Errando o alvo

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 7 meses 2 dias atrás.

Acho que tenho um amigo que é fã do Carlos Cardoso, sobre quem eu já teci alguns ligeiros comentários aqui. Vira e mexe, ele me manda algum post provocativo que dá vontade de comentar. As mais das vezes, declino. No entanto, preciso tecer umas rápidas linhas sobre um post da semana passada, sobre pecado e confissão.

O Cardoso fez uma lista dos pecados que só podem ser “perdoados pelo Papa em pessoa” – é o que chamamos de reservados à Sé Apostólica. Com o perdão do trocadilho, é preciso precisar. Em primeiro lugar, o que é reservada é a excomunhão e não o pecado; nunca ouvi falar em “pecado reservado à Sé Apostólica”, e sim em “excomunhão reservada à Sé Apostólica”. Em segundo lugar, a lista está pelo menos parcialmente incorreta; falta a Sagração Episcopal sem mandato pontifício (o caso, p.ex., de Dom Lefebvre – vide o motu proprio Ecclesia Dei), a agressão ao Sumo Pontífice não precisa ser “tentar assassinar” (é qualquer agressão física), e eu nunca ouvi falar nesta última que fala sobre o impedimento à ordenação sacerdotal (se bem que é verossímil, e eu posso estar enganado).

Terceiro lugar, e mais importante: o Cardoso fica escandalizado porque profanar a Santíssima Eucaristia faz incorrer em excomunhão reservada à Sé Apostólica e matar uma pessoa, não. Mas aí ele comete a grossíssima besteira de julgar a Igreja sob as convicções dele próprio. Acho razoável que este sujeito – que eu não sei quem é – não acredite no dogma católico da transubstanciação; o que não é razoável e nem honesto, sob nenhuma ótica, é transpôr a não-crença dele para as penas canônicas da Igreja Católica.

Todo mundo sabe que os católicos acreditam que a Eucaristia não é “um pedaço de pão”, e sim o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Portanto, quando a Igreja estabelece uma pena para quem profanar a Eucaristia, evidentemente não está punindo quem faltar com o respeito devido para com “um pedaço de pão”, e sim quem faltar com o respeito devido ao Deus substancialmente presente sob as espécies do pão e do vinho. Acho razoável e perfeitamente normal que o Cardoso não acredite nisso, mas não é razoável que ele critique “a escala de valores desse pessoal” falseando aquilo no que “este pessoal” acredita. É um grosseiro erro de alvo.

Criticar a escala de valores de alguém evidentemente só faz sentido se se estiver criticando os valores deste alguém da forma como ele próprio os entende, e não como um estranho os concebe. O senso de proporções dos católicos está perfeito e intacto – afinal, o que é mais precioso (o Corpo de Deus) é mais severamente protegido, e não há nada mais natural do que isso. O que não está intacta é a “pontaria” do Carlos Cardoso. Se ele fosse criticar o dogma católico, a despeito de não conseguir, ao menos o seu esforço intelectual faria sentido. No entanto, criticando os valores católicos por algo que eles não são, ele só consegue mostrar-se incapaz de perceber até mesmo o conteúdo daquilo sobre o qual se propõe a falar.

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0 thoughts on “Errando o alvo

  1. João12.

    Só quem não percebe o mistério do Deus Amoroso ,que se torna tão humilde ao ponto de se esconder na aparência do pão consagrado, é que se choca com coisas tão básicas como estas…

    Os sacerdotes têm o poder (pelo sacramento da Ordem) de perdoar os pecados en nome de Cristo, logo, em nome de Deus. Penso que é lógico, mesmo recorrendo ao senso comum, que há pecados que são mais graves que outros.

    Desrespeitar o 5º Mandamento (”não matar”, incluindo a participação na matança de bebés que ainda não nasceram – vulgo aborto – e na matança dos que sofrem – vulga eutanásia) é cometer pecado grave e implica uma confissão sincera a um padre, que só ele pode dar o perdão de Deus.

    Profanar um “pedaço de pão” – Hóstia consagrada – é mais grave que cometer um crime contra outro ser humano?

    Isto é óbvio. Profanar o Santíssimo Corpo de Deus é gravíssimo. É grave e, ainda mais, sacrilégio. É óbvio que, sendo a ofensa feita directamente a Deus, tenha conequências mais desastrosas para a alma do que um homicídio. Se não se tem respeito ao mais Sagrado que existe, como ter respeito pelo outro? Assim, sendo, aquela alma que profana o Santíssimo Sacramento precisa de um tratamento mais sério. Daí haver necessidade de recorrer à autoridade máxima da Igreja, o Santo Padre.

    Acredito que isto assuste muito boa gente. Ainda ontem assustei muitos ao dizer que o aborto é um crime que devia ser punido com uma pena ainda maior que a que é aplicada para a violação de crianças, a pedofilia.

    Assim, se a pedofilia é um acto condenável, hediondo, nojento e abominável, mais ainda é matar a criança ainda no útero da mãe. Mas isso é outra discussão. Como tal, considero mais grave e desumano matar uma criança que ainda nem sequer nasceu do que violá-la até à morte (coisa hedionda, certamente). Parece-me óbvio.

    Um crime contra outro ser humano é grave, pois atentar contra a vida de outrem é pecado mortal e, civilmente, punido por lei (excepto quando se matam bebés ainda na barriga da mãe, mas à parte isso…). Mas atentar contra o próprio Corpo Santíssimo de Deus é muito pior!

    Será que estas pessoas conhecem os Mandamentos da Lei de Deus? Madamentos imutáveis, em que o primeiro deles todos é “Adorar a Deus e amá-Lo sobre todas as coisas”. Isto implica, para os católicos, dever respeito a Deus, ao Criador, primeiramente e acima de qualquer criatura. Logo, é evidente que um crime contra um ser humano, apesar de ser pecado mortal (mortal = mata a alma, tira-lhe a graça e priva-a da amizade de Deus, condenando às penas eternas, apenas por única responsabilidade de quem o comete voluntariamente, por isso só é condenado ao Inferno quem quer), é cometido contra uma criatura. No entanto, o sacerdote pode perdoar o pecado, em nome de Jesus, se há arrependimento sincero.

    Um sacrilégio como o de profanar o Santíssimo Sacramento é tão grave e sério que evidentemente há-de ser tratado ao mais alto nível.

    Um abraço da Terra de Santa Maria!

    João

  2. Rodrigo

    Parabéns pela sua boa colocação caro João12! Oportuníssima e bem explanada. Seu testemunho é edificante! Abraços e Salve Maria!