Eu vim trazer a Espada

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 8 meses 15 dias atrás.

Estou a ler (é uma edição portuguesa) o testemunho da conversão do Scott Hahn e de sua esposa do protestantismo ao catolicismo; o título em português (de Portugal) é “Todos os caminhos vão dar a Roma”, uma tradução sem dúvidas genial do genial título original do livro, que é “Rome, sweet home”. Já tive a oportunidade de dizer aqui recentemente que toda história de conversão é espetacular (aliás, o muçulmano que se converteu ao catolicismo e foi batizado na Vigília Pascal por SS Bento XVI está narrando a sua conversão em ZENIT, e vale a pena a leitura), mas existe um aspecto particularmente doloroso na conversão do Scott Hahn que eu gostaria de mencionar aqui. Trata-se da divisão.

Protestante anti-católico “de carteirinha”, casado com uma protestante, o Scott foi, pouco a pouco, ao ler as Escrituras Sagradas, descobrindo como a Bíblia era, na verdade… católica. E ao ver como a Fé Católica era a única que fazia sentido, e como era deficiente a doutrina protestante, ele não teve outra opção – não sem profundos dramas de consciência, que a narrativa autobiográfica deixa transparecer muito bem – a não ser tornar-se católico. Ao fazê-lo, o seu mundo desabou. Transcrevo duas passagens significativas sobre o tema, uma de sua lavra, outra da de sua esposa (está no Capítulo 6):

Scott: A Vigília Pascal de 1986 foi um momento de verdadeira alegria sobrenatural, unido a uma grande tristeza natural. Recebi o grande slam sacramental: o Baptismo condicional, a Penitência, a Confirmação e a Primeira Comunhão. Regressei ao banco e sentei-me ao lado da minha amargurada esposa [então protestante], que amava com todo o coração. Pus-lhe o braço à volta, e começámos a rezar.

[…]

Kimberly: Diante dos meus próprios olhos, o Scott estava a comprometer-se com uma Igreja que nos separaria de momento, e talvez para sempre. Nunca mais poderíamos receber a comunhão lado a lado, a não ser que um dos dois mudasse de maneira de pensar (e não era difícil imaginar quem teria de ser!). Este grande signo de unidade cristã transformou-se no nosso símbolo de desunião. E a alegria das pessoas era como um punhal no meu coração, porque o que os alegrava era para mim causa de uma dor indescritível.

Ao ler essas emocionantes páginas, não pude deixar de lembrar-me daquela passagem das Escrituras Sagradas: Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa. (Mt 10, 34-36). Particularmente eloqüente é a narrativa da Kimberly, quase uma paráfrase – quiçá involuntária – do texto bíblico: “[e]ste grande signo de unidade cristã transformou-se no nosso símbolo de desunião”.

A verdade dura e crua, incontestável, é que não há comunhão possível entre luz e trevas (cf. 2Cor 6, 14), e não poderão caminhar juntos dois homens se não tiverem chegado previamente a um acordo (cf. Am 3, 3). A verdade é que Cristo veio à terra – palavras d’Ele! – para trazer também a divisão. A união, entre os que crêem, e a irreconciliável separação entre os que crêem e os que não crêem. Isto significa que, se nós quisermos levar a sério a Fé que temos – como, graças a Deus, a família Hahn levava -, não poderemos fazer acordos promíscuos nem fingir que estamos vivendo na mais plena comunhão quando há a radical separação da Fé. Quando ergue-Se, intransponível, a Cruz de Cristo.

Ao mesmo tempo, que belíssimo testemunho de amor a Deus sobre todas as coisas que nos deu o casal Hahn! O marido, em consciência, preferiu separar-se espiritualmente de sua esposa para abraçar a Esposa de Cristo; a esposa preferiu permanecer ao lado do marido, mesmo sentindo-se atraiçoada. Ambos suportando a mais amarga solidão que poderiam sonhar experimentar. Ambos rezando um pelo outro, encontrando em Deus as forças necessárias para atravessar o momento de extrema provação. Eles não fizeram “acordos práticos”; nem o Scott achou que não valia a pena sacrificar tudo o que tinha – e ele sacrificou muito! – para se tornar católico, nem a esposa dele achou que valia a pena “tornar-se católica” só para acompanhar o marido. Deram ambos, com suas vidas, um testemunho vivo da Divisão que Cristo afirmou ter vindo trazer à terra; deram ambos testemunho forte da importância de se amar a Deus sobre todas as coisas.

Abraçar a Fé é sacrificar inúmeras outras coisas, não há dúvidas disso; mas a Divisão que a palavra de Cristo traz é superabundantemente sobrepujada pela União na Grande Família de Deus, na Igreja Católica e Apostólica, à qual todos são chamados. Vale a pena tornar-se católico, mesmo que custe caro; vale a pena sacrificar tudo o que se tem por amor a Deus. Também são palavras de Nosso Senhor no Evangelho: Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de mim e por causa do Evangelho que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna (Mc 10, 29-30). É, portanto, necessário às vezes deixar algumas coisas (e até mesmo algumas pessoas); é necessário que Cristo traga a espada, a divisão. Mas no final vale a pena. Scott e Kimberly Hahn conseguiram, no final, a grande graça de se tornarem uma família verdadeiramente católica; com a graça de Deus, conseguirão “no século vindouro a Vida Eterna”, pois este é o prêmio reservado por Deus àqueles que sabem amá-Lo apesar de todas as coisas, a despeito dos sacrifícios que sejam necessários. Sigamos pois sempre a Cristo, apesar dos sacrifícios, ainda que seja doloroso; pois é promessa d’Aquele que sempre cumpre as Suas promessas termos – já nesta vida! – “cem vezes mais” do que abandonamos e, um dia, a Glória de estarmos com Ele nos Céus.

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0 thoughts on “Eu vim trazer a Espada

  1. Joachim Di Fiore

    Jorge,

    Realmente é um belíssimo livro. Creio que já tenha ajudado a muitos a se converterem.

    E, vale frisar, Scott não era um “protestante normal”. Era pastor de uma igreja e professor de teologia e ele e sua esposa viviam (inclusive materialmente disso).

  2. Antonio

    Sem duvidar completamente da conversão de Scott Hahn narrada no citado livro (que não li), alerto a todos que seu outro livro intitulado “Banquete do Cordeiro: a Missa Segundo um Convertido” é péssimo. Há boas passagens, mas quase sempre avizinhadas de informações arqueológicas erradas ou incompletas, e de conclusões com, no mínimo, sabor de heresia a respeito da Santa Missa, fruto provável de um afastamento não (ainda) perfeito da doutrina protestante da Ceia do Senhor. Em geral, Scott Hahn, quando fala da Santa Missa, muito se assemelha ao perfil não incomum hoje em dia, entre protestantes ou “católicos” não-praticantes que se convertem pelas vias do modernismo.

  3. Luciano Perim

    Parabéns Jorge,

    Mais uma vez nos brindou com excelente texto. Que o Senhor continue a te encorajar nessa árdua, mas bela missão de anunciar e verdade e denunciar erros.

    Paz e Bem .

    Luciano

  4. Danielle Aran

    Lembrei-me da parábola do tesouro escondido no campo (Mateus 13,44-46).

    Essa palavra me assustava muito no começo da minha caminhada na Igreja. Mas assim como o senhor Scott Hahn, eu também experimentei essa palavra na minha vida.

    Quando fiz a convivência de formação da minha comunidade, meu pai me colocou para fora de casa. xD
    Eu chorava de assustada, embora já soubesse que isso poderia vir a acontecer.
    Graças a Deus tudo se ajeitou no final, mas foi difícil e conturbada a minha relação com a família e todas as mudanças que (segundo os meus pais) eram bem visíveis em mim.
    Estavam perdendo a “filhinha” deles para uma “seita maluca”. xD

    Tempos doloridos de crise para mim e para com os meus próximos. É muito difícil você crescer acreditando em uma coisa e de repente tudo cair por terra. Mas eu sabia que tinha encontrado a verdade!

    Abraços!

  5. Julie Maria

    Estimado Jorge, li este belíssimo livro nos EUA há dois anos. O interessante é que depois, soube por um amigo uma história por detrás que muito me comoveu: havia uma comunidade de monges, que depois de séculos dedicados à oração e à Santa Igreja não teve mais vocações e deixou de existir. O terreno onde eles estavam foi comprado por protestantes. Um dos seus estudantes foi ninguém menos que o futuro convertido S. Hann. Ali mesmo, onde fisicamente havia um seminário protestante, por muito tempo foi lugar sagrado de oração e da celebração do Santo Sacrificio. E olha que fruto gerou!!!

    Creio que Deus tem de fato caminhos inimaginaveis para que chegemos até a Ele… que lindo saber de tudo isso. Como nos inspira.

    Obrigada pelo texto. Como você escreve bem e sobre tudo! Que Deus continue te dando este dom para o bem da Igreja e salvação das almas.

    PAX

    JM

  6. Sergio

    Parabéns, Jorge, pela beleza do seu texto. Obrigado por brindar-nos sempre com suas preciosas e muitíssimo em escritas reflexões

    A conversão, mais cedo ou mais tarde, passa pelo cadinho da cruz, da perseguição, da divisão… O testemunho de Scott e Kimberly é confirmação de que o Evangelho é sempre atual, não só para trazer prosperidade como afirmam algumas “teologias” protestantes, mas também a espada…

    Um gde abraço.

  7. Charles

    Estava procurando o trecho do Evangelho que afirma que Cristo veio trazer a espada e olha que maravilha Deus tinha reservado: este belíssimo site reafirmante da Fé Católica.
    Derepente vem meu primeiro filho recém-batizado e me diz: “Painho, já sei: aí é onde Pedro foi crucificado de cabeça para baixo porque ninguém é digno de morrer da mesma maneira que Cristo”
    Então desmanchei-me em emoção, porque ele também vinha tendo influências protestantes e ficava, na sua tenra idade, inseguro quanto a existência de Deus… E o que ocorre hoje: O Espírito falou nele e por meio dele para todos nós !!!
    Graças a Deus!!!
    E tem amigo(a) que chama isso de “coincidência”!
    Como diz o poeta Mário Quintana: “Cada um pensa como pode”

  8. Jorge Ferraz

    Caríssimo Charles,

    Fico imensamente feliz em poder ter sido útil, a despeito das minhas fraquezas, para fortalecer-te na Fé Católica e Apostólica.

    E as crianças são ótimas, não? Muitas vezes, aquilo que a gente roda para explicar, faz força, escreve mil páginas, emprega centenas de figuras de retórica, mostra referências, etc, etc… a criança diz de um jeito simples e extremamente convincente.

    Que a Virgem Santíssima abençoe ao senhor e a toda a sua família.

    Abraços, em Cristo,
    Jorge Ferraz

  9. Edenilde

    Obrigada Jorge pelo belo texto!

    Que Deus o abençoe, e a Santíssima Virgem o proteja sempre