A violência de Recife

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 8 meses 14 dias atrás.

Recife é uma cidade violenta. De acordo com o último estudo que eu vi sobre o assunto, no início do ano passado, é a capital mais violenta do país. Lembrei-me disso porque recebi um email hoje que citava alguns dos últimos assassinatos ocorridos na capital pernambucana, e alertava as pessoas para que repensassem os planos de visitarem (ou morarem em) Recife. Eis um trecho:

Amigos e Amigas,
aproxima-se o período de férias, época de viagens, de turismo.  Preocupados com a segurança e a vida de vocês, peço-lhes encarecidamente que não venham passear e muito menos morar em Pernambuco, sobretudo no Recife. Aqui  não existe mais segurança, é uma terra sem lei, onde os marginais condenam pessoas, sobretudo da classe média,  à morte e ficam impunes.
Aqui os bandidos são vistos como vítimas. Aqui não existe solidariedade com os cidadãos assassinados e muito menos com as famílias enlutadas! Aqui a pena de morte existe, mas contra nós da classe média, que pagamos impostos,  pessoas decentes, honestas e trabalhadoras.

O alarmismo não é infundado; os dados mostram. Existe uma equipe de jornalismo que se dedica a “contar” as pessoas assassinadas no Estado. Acabei de acessar e, este ano, estamos com 4042; 29, neste mês de dezembro (isso mesmo, nestes últimos quatro dias). Havia um projeto análogo no Rio de Janeiro, mas acho que foi desativado.

Não sou expert em criminalidade no Brasil e só estive no Rio de Janeiro poucas vezes, a passeio; mas acredito que a principal diferença entre a Veneza Brasileira e a Cidade Maravilhosa é que, lá, há muitos assassinatos relacionados à guerra do tráfico. Aqui, também os há, mas a proporção é bem menor. Aqui morrem pessoas de bem que não têm nada a ver com a criminalidade. Aqui, suspira-se aliviado quando “não acontece nada” em um assalto.

Lembro-me da última vez em que fui assaltado, no início do ano, e da terrível frustração que senti. Caminhava, junto com um amigo, em direção à parada de ônibus, no domingo à noite; o carro parou um pouco à nossa frente, na avenida deserta, e abriu a porta traseira. Vi o assalto segundos antes de sofrê-lo, e não havia nada que pudesse fazer. Desceu o meliante apontando-nos um revólver, levou-nos carteiras e celulares, entrou no carro e foi-se embora. Fomos à delegacia prestar queixa e – horror e vergonha! – o policial que nos atendeu censurou-nos por estarmos andando de noite por aí (!!). Disse-nos ainda que ele próprio “não era doido” de andar em Recife de noite, e que gostava de sair mas estava “sempre em casa às seis horas da noite” (!!!).

Quando a única assistência que um policial pode prestar às vítimas da violência é aconselhá-las a ficarem em casa, e diz que ele próprio não tem coragem de sair às ruas, estamos no fundo do poço. É principalmente por isso, na minha modesta opinião de cidadão recifense, que a cidade está mergulhada no caos: porque as autoridades são pusilânimes, e não cumprem com o seu dever, e não coram de vergonha ao dizê-lo. A Veneza Brasileira afunda por causa da covardia institucionalizada e vista como virtude. Acostumado com estes fatos, eu fico sinceramente feliz quando leio uma notícia de que um assaltante foi morto porque a vítima (ou algum transeunte) reagiu a bala: afinal, deparo-me com alguém que – ao contrário do policial que me atendeu – ainda tem senso de responsabilidade. Mostra-me que ainda há esperança de escaparmos ao naufrágio.

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0 thoughts on “A violência de Recife

  1. luh lena

    Concordo. Fazer as pessoas terem medo de andar à noite na própria cidade é um absurdo. Me lembro de que tinha saído para comprar um cachorro quente duas ruas adiante com duas colegas e um ônibus nos parou e disse para voltarmos pra casa, que eramos loucas de andar à pé àquela hora… eram 10h30 da noite. Acho isso muito triste, muito mesmo. Tinha de ter um policiamento mais efetivo. Não me lembro de ter visto algum policial nas ruas quando estive aí. E isso já tem quase 2 anos.

  2. sandra nunes

    A violência, está generalizada, acredito que em razão das malditas drogas.

    Isso aconteceu na minha familia, logo depois do menino João Paulo no Rio de Janeiro.

    Minha prima com sua filha, foram buscar a mãe dela de 80 anos, na casa da irmã, no Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo.

    Ela colocou a mãe no Banco traseiro por ser mais confortável, e a filha dela estava no banco do carona.

    Entrou na casa para pegar umas sacolas e foi “rendida” na saída por dois assaltantes, isso em PLENA LUZ DO DIA!

    Eles pediram as chaves do carro e ela gritou que a mãe e a filha estavam no carro.

    Eles abriram as portas e como ela tem dificuldades de locomoção, é bem lenta, pegaram minha madrinha pelos cabelos,e a arrancaram do veículo, jogando uma senhora de 80 anos de cara no chão, literalmente.

    Ela se machucou muito.

    No domingo, participamos de uma missa de ação de graças, porque ninguém morreu no roubo.

    Eram dois meninos, provavelmente menores, visivelmente drogados.

    Isso ocorreu por volta das 15:00hs

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  6. Joey

    Hahahaha!!! Jorge… porque você não reclama com deus???
    onde está deus nessa hora??