Dom Williamson no Der Spiegel

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Julgo oportuno voltar ao assunto da “negação do Holocausto” de Dom Williamson, à luz da recente entrevista que o bispo deu ao Der Spiegel e cuja tradução para o português foi publicada pela mídia tupiniquim. Antes de mais nada, é de enojar a atitude dos entrevistadores, com as perguntas as mais estúpidas possíveis, como se estivessem falando com algum delinqüente ou alguma criança irresponsável que não tem capacidade de avaliar o alcance de suas próprias posições, sendo necessário corrigi-la. Perguntas como “o senhor então está ciente (…)” ou “o senhor ao menos reconhece (…)” deixam entrever a posição de superioridade na qual se colocam os jornalistas alemães, o que é lamentável, porque perde-se a chance de se produzir uma matéria interessante e fica-se (de novo) na superficialidade da conversa fútil e pueril, cuja informação mais relevante, para os jornalistas, é – a julgar pela manchete dada à reportagem – sobre a agenda turística do bispo inglês: “eu não viajarei para Auschwitz”…

Acho importante insistir num ponto que vem sendo sistematicamente ignorado: é um absurdo, de proporções descomunais, silenciar a priori a discussão histórica sobre o número de vítimas do regime nazista  ou qualquer outra. Tudo bem, a Segunda Guerra Mundial é um acontecimento relativamente recente, e os seus horrores ainda estão vivamente pintados na memória da Europa, de modo que é possível dar-lhe um desconto graças ao – se é que existe isso – “estado psicológico alterado” da civilização européia e entender que certos temas provoquem muito mais reações passionais do que um esforço intelectual sério e compromissado com a verdade histórica; no entanto, o presente caso ultrapassa todos os limites do razoável.

O Holocausto não é um dogma, é um fato histórico, e o que é mais importante nele não é o mero fato em si considerado, e sim ele enquanto violação concreta de alguns princípios morais básicos, em particular, o fato auto-evidente de que as pessoas não podem ser gratuitamente assassinadas, muito menos por questões raciais. Suponhamos, apenas para argumentar, que Dom Williamson tivesse realmente dito que o Holocausto nunca aconteceu. Qual é o problema moral intrínseco com isso? Nenhum. O problema estaria na afirmação de que é lícito e a coisa mais normal do mundo matar judeus simplesmente por eles serem judeus. Negar [ou questionar, como é o caso, a proporção d]o fato histórico não é a mesma coisa de rejeitar o princípio. As pessoas precisam deixar os sentimentos exacerbados de lado e entender que matar judeus não é errado por causa do Holocausto, mas exatamente o contrário: o Holocausto é errado porque é errado matar judeus. Se nunca houvesse existido Holocausto, continuaria sendo um absurdo matar judeus por questões raciais. Anti-semitismo é – como disse Dom Williamson – “uma rejeição aos judeus por causa de suas raízes judaicas”, é preconceito racial. Anti-semitismo é errado, mas questionar fatos históricos não é necessariamente anti-semitismo.

Como eu falei acima, entende-se que a discussão suscite paixões, que ela seja ofensiva à memória e à sensibilidade dos mortos durante a Guerra e seus familiares, que ela seja inoportuna e desnecessária, que se argumente não haver evidências históricas suficientes para se fazer revisionismo, etc; tudo isso é verdadeiro e precisa ser levado em consideração, sem dúvida alguma. Mas há uma clara desproporção entre a entrevista de Dom Williamson e as reações a ela, e as acusações de anti-semitismo lançadas à face do bispo não decorrem de suas palavras: é questão de Justiça dizê-lo. A irracionalidade  passional não pode ser imposta como única atitude razoável, estigmatizando todo o resto. Tal linha de “raciocínio” pode conduzir a conclusões aberrantes.

Por exemplo: quem nunca ouviu dizer que os índios da América pré-colombiana foram exterminados pelos colonizadores espanhóis? Se os índios tivessem o mesmo poder que têm os judeus do século XX, negar que houve este “extermínio” seria uma espécie de “anti-indigenismo”, equivalente a justificar o preconceito racial contra os índios, a sua escravidão e extermínio, e capaz de fazer rasgar as vestes qualquer cidadão de bem. Ora, este tipo de pensamento casuístico é disparatado, porque a moralidade dos atos não depende dos fatos históricos. Completamente ao revés, é o próprio julgamento dos fatos históricos que depende desta moralidade. É errado assassinar judeus, é errado assassinar índios, é errado assassinar negros, e ponto final. E é errado negar que isso seja errado – questionar se isso aconteceu ou não num dado momento histórico, não. São duas coisas completamente diferentes.

É preciso levantar-se em defesa de Dom Williamson, porque não é necessariamente anti-semitismo fazer questionamentos sobre fatos históricos. A proporção que o assunto vem tomando, com um verdadeiro frisson dos abutres anti-católicos lançando-se vorazmente sobre um espantalho por eles próprios criado, exige que se dê um basta a este simulacro de debate. Com o intuito de semear a discórdia e lançar confusão sobre o importante momento que vive hoje a Igreja, calunia-se um bispo por algo que ele não fez e ataca-se a Igreja por meio de um duplo boneco-de-palha: atribuindo ao bispo da FSSPX uma posição que não é sua, e atribuindo ao Papa e à Igreja a posição anteriormente atribuída ao bispo da FSSPX. Na verdade, o ponto mais importante (o mais lúcido, mais sensato, mais verdadeiro) da entrevista ao Der Spiegel – que bem merecia as manchetes dos jornais – não é o suposto anti-semitismo de Dom Williamson, e sim a resposta final dada pelo bispo: “Não, eu sou apenas o instrumento aqui, de forma que uma ação possa ser realizada contra a SSPX e o papa. Aparentemente o catolicismo esquerdista da Alemanha ainda não perdoou Ratzinger por ter se tornado papa”.

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One thought on “Dom Williamson no Der Spiegel

  1. João

    Muito Bom este texto, inteligente também. Vale lembrar que na entrevista que Dom Williamson deu a tv sueca e que posteriormente veio a gera o ‘balbucio’ anti-católico, não foi de negar a morte de Judeus, mas questionar que fosse menos do que o anunciado historicamente. Claro, ele deve estar equivocado, mas isto é longe de ser anti-semitismo.

    Parabéns ao autor.