Quando Saramago chorou…

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 9 meses 25 dias atrás.

Fui assistir ontem ao Ensaio sobre a Cegueira. Terminei no início da semana de reler o livro homônimo que inspirou o filme. Talvez eu não tenha sensibilidade cinematográfica alguma, mas fiquei bastante impressionado com a discrepância que existe entre uma obra e outra! Não encontrei Saramago na película; reconheci, sim, um monte de cenas cuja leitura recente ainda estava bem nítida na minha memória, passando com uma velocidade vertiginosa na sala escura, não raro incompreensíveis para quem está assistindo ao filme sem ter lido o livro e, em todos os casos, menos impressionantes – muito menos! – do que elas quando postas no papel.

Para dizer porque – na minha opinião – Saramago não está no filme, eu preciso voltar um pouco e dizer como é que Saramago está no livro. O escritor português (que tem até um blog) é ateu convicto e, no meu entender, o Ensaio é um grande tratado de irreligião, ou de anti-religião. O quadro apocalíptico apresentado pelo escritor ao longo da leitura perturbadora é um grande “experimento” que o português se permite fazer com a humanidade. Para começo de conversa, os personagens não têm nome; são esterótipos, são amostras, são cobaias. São genéricos, universais. Parece uma parábola, diz um cego no meio do romance (Saramago, José; “Ensaio sobre a Cegueira”, Companhia das Letras, 11ª reimpressão, 1999. p. 129. Doravante, as páginas citadas são desta referência) – uma parábola onde a cegueira é, na verdade, súbita iluminação.

Afinal, por que esta cegueira é branca, ao invés de negra? Por que é luz? Por que é luminosa? A idéia é repetida diversas vezes ao longo do livro (Como uma luz que se apaga, Mais como uma luz que se acende, p.22; a cegueira não era viver banalmente rodeado de trevas, mas no interior de uma glória luminosa, p. 94; tinham uma luz dentro das cabeças, tão forte que as cegara, p. 240; eles diluem-se na luz que os rodeia, é a luz que não os deixa ver, p. 260; etc), parecendo assim indicar qual o sentido da parábola: a cegueira é um instrumento utilizado para apresentar o homem tal e qual ele é (só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são, p. 128), é um bisturi manejado pelo narrador para pôr a descoberto a essência humana. Que, no livro, não tem nada de bonita (a luz e a brancura, ali, cheiravam mal, p. 96-97).

O longo circo de horrores, roubos, fome, violência, execuções sumárias, estupros e tudo o mais são, portanto, o homem posto a descoberto, trazido à luz, à luz da cegueira branca: quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos, p. 243. Se é verdade que há esperança no livro, personificada principalmente pela mulher do médico que nunca perde a visão, ela é insignificante ante a magnitude do horror: ela está sozinha, diante de um mundo de cegos, e é completamente incapaz de deter a marcha inexorável deste mundo rumo à barbárie.

Não consigo tirar da cabeça uma outra impressão de que tenho, um outro aspecto da cegueira de Saramago, que parece deixar entrever uma crítica mais áspera à religião. Há estes dois aspectos dos cegos, sem dúvida alguma: ao mesmo tempo em que a cegueira permite aos cegos verem a realidade humana tal e qual ela é, eles são de facto cegos e, por conseguinte, não vêem. A cegueira é, como já disse, uma espécie de “iluminação espiritual atéia”; mas parece-me que a metáfora se aplica também à – na opinião de Saramago – cegueira dos que têm Fé. Afinal, não é ela “luz”, “iluminação”, etc? Não são estas palavras que os religiosos aplicam à visão sobrenatural? Jogando com uma “dupla metáfora”, o escritor português parece querer dizer isso: a cegueira sob o aspecto físico é metáfora dos que têm a Luz da Fé, ao mesmo tempo em que a cegueira sob o aspecto metafórico – da “iluminação” que lhes permite ver a essência humana – é a anti-Fé, a anti-Esperança, a anti-Caridade (o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos, p. 135). Os que têm Fé são cegos; se vissem realmente, se fossem iluminados, veriam que o mundo é mau, radicalmente mau, intrinsecamente mau; em suma, que Deus não merece ver, p. 302. Ao longo do livro, os cegos de Saramago ora vêem, ora não vêem – penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem, p. 310 – comportando-se como metáforas, ora da cegueira da religião, ora da iluminação anti-religiosa. O narrador evidencia ora o fato de que estão cegos, ora o fato de que vêem as coisas como elas são: ora a Fé, ora a Descrença. Por um lado, a Luz provoca cegueira e, por outro, somente a cegueira permite ver.

A Descrença, a cegueira vista sob o aspecto iluminativo, é mais clara na obra. No entanto, a Fé, a contrapartida, a iluminação vista sob o aspecto de provocar cegueira, parece-me particularmente clara nas últimas frases do livro, quando a mulher do médico olha para o céu: A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos. A cidade ainda ali estava, p. 310. A mulher levantou os olhos para o céu, para o Céu, e teve a impressão de estar cega: abaixou os olhos, olhou para a cidade, para o Mundo, e viu que ainda via. A cegueira branca confunde-se com olhar para o céu, com ter os olhos fitos no Alto, de modo que foi necessário à mulher “baixar os olhos”, afastá-los do Céu, afastar-se da Fé, para ver.

No filme, entretanto, nada disso é facilmente perceptível. Primeiro, porque as cenas passam muito depressa, não deixando que o espectador tenha fôlego para pensar sobre o que está vendo (no livro, ao contrário, são as digressões feitas pelo narrador que constituem a melhor parte da narrativa); segundo, porque a trilha sonora é extremamente irritante, com musiquinhas alegres e lúdicas até mesmo nas piores cenas, aliviando-as bastante e dando-lhes um ar de “descontração” que, em absoluto, não existe no livro – o livro é tenso. Terceiro, porque nenhuma cena do filme consegue causar o mesmo impacto que no livro. As piores, como o estupro das mulheres, os cães devorando um cadáver, a igreja com as imagens vendadas, não conseguiram transmitir para a película o horror e o desconforto que elas provocam nos longos parágrafos de Saramago. Até um aspecto que perpassa o livro inteiro – a sujeira – é minimizado no filme: algumas manchas, papéis voando, e é tudo. No livro, quase se sente o mau cheiro.

Tudo isso fez com que o filme pudesse ser interpretado às avessas do livro, como notou e comentou um amigo meu quando o assistiu. Uma das primeiras cenas vistas no cinema mostra a mulher do médico perguntando o que é agnosia – uma doença, que o oftalmologista imagina poder explicar a cegueira súbita – e se tem alguma coisa a ver com agnosticismo, com ignorância, com descrença. A agnosia existe no livro, mas a sua ligação com o agnosticismo, não; é característica exclusiva da película. E então, subitamente, eis o tratado anti-religioso convertido em forte apologia da Fé: em um mundo de agnósticos, em um mundo onde todos fossem privados da Luz da Fé, a degradação moral é inevitável, como é inevitável para os cegos transformarem-se em animais. E então surgem as imagens das grandes tragédias da humanidade, dos milhões de mortos do comunismo e do nazismo, da degradação moral de nossos dias que só se agrava quanto mais as pessoas são “cegas” por não terem Deus, porque são descrentes.

E o tiro, então, sai pela culatra, e o ensaio anti-religião transforma-se em clara evidência do abismo onde se cai quando não se tem religião. Saramago chorou ao ver o filme; na minha opinião, não chorou por ter-se comovido, nem de alegria, como disse. Ao contrário, chorou por sentir-se traído, chorou de decepção ao ver no filme exatamente o contrário do que havia escrito.

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0 thoughts on “Quando Saramago chorou…

  1. sandra nunes

    não acredito!

    É muita petulância, dizer o que a pessoa sentiu.

    Ou o autor não sabe o que escreveu ou você não entendeu o livro!

    Afinal quem é o Saramago?

    É só um NOBEL, ele deve estar errado…

  2. Joachim Di Fiore

    Caro Jorge,

    Não li o livro e nem vi, ainda, o filme. Mas já acompanhei outros debates sobre essa obra de Saramago e queria parabenizar-lhe pela profundidade e elegância de sua análise.

    Outra coisa que me chamou a atenção lendo esse seu comentário é a figura da MULHER nessas cenas quase apocalípticas.

    É possível identificar algum paralelo do papel de Maria no Apocalipse cristão com a da mulher do médico nesse apocalipse ateu? (no final a Mulher não salva os eleitos mas os contempla em sua “realidade material”?).

    Abraços,

    Di Fiore

  3. Jorge Ferraz

    Sandra,

    Perceba que a minha “petulância” foi claramente expressa com um “na minha opinião”; portanto, é apenas isso, e nada mais.

    Se a senhora leu o livrou e/ou viu o filme, pode colocar aqui também a impressão que lhe causou. Será bem vinda.

    Di Fiore,

    Não havia pensado nisso. No Ensaio pode-se dizer, sem dúvidas, que a mulher do médico desempenha um papel sobre-humano na trama – afinal, ela vê, e isso a coloca numa situação de indiscutível superioridade sobre todos os demais -, de modo que aqueles que estão com ela são os que têm muitíssimo mais chance de sobreviver à tragédia universal, e são os que sobrevivem de fato, tornando-se “menos animais” do que os outros.

    No entanto, é como falei: ao contrário do Apocalipse cristão – onde a Mulher é sinal glorioso de vitória -, no Ensaio a mulher do médico é incapaz de deter a barbárie e pôr ordem ao caos. Não fosse o fim súbito e inexplicado da tragédia, não se sabe até quando ela agüentaria…

    Abraços,
    Jorge

  4. Eduardo Araújo

    Não li o livro e nem assisti ao filme.

    Mas percebo um fio comum nessas obras ateístas de ficção. Elas revelam o imenso vazio de expressão de quem apenas vive de negar a fé. Por isso, paradoxalmente todas essas obras são contrapontos a textos religiosos ou inspirados na religião, caso por exemplo de A Bússola de Ouro, feito segundo o próprio autor (não me lembro o nome) para contrabalançar As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis.

    Por isso, na minha modestíssima opinião, ostentar agressivamente um ateísmo ou fazer da descrença uma tentativa de expressão literária significa tão-somente viver intensamente um fanatismo anti-religioso, em uma verdadeira paranóia contra a fé, contra a religião instituída, enfim contra aquilo que o micromundinho do ateu não ousa alcançar.

  5. Eduardo Araújo

    Jorge e Di Fiore,

    A propósito, vocês assistiram a esse outro filme que mencionei – A Bússola de Ouro?

    Gostaria de saber de quem assistiu quanto à presença, dissimulada ou não, de ranço ateísta na película.

  6. sandra nunes

    Como alguém que não leu e não assistiu pode ter opinião?

    Pelo menos o Jorge leu e assistiu.
    Ele pode até duvidar das emoções e do que Saramago disse sentir, mas criticar sem base…

  7. Jorge Ferraz

    Eduardo,

    Não, eu não assisti. No entanto, lembro-me de ter ouvido, sim, algumas críticas sobre um velado anti-cristianismo no filme.

    Abraços,
    Jorge

  8. Eduardo Araújo

    “Como alguém que não leu e não assistiu pode ter opinião?”

    Sandra, onde nos meus comentários encontra-se alguma crítica específica ao livro de Saramago, ao filme que nele se inspirou ou às reações do autor, neste particularíssimo caso, ao modo como foi realizado o filme?

    Não preciso ler um livro para APENAS saber de que assunto trata ou como o trata, bastando para isso uma resenha ou uma postagem como esta do Jorge. E justamente pelas informações do texto fiz menção a algo comum que percebo nessas obras. Será que para você é necessário frisar que é uma percepção pessoal?

    No mais, reafirmo: não me ative à obra de Saramago, tanto que fiz questão de afirmar não tê-la lido ou assistido.

  9. Di Fior

    Eduardo

    Também apenas li comentários sobre essa obra “A Bússola de Ouro” e que a apontavam como uma obra, vamos dizer, “encomendada” para propagar o ateísmo.

    Sandra

    Dois comentários:

    1 – Afirmei em meu post que refletia sobre os debates e as colocações do Jorge, logo em nenhum momento fiz algum juízo de valor sobre a obra de Saramago. Apenas expressei uma dúvida.

    2 – Você leu ou assistiu “Ensaio sobre a cegueira”? O que achou?

  10. Gustavo

    Já tive a infeliz desventura de ler o livro “A Bússola de Ouro”, o autor é um ateu militante, que disse claramente que seu propósito com o livro é catequizar crianças no ateísmo. No livro uma instituição que pelas descrições deixa visível a comparação com a Santa Madre Igreja é posta como vilã; e todas as pessoas andam com um “daemon” a seu lado, trata-se da alma de cada humano apresentada sob a forma de um animal, invertendo assim a realidade e transformando o que de mais elevado há no homem em algo literalmente animalesco.

    Quanto à interpretação de “Ensaio Sobre a Cegueira” gostaria de parabenizar Jorge pelo viés exposto, abriu-me os olhos (sem trocadilho).

  11. sandra nunes

    Di Fior, acabei de ganhar o livro em questão e comecei a lê-lo.

    Razão pela qual não posso, em sã consciência, falar bem ou mal dessa obra do Saramago.

  12. sandra nunes

    Eduardo Araújo

    “Não preciso ler um livro para APENAS saber de que assunto trata ou como o trata, bastando para isso uma resenha ou uma postagem como esta do Jorge.”

    Fala sério…

    Você sabe que O MESMO livro pode ter interpretações variadas, dependendo do leitor?

    A resenha, sempre é subjetiva, pois tem a interpretação de quem a fez.

  13. Eduardo Araújo

    Sandra, depois você é que aponta dislexia nos outros.

    Nem adiantou empregar a palavra APENAS para ressaltar que não estava me referindo ao CONTEÚDO do livro e sim DE QUE ASSUNTO TRATA.

    Até admito – e nisso concordo com você – que. no tocante à maneira como o autor trata do tema escolhido. as resenhas e poderão ser subjetivas. Mas ainda não vejo em que essa restrição invalida o que comentei GENERICAMENTE, não me atendo a pormenores de Saramago, a respeito de autores ateus escrevendo obras de ficção em que depreciam a crença religiosa. A respeito, não retiro uma palavra do que escrevi. Se você não concorda, tudo bem. É sua opinião. Posso ter a minha?

  14. sandra nunes

    Eduardo Araújo, claro que pode.
    Mas, por favor, leia o livro!

  15. franc1968

    Sejamos sinceros: um homem que elogia o regime castrista não merece assim tanto respeito. Quem é Saramago? Um comunista ateu, com um profundo ódio da religião, especialmente a cristã. É uma autor que considero bastante superestimado. Na literatura portuguesa contemporânea, há autores bem superiores. António Lobo Antunes e José Cardoso Pires, por exemplo, são autores muito mais densos e ricos. “O ensaio sobre a cegueira” resiste como romance de horror apocalíptico e tem algum interesse estético, muito por causa da pontuação atípica usada pelo autor. É a obra de Saramago que guarda, talvez, os seus melhores momentos como escritor. Não se pode negar: ele tem boas idéias, mas quase sempre fracassa em torná-las palatáveis: “Jangada de Pedra”, “História do cerco de Lisboa”, “Levantado do chão”, “Memorial do convento”, são obras que encantam um deterinado segmento da esquerda. Sua obra “Evangelho segundo Jesus Cristo” é uma obra-prima da carnavalização, mas, no fundo, traz o velho espírito iconoclasta…
    E antes que a dona Sandra me julgue, devo dizer a ela que fui professor de Literatura Portuguesa…

  16. Andrei

    Jorge,

    Gostaria de parabenizar pelo texto.
    Assisti o filme. Ainda nao li o livro. Achei suas observacoes muito coerentes e inteligentes. Pretendo ler o livro.
    Um abraco.

  17. Ziffero

    Comentário originalmente enviado para um site de cinema qualquer:

    “Saramago fala demais (mas é tímido) e Meirelles é cego de espírito se não entendeu o choro e a afirmação do escritor! kkkkkkkkkk

    Se fosse eu o Saramago, choraria também.

    A surpresa é inevitável, ainda que o escritor não nutrisse espectativas. Credo… O Filme é muito “inacabado” e passou por uma higiene que não condiz com a obra da qual se originou! Tem que ser muito ingênuo ou ter uma capacidade de imaginação superior a de quem ter costume de ler- além de dons de “advinhação” – para pegar o fio do enredo em diversas cenas. Não admira que a nova roupagem desagrade tanto.

    Mas o que deu no Meirelles afinal pra ousar tanto em “Cidade de Deus” e ressurgir com tanta profilaxia no Ensaio?!

    E ainda vêm falar que o filme supera as “dificuldades” da narrativa de Saramago?! Ah, qualé… Leia um pouquinho mais e logo logo verá o porquê da insistência do velho em seu modo de escrever e a riqueza que isso ela traz.

    O filme tá a merda mais perfumada que já vi, apesar de algumas boa sacadas quando enriquecidas algumas cenas, como na do supermercado, por exemplo, onde Meirelles faz intervenções que acabam por substituir os ares anarquicos/solidários ao mesmo tempo que dá uma atmosfera sonora de discórdia de grande peso e grande.

    No fim, peca mais que enriquece.

    [CENSURADO], Saramago! Elogia denovo, só mais uma vez! Mas seja claro, ou pode ganhar outros beijos na careca! (risos!)

    P.S.: Acha mesmo que o Saramago sentiu-se FELIZ quando terminou sua obra? Pois use de uma passagem do proprio filme onde se diz que dois sentimentos básicos, que não citarei, não são como outros dois, ódio e amor, e podem conviver num mesmo instante. O enredo choca e traz reflexões; não é um conto de fadas com final feliz. É seu propósito, e, em si, é triste mas construtivo.

    Saramago foi estuprado por seu consentimento e teve que ser grato por isso.