Política tupiniquim, política americana

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 6 meses 23 dias atrás.

Rápidas sobre a política nacional e internacional: aqui no Brasil, foi aprovado em dezembro (e eu só o soube esta semana) um projeto de lei que prescreve a distribuição gratuita, pelo SUS, de seringas descartáveis para usuários de drogas. Ao menos o tal projeto “será analisado ainda pelas comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ)”, e esperamos sinceramente que este absurdo não seja aprovado. No entanto, é já de se lastimar profundamente que ele tenha passado na Comissão de Seguridade Social e Família!

Nada me convence da eficácia – nem mesmo de um ponto de vista meramente naturalista – destas políticas de “redução de danos”. Afigura-se-me um absurdo completo a própria noção de que o Estado deva subsidiar o vício (criminoso) de seus súditos. Ao mesmo tempo em que coisas que têm uso lícito, como o álcool e o fumo, são demonizadas (nunca vi uma política de disponibilização de motoristas para os cidadãos que quisessem se embriagar nos finais de semana, por exemplo), as drogas ilícitas caem nas graças do Estado às custas dos contribuintes [utilizo aqui “lícito” e “ilícito” do ponto de vista moral, e não meramente legal]. Não consigo vislumbrar o futuro que pode ter a Família brasileira, quando uma comissão que (teoricamente) representa os seus interesses dá parecer favorável a um dos mais terríveis inimigos da estabilidade familiar, que é o vício em drogas.

No mundo, parece que os militares norte-americanos não estão lá muito satisfeitos com a política do presidente Obama. Em Guantánamo, o juiz militar James Pohl  manteve uma audiência contra um saudita que já estava marcada, a despeito da ordem presidencial de suspender todos os processos por quatro meses; sobre a Guerra do Iraque, o general Ray Odierno  (que é chefe das forças americanas e aliadas no Iraque) propôs a retirada de apenas duas brigadas de combate americanas nos próximos seis meses – contrariando a promessa de campanha do presidente, que era a de retirar uma brigada por mês pelos próximos dezesseis meses.

Aliás, o que o Olavo de Carvalho fala sobre ele é engraçado. É ad hominem e nem de longe pode ser considerado o mais preocupante, mas é para se rir:

Diante de milhões de espectadores, ele [Barack Obama] declarou que seu trecho predileto do Novo Testamento é João 16:3. Queria dizer, é claro, João 3:16, o versículo central do cristianismo: “De tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho Unigênito, para que todo aquele que creia nele não pereça, mas tenha a vida eterna.” E João 16:3, o que diz? Bem, depois de Spike Lee ter afirmado que Deus enviou a crise econômica com a única finalidade de eleger Obama, não serei considerado mais louco do que o trêfego cineasta se enunciar uma hipótese teológica bem mais modesta, a de que o versículo intruso foi não apenas o objeto da gafe presidencial, mas também a sua explicação divina, didática e exemplar, soprada pelos anjos ao ouvido do orador para que se autodenunciasse. Nele Jesus diz: “Farão isso porque não conheceram ao Pai nem a Mim.”

Deus tenha misericórdia de nós todos.

Gostou? Compartilhe!Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someonePrint this page

0 thoughts on “Política tupiniquim, política americana

  1. Lucas

    O governo deve ter feito uma pesquisa e constatou que é mais barato distribuir as seringas do que custear o tratamento da aids, da hepatite e de tantas outras doenças.
    Além disso não quero ver um “ninguém” pegando alguma dessas doenças e passando adiante para suas esposas (os), noivas (as), namoradas (os).

  2. Abraão Sivus

    Sobre a implemantção de políticas de redução de danos:

    Compreendo de alguma forma a rejeição imedita que sentimos a algumas políticas de redução de danos relativas ao tratamento e prevenção da toxicodependência.

    – Afinal, anda por aí tanta boa gente a morrer de fome e o Estado vai subsidiar seringas e até drogas substitutas como a Metadona e outras?

    Posso falar apenas dos resultados visíveis de algumas implementações em Portugal.

    A troca de seringas gratuita é efectuada nas farmácias com um kit de água destilada e dois preservativos.
    Vantagens visíveis:
    – Nunca mais se viu seringas abandonadas no chão.
    – O número de casos de AIDS desceu vertiginosamente entre a população toxicodependente (o grupo de risco em Portugal neste momento são os heterossexuais jovens e acima dos 50).
    – Criou-se uma relação de proximidade e confiança com o toxicodependente o que permitiu encaminhar muitos para centros de reabilitação.

    Neste momento, já foi implementada a distribuição de seringas em algumas prisões (como é que a droga entra, é que parece que ninguém sabe) e apesar de todas as garantias de privacidade, não houve adesões por parte da população prisional (aparentemente, não confiam nas tais garantias…)

    A implementação das salas de injecção assistida (vulgo salas de chuto), curiosamente até é bem vista pela população (ninguém gosta de ver alguém a injectar-se no meio da rua ou da praça), só que não são implementadas pois ninguém a quer no seu bairro.
    Assim, uma das soluções são carrinhas móveis, aproveitando a já existente rede de voluntários que apoiam a população com distribuição de preservativos, comida e análise gratuita da qualidade e pureza de algumas substâncias (naturais como a heroína, cocaína e haxixe ou sintéticas como o MDMA (exctasy) e o LSD) muito populares nas zonas de diversão nocturna.

    Este trabalho de voluntariado – mas que não tem que o ser – tem criado uma relação de proximidade e de confiança única para conhecer, aconselhar e encaminhar quem necessite para centros de reabilitação.
    Nestes centros, podem iniciar gratuitamente um programa de substâncias de substituição – combatendo-se assim de imediato o tráfico – e cuja dosagem será reduzida ao longo do tempo podendo ser acompanhada de outras actividades. Muitos dos volutários são exactamente ex-toxicodependentes.

    Mas o mais pedagógico para a população que se retirou das políticas de redução de danos, para além de se ter retirado muita gente desesperada e abandonada na rua e se ter reconstruído vidas e famílias, é que o toxicodependente já não é um drogado criminoso e sim um ser humano doente e que em geral necessita de ajuda.

    Esta percepção para a juventude é fundamental:
    A percepção de que o consumo não é criminalizado e apenas é efectuado por pessoas doentes, torna-o menos atraente ou muito pouco cool.
    Pois afinal, todos sabemos que o fruto proibido é o mais apetecido.

    Em relação à heroína, por exemplo, depois da implementação de algumas políticas de redução de danos em Portugal, a idade média do consumidor é cada vez mais alta e encontra-se actualmente acima dos 35 anos, o que significa que a nossa juventude quase não lhe toca.

    Pelo exposto, só posso estar de acordo com a implementação deste tipo de políticas.

    Cumprimentos