Sete Dores de Nossa Senhora

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Na festa das Sete Dores da Bem-Aventurada Virgem Maria, vale a pena conhecer este Setenário das Dores de Nossa Senhora, escrito por Alphonsus de Guimaraens. São sete sonetos para cada uma das sete dores. Reproduzo aqui sete deles, um para cada uma das dores da Virgem Santíssima, escolhidos simplesmente por ser forçoso escolher: vale a pena a leitura da obra completa.

Nossa Senhora das Dores, rogai por nós!

PRIMEIRA DOR

Et tuam ipsius animam pertransibit gladius…
S. LUC. II, 35.

Que lhe importavam lágrimas? Chorasse
Desde o nascer do sol até o sol posto;
Tivesse prantos quando a lua nasce,
Quando, entre nuvens, ela esconde o rosto.

Junto ao seu Berço, a contemplar-lhe a Face,
De Mãe Divina no sublime posto,
Temendo que uma estrela O despertasse,
Gozo teria no maior desgosto.

Por Ele toda a mágoa sofreria…
Ah! corresse-lhe em fonte ardente o pranto
Na paz da noite e nos clarões do dia.

Sofrer por Ele… Sim. Tudo por Esse
A quem beijava os Olhos, mas contanto
Que Ele, o seu Filho amado, não sofresse!

* * *

SEGUNDA DOR

…Angelus Domini apparuit in somnis Joseph…
Qui consurgens accepit puerum et matrem ejus
nocte, et seccessit in Aegyptum.
S. MATTH. II, 13, 14.

José, filho de Reis, o Carpinteiro
Descendente da Casa do Salmista,
Acorda em plena noite, e o corpo inteiro
Treme-lhe, e um raio lhe perturba a vista.

Alvo Kerub ideal, de olhar guerreiro,
Com uns heráldicos sables de conquista,
Surge por entre nimbos, e o nevoeiro
Que faz a grande luz à treva mista.

Num pantaclo estelar estava escrito:
“Ele é o Filho de Deus. Acolhe-o, Esposo,
Ao solo ardente do abrasado Egito.”

“Meu Deus!” exclama o Santo, e mudo espia
A áurea face do Arcanjo luminoso:
Uma fonte de lágrimas corria.

* * *

TERCEIRA DOR

Fili, quid fecisti nobis sic? Ecce pater tuus et
ego dolentes quaerebamus te.

S. LUC. II, 48.

Foi por aquelas ruas circulares
Que O perdeste, Senhora, e que O não viste,
Sorrindo sob a luz dos seus olhares,
Ele, o Cordeiro amargurado e triste…

Quem pudera chorar os teus pesares,
Quem, na angústia a que o peito não resiste,
Te guiara em via-sacra pelos lares,
Sentindo toda a mágoa que sentiste!

Três dias procuraste, em mágoa imensa,
Sofrendo a multidão dos hebreus rudes,
Do Filho eterno a celestial Presença…

(Fé, Esperança, Caridade, hinário
De alívio à Mãe aflita, áureas Virtudes
Que haveis de segui-la até o Calvário!)

* * *

QUARTA DOR

Et bajulans sibi crucem, exivit in eum qui
dicitur Calvariae locum…

S. JOAN. XIX, 17.

Pontius Pilatus olha-O. Quieto e fundo
Olhar mau que talvez de ódio não fosse;
De ódio, não, mas de dúvidas fecundo…
E Cristo era de pé, sereno e doce.

Depois, aquele olhar, que de profundo
Se fizera de escárnio, iluminou-se:
— “És o Rei dos Judeus?” Que deste mundo
O seu Reino não era. E a Voz calou-se.

— “És Rei?” — “Disseste-o”. E a multidão oprime
A Pilatus. No entanto para a turba
Ele fala: — “Não lhe acho nenhum crime.

“Ei-los, Jesus e Barabás precito:
Qual à morte votais?” (A dor pertuba
O Céu de amplo clamor…) — “Jesus”! foi dito.

* * *

QUINTA DOR

Ubi crucifixerunt eum, et cum eo alios duos
hinc et hinc, medium autem Jesum.

S. JOAN. XIX, 18.

Vê-Lo não vos bastava, doce Dama,
Longe dos vossos maternais carinhos;
Sentir que a plebe vil, que ruge e clama,
Viesse em fúria assaltá-Lo nos caminhos:

Escarros que tombavam como lama
Sobre Quem é mais alvo que os arminhos:
E a Fronte real, em radiações de flama,
Cingida pelas pontas dos Espinhos:

Açoites, bofetadas, Cravos, Chagas,
E a Esponja, e a Lança, e o Fel, e a Sede estranha,
E o Sangue santo que corria em bagas:

Tudo era pouco para as vossas Dores…
Que ainda havíeis de vê-Lo na Montanha,
Expirando entre dois salteadores!

* * *

SEXTA DOR

Joseph autem mercatus sindonem, et deponens
eum involvit sindone…

S. MARC. XV,46.

Ora José de Arimatéia viera
Tomar o Corpo de Jesus. Mais cedo
Nicodemos no Gólgota estivera,
E com mirra voltara. E tinham medo.

Pois cada um destes homens puros era
Do bom Senhor discípulo em segredo,
Por temor dos judeus. Logo o soubera
O Sinedrim judaico, injusto e tredo.

Junto ao lugar do Sacrifício, um horto
Havia, e nele um monumento aberto
Onde nunca pousara nenhum morto.

Sepultaram-No, e a lápide fechou-se.
Viu-se depois o túmulo deserto:
Voara ao Céu Quem o Céu consigo trouxe.

* * *

SÉTIMA DOR

… et posuit eum in monumento quod erat
excisum de petra.

S. MARC. XV,46.

Entorna sobre mim as soberanas
Inspirações que brotam dos Altares,
Oh carisma de amor que tudo irmanas,
Serva de Deus, Esposa dos Cantares.

São matinas e vésperas… Hosanas
E aleluias a ti por sobre os mares,
A ti, branca açucena que dimanas
Dos celestes jardins que não têm pares.

Aleluias a ti por sobre a terra:
O espírito do mal, imundo e sevo,
Como um fluido incoercível, nos aterra…

Ah! Senhora, que sempre tu me prezes
Como a um filho: eis a prece que te elevo
Em meio ao temporal dos meus reveses.

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2 thoughts on “Sete Dores de Nossa Senhora

  1. Danilo Badaró

    Prezado Jorge Ferraz, obrigado por essa postagem. Inspirado por ela, acabei de colocar uma matéria no Família de Nazaré. Nessa matéria, coloquei um link para o seu site e um agradecimento público a você.

  2. Jorge Ferraz

    Caríssimo Danilo,

    Eu é que agradeço pela gentileza, e fico feliz em saber que gostaste da meditação – cujo mérito, aliás, não é meu, dado que os poemas são de Alphonsus de Guimaraens.

    Que seja em nosso favor a Virgem Dolorosa.

    Abraços,
    Jorge