A conquista do México

closeAtenção, este artigo foi publicado 5 anos 8 meses 29 dias atrás.

Estando a dois dias neste desbaratamento, chegaram até nós nativos de Cuarnaguacar, que se haviam dado por nossos amigos, dizendo que os da provínciade Cuisco, que é terra muito grande, queriam ir sobre eles, destruí-los e depois virem sobre nós. Nós tínhamos mais necessidade de sermos socorridos do que de darmos socorro, mas como eles insistiam muito e como se haviam dado por vassalos de vossa majestade, não os podia deixar desamparados. Despachei com eles oitenta peões e dez a cavalo sob o comando de Andrés de Tapia e pedi que desse o máximo nessa luta e que voltassem dentro de dez dias. (…) Depois de destruírem tudo que encontraram no plano, os nossos voltaram para o acampamento, tendo feito tudo dentro do prazo de dez dias. Apenas dois dias depois de sua chegada, vieram até nosso acampamento dez índios otumíes, povo que também se havia dado por vassalo de vossa majestade, pedindo nossa ajuda para combater os de Matalcingo que não cessavam de lhes fazer guerra e que também queriam vir contra nós. Embora o povoado dos otumíes ficasse a vinte e duas léguas de distância e nós estivéssemos muito abatidos, eu não podia deixar de ajudar nossos aliados nem tampouco demonstrar fraqueza. Determinei a Gonzalo de Sandoval que fosse com cem peões e quinze a cavalo, mas apenas um balisteiro. (…) Com estas vitórias, Sandoval retornou ao acampamento.

Quatro dias depois da chegada de Gonzalo de Sandoval, os senhores das províncias de Matalcingo, Malinalco e de Cuisco vieram até nosso acampamento para pedir perdão pelo passado e se oferecer ao serviço de vossa majestade.

[Hernan Cortez, Carta ao Rei da Espanha de 15 de maio de 1522, in Cortez, Hernan, “A conquista do México”, pp 132-133. Ed. L & PM, 2ª Edição, Porto Alegre, 2008.]

Não me lembro muito bem das minhas aulas de história do segundo grau sobre a colonização da américa espanhola; lembro-me apenas de algumas vagas expressões negativas associadas via de regra aos espanhóis, como “invasores”, “genocídio”, “roubo de ouro”, “dizimação indígena” e coisas análogas. Aliás, até aposto que, colocando no google qualquer dessas expressões junto com o nome de Cortez, a quantidade de resultados será significante.

Não conheço a história do México. No entanto, passeando por uma livraria há uns dias, encontrei este pocket book sobre “A conquista do México”, cuja capa evoca os mesmos chavões sobre os quais fiz menção acima: uma espada espanhola ensangüentada, cravada numa escultura asteca. O subtítulo do livro diz “20 milhões de nativos mortos em trinta anos; este é o macabro saldo da conquista espanhola”. Enfim, nada me levaria a comprar este livro, não fosse o fato de serem as cartas originais enviadas por Hernan Cortez ao rei da Espanha.

E o Cortez que se apresenta nestas cartas está longe de ser o monstro genocida inescrupuloso sedento de sangue que nos foi apresentado no segundo grau (e, aliás, que é insinuado pela própria capa do livro). Claro, há algumas passagens que são de uma brutalidade capazes de chocar a mentalidade moderna, como  p. ex.:

[F]alei-lhe [a Montezuma, chefe asteca] a respeito do que eu ficara sabendo que ocorrera na cidade de Almería, onde, por ordem dele, haviam matado alguns espanhóis que ali estavam. O próprio senhor daquela cidade, Qualpopoca, confessou que como seu vassalo apenas cumpria suas ordens.

[…]

Passados vinte dias do aprisionamento [de Montezuma], chegaram aqueles que haviam ido buscar Qualpopoca, trazendo o cacique, os que haviam matado os espanhóis e mais quinze principais. (…) Perguntei [a Qualpopoca] se o que ali se havia passado fora mandado por Montezuma e eles confirmaram que sim. Mandei então queimar todos vivos, o que foi feito em uma praça, sem alvoroço nenhum. Depois mandei colocar algemas em Montezuma, o que ele recebeu sem espanto.

[op. cit., pp. 55-56]

Enquanto isso, o aguazil maior soube que em um povoado mais distante chamado Acapichtla havia muita gente de guerra dos inimigos e resolveu ir até lá. O povoado era situado num lugar alto, o que os deixava fora do alcance dos cavalos. Logo que os espanhóis chegaram, os do povoado começaram a pelejar com eles, lançando pedras e flechas. Sentiu o aguazil maior que só lhe restava tentar subir ao povoado ou morrer. E quis Deus dar-lhe tanta força que apesar da grande resistência conseguiram chegar até lá, embora tivessem muitos feridos. E como os índios nossos amigos os seguiram, foi tanta a matança que provocaram, que um pequeno rio que margeava aquele povoado ficou por mais de uma hora tingido de sangue, impedindo que as pessoas pudessem ali beber água, o que foi terrível pois fazia muito calor.

[op. cit., pp 109-110]

Mas isso me parece ser um tributo pago pelo espanhol à sua época. Duvido que houvesse então algum pacifista capaz de emitir uma condenação genérica a esta praxis (Las Casas é um caso à parte). Em suma: não me parece nada que Hernan Cortez seja um “monstro” para além da “crueldade” mediana de sua civilização. Condená-lo sumariamente por atos como os acima relatados é anacronismo.

Ao contrário, ele me parece uma personalidade admirável. Poderia citar incontáveis episódios: as missas assistidas antes das batalhas [“no dia marcado, como sempre fazíamos, ouvimos a missa e partimos”, p. 134], o ódio aos ídolos e a veneração aos santos [“os principais destes ídolos e nos quais eles tinham mais fé eu derrubei de seus assentos e os fiz descer escada abaixo. Fiz também com que limpassem aquelas capelas, pois estavam cheias de sangue dos sacrifícios que faziam. Em lugar dos ídolos mandei colocar imagens de Nossa Senhora e de outros santos, apesar da resistência de Montezuma e de outros nativos”, p. 63], a preocupação com as imagens dos santos mesmo em meio aos combates [“nossa primeira ação foi cercar a base da torre, onde, apesar de manter isolados os que estavam dentro, éramos atacados por todos os lados. Comecei a subir a escada sendo seguido pelos espanhóis. Eles conseguiram abater três ou quatro dos nossos, mas com a ajuda de Deus e de sua gloriosa mãe, cuja imagem havíamos colocado naquela torre, conseguimos subir (…). Mandei colocar fogo naquela torre e nas demais da mesquita, de onde já havíamos tirado as imagens que havíamos posto”, p. 77], os incontáveis perdões concedidos aos índios que passavam para o lado dos espanhóis [“e como viram que o dano que recebiam era considerável, fizeram sinal de que se entregavam e depuseram as armas. E como meu desejo é sempre dar a entender a esta gente que não queremos lhes fazer mal por mais culpados que sejam, especialmente quando se dispõem a ser vassalos de vossa majestade, mandei parar o ataque e os recebi bem. E por tê-los recebido muito bem, fizeram saber isto aos do outro penhasco, os quais, embora tenham resultado vitoriosos no combate conosco, também resolveram se dar por vassalos de vossa majestade e vieram me pedir perdão pelo passado”, p. 113], o pesar em destruir as cidades dos índios [“como tínhamos todas as terras ao redor a nosso favor e nossa determinação de atacar, não consegui entender como estes da cidade [Tenochtitlán, capital asteca] permaneciam irredutíveis em seu desejo de lutar até a morte, nos obrigando a ter que destruir aquela cidade que era a coisa mais bela do mundo”, p. 133], a ajuda concedida aos índios que a solicitavam [já citado acima, pp 132-133], etc.

Há só mais uma parte que eu gostaria de citar, sobre uma derrota que os espanhóis sofreram quando tentaram tomar o mercado principal de Tenochtitlán, durante o cerco à cidade. Ei-lo:

Neste desbaratamento em que nos envolvemos, os inimigos mataram trinta e cinco ou quarenta espanhóis, mais de mil índios nossos amigos e feriram mais de vinte cristãos, inclusive eu que saí ferido em uma perna. Também perdeu-se o tiro pequeno de campo que havíamos levado e muitas balistas, escopetas e outras armas. Todos os espanhóis que pegaram, vivos ou mortos, levaram para Tatebulco, que é o mercado. Ali os penduraram desnudos, abriram o peito e arrancaram o coração que ofereceram a seus ídolos. Os de Pedro de Alvarado puderam ver bem de perto o sacrifício dos corpos desnudos e brancos dos cristãos, tendo mergulhado em grande tristeza e desânimo e se retraído ao seu acampamento real, apesar de terem lutado muito bem aquele dia e quase conquistado o mercado, só não o conseguindo por vontade de Deus, que nos quis castigar por nossos pecados.

[op. cit., p. 131]

E este Hernan Cortez que consegue ver até nos reveses que sofre a “vontade de Deus, que nos quis castigar por nossos pecados” não existe nos livros de história. Não conheço, repito, a história do México; mas, lendo estas cartas de Hernan Cortez, parece-me claro que este capitão espanhol não é santo, mas tampouco é o demônio que nos apresentam no Ensino Médio.

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23 comentários em “A conquista do México

  1. João de Barros

    Excelente!

    Eu já li o diário de um dos soldados espanhóis que acompanhou Cortes e minha impressão é exatamente a mesma do Jorge Ferraz.

    Os detalhes sinistros são fruto da época e dão testemunho da autenticidade do relatório.

  2. Alien

    Será que também existe exagero em relação à outros conquistadores espanhóis no Novo Mundo? Como por exemplo, Francisco Pizarro em relação aos incas do Peru?

  3. Jorge Ferraz

    Alien,

    Eu acho bem provável.

    Sobre a história do Peru, eu a conheço ainda menos do que a do México; mas lembro-me uma vez de ter lido um episódio sobre Pizarro que é interessante:

    E como não admirar Pizarro – tão censurável em tantas outras ações – que com cento e setenta homens enfrentou e venceu vinte mil incas de Ataualpa? Como não admirar sua intransigência e sua combatividade ao vê-lo à frente de seus cento e setenta homens, esperando o resultado da tentativa de apostolado de um missionário junto ao imperador inca. Na mão, Pizarro tinha uma faixa branca. O sacudir a faixa seria o sinal da batalha.
    O missionário falou longamente com o inca narrando-lhe a vida de Jesus Cristo. O imperador dos incas afinal cheirou o livro do Evangelho, jogou-o à distancia, dizendo que não queria saber de um Deus que morrera crucificado. O padre voltou para Pizarro dizendo-lhe:
    — Ele blasfemou.
    E Pizarro sacudiu a faixa. E o Peru ficou católico.
    (J. B. Weiss, História Universal, Vol. IX, pg. 103 apud Fedeli, Orlando – “A Cavalaria”).

    Abraços,
    Jorge

  4. Renato Lima

    Alien, e olha que não é nem preciso fazer muito esforço para mostrar que nunca aconteceu genocídio indigena na America Latina!

    O que mais existe na America Latina não são índios?

    Qual é o latino americano (brasileiros, argentinos, equatorianos, paraguaios, uruguaios,…) que não tem descendência de índios?

    Interessante que o Mel Gibson quando fez aquele filme Apocalypto, ele se inspirou na colonização espanhola e não na colonização protestante americana!

    Nesta colonização (protestante) sim, aconteceu um genocídio. É só ver quantos americanos tem descendência de índios.

  5. Alien

    Obrigado pelas informações, pessoal!
    Isso mostra como hoje em dia é difícil termos uma noção mesmo do que é a “versão certa” sobre os fatos históricos… quem foi mesmo que disse que “a história é escrita pelos vencedores” (ou algo assim)? Hoje em dia, com a internet e cada vez mais acesso à meios de informação, cada vez mais existem 1001 versões… podemos até não concordar mas, para TENTARMOS ter uma visão mais “imparcial”, mas “correta” temos que tentar “beber da fonte” por vários ângulos e opiniões, concordam?

  6. Pedro Cândido

    ART!

    Caríssimo, muito bom este post. Fiz questão de pesquisar sobre o livro. Encontrei uma daquelas “páginas”, na internet, que faz citações horríveis do livro, meio inquisitórias, no sentido ruim mesmo. Há inquisição no sentido bom? Há, mas não é assunto para o momento. (Risos). Mas enfim, são citações jogadas, e falta o contexto. Esses aloprados (alguns historiadores) nos atrazam demais, seriam da família dos protestantes? Imagine: de um lado há uma bíblia esburacada, de outro um livro de história (ensino médio) esburacadado, ambos com traduções e interpretações e deturpações. É são familiares. (Risos)

    Que legal você ter comentado sobre esse assunto. Despertou-me um interesse em conhecer melhor a história do México. Aliás como preciso fazer uma nova leitura de tudo o que me ensinaram de “história” no ensino médio. Aquelas aulas marxistas, carregadas de uma ideologia doente. Relembrando aquele tempo a idéia que faço é de uma grande indústria, fabricando marionetes para conspirar contra a verdade. O pior é que muitos dos meus professores, coitados, também pareciam esses “brinquedinhos assassinos” (marionetes).

  7. Starkov

    Só acho que estão colocando Cortez em um pedestal. Todo homem que destrói e mata por ouro, por sí só já é um porco, ainda mais quando se utiliza da crença religiosa para poder pretexto aos seus atos de crueldade.

    Extinguiram uma civilização com a qual podiam ter obtido inúmeros conhecimentos em hervas medicinais, astrônomia, arquitetura e outros por ganância.

    Indigenas, antes livres, passaram a ter apenas duas condições perante os conquistadores: vassalos ou escravos.

    O único conquistador espanhol que se salva é Alvar Nuñes Cabeza de Vaca, o qual dependeu diretamente de povos indigenas para se manter vivo, mudando seu entendimento á respeito dos povos amerindeos e vendo-os como humanos.

    Hernan Cortez – Segunda Carta

    “Como trazíamos a bandeira da cruz e lutávamos por nossa fé e por serviços de vossa sacra majestade, em sua real ventura nos deu Deus tanta vitória, posto que matamos muita gente sem que nenhum dos nossos sofresse dano. (Pag. 33).”

    Piada!

  8. Eduardo Araújo

    Caro Starkov, você escreveu:

    “Só acho que estão colocando Cortez em um pedestal. Todo homem que destrói e mata por ouro, por sí só já é um porco, ainda mais quando se utiliza da crença religiosa para poder pretexto aos seus atos de crueldade.”

    Pois bem, à vista dessas palavaras suponho que você reconhece que maias e astecas eram “porcos”, porquanto o dia-a-dia desses povos incluía o sequestro e assassinato de outros indígenas, exatamente para atender às suas crenças religiosas.

    Basta ver que o ícone das cidades maias, desde a Fase Clássica até o período tardio de Yucatan, é nada menos que o Chac Mool, a figura humana semi-deitada com o recipiente em brasas para acolher os corações arrancados das vítimas sacrificiais.

    E os astecas, então, nem se fale. A estrutura principal de Tenochtitlan era o grande templo duplo, consagrado a Tlaloc e a Huitzilopochtli, palco de incontáveis assassinatos de seres humanos em prol da devoção religiosa méxica. Na segunda levantada do templo, sob Ahuizotl, mais de 20.000 homens de outras aldeias foram sacrificados. Segundo os códices astecas, estes foram alinhado em quatro filas, na direção dos pontos cardeais. O quantitativo também é referido naqueles documentos.

    Vale lembrar que maias, astecas e aqui incluiremos também os incas destruiram outras civilizações e mataram muito em guerras contra outros povos. Se o objetivo não era ouro, especificamente, era, todavia, o binômio propriedade-poder, que lhes assegurava a hegemonia política na região. Veja-se, a respeito, o que os astecas fizeram com os toltecas: dizimaram-nos, com rompantes de singular crueldade (uma dos episódios narrados nos códices foi o da filha de Cox Cox, levada a Texcoco para um “matrimônio”. O “casório”, na verdade, era com a divindade Xipe Totec, de modo que a moça encarnaria o seu cônjuge, Toci. Ocorreu-lhe, então, o destino das vítimas dedicadas a esse deus: o esfolamento vivo, com sacerdotes “vestindo” a pele da infeliz).

    Já li uma boa quantidade de livros sobre os povos precolombianos. Amiúde, os autores seguem a linha marxista, forjando uma interpretação de conflito de classes, segundo a qual os espanhóis são cruéis opressores de pobres e inocentes índios, oprimidos e massacrados pelos europeus, ávidos por ouro e conversões à religião cristã. Trata-se, a meu ver, de uma visão pobre, predeterminada, descontextualizada e anacrônica do passado. As “pobres vítimas” dos espanhóis – incas, maias e astecas – eram odiados por povos sugjugados, maltratados, oprimidos, torturados (os esfolados para Xipe Totec não eram mortos, permanecendo sem pele até a morte) e massacrados por eles, com requintes de crueldade. As “pobres vítimas” foram elas, também, invasoras que destruiram quem lhes opusesse a menor resistência ao seu ímpeto conquistador.

    Portanto, não acho que se está colocando Cortez num pedestal, como dito por você. O que é claro, para mim, é que já há um bom tempo os povos precolombianos é que são colocados em um pedestal de pureza e bondade civilizada, o que não corresponde sequer ao registro documental que se tem deles.

    E entenda-se bem: não se está deixando com isso de reconhecer o grau de desenvolvimento intelectual dos americanos e o que eles poderiam transmitir aos ibéricos. Convém frisar, outrossim, que os europeus não eram os incultos absolutos como a historiografia marxista os pinta. Para navegar, muitos conhecimentos de astronomia e tecnologia foram requisitos, acumulados ao cabo de muitos anos de pesquisas, esforços teóricos (como os da famosa Escola de Sagres), experiências bem ou mal sucedidas. Também, ao contrário do que “historiadores” que subsidiaram autores como um Dan Brown, a Cristandade tinha um conhecimento não desprezível de medicina e remédios caseiros à base de ervas, assimilado seja por via árabe (especialmente o Tratado de Avicena), seja por via européia, mesmo (um exemplo é o Tratado de Medicina, de Santa Hildegard de Bingen). A idéia de um europeu medievo burro, inculto, tecnologicamente primário em relação a outros povos é uma fantasia sem base histórica.

    De todo modo, ainda sobre essa questão de troca cultural entre povos, o mesmo poderia ser aplicado aos maias, incas e astecas. Será que eles pensaram nisso ao exterminar os toltecas, zapotecas, chimus e mochicas?

  9. Renato Lima

    Eduardo, muito boa a sua resposta para o sr. Starkov. Eu só acrescentaria que quando os potugueses e espanhois chegaram a América, o s índios perseguidos pelos maias, incas e astecas se aliaram aos protugueses e espanhóis: Pois não aguentavam mais as perseguições promovidas por essas tribos, que segundo a visão marxistas, são eternas ”vitímas”.

  10. Assunção Medeiros

    Caros,

    Ver os povos ameríndios como humanos significa, justamente, saber que eles são – como todos os humanos – passíveis de ganância e crueldade como qualquer outro membro da espécie.

    Esta do esfolamento eu não conhecia. Bate qualquer outra crueldade européia da época (que eram muitas). Aliás, o medievo e a antiguidade pululam de exemplos de execuções e torturas que parecem pegadinhas. O ser humano de hoje tem dificuldade em conceber procedimentos tão cruéis.

    Esfolamento, impalamento, damas de ferro e tais graças a Deus e à intervenção moral e civilizatória DA IGREJA lentamente deixaram de existir para dar lugar a um mundo um pouco mais humano, onde os fracos devem ser protegidos e não humilhados ou subjugados.

    Paz e Bem

    Sue

  11. Eduardo Araújo

    É verdade, Renato. Você está corretíssimo.

    Em geral, os autores, mesmo os marxistas, tributam o sucesso de Cortez aos seus aliados indígenas, sem os quais provavelmente teriam sorte diferente. É ponto pacífico, por exemplo, que o marasmo em que se colocou Montecuzoma II (o “Montezuma”, para os espanhóis) se deu a partir do conhecimento que os europeus tiveram dos astecas, de suas profecias religiosas e, portanto, do modo como os mexicas os viam, permitindo assim “trabalhar” essa questão em seu favor. Ocorre que esse estratagema seria impossível sem o concurso de um(a) intérprete que se posicionasse ao lado dos ibéricos e estes a encontraram na pessoa da Malinche ou Marina (ainda hoje, um nome anatematizado no México).

    Pizarro, de outro lado, teve a seu favor, além da crise política dos próprios incas, com facções antagonizando-se em favor de Atahualpa ou de Huascar, a contribuição logística indispensável num ambiente tão inóspito como o andino, graças justamente aos aldeões submetidos à rígida política incaica com os consquistados.

    E finalmente os tupinambás, no nosso país, que eram odiados até pelos seus irmãos tupis, como os tupiniquins, que se tornaram preciosos aliados dos portugueses. Aliás, tupis em geral promoviam desde que se entendiam por gente a chamada peregrinação em busca da Terra dos Sem Males, consistindo em deslocamento de aldeias, à medida que suas coivaras (sistema de plantio) exauriam os solos. Azar de quem estivesse no meio do caminho: a palavra de ordem era guerrear, fazer prisioneiros, devorá-los, exterminá-los. Não importava se os desgraçados eram tapuias – imensamente desprezados – ou outras tabas tupis.

    A propósito de antropofagia, durante muito tempo cultivou-se a interpretação de que os tupinambás devoravam apenas os bravos (guerreiros) das outras tribos, em festas com substrato religioso e na crença de adquirir as características boas dos aprisionados. Hodiernamente, sabe-se que até mulheres, crianças e idosos pereciam nesse destino cruel, que tinha como motivo primeiro não a religião mas … Digamos assim: o motivo declarado por Cunhambebe a Hans Staden.

  12. Eduardo Araújo

    Cara Sue (Assunção),

    O esfolamento era o clímax das homenagens a Xipe Totec, cognominado O Senhor Esfolado.

    Pelo que pude apreender, era um ritual que evocava, ironicamente, o renascimento da vida na primavera (a esposa de Xipe era Toci, deusa da primavera).

    Os sacrifícios em devoção de Huitzilopochtli (O Colibri Azul) e Tlaloc (deus asteca da chuva) é que consistiam na tradicional extirpação do coração do alto do Grande Templo, quando o sacerdote, por meio de três golpes, extraía o órgão e o jogava em um braseiro.

    Esse tipo de sacrifício assemelhava-se ao dos maias, em honra de Kukulkan (A Serpente Emplumada, o Quetzalcoatl asteca) e de Chac (deus maia da chuva). A propósito, assisti ao filme Apocalypto, de Mel Gibson, ambientado na última fase maia, a de Yucatan-Cozumel, já decadente e, diversamente do que se pensa e comenta sobre eventuais falhas históricas, o filme foi perfeito na reconstituição do passado. Interessante que a única falha, mais ou menos grave, do filme é a cena da Lua no céu alto na noite do mesmo dia em que ocorrera o eclipse solar.

  13. sheyck

    Senhor Eduardo Araújo,
    Parabéns pela aula que deu no tal Starkov, que quis dar uma de engraçadinho e saiu-se muito mal.
    A propósito, basta assistir ao filme Apocalipto, de Mel Gibson, para vermos que horror era a vida dos ameríndios antes da chegada dos espanhóis. Só por acabarem com aqueles gigantescos e satânicos sacrifícios humanos os portugueses e espanhóis fizeram um bem de valor superior a todo o ouro que existia e que por acaso ainda exista nessas paragens.
    Um abraço.

  14. Assunção Medeiros

    Eduardo,

    Obrigada pela explicação. Me era familiar o tipo de sacrifício humano com a tirada do coraçào do peito aberto da vítima. Desconhecia o deus citado por você, mas também pouco sei destas culturas.

    Já li estudos que falavam em auto imolação de reis, na Índia, para trazer fertilidade. É realmente um pensamento mágico que tenta fazer o paralelo da força vital com a fertilidade da terra.

    Uma pessoa se auto-imolar para melhorar o plantio já me causa tristeza, mas o uso de prisioneiros para serem imolados de forma tão brutal mostra que era cômodo para a sociedade poupar suas mulheres do que eles sabiam ser uma morte horrível fazendo uso de quem nada podia fazer a respeito.

    Ruim, muito ruim.

    Sue

  15. William Murat

    Caro Eduardo Araújo:

    Excelente tua postagem! Aprendi um monte! :-)

    Pena que bem poucos hoje em dia estão dispostos a dizer as verdades que vc tão claramente nos trouxe.

    []´s

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  17. Lampedusa

    Não conheço bem a história de São Francisco Xavier, mas ele destruiu imagens de ídolos na Indonésia contra a vontade de seus proprietários?

    Eu achava que não, mas não tenho outras fontes sobre isso.

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  19. dom gabriel

    assisti ao filme Apocalipto e estou de acordo com o que mel gibson mostrou. a maioria dos indios pre-colombianos praticavam horríveis sacrificios humanos com crianças, homens, mulheres, velhos, escravizavam, faziam guerras entre si e outras barbaridades. A América não era bem um paraiso como muitos acham. Ainda temos aquela visão romântica dos indios, de que eles são eternos coitadinhos. Mel Gibson foi muito criticado pela mídia, disseram que ele não conhecia nada da civilização maia, que os maias não eram tão ruins assim, que os maias eram um povo pacífico e que não praticavam sacrifícios humanos, que apenas os astecas faziam tal prática. O filme é maravilhoso e em nenhum momento vi violência gratuita como em filmes de Sexta feira 13 e Halloween. Aquilo realmente acontecia e os próprios mexicanos têm de adimitir isso, mesmo que isso fira seu imenso orgulho de suas grandes civizações. Todos aqueles lindos templos e piramides não passavam de templos de morte, eles eram todos sujos de sangue e cheiravam a sangue, isso tem de ser adimitido doa a quem doer. O povo vivia em casebres de palhas e os reis e sacerdotes viviam numa boa com tudo do bom e do melhor em seus imensos palácios de cantaria. A essencia do filme não era mostrar mortes e jorro de sangue e sim a superação de um sentimento muito forte que há em nós: o medo. Essa é a essência de todo filme e poucas pessoas entenderam isso. Quanto às civilizações pré-colombianas sinto muita tristeza em saber que foram quase que aniquiladas, tanto o povo quanto a cultura, muitos inocentes foram mortos, pouco restou principalmente da cultura. Os espanhóis tambem agiram como selvagens e foram piores que os indios pois já possuiam mais conhecimento cultural e “religioso” e se deixaram levar pela ganancia, perversidade, sadismo(sim sadismo), ambição sem medida, ódio religioso e bandidagem. O pior de todos foi a Igreja Católica que era a intituição política-religiosa mais poderosa e influente da época e fechou os olhos e ouvidos diante desse genocídio, apenas se preocupando com seus lucros, ouro, prata, e novos súditos que poderia conseguir no novo mundo.

  20. Sidnei

    Dom Gabriel começou bem mas derrapou e foi com o traze iro ao chão bem no finalzinho quanto escreveu: “O pior de todos foi a Igreja Católica que era a intituição política-religiosa mais poderosa e influente da época e fechou os olhos e ouvidos diante desse genocídio, apenas se preocupando com seus lucros, ouro, prata, e novos súditos que poderia conseguir no novo mundo.”, por favor, só peço que conheça a vida de São Turíbio de Mongrovejo para ver como a Igreja Católica não foi tão conivente com os massacres contra os povos indígenas na America, como aqui no Brasil tivemos o Pe. Antonio Vieria e os jusuitas que foram os que mais defenderam os indígenas das atrocidades dos colonos espanhóis e portugueses,e outros tantos exemplo que se espalharam em tona a América Latina.

  21. Sidnei

    Também no link: http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/category/escravidao/, o Professor Filipe Aquino traz uma matéria sobre: “A Igreja não acreditava que o escravo tivesse alma?”, que fala sobre a escravidão não só dos negros como dos indígenas e dos escravos em geral, e demonstra mais um exemplo de como a Igreja Católica julgava a condição dos povos indígenas em frete aos abusos cometidos pelos colonos europeus (espanhóis e portugueses) quando cita Frei Bartolomeu de las Casas e o Papa Paulo III, o que demonstra mais uma vez o quanto estão enganados aqueles que acusam a Igreja Católica de ser coniventes com os abusos cometidos pelos colonos europeus contra os povos indígenas da América.

  22. Carlos

    Caro Lampedusa,
    Já li uma boa biografia de São Francisco Xavier (Daurignac) e não me lembro dessa informação de que ele tenha destruído ídolos na Indonésia. Como ele converteu centenas de milhares de pessoas naquelas regiões, é possível que os próprios nativos tenham destruído os ídolos após a conversão (talvez até sob as ordens do Grande Apóstolo do Oriente).
    Para povos convertidos ao cristianismo, nada mais natural que destruir os ídolos, já que todos eles são demônios.
    Um abraço.
    Carlos.

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