Vaticano II? Porque ele impõe de novo, mais uma vez como se fosse um axioma, que andam ambos de mãos dadas, quando o contrário disto é que é verdade? Será que ele ignora os incontáveis pronunciamentos de Roma contra a Teologia da Libertação e a favor do Vaticano II? Ou é mais provável que ele só queira desinformar?

Na última segunda-feira, dom José completou 75 anos e foi obrigado a pedir a renúncia do cargo, gesto há muito aguardado por uns e lamentado por outros.

A construção da frase induz a duas coisas: a provocar compaixão pelos que “aguardavam” há muito a renúncia, e a acreditar que há um “racha” na Arquidiocese entre os que estão contra o Arcebispo e os que estão a favor dele. Esta idéia – já presente em gérmen no título da introdução do caderno – vai ser explorada ad nauseam pelo jornal. Para o leitor que não conheça os fatos, aliás, ficará a clara impressão de que só estão do lado do Arcebispo três ou quatro reacionários malignos; e as coisas são bem diferentes disso, conforme será visto adiante.

Em todos esses anos, parte das ovelhas já se sentia sem pastor.

Que “parte das ovelhas” é esta? O jornal não o diz claramente. Induz-se, pelas páginas subseqüentes do especial, que são:

  1. a prefeita comunista de Olinda;
  2. frei Betto;
  3. Ivone Gebara, “teóloga feminista” e (no mínimo) simpatizante das Católicas pelo Direito de Matar;
  4. padre Reginaldo Veloso e outros padres afastados;
  5. o “teólogo” Inácio Strieder e o pessoal do “Igreja Nova”;
  6. afins.

Esta “trupe” está sem pastor há muito tempo, porque não é católica. O problema deles não é com dom José – e sim com o Papa e com a Igreja. Não são ovelhas, e sim lobos.

Dom José sairá deixando o legado de uma Igreja distante dos temas sociais e silenciada pelo medo.

Mais uma dupla agressão velada ao arcebispo: ele é “alienado” e “autoritário”. Mais uma vez, de maneira completamente gratuita. De novo, a parcialidade do especial tendencioso fica evidente.

Nas próximas páginas deste caderno especial (…)

Em próximas entradas deste BLOG, serão comentadas as páginas do caderno especial do Jornal do Commercio de 04 de julho.

Dom José já avisou que ficará longe do Recife. Vai se refugiar num convento carmelita, onde aguardará o julgamento da história e do rebanho que ele deixa dividido.

O Julgamento que dom José aguardará não é o “da história”, e sim o do Justo Juiz; e quanto ao rebanho, a “divisão” que existe é aquela que foi citada acima: entre católicos e hereges, entre ovelhas e lobos.

* * *

Anexo – .O adeus do arcebispo

O fim da Era da Discórdia?
Publicado em 04.07.2008

[O] papa João XXIII ensinou que era preciso “abrir as janelas do Vaticano para que os ventos da história soprassem a poeira que entulha o trono de Pedro”. O arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, trilhou o caminho contrário. Em seus 23 anos à frente da arquidiocese, fechou portas, expulsou padres, criou arestas e voltou os olhos da Igreja para si mesma. Tinha uma missão nas mãos e a cumpriu com obediência cega e o peso da autoridade. Sob a complacência de Roma, desmontou tudo o que havia sido erguido no espírito da Teologia da Libertação e do Concílio Vaticano II – herança semeada pelo antecessor, dom Hélder Câmara. Na última segunda-feira, dom José completou 75 anos e foi obrigado a pedir a renúncia do cargo, gesto há muito aguardado por uns e lamentado por outros. Em todos esses anos, parte das ovelhas já se sentia sem pastor. Se o pedido for aceito pelo papa Bento XVI, será o fim de um ciclo marcado pelo confronto e por um arcebispado que preferiu o rito dos altares à prática pastoral. Dom José sairá deixando o legado de uma Igreja distante dos temas sociais e silenciada pelo medo. Nas próximas páginas deste caderno especial, o Jornal do Commercio faz uma análise sobre os polêmicos anos de seu arcebispado, revela documentos confidenciais da Igreja e investiga o nome do provável sucessor. Dom José já avisou que ficará longe do Recife. Vai se refugiar num convento carmelita, onde aguardará o julgamento da história e do rebanho que ele deixa dividido.
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