Mais citações distorcidas

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 10 meses 26 dias atrás.

Após eu comentar aqui no Deus lo vult! sobre algumas citações falsas publicadas pela Montfort recentemente, recebi um email com a informação de que a mesma coisa já havia sido feita em outra ocasião, tendo o Card. Arinze como alvo. Verifiquei os links passados, e a informação está exata: as palavras das citações são trocadas, e as aspas são mantidas, dando-se a entender que a frase do Card. Arinze é uma coisa quando, na verdade, é outra coisa bem diferente. A Montfort coloca a sua interpretação dos fatos, com as suas próprias palavras, na boca de membros importantes da Cúria Romana, como se fossem citações literais de cardeais da Santa Igreja!

Este tipo de expediente desonesto não pode continuar. Os fins não justificam os meios; é necessário que tais textos da Associação Cultural Montfort sejam absolutamente repudiados, por uma questão de justiça. Abaixo, a mensagem que recebi por email, com as citações falseadas do Card. Arinze.

* * *

Em certa entrevista ao Inside the Vatican, o Cardeal Arinze, salvo engano em 2003, afirmou que normas baixadas por João Paulo II iriam acabar com a Missa “do it yourself” (faça você mesmo), ou seja, com os abusos na liturgia. As palavras do Cardeal na entrevista foram:

“We want to respond to the spiritual hunger and sorrow so many of the faithful have expressed to us because of liturgical celebrations that seemed irreverent and unworthy of true adoration of God. You might sum up our document with words that echo the final words of the Mass: ‘The do-it-yourself Mass is ended. Go in peace.” ( apud http://forum.catholic.org/viewtopic.php?f=158&t=7030)

Tradução: “Queremos responder à fome espiritual e dor que tantos fiéis expressaram a nós por causa das celebrações litúrgicas que pareciam irreverentes e  indignas da verdadeira adoração a Deus. Você pode resumir nosso documento com palavras que ecoam o final da Missa: “A Missa faça-você-mesmo terminou. Vão em paz”.

Fedeli, certa vez, citou o texto assim:
“Como disse certa vez, com espírito, o próprio Cardeal Arinze: “A Missa “do it yourself” vai acabar”. Ite, Missa Nova est. Deo gratias.”(http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=apoio&artigo=20060501020700&lang=bra)
Até aqui, foi Fedeli quem equiparou a Missa “do it yourself” com a Missa Nova. Em outros textos, porém, Fedeli cita as palavras do Cardeal como se ele tivesse dito que a Missa nova iria acabar, e como se a Missa do-it-yourself, para o Cardeal, fosse a Missa nova.

Veja alguns exemplos:

“O Cardeal Arinze, falando da missa nova disse: “Ite, Missa Nova est!”. “Deo gratias”, responde-lhe a Montfort com os fiéis católicos”.
(http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=padre_bux&lang=bra);

“Caso tudo isso for decretado, poder-se-á dizer — como disse certa vez o Cardeal Arinze: “Ite, Missa Nova est”, e o povo responderá: “Deo Gratias”.
(http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=apologetica&artigo=20060520141933&lang=bra)

“Como esse Cardeal disse certa vez: “Ite, Missa Nova est”
“Ide, a Missa Nova acabou”
Deo gratias!!!
Pior até:  chamou a Nova Missa de “Mass do it yourself”“Missa faça-a você mesmo”
(http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=decreto_papal&lang=bra)

“Porque, como se anuncia em Roma: “Ite, Missa Nova est!” Arinze dixit!”(http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=doutrina&artigo=20060531205611&lang=bra)

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0 thoughts on “Mais citações distorcidas

  1. Antonio

    Mais uma vez, a falha está na troca literalmente licenciosa das palavras do cardeal Arinze, e no emprego das aspas a palavras que não são todas literalmente do citado cardeal. Mas a equiparação entre a Missa Nova e as as criatividades sacrílegas que se pode constatar fácil e fartamente hoje não é esdrúxula nem improcedente. O Missal de Paulo VI, apoiado em diretrizes conciliares vagas e imprudentes para aqueles tempos (as quais Michael Davies chama de “bombas-relógio litúrgicas do Vaticano II” num livro de mesmo título), permite um número grande de inflexões litúrgicas e ritualísticas, das quais não seria impossível imaginar já naquela época que, em si, e ainda mais quando extrapoladas, pudessem ocasionar a babilônia litúrgica que pudemos desgraçadamente constatar de algumas décadas para cá.

    Outro aspecto reforçador da identidade Missa Nova-Missa faça-você-mesmo é o processo curto de sua implementação e, como alguns reconhecem, produto erudito de sua construção de seu Missal e dos demais ritos sacramentais. Ora, tal como a Revolução protestante, se alguém humanamente propõe algo inovador, substituidor e/ou que pelo menos quebra a tradição de uma lenta incorporação de mudanças litúrgicas e de costumes, é de se esperar que, mais cedo ou mais tarde (no caso em tela, muito mais cedo do que mais tarde), seus discípulos ou implementadores venham querer tomar para si igual papel, em intensidades variadas. Ratzinger também reconhece isso em sua autobiografia, apenas sete anos depois da promulgação da Missa Nova, em palavras muitíssimo mais claras que as minhas:

    “…
    Naquela situação confusa, que se tornara possível pela falta de uma legislação litúrgica única e pela existência de um pluralismo litúrgico na Idade Média, o papa decidiu que o Missale Romanum, o livro das missas na cidade de Roma, tinha de ser introduzido em toda parte onde não se pudessem alegar liturgias que tivessem pelo menos 200 anos de idade. Onde isso fosse o caso, podia-se ficar com a liturgia existente, porque então seu caráter católico podia ser considerado seguro. Não se tratava, pois, de uma proibição de um missal existente e até então considerado válido. Porém, a proibição agora decretada, do missal que se tinha desenvolvido continuamente através de todos os séculos, desde os manuais para os sacramentos na Igreja antiga, causou na história da liturgia uma ruptura cujas conseqüências só podiam ser trágicas. Uma revisão do missal, como já houvera muitas vezes, e que desta vez podia ser mais radical do que até então, sobretudo pela introdução da língua materna, tinha sentido e tinha sido determinada com razão pelo Concílio. Mas agora aconteceu mais: o edifício antigo foi derrubado e construiu-se outro. É verdade que em grande parte foi feito com o material do anterior e usando-se, também, os projetos antigos. E não dúvida: este novo missal trouxe, sob muitos aspectos, um verdadeiro melhoramento e enriquecimento. Mas o fato de ter sido apresentado como construção nova, em oposição ao crescimento histórico, e de o missal antigo ter sido proibido, de sorte que a lituriga não apareceu mais como resultado de um crescimento vivo, e sim como produto de um trabalho erudito e de competência jurídica, isso nos prejudicou sobremaneira. Pois agora se devia ter a impressão de que liturgia é algo que “se faz”; não algo preexistente, mas algo que depende das nossas decisões. E aí seria lógico, também, que não somente os eruditos nem somente uma autoridade central fossem reconhecidos como portadores de decisão, mas que, afinal, toda “comunidade” quisesse adotar sua própria liturgia.
    …”

    Cabe reforçar que a “impressão” citada é lógica e objetiva, e não fruto de mero ímpeto transgressor, inovador ou personalístico de alguns.

    Bugnini foi, portanto, o Cranmer do século XX, com a diferença de que implementou livremente suas propostas litúrgicas abusando da autoridade e jurisdição a que lhe era ainda confiada por Paulo VI. E dentro, pelo menos aparentemente, dos domínios da Igreja Católica. O resultado foi o surgimento, por decreto ou em decorrência deste, de costumes e práticas ou estranhas ao catolicismo ou resgatadas arqueologicamente para um tempo, hoje, no qual são no mínimo imprudentes, incompletas e/ou fora de contexto, quando não são até erradas, fruto da fabilidade intríncesa da ciência. Ao invés de frear ou reduzir, alimentaram fortemente a descrença de vários artigos de fé, de várias práticas de piedade e devoção, e na dessacralização geral do culto e espaço católicos.

    Portanto, tudo isso posto, e sem querer objetivamente ignorar o uso licencioso das aspas na citação do Prof. Orlando Fedeli, essa falha é menor e, arricaria-me a dizer, até desprezível frente a outras supostamente semelhantes, se considerarmos que a relação entre a Missa Nova e a Missa faça-você-mesmo é no mínimo de causa e conseqüência, em sua brusca e fabricada implementação, e até de identidade, na liberdade inovadora instituída para o rito e a liturgia.

  2. Jorge Ferraz

    Caríssimo Antonio,

    Repito o que disse no POST precedente: citações devem ser feitas o mais criteriosamente possível, e não apresentando inferências particulares como se fossem as posições dos terceiros citados.

    É opinião particular do senhor que existe uma “equiparação entre a Missa Nova e as as criatividades sacrílegas”, uma “identidade Missa Nova-Missa faça-você-mesmo”, uma “relação entre a Missa Nova e a Missa faça-você-mesmo (…) de causa e conseqüência”. Não comungo, absolutamente, com nenhuma delas, e nem tampouco a Igreja comunga, a despeito das citações distorcidas do prof. Fedeli que o senhor tenta justificar.

    Saliento ainda que, ao lado de qualquer crítica justa que se possa fazer à forma como a Reforma Litúrgica foi implementada, não se podem perder de vista as características intrínsecas de qualquer disciplina litúrgica da Igreja: esta última não pode ser jamais prejudicial às almas, coisa que, obviamente, a “Missa faça-você-mesmo” e as “criatividades sacrílegas” são. Portanto, é esta extrapolação indevida que o sr. Fedeli faz (e que o Card. Ratzinger e o Card. Arinze não fazem) o problema aqui, e não uma simples questão material de aspas ou ausência de aspas que, a despeito de suas imprecisões, seriam fiéis ao pensamento dos autores citados.

    Abraços, em Cristo,
    Jorge Ferraz