A cultura atéia

[Texto anterior: O nascimento de um ateu]

A cultura atéia

Sem pretensão de oferecer uma análise exaustiva da descristianização da nossa cultura, aponto três aspectos dela em particular que, no meu entender, muito colaboram para a proliferação dos ateus no mundo contemporâneo: os ataques à Igreja Católica, o desprezo da boa filosofia e o crescente progresso científico dos últimos séculos.

A Igreja Católica é a Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, é – fora de quaisquer dúvidas – a maior e mais eloqüente testemunha de que existe, indubitavelmente, um Deus que Se deixa alcançar pelos seres humanos por Ele criados. Lembro-me de que, há alguns anos, um amigo meu – católico convicto, convertido do protestantismo – disse que, caso a Igreja Católica não fosse verdadeira, ele seria ateu, porque então nada existiria. Há muito de verdade nesta frase, porque a Igreja reúne em Si a totalidade de tudo aquilo que é verdadeiramente espiritual; ora, se até mesmo a Igreja Católica for falsa, então todo o resto é também falso. A Igreja é o verdadeiro alvo das campanhas que tentam banir Deus da nossa cultura, exatamente porque os que fazem isso sabem perfeitamente que, caindo a Igreja, cai toda a religião – dado que em todas as demais religiões nada existe de verdadeiro que não pertença, por direito, à Igreja Católica e Apostólica.

A mais eficaz maneira de conduzir as pessoas ao ateísmo é, portanto, desacreditar a Igreja Católica, maior prova da existência de Deus que pode ser encontrada no mundo visível, dado que é obra fundada pelo próprio Deus. É por isso que, num mundo onde o catolicismo é menosprezado, onde os mais variados rótulos odiosos são aplicados à Igreja, onde Ela é alvo constante de um tão grande número de ataques que se torna tremendamente difícil encontrá-La por debaixo da poeira levantada pelos projéteis contra Ela atirados, o ateísmo pode crescer. Se a Igreja é falsa, tudo o mais é falso: os ataques à Igreja fornecem, portanto, excelente matéria-prima para o nascimento dos ateus.

O desprezo à boa filosofia vem engrossar as fileiras dos que militam pela descristianização da cultura ocidental. Também aqui não tenho tempo e nem tampouco competência para uma análise profunda, mas desejo apenas dar uma pincelada sobre o assunto: é francamente de se espantar o desdém que a nossa cultura nutre pela metafísica, como se fosse coisa de pouca monta, ou como se se resumisse a devaneios de desocupados, ou como se estivesse no campo das meras opiniões particulares! Como se as grandes mentes da humanidade que ao longo dos séculos se tivessem debruçado sobre estes problemas tivessem apenas desperdiçado tempo e energia.

Quando acontece de alguém ler, p.ex., as Cinco Vias de Santo Tomás de Aquino e pretender ser capaz de “refutá-las” com meia dúzia de argumentos simplórios (como se ninguém tivesse sido capaz de pensá-los até o século XX!), uma pessoa dessas certamente não entende o que está em discussão. Ou ela não sabe a quê se propõe a metafísica – que não é a mesma coisa de um experimento de laboratório, vale salientar – ou não lhe concede valor. Tomemos um exemplo da primeira opção: demonstra-se a existência de um Criador a partir das coisas criadas. Quando se percorre a seqüência até o fim e se chega ao Não-Criado, e um dos “refutadores” de Santo Tomás aplica a Navalha de Ockham (!) para “eliminar um passo” e dizer que o próprio Universo [p.ex.] pode ser incriado… o que dizer? É óbvio que o Universo não pode ser “incriado”, não pode ser o Primeiro Motor Imóvel simplesmente porque… ele (é empiricamente constatável) se move, se transforma, é contingente! Se uma pessoa não percebe isso, então ela não entende o que está discutindo. Aristóteles e Santo Tomás revirar-se-iam no túmulo caso vissem a qualidade dos “filósofos” que os desafiam!

Pode-se também não conceder valor à metafísica por achar que todo conhecimento digno deste nome é o dito “científico”. A única realidade existente – ou pelo menos a única digna de atenção – seria aquela mensurável em laboratório e reprodutível in vitro. Tal ilusão é fruto do deslumbramento provocado pelo progresso da ciência e pelos benefícios dele advindos. Não que o progresso em si seja uma coisa ruim – de modo algum, é excelente. Mas a má-formação filosófica das pessoas, como foi dito acima, faz com que elas passem a idolatrá-lo! E isso, sim, é inaceitável. É como se elas ouvissem: “ouve, ó século XX! A Ciência é o único conhecimento, e fora d’Ela não há nenhum outro”. Comportam-se, então, como sacerdotes de um novo culto intolerante, e não aceitam que haja mais nada para além dos limites da Deusa-Ciência. A caricatura não é exagerada, pois muitos comportam-se [à parte a terminologia] exatamente assim.

Eis, pois, em linhas gerais (mais não exaustivas), a cultura que propicia e enseja o surgimento de ateus: privados da Igreja Católica, amputados da sã filosofia e deslumbrados com os avanços da ciência, os homens findam por cair na descrença. O progresso científico provocou um terrível fascínio nas almas daqueles que não conseguiam mais enxergar a Verdadeira Igreja nem sabiam mais a arte do bom pensar, fascínio semelhante àquele que os fenômenos naturais provocavam nos povos primitivos: um e outro degenerou em uma crença irracional.

Ao me referir ao ateísmo falo em “crença”, sim, porque existe uma passagem nada sutil entre o agnosticismo e o ateísmo, mas que no entanto quase todo mundo realiza sem lhe dar a menor importância. É sobre ela que pretendo falar um pouco agora.

9 comentários em “A cultura atéia”

  1. Jorge

    Concordo plenamente com o que escreveu. Estou no último ano de filosofia e comprovo na pele diariamente isso.

    O mais incrível é quando em um debate você consegue apresentar provas na CIÊNCIA para argumentar princípios da Igreja… Os agnósticos, ateus partem para “uma guerra” onde culpam ou “mascaram suas consciências” na miserabilidade do mundo ou no Papa, principalmente quando o assunto em pauta é a contracepção. Quando me chamam para um debate desse porte eu já sei exatamente o que vai acontecer…

    Estudar filosofia meu amigo é algo que pode abrir horizontes. Ontem conversei longamente com meu diretor espiritual (fiquei ajoelhada no confessionário por quase 1 hora) e por várias vezes cheguei a chorar justamente pelo fato de muitos não conseguirem enxergar a Igreja sob a ótica que nós, católicos, conseguimos ver.

    Estou fazendo meu TCC em Nietzsche e isso em nada mudou minha fé, só acrescentou, incrível ontem saber o que meu diretor achou disso! Incrível saber e o estudar que amplifica a inteligência de tal forma que quanto mais você estuda menor você se sente diante tamanha grandeza de um CRiador tão perfeito.

    Incrível saber o quanto o saber pode nos salvar e nos libertar… O quanto tudo isso nos tira das amarras da alienação e muitas vezes quando ouço umas bobagens imagino o quanto os primeiros filósofos que já não tinham mais um caráter mítico. Os jônios… Eles (que nem cristianismo existia em suas épocas) já concebiam um Deus criador e de suas observações e especulações originou toda a filosofia e a ciência que temos HOJE!

    Jorge… Estou a disposição no que eu puder ou souber ajudar… conte comigo…

    A Igreja é maravilhosa e Bento XVI a meu ver (sem desmerecer os outros é claro) é o Papa que mais amo e a mente mais brilhante deste século… Queria que vocês o vissem desta maneira… Filosóficamente então… Ele para mim além de ser um livre pensador é o meu filósofo predileto.

    Grande abraço.

    Chris

  2. “A Igreja é o verdadeiro alvo das campanhas que tentam banir Deus da nossa cultura, exatamente porque os que fazem isso sabem perfeitamente que, caindo a Igreja, cai toda a religião – dado que em todas as demais religiões nada existe de verdadeiro que não pertença, por direito, à Igreja Católica e Apostólica.”

    vaidade é um pecado capital, Jorge. o que “por direito” pertence à Igreja foi devidamente surrupiado de diversas crenças anteriores, então pode largar dessa falsa modéstia e convencimento católicos.

  3. “A Igreja é o verdadeiro alvo das campanhas que tentam banir Deus da nossa cultura, exatamente porque os que fazem isso sabem perfeitamente que, caindo a Igreja, cai toda a religião – dado que em todas as demais religiões nada existe de verdadeiro que não pertença, por direito, à Igreja Católica e Apostólica.”
     
    QQ a icar tem a ver com hinduismo, taoismo, budismo, wicca, religiões africanas??? Ou essa é a velha maxima ridicula de “minha religião é a verdadeira, o resto é mentira”??? se for, você realmente, é tão ateu quanto eu, o detalhe é que eu acredito em um deus a menos que você, e você só vai se dar conta do porque disso, quando entender pq não acredita em nenhuma otura religião que não a sua!

  4. E claro vocês sempre são os alvos o povo e mais ateu e o catoliscismo nunc fez nada de errado sempre foi massacrado pelos ateistas é tal….sinceramente não sem como eu tive paciencia em ler tal coisa

  5. Jorge, percebi nas leituras sobre história em geral, sobre história da Igreja que crises de fé são contemporâneas de crises no clero. Todas as crises que houveram crises de fé, foram, senão causadas, suportadas e alavancadas por um clero desviado ou mal formado. Hoje acho que é o mesmo. Você enumera 3 causas mas elas me parecem tanto mais CAUSAS quanto o clero permite. Hoje chegamos a nos espantar ao ouvir um sermão decente, que vem, na maioria esmagadora das vezes de padres jovens. No Brasil a TL destruiu e, com cada vez menos força, vem destruindo parcela importante do clero e enfraquecendo a Igreja desde dentro.

  6. Jorge Ferraz escreveu: “A Igreja é o verdadeiro alvo das campanhas que tentam banir Deus da nossa cultura, exatamente porque os que fazem isso sabem perfeitamente que, caindo a Igreja, cai toda a religião – dado que em todas as demais religiões nada existe de verdadeiro que não pertença, por direito, à Igreja Católica e Apostólica.”

    E muita gente o criticou…

    roberto quintas o acusou de vaidade e falsa modéstia. E em outras palavras também disse que a Igreja Católica reuniu crenças que já existiam.

    fuinharlz, ao contrário do roberto, parece que não viu semelhança entre ensinamentos católicos e ensinamentos de religiões como o hinduísmo, o taoismo, o budismo, a wicca; e fazendo crítica fez referência a uma tal “velha máxima ridícula”: “minha religião é a verdadeira, o resto é mentira”.

    Quem desejar entender o que Jorge Ferraz desejou expressar pode pesquisar (com seriedade, aprofundando-se) sobre como a Igreja Católica vem conduzindo o diálogo inter-religioso. Pode-se “começar” procurando entender a noção de “sementes de verdade”.

    Só para dar uma brevíssima noção:

    Google -> site:vatican.va “sementes de verdade”

  7. Eu: “E muita gente o criticou…”

    Fui infeliz aqui. Visivelmente, aqui nos comentários do post, apenas “duas” pessoas criticaram Jorge, até agora. Deslize tolinho. Mas antes que alguém usasse ele para ofuscar a idéia do meu comentário, estou corrigindo.

  8. Redx9
    Disse você:
    “E claro vocês sempre são os alvos o povo e mais ateu e o catoliscismo nunc fez nada de errado sempre foi massacrado pelos ateistas é tal….sinceramente não sem como eu tive paciencia em ler tal coisa”

    Mas tá na cara que você não leu nada!
    Porque você não sabe escrever, tá provado pelo seu texto. E se não sabe escrever, é claro que não sabe ler. Volte à cartilha, garoto!

    Carlos.

Os comentários estão fechados.