“Jesus em defesa dos pobres”

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[Publico artigo do pe. Nilo, da série “como esvaziar o Evangelho da sua substância espiritual”, publicado no Semanário Litúrgico Catequético O Domingo, Ano LXXVII, Remessa IV, 15-3-2009, nº 13. Entre colchetes, os comentários são meus.]

JESUS EM DEFESA DOS POBRES

O Jesus do evangelho [sim, com minúsculas mesmo] de hoje não tem muito que ver com a imagem que muitas vezes fazemos dele: mansinho e bonzinho [de fato, o Jesus “ursinho carinhoso” no qual muitas pessoas acreditam é realmente um erro; no entanto, praticamente cessam aqui os pontos positivos que podem ser encontrados neste exemplar do Semanário Catequético da Paulus…]. Neste evangelho, demonstra inconformismo e reage contra todo tipo de exploração [!!!] – sobretudo aquela praticada pelos vendedores de pombas em prejuízo dos pobres [meu Deus!! De acordo com o pe. Nilo, então, o que provocou a justa indignação de Nosso Senhor não foi a desvirtuação do Templo Sagrado (transformado em local de comércio, ao invés de local de oração), e sim a exploração dos pobres!]. Com efeito, estes, por não terem condições de comprar um boi ou uma ovelha, deviam comprar um par de pombas ou rolinhas para com elas satisfazer sua oferta [e qual o problema com isso, se é a própria Lei de Deus a prescrever a possibilidade do oferecimento de duas rolinhas caso não se possa obter “uma ovelha ou uma cabra” (cf. Lv 5)? Por que o pe. Nilo abomina a existência mesma daquilo que as Escrituras Sagradas prescrevem?] – assim como aconteceu com a família de Jesus quando ele [de novo, com minúsculas] foi apresentado no templo (Lc 2, 24) [sim, em perfeita observância à Lei Judaica – veja-se o capítulo 12 de Levítico; de novo, qual o problema com a apresentação dos dois pombinhos? Qual o problema com os pobres? A ira do pe. Nilo deveria ser dirigida não contra os vendedores de pombas (que também aos pobres possibilitavam o cumprimento da Lei), mas contra as próprias Escrituras Sagradas que prescreviam o sacrifício de quem não tinha posses…].

Deus não suporta ver seu povo sendo explorado [note-se que, para o pe. Nilo, no caso em pauta, não é mais “o zelo da tua casa me consome” (cf. Jo 2, 17), e sim a “exploração” do povo – aliás, exploração cuja existência o texto do Evangelho nem de longe insinua – o que motiva a ira de Nosso Senhor!]. No segundo livro da Bíblia, lemos: “Deus disse: ‘Eu vi a miséria do meu povo [a Vulgata diz “adflictionem populi mei”…] que está no Egito. Ouvi seu grito por causa dos seus opressores. Por isso, desci a fim de libertá-lo das mãos dos egípcios e para fazê-lo subir desta terra para uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel” (Ex 3, 7-8). Deus vê a miséria do povo, ouve seu grito de dor e desce para libertá-lo [fazer acreditar que o problema dos judeus no Egito era a “miséria” e a pobreza é uma empulhação exegética grosseira – no deserto, após saírem da escravidão, houve judeus que reclamaram com saudades do Egito, dizendo que se lembravam “dos peixes que comíamos de graça no Egito, os pepinos, os melões, os alhos bravos, as cebolas e os alhos” (Nm 11, 5)!].

A exemplo do Pai e como seu [mais uma vez, as minúsculas são da lavra do reverendíssimo sacerdote…] fiel seguidor, Jesus não se cala diante da exploração do seu povo [ah! E eu que sempre achei que Ele não tivesse se calado diante da desvirtuação do sentido do Templo!] e reage indignado contra os que querem levar vantagem sobre o pobre [e eu que sempre achei que Nosso Senhor havia reagido – como diz o Evangelho – contra os que faziam “da casa de meu Pai uma casa de negociante”…]. A Igreja, fiel a Jesus e a exemplo dele, não pode ficar indiferente ao sofrimento do povo [acho que o pe. Nilo quer empurrar a sua exegese TL por força da repetição – Jesus não Se indignou, no caso em pauta, por causa do “sofrimento do povo”, e sim porque o Templo Sagrado estava sendo transformado em uma “casa de negociante”, como diz o Evangelho!]. E é por isso que, na América Latina [epa! Não foi a Igreja, Universal, e sim a Igreja “na América Latina”! Conclusão imediata: já que a Igreja “na América Latina” fez isso para ser “fiel a Jesus e a exemplo dele”, segue-se que a Igreja Universal não é fiel a Nosso Senhor!], fez a opção pelos pobres. Isso significa não aceitar que sejam explorados [mentira: isso significa fomentar a luta de classes e pregar o marxismo] e desejar que melhorem de vida em todos os sentidos [à exceção do espiritual, já que a religião é o ópio do povo…].

O Documento de Aparecida foi feliz ao retomar Medellín e Puebla e reafirmar a opção em favor dos pobres [aqui, pronto: foi-se embora de vez o comentário sobre o Evangelho, que começou sendo distorcido e, agora, é simplesmente posto de lado para a propaganda comunista descarada]. Mas esse documento também nos alerta: “Nossa opção pelos pobres corre o risco de ficar em plano teórico ou meramente emotivo, sem verdadeira incidência em nossos comportamentos e em nossas decisões. É necessária uma atitude permanente que se manifeste em opções e gestos concretos e evite toda atitude paternalista. Solicita-se dedicarmos tempo aos pobres, prestar a eles amável atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, (…) procurando, a partir deles, a transformação de sua situação” (n. 397) [arrematando a “catequese” com uma citação descontextualizada, que nada tem a ver com o Evangelho comentado e que é torcida para servir de propaganda comunista disfarçada de doutrina católica. Maravilha…].

Pe. Nilo Luza, ssp

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12 thoughts on ““Jesus em defesa dos pobres”

  1. srl

    Pois é. Lamentamos e choramos. Pedimos e imploramos ao Deus vivo que nos conforte, porque sentimos-nos abandonados. Essa amostra tratada em seu “post” está presente em quase todas as paróquias, todos os domingos. Inúmeros Nilos transfiguram os sentidos das palavras. Uma única alegria nos vêm a mente, que é aquela de suportar alegremente e carregar a cruz. Temos vários motivos para desanimar, …para não ir á Missa. Mas não desanimamos, não desistimos. Eis a minha alegria, servir do modo a que fui chamado e carregar a minha cruz. Com esperança!
    Senhor, envia-nos pastores fiéis. Socorre-nos!

  2. Lício Cataldi

    A série para a qual o Rev. Pe. Nilo escreveu esta “pérola” de artigo liberteiro-marxista deveria chamar-se: Como Esvaziar a Fé Católica de Sua Verdade e engordar as fileiras marxistas.
    Quando vou às missas, procuro nem acompanhar os folhetos, justamente pelos absurdos que neles se lêem.
    Certos sacerdotes deveriam abster-se de escrever e manifestar suas opiniões pessoais e ideológicas nada ortodoxas. Seria um grande favor à Fé Católica e Sua integridade.

  3. Emerson

    Como pode um padre, meu Deus, dizer estas coisas.

    A heresia da TL é velada e isso faz um estrago enorme, por exemplo:

    qual cadeira nos engana mais na hora de sentar.
    Uma delas vemos bem que uma das pernas está quebrada e a outra não podemos ver a trinca na madeira.

    Quanto mais parecido com o real mais fácil de nos enganar.

  4. Julie Maria

    Fora tudo que você comentou e que me gerou tanto indignação ao ler esta patética “interpretação”, também não está errado teologicamente dizer que Jesus é fiel seguidor de seu Pai”? Me pareceu tão grotesco… estou errada?

    Estes comentários são ridículos e no entanto, servem como “critério” para muitos pois afinal, invandem o Brasil inteiro. Uma querida amiga de Minas, que está voltando para a Igreja, me escreveu semana passada dizendo:

    …”Infelizmente estas coisas me desmotiva a ser católica. Fui na igreja Matriz esta semana, pedi para Deus para eu não julgar o padre, mas não teve jeito, a missa dele foi tão ruim que dava dó, as informações contidas no follheto da missa eram ricas, mas o padre não se preparou e não conseguiu explorar o conteúdo. Acho que até eu conseguiria celebrar um missa melhor rsrsrsr, snif, snif….. O mais triste é que tinha muita gente na igreja (domingo), pessoas esperando e precisando fortalecer sua fé.”

    Bom, para terminar com as tragédias da TL hoje na homilia escutei de sistema judiciário e penitenciário… Socorro!

    Julie Maria

  5. Emerson

    Uma pergunta.

    Pra que seve a Campanha da Fraternidade?

    Resposta.

    Pra dar voz a esses “defensores do tubo digestivo”

    porque para eles o ser humano não passa disso.

    Deus nos livre da Campanha da Fraternidade.

  6. vanderley

    Às vezes, dá impressão que fizeram lobotomia nesse pessoal.

    Todos repetem a mesma arenga:

    Excluidos, explorados, opressor,etc,etc.

    São pelo menos 40 anos e não mudam o discurso.

    Enquanto isso…. as seitas…o paganismo….relativismo….

    mornidão…ateismo….

  7. Lício Cataldi

    Realmente, para se estar numa missa dominical, lendo estas abobrinhas nos folhetos e, no período quaresmal, ouvindo músicas da Campanha da Fraternidade que são alienantes e escandalosamente de mau gosto, que em nada elevam à Deus, precisa-se de uma fé heróica e de uma paciência de Jó.

  8. Pingback: Credo et unam, sanctam, cathólicam et apostólicam Ecclésiam « Julie Maria

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  10. Nos devemos mandar este

    PARA LEITURA E DIVULGAÇÃO AMPLA GERAL E IRRESTRITA

    Eu vos Explico a Teologia da Libertação

    Cardeal Joseph Ratzinger – Papa Bento XVI

    Para esclarecer a minha tarefa e minha intenção, com relação ao tema, parecem-me necessárias algumas observações :

    1) A teologia da libertação é fenômeno extraordinariamente complexo. É possível formar-se um conceito da teologia da libertação segundo o qual ela vai das posições mais radicalmente marxistas até aquelas que propõem o lugar apropriado da necessária responsabilidade do cristão para com os pobres e os oprimidos no contexto de uma correta teologia eclesial, como fizeram os documentos do CELAM, de Medellin e Puebla.

    Neste nosso texto, usaremos o conceito ´teologia da libertação´ no sentido que compreende apenas aqueles teólogos que, de algum modo, fizeram própria a opção fundamental marxista. Mesmo aqui existem, nos particulares, muitas diferenças que é impossível aprofundar nesta reflexão geral. Neste contexto posso apenas tentar pôr em evidência algumas linhas fundamentais que, sem desconhecer as diversas matrizes, são muito difundidas e exercem certa influência mesmo onde não existe teologia da libertação em sentido estrito.

    2) Com a análise do fenômeno da teologia da libertação torna-se manifesto um perigo fundamental para a fé da Igreja. Sem dúvida, é preciso ter presente que um erro não pode existir se não contém um núcleo de verdade. De fato, um erro é tanto mais perigoso quanto maior for a proporção do núcleo de verdade assumida. Além disso, o erro não se poderia apropriar daquela parte de verdade, se essa verdade fosse suficientemente vivida e testemunhada ali onde é o seu lugar, isto é, na fé da Igreja. Por isso, ao lado da demonstração do erro e do perigo da teologia da libertação, é preciso sempre acrescentar a pergunta: que verdade se esconde no erro e como recuperá-la plenamente?

    3) A teologia da libertação é um fenômeno universal sob três pontos de vista:

    a) Essa teologia não pretende constituir-se como um novo tratado teológico ao lado dos outros já existentes; não pretende, por exemplo, elaborar novos aspectos da ética social da Igreja. Ela se concebe, antes, como uma nova hermenêutica da fé cristã, quer dizer, como nova forma de compreensão e de realização do cristianismo na sua totalidade. Por isto mesmo muda todas as formas da vida eclesial: a constituição eclesiástica, a liturgia, a catequese, e até as opções morais;

    b) A teologia da libertação tem certamente o seu centro de gravidade na América Latina, mas não é, de modo algum, fenômeno exclusivamente latinoamericano. Não se pode pensá-la sem a influência determinante de teólogos europeus e também norteamericanos. Além do mais, existe também na Índia, no Sri Lanka, nas Filipinas, em Taiwan, na África embora nesta última esteja em primeiro plano a busca de uma ´teologia africana´. A união dos teólogos do Terceiro Mundo é fortemente caracterizada pela atenção prestada aos temas da teologia da libertação;

    c) A teologia da libertação supera os limites confessionais. Um dos mais conhecidos representantes da teologia da libertação, Hugo Assman, era sacerdote católico e ensina hoje como professor em uma Faculdade protestante, mas continua a se apresentar com a pretensão de estar acima das fronteiras confessionais. A teologia da libertação procura criar, já desde as suas premissas, uma nova universalidade em virtude da qual as separações clássicas da Igreja devem perder a sua importância.

    I. O Conceito de Teologia da Libertação e os Pressupostos de sua Gênese

    O que é propriamente o teologia da libertação? Em uma primeira tentativa de resposta, podemos dizer: a teologia da libertação pretende dar nova interpretação global do Cristianismo; explica o Cristianismo como uma práxis de libertação e pretende constituir-se, ela mesma, um guia para tal práxis. Mas assim como, segundo essa teologia, toda realidade é política, também a libertação é um conceito político e o guia rumo à libertação deve ser um guia para a ação política.

    `Nada resta fora do empenho político. Tudo existe com uma colocação política´ (Gutierrez). Uma teologia que não seja ´prática` (o que significa dizer ´essencialmente política´) é considerada ´idealista´ e condenada como irreal ou como veículo de conservação dos opressores no poder. Para um teólogo que tenha aprendido a sua teologia na tradição clássica e que tenha aceitado a sua vocação espiritual, é difícil imaginar que seriamente se possa esvaziar a realidade global do Cristianismo em um esquema de práxis sócio-político de libertação. A coisa é, entretanto, mais difícil, já que os teólogos da libertação continuam a usar grande parte da linguagem ascética e dogmática da Igreja com significado novo, de tal modo que aqueles que lêem e que escutam partindo de outra visão, podem ter a impressão de reencontrar o patrimônio antigo com o acréscimo apenas de algumas afirmações um pouco estranhas mas que, unidos a tanta religiosidade, não poderiam ser tão perigosas. Exatamente a radicalidade da teologia da libertação faz com que a sua gravidade não seja avaliada de modo suficiente; não entra em nenhum esquema de heresia até hoje existente. A sua colocação, já de partida, situa-se fora daquilo que pode ser colhido pelos tradicionais sistemas de discussão. Por isto tentarei abordar a orientação fundamental da teologia da libertação em duas etapas: primeiramente é necessário dizer algo acerca dos pressupostos que a tornaram possível; a seguir, desejo aprofundar alguns dos conceitos base que permitem conhecer algo da estrutura da teologia da libertação. Como se chegou a esta orientação completamente nova do pensamento teológico, que se exprime na teologia da libertação? Vejo principalmente três: fatores que a tornaram possível.

    1) Após o Concílio, produziu-se uma situação teológica nova:

    a) Surgiu a opinião de que a tradição teológica existente até então não era mais aceitável e, por conseguinte, se deviam procurar, a partir da Escritura e dos sinais dos tempos, orientações teológicas e espirituais totalmente novas;

    b) A idéia de abertura ao mundo e de compromisso no mundo transformou-se freqüentemente em uma fé ingênua nas ciências; uma fé que acolheu as ciências humanas como um novo evangelho, sem querer ,reconhecer os seus limites e problemas próprios. A psicologia, a sociologia e a interpretação marxista da história foram considerados como cientificamente seguras e, a seguir, como instâncias não mais contestáveis do pensamento cristão;

    c) A critica da tradição por parte da exegese evangélica moderna, especialmente a de Bultmann e da sua escola, tornou-se uma, instância teológica inamovível que barrou a entrada das formas até então válidas da teologia, encorajando assim também novas construções.

    2) A situação teológica assim transformada coincidiu com uma situação da história espiritual também ela modificada. Ao final da fase de reconstrução após a segunda guerra mundial, fase que coincidiu pouco mais ou menos com o término do Concilio, produziu-se no mundo ocidental um sensível vazio de significado, ao qual a filosofia existencialista ainda em voga não estava em condições de dar alguma resposta. Nesta situação, as diferentes formas do neomarxismo transformaram-se em um impulso moral e, ao mesmo tempo, em uma promessa de significado que parecia quase irresistível à juventude universal. O marxismo, com as acentuações religiosas de Bloch e as filosofias dotadas de rigor científico de Adorno, Harkheimer, Habernas e Marcuse, ofereceram modelos de ação com os quais alguns pensadores acreditavam poder responder ao desafio da miséria no mundo e, ao mesmo tempo, poder atualizar o sentido correto da mensagem bíblica.

    3) O desafio moral da pobreza e da opressão não se podia mais ignorar, no momento em que a Europa e a América do Norte atingiam uma opulência até então desconhecida. Este desafio exigia evidentemente nova respostas, que não se podiam encontrar na tradição existente até aquele momento. A situação teológica e filosófica mudada convidava expressamente a buscar a resposta em um cristianismo que se deixasse regular pelos modelos da esperança, aparentemente fundados cientificamente, das filosofias marxistas.

    II. A Estrutura Gnoseológica Fundamental do Teologia do Libertação

    Esta resposta se apresenta totalmente diversa nas formas particulares de teologia da libertação, teologia da evolução, teologia política, etc. Não pode, pois, ser apresentada globalmente, Existem, no entanto, alguns conceitos fundamentais que se repetem continuamente nas diferentes variações e exprimem comuns intenções de fundo. É necessário fazer uma observação acerca dos elementos estruturais do teologia da libertação. Paro tal, podemos retomar o que já afirmamos acerca da situação teológica mudada após o Concilio. Como já disse, leu-se a exegese de Bultmann e da sua escola como um enunciado da ´ciência´ sobre Jesus, ciência que devia obviamente ser considerado como válida. O ´Jesus histórico´ de Bultmann, entretanto, apresentava-se separado por um abismo (o próprio Bultmann fala de Graben, fosso) do Cristo da fé. Segundo Bultmann, Jesus pertence aos pressupostos do Novo Testamento, permanecendo, porém, encerrado no mundo do judaísmo. O resultado final dessa exegese consistiu em abalar a credibilidade histórica dos Evangelhos: o Cristo da tradição eclesial e o Jesus histórico apresentado pela ciência pertencem evidentemente a dois mundos diferentes. A figura de Jesus foi erradicada da sua colocação na tradição por ação da ciência, considerada como instância suprema; deste modo, por um lado, a tradição pairava como algo de irreal no vazio, e, por outro, devia-se procurar para a figura de Jesus uma nova interpretação e um novo significado. Bultmann, portanto, adquiriu importância não tanto pelas suas afirmações positivas quanto pelo resultado negativo da sua crítica: o núcleo da fé, a cristologia, permaneceu aberto a novas interpretações porque os seus enunciados originais tinham desaparecido, na medida em que eram considerados historicamente insustentáveis. Ao mesmo tempo desautorizava-se o magistério da Igreja, na medida em que o consideravam preso a uma teoria cientificamente insustentável e, portanto, sem valor como instância cognoscitiva sobre Jesus. Os seus anunciados podiam ser considerados somente como definições frustradas de uma posição cientificamente superada.

    Além disso, Bultmann foi importante para o desenvolvimento posterior de uma segunda palavra-chave. Ele trouxe à moda o antigo conceito de hermenêutica, conferindo-lhe uma dinâmica nova. Na palavra ´hermenêutica´ encontra expressão a idéia de que uma compreensão real dos textos históricos não acontece através de uma mera interpretação histórica; mas toda interpretação histórica inclui certas decisões preliminares. A hermenêutica tem a função de ´atualizar´, em conexão com a determinação de dado histórico. Nela, segundo o terminologia clássica, se trata de um ´fusão dos horizontes´ entre ´então´ [´naquele tempo´] e o ´hoje´. Por conseguinte, ela suscita a pergunta: o que significa o então (´naquele tempo´), nos dias de hoje? O próprio Bultmann respondeu a esta pergunta servindo-se da filosofia de Heidegger e interpretou, deste modo, a Bíblia em sentido existencialista. Tal resposta, hoje, não apresenta mais algum interesse; então Bultmann foi superado pela exegese atual. Mas permaneceu a separação entre a figura de Jesus da tradição clássica e a idéia de que se pode e se deve transferir essa figura ao presente, através de nova hermenêutica.

    A este ponto, surge o segundo elemento, mencionado, da nossa situação: o novo clima filosófico dos anos sessenta. A análise marxista da história e da sociedade foi considerada, nesse ínterim, como a única dotada de caráter ´cientifico´, isto significa que o mundo é interpretado à luz do esquema da luta de classes e que a única escolha possível é entre capitalismo e marxismo. Significa, além disso, que toda a realidade é política e que deve ser justificada politicamente. O conceito bíblico do ´pobre´ oferece o ponto de partida para a confusão entre a imagem bíblica da história e a dialética marxista; esse conceito é interpretado com a idéia de proletariado em sentido marxista e justifica também o marxismo como hermenêutica legitima para compreender a Bíblia. Segundo essa compreensão, existem, e só podem existir, duas opções; por isso, contradizer essa interpretação da Bíblia não é senão expressão do esforço da classe dominante para conservar o próprio poder. Gutierrez afirma: ´A luta de classes é um dado de fato e a neutralidade acerca desse ponto é absolutamente impossível´. A partir dai, torna-se impossível até a intervenção do magistério eclesiástico: no caso em que este se opusesse a tal interpretação do Cristianismo demonstraria apenas estar ao lado dos ricos e dos dominadores e contra os pobres e os sofredores, isto é, contra o próprio Jesus, e, na dialética da história, aliar-se-ia à parte negativa.

    Essa decisão, aparentemente ´científica´ e ´hermeneuticamente´ indiscutível, determina por si o rumo da ulterior interpretação do Cristianismo, seja quatro às instancias interpretativas, seja quatro aos conteúdos interpretados. No que diz respeito as instâncias interpretativas, os conceitos decisivos são: povo, comunidade, experiência, história. Se até então a Igreja, isto é, a Igreja Católica na sua totalidade, que, transcendendo tempo e espaço, abrange os leigos fiéis e a hierarquia (magistério), fora a instância hermenêutica fundamental, hoje tal instância é a ´comunidade´. A vivência e as experiências da comunidade determinam agora a compreensão e a interpretação da Escritura. De novo pode-se dizer, aparentemente de maneira muito científica, que a figura de Jesus, apresentada nos Evangelhos, constitui uma síntese de acontecimentos e interpretações da experiência de comunidades particulares, onde no entanto a interpretação é muito mais importante do que o acontecimento, que, em si, não é mais determinável. Essa síntese original de acontecimento e interpretação pode ser dissolvida e reconstruída sempre de novo: a comunidade ´interpreta´ com a sua ´experiência´ os acontecimentos e encontra assim sua ´práxis´. Esta idéia, podemos encontrá-la em modo um tanto diverso do conceito de povo, com o qual se transformou a acentuação conciliar da idéia de ´povo de Deus´ em mito marxista. As experiências do ´povo´ explicam a Escritura. ´Povo´ torna-se assim um conceito oposto ao de ´hierarquia´ e em antítese a todas as instituições indicadas como forças da opressão.

    Afinal, é ´povo´ quem participa da ´luta de classes´; a ´igreja popular´ acontece em oposição à Igreja hierárquica. Por fim, o conceito de ´história´ torna-se instância hermenêutica decisiva. A opinião, considerada cientificamente segura e irrefutável, de que a Bíblia raciocine em termos exclusivamente de história da salvação, e portanto de maneira antimetafísica, permite a fusão do horizonte bíblico com a idéia marxista da história que procede dialeticamente como autêntica portadora de salvação; a história é a autêntica revelação portanto a verdadeira instância hermenêutica da interpretação bíblica. Tal dialética é apoiada, algumas vezes, pela pneumatologia. Em todo caso, também esta última, no magistério que insiste em verdades permanentes, vê uma instância inimiga do progresso, dado que pensa ´metafisicamente´ e assim contradiz a ´história´. Pode-se dizer que o conceito de história absorve o conceito de Deus e de revelação. A ´historicidade´ da Bíblia deve justificar o seu papel absolutamente predominante e, portanto, deve legitimar, claro, a passagem para a filosofia materialista marxista, na qual a história assumiu a função de Deus.

    III. Conceitos Fundamentais da Teologia da Libertação

    Com isto, chegamos aos conceitos fundamentais do conteúdo da nova interpretação do Cristianismo. Uma vez que os contextos nos quais aparecem os diversos conceitos são diferentes, cito alguns deles, sem a pretensão de esquematizá-los. Há nova interpretação da fé, da esperança e da caridade. Com relação à fé, por exemplo, J. Sobrinho afirma: a experiência que Jesus tem de Deus é radicalmente histórica. ´A sua fé converte-se em fidelidade´. Por isso Sobrinho substitui fundamentalmente o fé pela ´fidelidade à história´. Jesus é fiel à profunda convicção de que o mistério da vida do homem … é realmente o último … . Aqui produz-se aquela fusão entre Deus e história que dá a Sobrinho a possibilidade de conservar para Jesus a fórmula de Calcedônia, ainda que com um sentido completamente mudado; pode-se ver como os critérios clássicos da ortodoxia não são aplicáveis à análise dessa teologia: Sobrinho ´diz … que Jesus é Deus, acrescentando, porém, imediatamente, que o Deus verdadeiro é somente aquele que se revela historicamente em Jesus e nos pobres, que continuam a sua presença. Somente quem mantém unidas essas duas afirmações, é ortodoxo …´.

    A esperança é interpretada como ´confiança no futuro´ e como trabalho pelo futuro; com isso elo é subordinado novamente ao predomínio da história das classes.

    ´Amor´ consiste na ´opção pelos pobres´, isto é, coincide com a opção pela luta de classes. Os teólogos da libertação sublinham, diante do ´falso universalismo´, a parcialidade e o caráter partidário da opção cristã; tomar partido é, para eles, requisito fundamental da correta hermenêutica dos testemunhos bíblicos. Aqui se pode reconhecer muito claramente a mistura entre uma verdade fundamental do Cristianismo e uma opção fundamental não cristã, que torna o conjunto tão sedutor: o sermão da montanha é, na verdade, a escolha por parte de Deus a favor dos pobres. Mas a interpretação dos pobres no sentido da dialética marxista da história e a interpretação da escolha partidária no sentido da luta de classes é um salto para outro gênero, no qual as coisas contrárias se apresentam como idênticas.

    O conceito fundamental da pregação de Jesus é o de ´reino de Deus´. Este conceito encontra-se também no centro da teologia da libertação, lido porém no contexto da hermenêutica marxista. Segundo J. Sobrinho, o reino não deve ser compreendido espiritualmente ou universalmente, no sentido de uma reserva escatogicamente abstrata. Deve ser compreendido de forma partidária e voltado para a práxis. Somente a partir da práxis de Jesus, e não teoricamente, é possível definir o que seria o reino: trabalhar na realidade histórica que nos circunda para transformá-la no reino. Aqui devo mencionar também uma idéia fundamental de certa teologia pósconciliar que impulsionou nessa direção. Muitos apregoaram que, segundo o Concílio, se deveriam superar todos os dualismos: o dualismo de corpo e alma, de natural e sobrenatural, de imanência e transcendência, de presente e futuro. Após o desmantelamento desses dualismos, resta apenas a possibilidade de trabalhar por um reino que se realize nesta história e em sua realidade políticoeconômica.

    Mas justamente dessa forma deixou-se de trabalhar pelo homem de hoje e se começou a destruir o presente, a favor de um futuro hipotético: assim produziu-se imediatamente o verdadeiro dualismo. Neste contexto há também a interpretação, impressionante e espantosa que Sobrinho dá da morte e da ressurreição. Antes ele estabelece, contra as concepções universalistas, que a ressurreição é, em primeiro lugar, uma esperança para aqueles que são crucificados; estes constituem a maioria dos homens: todos aqueles milhões aos quais a injustiça estrutural se impõe como uma lenta crucifixão. O crente, no entanto, participa também do senhorio de Jesus sobre a história, através da edificação do reino, isto é, na luta pela justiça e pela libertação integral, na transformação das estruturas injustas em estruturas mais humanas. Esse senhorio sobre a história é exercitado ao se repetir o gesto de Deus que ressuscita Jesus, isto é, dando novamente vida aos `crucificados da história`. O homem assumiu o gesto de Deus e aqui a transformação total da mensagem bíblica se manifesta de maneira quase trágica, se se pensa em como essa tentativa de imitação de Deus se desenvolveu e se desenvolve ainda.

    Gostaria de citar apenas alguns outros conceitos: o êxodo se transforma em uma imagem central da história da salvação; o mistério pascal é entendido como um símbolo revolucionário e, portanto, a Eucaristia é interpretada como uma festa de libertação no sentido de uma esperança político-messiânica e da sua práxis. A palavra redenção é substituída geralmente por libertação, a qual, por sua vez, é compreendida, no contexto da história e da luta de classes, como processo de libertação que avança. Por fim, é fundamental também a acentuação da práxis: a verdade não deve ser compreendida em sentido metafísico; trata-se de ´idealismo´. A verdade realiza-se na história e na práxis. A ação é a verdade. Por conseguinte, também as idéias que se usam para ação, em última instância são intercambiáveis. A única coisa decisiva é a práxis. A práxis torna-se, assim, a única e verdadeira ortodoxia. Desta forma justifica-se um enorme afastamento dos textos bíblicos: a crítica histórica liberta da interpretação tradicional, que aparece como não-científica. Com relação à tradição, atribui-se importância ao máximo rigor cientifico na linha de Buftmann. Mas os conteúdos da Bíblia, determinados historicamente, não podem, por sua vez, ser vinculantes de modo absoluto. O instrumento para a interpretação não é, em última análise, a pesquisa histórica, mas, sim, a hermenêutica da história, experimentada na comunidade, isto é, nos grupos políticos, sobretudo dado que a maior parte dos próprios conteúdos bíblicos deve ser considerada como produto de tal hermenêutica comunitária.

    Quando se tenta fazer um julgamento geral, deve-se dizer que, quando alguém procura compreender as opções fundamentais da teologia da libertação não pode negar que o conjunto contém uma lógica quase incontestável. Com as premissas da critica bíblica e da hermenêutica fundada na experiência, de um lado, e da análise marxista da história, de outro, conseguiu-se criar uma visão de conjunto do cristianismo que parece responder plenamente tanto às exigências da ciência, quanto aos desafios morais dos nossos tempos. E, portanto, impõe-se aos homens de modo imediato a tarefa de fazer do Cristianismo um instrumento da transformação concreta do mundo, o que pareceria uni-lo a todas as forças progressistas da nossa época. Pode-se, pois, compreender como esta nova interpretação do Cristianismo atraia sempre mais teólogos, sacerdotes e religiosos, especialmente no contexto dos problemas do terceiro mundo. Subtrair-se a ela deve parecer aos olhos deles como uma evasão da realidade, como uma renúncia à razão e à moral. Porém, de outra parte, quando se pensa o quanto seja radical a interpretação do Cristianismo que dela deriva, torna-se ainda mais urgente o problema do que se possa e se deva fazer frente a ela.

    À guisa de comentário, parece oportuno salientar os seguintes pontos: 1) A Teologia da Libertação não é um novo tratado teológico ao lado de outros já existentes, mas é uma nova e errada interpretação do Cristianismo, que revira radicalmente as verdades da fé, a constituição da Igreja, a Liturgia, a catequética e as opções morais.

    2) Todos os valores e toda a realidade são considerados do ponto de vista político. Uma teologia que não seja essencialmente política, é encarada como fator de conservação dos apressares no poder.

    3) A dificuldade de se perceber esse caráter subversivo da Teologia da Libertação está, em grande parte, no fato de que os seus arautos continuam a usar a linguagem ascética e dogmática da Igreja, embora com significado novo. Isto dá aos observadores a impressão de que estão diante do patrimônio da fé acrescido de algumas afirmações religiosas que não podem ser perigosas.

    4) A gravidade da Teologia da Libertação não é SUFICIENTEMENTE avaliada; ela não se enquadra em nenhum tipo de heresia já existente.

    5) O cristão não pode ser, de forma alguma, insensível à miséria dos povos do Terceiro Mundo. Todavia, para socorrer cristãmente a tal situação, não lhe é necessário adotar um sistema de pensamento que é anticristão como a Teologia da Libertação; existe a doutrina social da Igreja, desenvolvida pelos Papas desde Leão XIII até João Paulo II de maneira cada vez mais incisiva e penetrante. Se fosse posta em prática, eliminaria graves males de que sofrem os homens, sem disseminar o ódio e a luta de classes.