Erro de valoração

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 6 meses 26 dias atrás.

Eu tenho apreço pelos católicos que “defendem a Tradição”, mesmo quando estou sinceramente convencido de que eles estão fazendo grandes besteiras. Não dá para “deixar passar” todas as coisas que eles fazem, apontando os seus canhões contra as coisas santas que eles tomam pelas causadoras dos problemas que a Igreja hoje atravessa; sempre me bate uma profunda angústia quando eu imagino todo o bem que estas pessoas poderiam fazer se militassem ao lado da Igreja mas, desgraçadamente, hoje se lançam em combate contra Ela, numa luta inglória fadada certamente ao fracasso, porque a Igreja não pode ser destruída, e será infalível e miseravelmente reduzida a pó qualquer obra humana que tencione colocar-se contra Ela. Nestes “defensores da Tradição”, o que me incomoda tremendamente é aquilo que eles poderiam ser, mas não o são…

Foi neste sentido que fiquei verdadeiramente feliz ao ser tornado público o decreto que levantava as excomunhões dos quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. O momento era de alegria, posto que pessoas zelosas pela Sã Doutrina, sedentas pela maior glória de Deus e pela salvação das almas, de uma envergadura intelectual espantosa, poderiam, enfim, militar ao lado da Igreja contra os Seus inimigos que, hoje em dia, são tão numerosos. É forçoso reconhecer que há menos divergências entre um “rad-trad” e um católico do que entre um católico verdadeiro e um “católico self-service” dos que parecem ter virado o padrão de catolicismo nos dias atuais. Nada melhor do que se esforçar sinceramente para sanar estas divergências e congregar, em torno do Papa, aquelas pessoas que estão sinceramente dispostas a dar a vida pelo Sucessor de Pedro.

No entanto, como eu comentei sábado último e como era evidente, as feridas abertas durante os anos de separação não podem ser simplesmente cicatrizadas por meio de documentos vindos de Roma. O caminho, infelizmente, parece ainda ser longo e cheio de espinhos; para trilhá-lo como convém, é fundamental que nos concentremos naquilo que é realmente importante, sem perder tempo com questões secundárias e sem alfinetadas inúteis que não contribuem para a exaltação da Santa Madre Igreja e para a solução da crise que, hoje, atormenta a Esposa de Nosso Senhor.

Refiro-me, em particular, à questão da excomunhão de Dom Lefebvre e Dom Mayer. É sinceramente frustrante ver as pessoas ligadas à FSSPX darem tamanha importância a isto, como se fosse conditio sine quae non para que qualquer outra coisa venha a ser feita! Não têm a mesma ordem de importância a Lex Orandi, a Lex Credendi e os atos jurídicos do Santo Padre; a questão da santidade da Missa Gregoriana e da imutabilidade da Fé Católica não estão no mesmo patamar da questão da existência ou não de uma excomunhão com a qual foram fulminados dois bispos há duas décadas. E isto, a julgar por algumas colocações que são feitas, não parece, absolutamente, estar bem claro na cabeça dos “defensores da Tradição”.

É absolutamente necessário separar o que é essencial do que é secundário. É essencial afirmar com muita clareza que a Fé Católica e Apostólica não pode ter mudado ao longo dos últimos quarenta anos; é essencial afirmar que o rito com o qual a Santa Igreja ofereceu à Trindade Santa, ao longo dos séculos, o Sacrifício do Corpo e Sangue do Senhor, não pode ser senão santo, e reclamar o seu lugar na Igreja dos nossos dias. No entanto, não é essencial fazer uma “justiça” (bem discutível) à memória de dois homens simplesmente porque, no passado – entre outras coisas bem discutíveis -, ambos lutaram por aquilo que reconhecemos ser essencial.

A Fé é essencial na Igreja, a Liturgia é essencial na Igreja. Mas pessoas particulares não são. A Igreja precisa sem dúvidas manter a Sua identidade, mas a Igreja não depende de Dom Lefebvre, é Dom Lefebvre quem depende da Igreja. Esta verdade óbvia parecer ser, no entanto e infelizmente, sistematicamente ignorada por algumas pessoas que parecem condicionar o seu serviço à Igreja à declaração de nulidade das excomunhões de 1988. Quem faz isso comete um erro crasso no valor que atribui às coisas das quais a Igreja precisa. E os resultados são péssimos.

Dir-me-ão que é questão de Justiça limpar a memória de pessoas que consumiram a sua vida a serviço da Igreja de Cristo, e com isso eu concordo completamente. Acontece que, como eu já disse, esta justiça é bastante discutível; Dom Lefebvre não foi excomungado por defender a Fé da Igreja, e sim por fazer ouvidos surdos às súplicas desesperadas do Santo Padre (que é quem possui autoridade e graça de estado para discernir o que é melhor para a Igreja) e, expressamente à revelia dele, cometer o ato objetivamente ilícito de sagrar quatro bispos sem ter mandato pontifício para tanto. É preciso deixar muito bem claro que a defesa da Missa e da Fé da Igreja não está intrinsecamente relacionada à justiça ou injustiça de uma pena imposta por causa de uma sagração episcopal objetivamente ilícita. Podem dizer que foi somente devido às “atitudes heróicas” do bispo francês que, hoje, nós podemos ter o que temos, mas esta futurologia do passado é também discutível, porque eu posso dizer (e acho sinceramente) que, não fossem as atitudes extremadas de alguns membros da hierarquia católica, as discussões sobre a Fé da Igreja e a manutenção da Missa Gregoriana teriam sido bem menos traumáticas. Mas esta discussão – e é exatamente o que estou tentando dizer aqui – não é a mais relevante no momento, pois o que realmente interessa é como as coisas são, e não como elas poderiam ter sido.

É também perfeitamente possível e lícito argumentar que havia um estado de necessidade (subjetivo, óbvio), e pode-se concordar com esta discussão, mas o que não se pode fazer é considerar que tal debate tem a mesma importância da defesa intransigente da Fé, porque não tem. É muito mais importante e necessário defender a Fé. As duas coisas não são necessariamente excludentes, mas no caso concreto são sim, porque todos estão de acordo com a importância de se defender a Igreja mas nem todos estão de acordo sobre as atitudes de Dom Lefebvre. E a primeira coisa é fundamental, enquanto a segunda é secundária. Provoca-me profunda angústia ver que, no meio do incêndio, há pessoas que condicionam o trabalho de apagá-lo à discussão prévia sobre uma decisão já tomada, perdendo tempo com isso, enquanto o fogo consome tudo, as almas são perdidas, o Inferno faz festa e Satanás zomba de Nosso Senhor.

Que o Espírito Santo nos faça dar a cada questão a importância que ela tem; que nós não percamos o senso das proporções. Que aproveitemos o momento propício para defender a Igreja de Cristo, sem arroubos passionais e sem colocar pré-condições que não sejam absolutamente necessárias para aquilo que precisa ser feito. Há muito trabalho a fazer para que nós possamos nos dar ao luxo de perder tempo com discussões que não sejam absolutamente essenciais.

Gostou? Compartilhe!Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someonePrint this page

0 thoughts on “Erro de valoração

  1. Rodrigo

    Penso que ao levantar as excomunhões dos bispos da FSSPX, justiça também foi feita às pessoas e obras dos falecidos Dom Lefebvre e Dom Mayer, os co-sagrantes. Se será tomada alguma decisão em relação à memória de ambos, isso depende unicamente do Santo Padre e não dos clamores em torno desse assunto. Como já foi citado em outro blog, a excomunhão de ambos cessou ao morrerem, portanto, a prudência e, principalmente, a obediência ao Santo Padre por parte da agora reabilitada FSSPX, selará a obra, a cruzada levada à cabo por Dom Lefebvre e, consequentemente, por Dom Mayer e isso é prova da reta intenção de ambos (não buscando o cisma) diante do chamado “estado de necessidade” que os levou às sagrações episcopais para manterem viva a luta em favor da Defesa da Fé e da Tradição, o que, agora, será na plena comunhão com o Vigário de Cristo. Deo Gratias!

  2. R. B. Canônico

    A FSSPX não foi reabiliada (?). Ela não existe canonicamente. Seus padres não estão incardinados emlocal algum, ainda.

    Enfim, parece que há uma incompreensão geral do que ocorreu, de fato: um pedido de retorno à plena comunhão eclesial. O primeiro passo foi o levantamento das excomunhões.

    Agora é necessário acertar a situação canonica e, o mais importante, os pontos doutrinais que divergem amplamente.

  3. R. B. Canônico

    E óbvio, duas coisas ssão necessárias:

    – Muita oração;

    – E muita compreensão e humildade do pessoal da FSSPX com as posições atuais do Magistério, especialmente o Papa. As visões do Papa e da FSSPX sobre o Concilio são muito diferentes.

    A boa vontade do Papa nessa questão é mais do que evidente.

  4. Julie Maria

    Na Missa tridentina que pude participar ontem, em Brasília, rezamos o Te Deum em ação de graças pela alegria do retorno à Santa Igreja da FFSPX. Foi um momento de profunda alegria.

    Que todos possamos reconhecer isso, separando o essencial daquilo que não é, como você disse.

    JM

  5. Rodrigo

    R. B. tem razão, minha colocação estava equivocada. O que houve foi tão somente o levantamento das excomunhões. De agora em diante é que todas as questões referentes aos estatutos da FSSPX serão discutidos, inclusive a possibilidade de prelazia pessoal.
    Abraços!

  6. Emerson

    É Roma quem estendeu o braço, agora a Fraternidade precisa dar seus passos também e assim chegar brevemente ao final das questões.
    É evidente que este decreto não é um fim em si, quem diz isso faz conjecturas erradas do mesmo.
    Porque do jeito que estava, a situação não andaria. Bento XVI
    sabiamente deu impulso a engrenagem.

    Rezemos!

  7. vanderley

    Concordo.

    A questão do Lefebvre é devido à desobediência ao Papa.

    Não há o que discutir.

    Porém eles tem o mérito de defender a Tradição da Igreja.

    Creio que realmente deve-se encerrar a questão (na Igreja), justamente para evitar mais separações.

    Mas, fugindo um pouco do assunto.

    No caso do Boff & Cia., que no meu entender são muito

    mais daninhos e corrosivos à fé .

    Alguém da T.L. foi excomungado ??

  8. Antonio

    Caro Jorge,

    É claro que uma parte das pessoas, ligadas ou não à fraternidade (incluo-me entre elas), desejava, sim, o levantamento explícito de todas as seis excomunhões, através que um documento que afirmasse claramente a invalidade daquela declaração de julho de 1988 (alguns dizem que, na entrelinhas, isso já teria sido atendido no presente decreto, mas não me convenci disso). Já reconhecendo antes que, na prática, isso importaria menos; entendendo também que reabilitar os bispos frutos de Econe é, em boa medida, mesmo que tardiamente, reconhecer os bons frutos do gesto de seus sagrantes; e vendo agora todas as reações modernistas (de dentro e de fora da fachada da Igreja) ao que já foi concedido e reconhecido; eu, enfim, por todas essas coisas e outra mais, tendo a me conformar que tenha mesmo sido assim o melhor (e, talvez, o possível) por agora, a fim de evitar uma pressão ainda maior que sufocasse as próprias propostas acordadas entre a fraternidade e Roma.

    Isso não impede que tal assunto [da reabilitação formal da reputação dos sagrantes, através da declaração de nulidade daquelas excomunhões] não seja objeto de debate para o futuro. Para essa questão, o próprio levantamento das excomunhões dos bispos sagrados já foi um grande e primeiro passo pois, agora, muitos dos que antes se referiam àquelas excomunhões como “infalíveis” ou indiscutíveis, já passam no mínimo a admiti-las como discutíveis (muito discutíveis, por sinal, como você mesmo reconhece).

    Reitero, entretanto, que isso não é o foco da questão, e sim, a discussão dos pontos doutrinários que foram a bandeira da FSSPX: a doutrina pastoral e inovadora de parte do Concílio Vaticano II e os sacramentos segundo os ritos pré-conciliares, que são “profissão de fé” e barreira muito mais robustas contra ensinamentos e práticas de segunda e terceira ordens advindas daquelas mesmas inovações, erros e ambigüidades, inaugurados ou confirmados por esse concílio.

    A batalha, a partir de agora, da FSSPX — e da Igreja, ainda que muitos ainda não a reconheçam como também sua — começa com a disposição de Roma em receber formalmente os padres da fraternidade e discutir esses pontos — oportunidade igual ou maior que já deu infrutiferamente, a título de um ecumenismo irenista, a tantos hereges e cismáticos das mais variadas matizes. Por que — insisto — não deu essa oportunidade a católicos que, em geral, nunca negaram nem quiseram negar nenhum artigo de fé da doutrina infalível da Igreja? Essa resposta, vergonhosamente irrespondível, é finalmente superada não por ocas palavras, mas por essa disposição de Roma em recebê-los.

    Espero, como você, que isso redunde num primeiro e urgente passo, na total reabilitação canônica dos bispos e padres da fraternidade, e que assim se reconheça formalmente (e reforce) serem instrumentos/servos efetivos do combate e da santificação da Igreja.

    Abraços cordiais,

    Antonio

  9. Erickson A. Santana de Oliveira

    vanderley,

    Não, ninguém foi. Mas também ninguém ordenou bispo sem mandato pontifício…

  10. desabafobrasil

    [PROPAGANDA DE BLOG FAVORÁVEL A UMA TERRORISTA. DEVIDAMENTE APAGADA]

  11. Erickson A. Santana de Oliveira

    Era só o que faltava no blog! Propaganda de blog que apóia terrorista pra presidente do Brasil!

  12. André Víctor

    E digo mais…

    Além de terrorista, é abortista declarada!..

    Que coisa!! É muita cara-de-pau!!

    E o que isso tem mesmo a ver com o texto em questão??

  13. Julie Maria

    Recebi este infeliz comentário que faz propaganda para a abortista Dimas no meu blog e o apaguei, pois como veneno vão infiltrando tudo. Lá colocaram no post sobre Santa Sé e you tube… por favor né!

    Querem se intrometer em tudo… e estão todos errados! E quando a Santa Igreja quer falar… tem alguém deles que a escuta?

    JM