Gado de matadouro

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 10 meses 7 dias atrás.

O Brasil é um país violento. Em praticamente qualquer lugar, sair de casa é estar com a terrível sombra da criminalidade pairando sobre nossas cabeças, qual ave de rapina procurando a sua presa. Ninguém parece fazer nada para solucionar o problema. Contudo, repetem-nos o tempo inteiro, como se fosse um novo mandamento dos tempos modernos: não reagirás.

O discurso é impressionantemente uniforme. “Em hipótese alguma tente reagir”, diz a VEJA. “Jamais reaja”, diz o site “Tudo sobre Segurança”. “[O] cidadão comum (…) não deve reagir à voz de assalto do criminoso”, diz uma reportagem d’O Globo. “A principal dica é nunca reagir”, tem até num site português!

Contudo, há quase duas semanas, uma garota sofreu uma tentativa de estupro aqui em Recife. Não seguiu o discurso das autoridades públicas. “Ele disse que ia me estuprar e depois me matar. Como ele ia me matar de todo jeito, o meu raciocínio foi que eu poderia até morrer, mas não iria deixar ele me estuprar. Foi aí que decidi. Reagi e comecei a brigar com ele”. E está viva, e bem, graças a Deus.

Incomoda-me que ninguém procure resolver o problema, e que tentem convencer todas as pessoas a serem gado de matadouro. A impressão passada é a de que as autoridades julgam ser possível até conviver com a criminalidade, mas jamais com uma vítima fatal da sua negligência. Como se a política de “minimizar os danos” servisse tão-somente para impedir as pessoas de verem com clareza e incompetência da segurança pública nacional.

Gostou? Compartilhe!Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someonePrint this page

0 thoughts on “Gado de matadouro

  1. Luh

    Uau, 3 posts no mesmo dia.
    Vc realmente é um blogueiro dedicado. Assisti a uma conferencia em Roma onde se fez uma pesquisa relacionando os blogs à noção de felicidade… a conclusão a que chego é que devo estar meio infeliz, pois meu ultimo ‘post’ é do dia 09 de junho! (ultimamente tenho me dedicado mais a coisas de mulherzinha – talvez nem tanto, mas mais que ao blog).
    Achei que comprando um moleskine minhas necessidades literárias se sentiriam mais completas… mas ele está guardado na gaveta, esperando que surja alguma idéia genial, a qual deve ter me acorrido minutos antes de dormir – mas que, ao acordar, me esqueci.
    Talvez tenha sido essa reforma ortográfica que me desanimou. Agora eu estarei incluída nas estatísticas dos semi-analfabetos. Talvez isso seja o que Pareto chama de circulação de elites… ou sei lá. Estive estudando pro concurso da ABIN e o que posso no momento afirmar com toda certeza que esta é o órgão central do Sistema Brasileiro de Inteligência.
    Acho que descobri o meu problema… faço meu blog no blog dos outros (;PPP) e tudo isso é pra dizer que leio seu blog sempre que posso, apesar de nem sempre comentar, e que gosto muito das coisas que vc escreve.
    Quanto ao post: As pessoas que melhor se saíram de tentativas de violência que eu conheço foram aquelas que reagiram. Pô se o bandido já esperar que ninguém vai reagir, assaltar será um negócio muito mais lucrativo. Essas recomendações acabam sendo um incentivo à violência.
    Beijos brasilienses!

  2. Jorge Ferraz

    Luh,

    Eu é que ganho quando tu decides “ser feliz” por aqui… :-)

    Obrigado pelo carinho e pelas palavras de incentivo! É bom saber que escrever – coisa da qual gosto – agrada a alguém; isso me dá vontade de continuar escrevendo. Mesmo com a reforma ortográfica… eu já desisti. Até porque, sempre foi do meu feitio escrever “cousas” como “facto” ou “objecto”… ;-)

    Quanto à violência, o que realmente me frustra é a apatia das pessoas que deveriam ser responsáveis pela segurança dos outros. Fui assaltado no início do ano (uma coisa linda, quinze dias antes de viajar… ainda bem que não se anda com passaporte na carteira…) e, ao dar queixa na delegacia, ouvi o policial dizer que ele próprio “não era doido” de ficar na rua depois das seis horas da noite (!!); esta hora, ele ficava em casa vendo televisão! Qual a sensação que nós temos? Estamos entregues à sanha dos criminosos.

    Abraços,
    Jorge