Dai-nos a bênção, ó Virgem Mãe…

No dia da Imaculada, fui ao Morro da Conceição, aqui em Recife, onde existe uma festa muito antiga e muito conhecida. Lembro-me de que meus pais iam ao morro quando eu era pequeno e me levavam; deixei de ir quando entrei na adolescência (por não ter “mais paciência” para essas coisas) e, após reencontrar a Fé da minha infância, não tinha ainda voltado ao morro na festa da Imaculada. Fui lá este ano, pela primeira vez depois de uns dez anos… é bonito ver “a fé do povo”, uma fé simples, mas viva, manifestada nas procissões, nas pessoas que assistem à Santa Missa, nas imagens da Virgem compradas, nas promessas pagas (pessoas vestidas de azul e branco), nas músicas cantadas: “Dai-nos a bênção, ó Virgem Mãe! / Nossa Senhora da Conceição…”.

Primeiro, fui com meus pais aos pés da Virgem Santíssima. Renovar-Lhe o meu afeto e a minha consagração, colocar-me – mais uma vez – a Seu serviço e a Seu inteiro dispôr, como escravo inútil (que, mais que isso, não posso ousar ser). Depois, desci até o Sítio da Trindade, aos pés do Morro, de onde ia sair a procissão – lá os meus pais me deixaram, pois não tiveram coragem de acompanhar o povo. Fui eu, representando a família.

Encontrei um jovem sacerdote de batina e barrete – tinha que ser o pároco, de quem eu já tinha ouvido falar: o padre Josivan. “Padre, sua bênção. O senhor é o pároco?”. Sim, era ele. Um amigo sacerdote de outro estado – que estudou com o pe. Josivan no seminário – sempre me perguntava dele, e eu sempre respondia que, embora soubesse onde fica o morro, não conhecia o pároco. Ontem, mandei-lhe lembranças… mas a procissão já se preparava para sair. Acompanhada no trajeto pela polícia militar, pelo padre, por alguns grupos de movimentos da Igreja (terço dos homens, Legio Mariae, etc), seguia a Virgem SSma. em direção ao morro, e eu A ia seguindo, terço em punho, recitando-Lhe o Santíssimo Rosário.

Mais ou menos uma hora depois, chegamos ao alto do morro, onde a imagem da Virgem foi colocada no palco (preparado para a missa campal) e iniciou-se a Santa Missa, celebrada por Sua Excelência Reverendíssima Dom José Cardoso Sobrinho. Na homilia, a explicação dos textos bíblicos recém-proferidos: como Deus prenunciou a vitória da Virgem Maria lá no Gênesis, e como o Anjo chamou a Virgem Santíssima de “cheia de Graça” – dando assim testemunho da Sua Imaculada Conceição. Uma bela homilia (as aspas não são literais, porque cito de memória; mas, as idéias, são essas sim): “o Papa [Paulo VI] disse que o culto à Virgem Maria é essencial ao cristianismo. Portanto, quem rejeita a Virgem Maria está rejeitando o Cristianismo, porque rejeita uma parte que lhe é essencial”; “não precisamos ter escrúpulos ao rezar à Virgem Maria, pensando que talvez estejamos dando mais atenção a Ela do que a Jesus: não, meus irmãos, isso não existe”; “o católico que se esforça para viver a sua Fé é, automaticamente, um bom cidadão; o bem da sociedade, portanto, alcança-se quando se vive fielmente a Doutrina da Igreja”; “foi por Maria que Jesus veio até nós, e é por Maria que nós devemos ir a Deus”.

Enfim! Após a Santa Missa, voltei para casa, cansado, mas feliz. Como toda festa pública, existe o “lado profano” da festa do Morro – os bares abertos com músicas de baixíssimo nível, as pessoas que lá iam para “se divertir” e não para rezar, etc. -, mas alegrei-me ao descobrir que ainda é possível rezar à Nossa Senhora da Conceição, acompanhando o povo, participando das celebrações, ajoelhando-se aos pés da imagem da Imaculada. Que Ela nos abençoe a todos; que, por Seus méritos, digne-Se Ela conduzir-nos por este mundo com os olhos fitos na Eternidade, para que, caminhando entre as coisas que passam, não abracemos senão aquelas que não passam.

Nossa Senhora da Imaculada Conceição,
Rogai por nós!

P.S.: ontem foi publicada no Veritatis Splendor a História do Dogma da Imaculada, por frei Pascual Rambla; para quem quiser conhecer um pouco mais sobre a Imaculada Conceição da Virgem Maria.

P.S. 2: um grupo de romeiros que se dirigia – a pé – ao morro da Conceição para as festividades de ontem foi vítima de um acidente na madrugada da segunda-feira; sete deles morreram. Que Nossa Senhora da Imaculada Conceição possa receber no Céu aqueles que partiram da terra enquanto se dirigiam para a festa d’Ela. Requiescant in pace.

11 comentários em “Dai-nos a bênção, ó Virgem Mãe…”

  1. “Encontrei um jovem sacerdote de batina e barrete – tinha que ser o pároco, de quem eu já tinha ouvido falar: o padre Josivan. ‘Padre, sua bênção. O senhor é o pároco? ’. Sim, era ele.”

    Parabenizo aqui, ao Jovem Sacerdote de Deus, por estar a ‘caráter’ (de batina e barrete) como creio deveria estar todos os demais sacerdotes. Que bom é poder ‘ver’ com os próprios olhos, a sacralidade, o Sagrado sendo visivelmente ‘palpável’ a nossa volta. Quanto bem isso faz para as pessoas. Perceber também no exterior, no modo de se vestir, o valor que o Sagrado tem de trazer a ‘presença’ de Deus. Que bom seria se mais e mais vezes, no dia-a-dia, no cotidiano, em todos os momentos e lugares, pudéssemos ter contado com a expressão visível exteriormente do Sagrado. De modo singular e singelo, Deus estaria sendo louvado e de certa forma levado a todos as pessoas e todos os lugares. Lembro-me de um fato ocorrido (não sei ao certo por quem me disse e quem era o sujeito do ocorrido) em um ambiente público,… um supermercado, onde uma mãe com seu filhinho fazendo compras, entre uma seção e outra, nos corredores do supermercado, ao se virarem para outro corredor,… tcharam! A criança se depara com um Sacerdote, devidamente vestido com sua batina preta. Enquanto a mãe, ocupada em verificar os preços e a validade das mercadorias,… o menino com os olhos fixos e estarrecidos olhando para o Padre,… falando baixinho, quase sussurrando enquanto puxa a barra da saia de sua mãe diz: “Mamãe?!! Olha… é Deus!”. Que belo momento este vivido por esta criança. Que sua pureza de raciocínio conseguir perceber de forma tão bela, o Sagrado. E o que é melhor e maravilhoso… o quanto à presença do Sagrado faz com que as pessoas sintam a ‘presença’ de Deus. Haa!!! Como foi bom, quando vi pela primeira vez na vida (quase aos 30 anos!) um Sacerdote de Deus devidamente vestido com sua batina. O quanto senti a presença de Deus naquele momento! E olhando para o nosso dia-a-dia, quanta falta faz para as pessoas não perceberem a presença de Deus em suas vidas.

    Que Nossa Senhor da Imaculada Conceição, por sua intercessão, possa conseguir que mais e mais jovens sacerdotes possam ter a coragem e disposição de serem totalmente de Deus, interiormente e exteriormente, em todos os momentos e lugares de sua vida.

    Per Christum Dominum nostrum. Amem.

    André Víctor

  2. Que festa bonita, não é? Ainda não participei, mas quero um dia participar sim!
    Quanto ao comentário do André Víctor… me fez lembrar Teteu… que só chama o Padre de Padre quando está “a caráter”

  3. Caríssimo André Víctor,

    Lembro-me de uma outra história que um sacerdote amigo meu me contou. Certa vez, no corre-corre do final de ano, este padre estava fazendo compras num shopping – abarrotado de gente, com aqueles horários de trabalho super-estendidos – devidamente vestido de batina. Foi abordado por uma funcionária que perguntou se ele podia ouvir a confissão dela (!), porque ela não tinha tempo de fazer a sua preparação para o advento por causa do horário do trabalho. Então ele a confessou.

    Não fosse pela batina, ela não ia saber que ele era padre e provavelmente não ia conseguir se confessar (como não tinha conseguido até então). Daí se vê como a Providência Divina age no quotidiano das pessoas.

    Abraços, em Cristo,
    Jorge Ferraz

  4. “Não fosse pela batina, ela não ia saber que ele era padre e provavelmente não ia conseguir se confessar (como não tinha conseguido até então). Daí se vê como a Providência Divina age no quotidiano das pessoas.”

    Diria até mais, caríssimo Jorge. Imaginemos quantas pessoas conseguiriam se livrar de seus pecados graves (mortais), deixando assim uma situação de alto risco para sua salvação eterna, não é mesmo? Acredito muito mesmo que grande parte das mazelas do mundo hodierno se deva pelo fato da ausência do Sagrado no dia-a-dia de nossas vidas. Isso para mim deixa bastante evidente que a conseqüência desta falta do Sagrado, o mundo perca, gradativamente, os valores essenciais da vida que provém daquele que é o autor da vida: Deus!

    Como disse, que possamos ter cada vez mais, jovens sacerdotes, comprometidos de forma integral e total com a causa do reino. De corpo e alma. Interior e exteriormente.

    Fiquemos com Deus e a proteção de Nossa Senhora.

    Abraços e até mais ‘ver’.

    André Víctor

  5. Jorge,

    Rapaz, esse padre Josivan É A CAAAARA do André Victor! Esculpido em carrara!

    Deus queira que ele um dia se torne tal qual o padre hoje é…

  6. É caro Jorge!

    Até eu fiquei supresso com a semelhança! (rs)

    Como é difícil (até então achava mesmo impossível) concordar com as pessoas que nos acham parecidas com alguém, não é mesmo? Mas neste caso foi uma feliz exceção. (rs)

    Abraços e até mais ‘ver’.

    André Víctor

  7. “Não fosse pela batina, ela não ia saber que ele era padre e provavelmente não ia conseguir se confessar” […]

    E esses casos acontecem mesmo: Dom Paulo Lopes de Faria, Arcebispo Emérito de Diamantina, nos contou que, por estar “vestido de Padre” (não lembro se batina ou clergyman), já confessou uma pessoa dentro de um ônibus … e era alguém que estava há muitos anos afastado da Igreja.

    E depois os HLs (Hereges da Libertação) vêm dizer que a batina “afasta o povo” quando, na verdade, acontece exatamente o contrário.

    Abraços e fiquem com Deus,

    Léo

  8. Honestamente. Exceto por ser manifestação cultural, por mim isso tudo poderia ir para o lixo ou simplesmente ser destruído.

    E o cristo redentor também! Eita obra feia! Parece um saco de cimento humano.

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