O show da mídia

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 9 meses 6 dias atrás.

Existem certas coisas estranhas nos brasileiros. Lembro-me de que, antes do trágico desfecho do seqüestro da garota de Santo André, eu escrevi alguma coisa aqui sobre egoísmo e caridade citando, como exemplo, o crime (à época, ainda em curso). Após a tragédia, a comoção nacional e o show da mídia, entendi que eu não tinha nada a acrescentar e resolvi ficar calado.

Rompo o silêncio agora, de maneira breve, por causa de um fenômeno curioso que identifiquei nos últimos dias: a (invejável) mobilização de pessoas que a mídia é capaz de provocar! Como é possível que a comunidade “Eloá e Nayara ♥ Justiça”, do orkut, consiga ter mais de 540.000 membros? Participo há anos de algumas comunidades que (p.ex., a “Católicos”) que ainda não chegaram aos 100.000. É certo que o escopo das duas comunidades é diferente, mas nós estamos falando de meio milhão de pessoas, em menos de um mês, só no orkut – é muita gente!

O que leva tanta gente a se unir em torno de uma causa? Por que nós não conseguimos, p.ex., meio milhão de assinaturas contra o aborto, se o número de brasileiros que é contrário ao assassinato de seus concidadãos é bem maior do que isto? Só posso acreditar que é o fator emoção, deliberadamente alimentado pela cobertura que a mídia faz da tragédia; afinal, na Rede Globo não passa O Grito Silencioso

Às vezes, tenho a [injusta, forçoso reconhecer, porque há honrosas exceções] sensação de que o Quarto Poder só faz besteiras. No caso concreto do assassinato da menina, p.ex., eu consigo ver pelo menos dois problemas muito sérios: o primeiro – e o mais evidente – é o fato incontestável de que os holofotes atrapalham o trabalho dos policiais. Sim, eu acredito na existência de policiais sérios (como pareciam ser os que estavam responsáveis pelo seqüestro), e acho profundamente injusto falar em uma tragédia de incompetência. Se houve incompetência, foi precisamente da mídia, porque é um absurdo permitir candidamente que a tensão natural de uma situação como um seqüestro seja elevada à n-ésima potência por meio da ampla divulgação em cadeia nacional de todos os detalhes do caso ainda em andamento. Estou sinceramente convencido de que o desfecho poderia ter sido completamente diferente se os envolvidos no caso pudessem fazer o que estavam fazendo em paz.

O segundo problema, enxerga-se na comunidade de orkut com meio milhão de internautas. Estes casos esporádicos terminam por servir como uma espécie de “válvula de escape” para a população brasileira, atônita diante do caos no qual a sociedade está imersa; então eles vão ao velório, comentam o assunto no trabalho ou na faculdade, entram na comunidade do orkut que pede justiça, e pronto. Tranquilizam-se, e nada muda, até o próximo escândalo e a próxima vítima indefesa que provoque a indignação dos brasileiros. As cenas comotivas mostradas na TV e nos jornais, desde o “acompanhamento” da operação até o velório, dão a impressão de que alguma coisa está sendo feita quando não está.

A cortina de fumaça montada pelo Quarto Poder impede as pessoas de verem que morrem muito mais “eloás” do que as que saem na televisão – só que a esmagadora maioria delas não tem nome e não tem glamour – e ninguém se importa nem com elas, nem com as verdadeiras causas do problema. A imprensa, que poderia ser uma coisa muito boa, mau utilizada no Brasil, puxa o país para cada vez mais fundo no buraco.

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0 thoughts on “O show da mídia

  1. sandra nunes

    Jorge, eu acredito que o problema é muito mais profundo.

    Já começou tudo errado.
    Temos, no caso da Eloá, pais que não “podiam impedir a menina aos 12 anos de namorar com um homem de 19, porque eles iriam fazer escondidos”
    Como pode não ter autoridade sobre um filho de 12 anos?
    É crime, um homem maior, se envolver com uma criança.
    A mãe, falou na televisão, que os vizinhos comentavam que ele a agredia, freqüentemente.
    Todavia, como ela nunca viu, não acreditou nos vizinhos contaram para ela.
    Agora sabemos o porquê dos pais não procurar a policia, quando souberam das agressões.
    A polícia de São Paulo investiga se o namorado e o pai dela fazem parte de uma “gang” de Santo André.
    Essa menina foi criada, sem nenhuma autoridade dos pais e com uma liberdade de fazer medo.
    Não sei que valores, esse pais têm, mas acredito que um homem acusado de vários crimes e uma mulher que abandonou o marido, para fugir com outro homem casado ( depois ficou viúvo) não deve ter muitas reservas.
    Nesse caso específico, é uma tragédia familiar desde que os pais dela se conheceram.
    Um prato cheio para a mídia.

  2. Fabrício L.

    Jorge, só lembrando que este fenômeno foi a repetição do que aconteceu não muito antes, no caso da garotinha Isabella Nardoni.

    Pax et Bonum!

  3. Johnny Garden

    Jorge, acho que neste comentário não seremos tão divergentes…

    Acredito que a imprensa, principalmente o setor sensacionalista (prefiro “mídia”, pois muitos programas envolvidos não fazem jornalismo), teve muita responsabilidade no caso citado. Não critico a imprensa como um todo. Há bons e maus jornais, bons e maus jornalistas. Com tanta informação ao redor é importante buscá-la em várias fontes, filtrá-la e utilizar o que realmente é útil. Ressalto que não quero que ninguém faça isso por mim (um censor ou tutor), é importante você ler de tudo e aprender a tirar conclusões.

    A reação do povão é similar a passagem de um carro de bombeiro com sirenes ligadas: vai todo mundo atrás, numa curiosidade mórbida. Casos como os citado fazem com que as pessoas se sintam participando de uma novela no mundo real, tempera com ingredientes como raiva, comoção e suspense o cotidiano sem graça que a maioria desfruta.

    Não fique indignado com o número de membros desta ou daquela comunidade. O orkkut é mais uma das ferramentas de internet utilizada de forma péssima pela maioria dos usuários. Nem e-mail e celular grande parte das pessoas consegue usar racionalmente, imagina um ambiente onde o ego é tão valorizado… Além disso, acredito que a maior parte dos usuários do Orkut é composta de pré-adolescentes e adolescentes que querem ter 400 fãs, não estão preocupados com muito mais do que o dia de hoje e se divertem a beça entrando em comunidades do tipo “eu já chupei um picolé roxo”.

    Da mesma forma que você aventa a possibilidade de não sei quantos milhares de pessoas serem contra o aborto, no que deve estar certo, você também encontrará mais alguns milhares a favor, e outros milhares querendo que a maioridade penal desça para 16 anos e mais punhados de milhares a favor da pena de morte.

    O problema é a falta de formação da população em geral para analisar informações. Se isso fosse comum um jornal que apenas ludibriasse os leitores terminaria abandonado por estes. Botar a culpa exclusivamente na imprensa é a mesma coisa que cupar apenas os políticos isentando os eleitores que os elegeram.

    Além disso, a imprensa hoje em dia não se concentra como antes, em poucos jornais impressos e na TV. Temos estações de rádio como a CBN e a Bandeirantes com notícias 24 horas por dia, muitas vezes entrevistando personalidades com idéias completamente opostas ao vivo. Temos internet, onde é possível encontrar mídia alternativa, etc.

    Já li e ouvi o “citado” Olavo de Carvalho e cá entre nós o cara podia economizar nos palavrões e ter a mente um pouco mais aberta – mas aí não seria ele. Não acho que possa ser referência já que é de uma extrema-direita ultra conservadora que distorce a realidade espantosamente chegando a ser bizarro.

    Então é isso, nada de brigas hoje, hein?

    Um abraço,

    Johnny.

  4. Jorge Ferraz

    Fabrício,

    Jorge, só lembrando que este fenômeno foi a repetição do que aconteceu não muito antes, no caso da garotinha Isabella Nardoni.

    E, indo um pouco mais para trás, com o garotinho João Hélio. É sempre assim: os “picos” de comoção são completamente estéreis, fogo de palha, que só “tranquilizam” um pouco a população até a próxima “novela”… tenha Deus misericórdia de nós todos.

    Abraços, em Cristo,
    Jorge Ferraz

  5. Jorge Ferraz

    Johnny,

    Sinceramente, eu não consigo ver utilidade numa mídia irresponsável que faz o papel do “carro de bombeiro” que tu citaste. Coisas como “é importante você ler de tudo e aprender a tirar conclusões” só têm valor para um número bem restrito de pessoas, porque a maior parte delas é simplesmente incapaz de fazê-lo. Ao contrário, estas são as mais das vezes prejudicadas pelo circo armado.

    Sobre Olavo de Carvalho ser de uma “extrema-direita ultra conservadora que distorce a realidade espantosamente chegando a ser bizarro”, este juízo só mostra que tu és esquerdista… :-)

    Abraços,
    Jorge

  6. Johnny Garden

    Jorge,

    Existe a extrema-direita ultra conservadora, existe a direita, existe a esquerda , a esquerda ultra-radical e…existe quem analisa os fatos e os julga não pelo agente mas pelo fato.

    Conheço gente que acha que TUDO que o Lula faz é certo. Não acho. Mas também não acho que TUDO que ele faz é errado. É interessante julgar o mérito de cada questão, não fechar posição cegamente.

    A mesma coisa para qualquer político ou qualquer posição política. Acho que tomar um lado e defender loucamente aquele lado, sem discernimento, é cegueira.

    Se conheço Olavo de Carvalho é justamente porque tenho essa curiosidade a respeito de muitos assuntos e posições políticas ou religiosas. Ele só ve um lado, cegamente. O fato de negá-lo (justamente por agir assim) não me faz de esquerda. Assim como achar ridículo o discurso do MST não me faz de direita. E acho ridículo. Isso são estereótipos, Jorge. Você poderia parar de utilizar esse tipo de crítica fácil assim como parei de utilizar alguns pontos de vista críticos após entender exatamente (apesar de pessoalmente não concordar) no que você acredita.

    Porque você me chama de esquerdista e quando comento num blog assumidamente de esquerda me chamam de direita imperialista. Daí fica difícil.

    Abraços ambidestros,

    Johnny

  7. Johnny Garden

    Ah, esqueci de comentar o que você disse,

    “Coisas como “é importante você ler de tudo e aprender a tirar conclusões” só têm valor para um número bem restrito de pessoas, porque a maior parte delas é simplesmente incapaz de fazê-lo. Ao contrário, estas são as mais das vezes prejudicadas pelo circo armado.”

    A parcela de pessoas que já começa a entender melhor as coisas aumenta rapidamente. Já vimos nas últimas eleições alguns candidatos sem a mínima condição serem rejeitados quando antigamente seriam eleitos em problemas (artistas, corruptos, etc). Certo, sempre passa algum mas a coisa melhora.

    Ainda acho que a solução é educá-las e assim elas “desarmarão o circo”. Não adianta alguém fazer isso por elas pois provavelmente esse alguém passará a controlá-las, exatamente como o circo fazia.

  8. vanderley

    A Globo que possue maior audiência no Brasil, usa destes

    acontecimentos, justamente , para criar mais uma novela

    a da 20,30h – A Novela do “Jornal Nacional”; a maioria

    das pessoas que assiste é insuflada e usada e isto acaba

    virando um circo.

    É imprensa marrom. Vale tudo pelo tal “ibope”.

    O importante é faturar.

    Como 75% do povo brasileiro é considerado analfabeto
    funcional, essas pessoas são muito bem “conduzidas” pelos meios de comunicação de massa; a televisão “manobra” muito bem a massa.

    Veja o sucesso de programas idiotas do tipo BBB.

  9. Pingback: Mídia: viciosa ou virtuosa « Julie Maria

  10. Julie Maria

    O Vanderley disse o que eu gostaria de comentar… o Jornal Nacional é tão patético que não tem nome para definir uma coisa daquela. E o pior: o que ele falou vira dogma no mesmo instante.

    A reportagem que eu vi sobre a não aprovção do “matrimônio” gay na CA teve direito à cena de dois homens se abraçando, e choramingando….. gente, horário NOBRE e temos novelas e Jornal Nacional? Onde iremos parar nesta país?

    Pão e circo m-e-s-m-o.

    E o povão continua engolindo tudo.

    Que surgam profetas de uma Midia Virtuosa! Urgente!

    PAX

    Julie Maria

  11. Jorge Ferraz

    Johnny,

    Não disse que você era esquerdista por discordar do Olavo, é claro que todo mundo pode discordar de quem quer que seja (eu, particularmente, não subscrevo tudo o que ele escreve). Mas você se referiu a ele como sendo da “extrema-direita ultra conservadora” – ou seja, usou três qualificativos hiperbólicos e depreciativos, em quatro palavras, para se referir à posição do cara! Isso obviamente não era necessário.

    É por isso que eu falo em “cacoete intelectual”, pois estou convencido de que você não o faz por ser um comunista convicto. Acho até que foi involuntário. Você o faz porque se deixou contaminar com o pensamento esquerdizante hegemônico. De modo que todo mundo que destoe, um mínimo que seja, da concepção intelectual vigente e imposta hoje em dia, exige uma carrada de rótulos pejorativos completamente desconexos da realidade até mesmo para ser referenciado! Para quem reclama de esterótipos… :-)

    Sobre “[a] parcela de pessoas que já começa a entender melhor as coisas aumenta rapidamente”, eu discordo radicalmente. É o extremo oposto: a parcela de pessoas que entende pouco ou quase nada é assustadoramente dominante. Concordo que é necessário educá-las, mas isto é virtualmente impossível quando toda a parafernália social trabalha noite e dia na deseducação delas… :-(

    Abraços,
    Jorge

  12. Sizenando

    Na minha opinião o desfecho trágico dessa história se deve unicamente à mídia, pois foi motivado pela fama que o policial que tirou os refens de dentro da casa foi substituido por um novato que prtecisava aparecer para se sustentar no cargo.

    Veja que irônico, devolveu uma refém para tentar tirá-la novamente.

    Resusltado . Tragédia.

    Sizenando