Hereges, Cismáticos e Concílios Ecumênicos

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 2 meses 14 dias atrás.

Motivado por alguns comentários surgidos em outro post no qual eu falava sobre um convite feito a uma cantora protestante, por um grupo carismático [que, repito, não tenho certeza se se trata de um grupo da Renovação Carismática Católica],  para que participasse de um “culto de louvor e adoração” , trago aqui algumas considerações sobre a presença de não-católicos nos Concílios Ecumênicos ao longo da história da Igreja. Vou fazer algumas citações do livro do pe. Ralph Wiltgen, “O Reno se lança no Tibre”, disponível em língua portuguesa pela Permanência.

Os Concílios Ecumênicos sempre foram vistos como oportunidades de fazer com que os cristãos que se houvessem desviado da Fé retornassem ao seio da Igreja. Por isso, a presença de não-católicos às sessões conciliares sempre foi (ao menos) desejada por todos os Papas e Padres Conciliares, inclusive com o envio de convites expressos às igrejas separadas para que mandassem delegações aos Concílios. No Concílio de Trento, por exemplo, a Enciclopédia Católica nos diz que foram emitidos até mesmo salvo-condutos para garantir a segurança dos protestantes que desejassem participar do Concílio. Uma tradução de um decreto neste sentido está disponível no Veritatis (não vou citar na íntegra, mas recomendo vivamente a leitura):

O Sacrossanto, Ecumênico e Geral Concílio de Trento, reunido legitimamente no Espírito Santo, e presidido pelos mesmos Legados e Núncios da Santa Sé Apostólica, insistindo no salvo-conduto concedido na penúltima Sessão, amplia suas prerrogativas nos termos que se seguem:

A todos em geral faz fé que pelo teor das presentes cláusulas, dá e concede plenamente a todos e a cada um dos Sacerdotes, Eleitores, Príncipes, Duques, Marqueses, Condes, Barões, Nobres, Militares, Cidadãos e a quaisquer outras pessoas de qualquer estado, condição ou qualidade, que sejam da Nação e Província da Alemanha e das cidades e outros lugares da mesma, assim como a todas as demais pessoas eclesiásticas e seculares em especial da revelação de augusta, os que, ou as que viriam com eles a este Concílio Geral de Trento, ou serão enviados ou se colocarão a caminho, ou que até o presente tenham vindo sob qualquer nome que lhes sejam dados, ou lhes sejam especificados, fé pública e plena e verdadeira segurança que chamam salvo-conduto, para vir livremente a esta cidade de Trento e permanecer nela, ficar, habitar, propor e falar de comum acordo com o mesmo Concílio, tratar de quaisquer negócios, examinar, discutir e representar sem nenhuma punição tudo o que quiserem e quaisquer dos artigos, tanto por escrito como por palavra, divulgá-los, e em caso necessário, declará-los, confirmá-los e compará-los com a Sagrada Escritura, com as palavras dos santos Padres e com sentenças e razões, e de responder também, se for necessário, as objeções do Concílio Geral e disputar cristãmente com as pessoas que o concílio indique ou conferenciar caritativamente sem nenhum obstáculo (…).

[…]

E este mesmo salvo-conduto e seguros devem durar e subsistir desde o início e por todo o tempo que o Concílio e seus componentes os recebam sob seu amparo e defesa, e até que sejam conduzidos a Trento e por todo o tempo que se mantenham nesta cidade, e também, depois de ter passado vinte dias desde que tenham suficiente audiência, quando eles pretendam retirar-se, ou o Concílio, depois de os ter escutado, os intime para que se retirem, os fará conduzir com o favor de Deus, longe de toda a fraude e dolo, até que o lugar que cada um escolha e tenha por seguro.

Aliás, é bom frisar que a publicação de alguns decretos que estava marcada para esta sessão foi adiada em atenção ao pedido dos protestantes que ainda não haviam chegado:

[T]endo além disso acreditado que viriam a este Sacrossanto Concílio os que se chamam Protestantes, (…) e como no entanto, não chegaram até o presente momento, e como tenham suplicado em seu nome, a este Santo Concílio que se espere até a próxima Sessão a publicação que deveria ser feita hoje, confirmando que certamente viriam sem falta, (…) transferiu à Sessão seguinte, para trazer à luz e publicar os pontos acima mencionados, no dia da festa de São José, que será em 19 de março, com aqueles que não somente tenham tempo e lugar bastante para vir, mas também para trazer propostas antes do dia marcado.

Pois bem. O pe. Ralph, no livro citado acima, diz o seguinte no capítulo sobre os observadores-delegados e convidados ao Concílio Vaticano II:

Em 8 de setembro de 1868, quinze meses antes da abertura do primeiro Concílio do Vaticano, Pio IX dirigiu a todos os patriarcas e bispos da Igreja Ortodoxa uma Carta Apostólica convidando-os a pôr fim ao estado de separação. Se o aceitassem, teriam no Concílio os mesmos direitos de todos os outros bispos, uma vez que a Igreja Católica considera válida sua sagração. Se não, eles teriam, como no Concílio de Florença em 1439, a possibilidade de tomar parte nas Comissões conciliares compostas de bispos e teólogos católicos, para discutir os assuntos do Concílio. Mas o texto da carta foi considerado ofensivo pelos patriarcas e bispos.

[Wiltgen, Ralph M., “O Reno se lança no Tibre: o Concílio Desconhecido”, p. 124. Ed. Permanência, Niterói, RJ, 2007]

Recapitulando: o Concílio de Trento convidou protestantes, e ainda lhes concedeu um salvo-conduto para que transitassem com segurança por terras católicas. O Papa Pio IX convidou ortodoxos para o Concílio Vaticano I, garantindo-lhes a possibilidade de tomar parte nas Comissões conciliares e discutir os assuntos do Concílio. O mesmo aconteceu no Concílio de Florença. Portanto, a presença de hereges e cismáticos nos Concílios Ecumênicos – ou, ao menos, o convite feito por Roma, dado que eles nem sempre aceitaram – sempre existiu na história da Igreja.

Com qual objetivo? O de convertê-los a Fé Verdadeira, é óbvio. O de discutir francamente com eles, mostrando-lhes a Verdade Católica e o erro no qual eles incorrem ao se separarem da Igreja de Jesus Cristo. O de permiti-los acompanhar de perto os trabalhos conciliares, a fim de que se impregnem da Doutrina Católica e possam, quiçá, ser tocados pela graça de Deus e abjurarem os seus erros. A presença de hereges e cismáticos, portanto, em Concílios Ecumênicos, não deveria escandalizar ninguém.

No Concílio Vaticano II foi feito o mesmo convite. Hereges e cismáticos participaram das sessões conciliares. Participaram, no entanto, como hereges e cismáticos – ou como “irmãos separados”, na linguagem conciliar -, podendo assistir às sessões, podendo (talvez) discutir nas comissões (como no Vaticano I e no Concílio de Florença), mas sem direito a voto, óbvio, porque não fazem parte da Igreja. Aliás, não sei nem mesmo se eles tinham direito a fazer intervenções nas Aulas Conciliares.

Ao Vaticano II fizeram-se presente diversas delegações de não-católicos. Para que isso fosse possível, ajudou o clima mundial à época da convocação do Concílio Ecumênico; permito-me citar de novo o pe. Ralph, porque ele traz uma informação muito interessante sobre este assunto (grifos meus):

O clima religioso do mundo na época de João XXIII era bem diferente do clima dos tempos de Pio IX. Desde então, o movimento ecumênico em favor da unidade dos cristãos tinha se implantado solidamente em todas as comunidades cristãs.

Numerosos fatores haviam contribuído para a expansão deste movimento verdadeiramente providencial. O primeiro era a investigação bíblica que tinha aproximado eruditos católicos, protestantes, anglicanos e ortodoxos. O segundo era a existência do Conselho Ecumênico das Igrejas, fundado precisamente para promover a união dos cristãos em todos os domínios possíveis, e que em menos de trinta anos tinha visto sua composição ultrapassar 214 igrejas-membros de pleno direito e 8 membros associados – igrejas protestantes, anglicanas, ortodoxas e velho-católicas. Enfim, a ameaça neo-pagã do nazismo na Europa durante a II Guerra Mundial tinha unido, na defesa da religião, católicos e cristãos de todas as denominações, o que explica que o movimento ecumênico tenha primeiro se manifestado na Alemanha, na França e nos Países Baixos. Entre os chefes mais ativos do ecumenismo católico figuravam jesuítas e dominicanos.

Os primeiros sucessos alcançados nesses três países receberam novo alento quando o Santo Ofício publicou, em 20 de dezembro de 1949, sua longa “Instrução sobre o movimento ecumênico”. Esta “instrução” convidava insistentemente os bispos do mundo inteiro “não somente a vigiar com cuidado e diligência todas as atividades deste movimento, mas também promovê-las e dirigi-las prudentemente, para que aqueles que estão em busca da verdade e da verdadeira Igreja possam ser ajudados, e para que os fiéis fossem prevenidos contra os perigos que corriam tão facilmente ao promoverem tais atividades”.

[op. cit., pp 124-125]

Havia, portanto, uma instrução do Santo Ofício, pré-conciliar (de 1949, 13 anos antes de se iniciar o Vaticano II), convidando os bispos a promover e dirigir as atividades ecumênicas. Com qual objetivo? Obviamente, com o objetivo de fazer com que o movimento desse frutos verdadeiros e, ao invés de proporcionar um falso irenismo, fosse um instrumento eficaz para ajudar os hereges e cismáticos a encontrarem na única Igreja de Nosso Senhor a unidade que eles estavam buscando. Não vejo, portanto, justificativas para que o Vaticano II seja condenado por coisas que, antes dele, já faziam parte da Igreja, como o convite a hereges e cismáticos para que aprendam a Doutrina Católica nos Concílios Ecumênicos ou a promoção do ecumenismo para que ele sirva como meio de regresso dos sarmentos secos à Igreja de Nosso Senhor. Aos que diferenciam o “ecumenismo conciliar” do ecumenismo do Santo Ofício em 1949, precisariam provar as suas acusações de modo inequívoco. O mesmo vale aos que diferenciam a participação de protestantes e ortodoxos no Vaticano II daquela à qual hereges e cismáticos sempre foram convidados ao longo da história da Igreja.

Concluamos: os membros de outras religiões não estiveram no Concílio Vaticano II como “palpiteiros” para dizer como “deveria” ser a Doutrina Católica, pois esta é imutável e a Igreja o sabe muito bem. Foram, repito, os prelados católicos que votaram os documentos, não os observadores ortodoxos e protestantes. Estes, aliás, se é que chegaram a discutir nas comissões os assuntos do Concílio – coisa que eu não sei se aconteceu -, não fizeram nada diferente daquilo que Pio IX já havia proposto e, antes dele, o Concílio de Florença. Não existe nenhum motivo para se rasgar as vestes quanto a isso.

Não estou dizendo com isso que tudo está muito lindo e perfeito, e que os católicos hoje em dia vivem, via de regra, a mais pura expressão da Doutrina Católica, porque é claro que não vivem. É preciso fazer muita coisa, tanto para tentar descobrir o porquê do Concílio ter sido tão tremendamente distorcido, quanto para tentar propôr caminhos a serem seguidos pelos católicos; mas esse artigo já vai muito longo e eu vou deixar isso para uma outra oportunidade. Acredito que valha a pena, para finalizar, citar a intervenção feita às vésperas do fechamento do Concílio pelo chefe da delegação anglicana numa cerimônia realizada na Basílica de São Paulo Fora dos Muros para promover a unidade dos cristãos:

O Rev. Moorman, chefe da delegação anglicana, dirigiu-se ao Papa em nome dos observadores-delegados e dos convidados, cujo número atingira 103 componentes durante a quarta sessão. “Nenhuma vez sequer durante estes quatro anos”, disse, “sentimos que nossa presença incomodasse fosse a quem fosse. Ao contrário, sempre nos pareceu que ela havia contribuído, em vários aspectos, para o êxito do Concílio e da grande tarefa de reforma que ele empreendeu”. E acrescentou: “Nós acreditamos que passou o tempo do medo recíproco, do exclusivismo rígido, da suficiência arrogante. A estrada da unidade por certo será longa e difícil, mas Vossa Santidade sentirá talvez o conforto de saber que, pelo fato de nossa presença aqui na qualidade de observadores, terá a companhia de uma centena de homens (…) [reticências no original], que pelo mundo afora se esforçarão por levar às Igrejas alguma coisa do espírito de amizade e tolerância de que foram testemunhas em São Pedro. Nossa missão de observadores não terminou. Eu me refiro, caríssimo e santíssimo Padre, ao que vós pensais de nós, como amigos – como mensageiros – agora que cada um de nós retoma a própria estrada.

[op. cit., p. 285]

As besteiras teológicas proferidas pelo reverendo Moorman diante do Papa são da lavra dele, e não do Concílio. As mesmíssimas bobagens irenistas, aliás, multiplicam-se amiúde nos nossos dias, e é importante que elas sejam corrigidas. Seria ingenuidade – o próprio anglicano reconhece – achar que a unidade dos cristãos seria alcançada de outra maneira que não por uma estrada “longa e difícil”. O Vaticano II não se propôs a isso, e é aquele que falou ao Papa em nome dos observadores-delegados ao fim do Concílio que o atesta. Vale ainda destacar que o herege tem consciência de que o seu papel no Concílio é o de observador. E eu, particularmente, fico feliz em ver um herege anglicano chamando o Papa de “Vossa Santidade” e de “Santíssimo Padre”…

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39 thoughts on “Hereges, Cismáticos e Concílios Ecumênicos

  1. João de Barros

    Só um detalhe, sem importância.

    Nós católicos, ao citarmos a Bíblia, usamos vírgulas e não dois-pontos para separar o capítulo do versículo. Nós escrevemos “João 3, 16” e não “João 3:16”.

    Isso não tem relevância alguma, mas é hábito… ou pelo menos era.

  2. LUIS GONZALO

    TEM CATOLICOS FANATICOS,TEM PROTESTANTES FANATICOS,QUE MELHOR EXEMPLO QUE IRLANDA DO NORTE E DO SUL, QUANTA GENTE MORTA A TROCO DE QUE? YHWH E SO UM,PORQUE SERÁ QUE OS FANATICOS NÃO ATACAM OS MUSULMANOS? ELES NÃO DEFENDEM SUA IDEOLOGIA COM PALAVRAS OFENCIVAS MAS COM SANGRE,DESGRACIADAMENTE OS CRISTÃO,FICAM SE PREOCUPANDO COM COISAS QUE EM NADA AJUDAM A CRESER MAS SEM A DESTRUIR,A DESMORALISAR O SER HUMANO,Ê AQUELO QUE CRISTO NOS FALO “ TE PREOCUPAS COM A PALHA DO OLHO DO IRMÃO MAS NÃO ENXERGAS A TRAVESSA QUE TEM NO TEUS OLHOS.´´TODAS AS AGUAS VIAJAM PARA UM SO LUGAR,DO MESMO JEITO NOS,O SER HUMANO TEM OLHOS PARA VER MAS NÃO SABE “ENCHERGAR´´ TODOS TEM OUVIDOS PARA OUVIR MAS NÃO SABE “ESCUTAR´´TODOS TEM BOCA PARA FALAR MAS NÃO SABEM SE “COMUNICAR´´Ê AQUELO QUE YESHUA DIZ “ABA FICO MARAVILHADO COM FATO DE TU TER COLOCADO ESTA HERMOSURA NESTA MISERIA HUMANA´´ O AMOR DE YHWH Ê MUITO GRANDE POR SUA CREAÇÕA E ELA BRIGA COMO CACHORRO E GATO, Ê TRISTE,MAS Ê O SER HUMANO,SO ESPERO QUE UM DIA AS TEIAS CAIAM DOS OLHOS,E SAIVA ENCHERGAR A SUA REALIDADE..

  3. André Víctor

    Caríssimo Renato Lima!

    Parabéns!!! Só isso e mais nada!!!

    Já era apaixonado pela apologética Católica (por meio do qual sou hoje Católico e estou aqui!), e depois desta ‘manifestação’ vinda de sua parte: podes contar comigo, caríssimo, que estou contigo nesta ‘empreitada’. Avante!!!! DEUS LO VULT!!!

    Abraços e até mais ‘ver’.

    André Víctor

  4. Jorge Ferraz Post author

    Caríssimo Sandro,

    Acontece que a Unitatis Redintegratio faz expressa referência à Lumen Gentium logo no seu início e, portanto, não pode ela ser acusada de não fazer “nenhuma distinção entre os que erram de boa fé e os pertinazes”. O primeiro parágrado da UR diz: “[t]endo já declarado a doutrina sobre a Igreja (…)”; óbvio é, portanto, que é preciso considerar tudo o que é dito no decreto à luz do que já foi explicado sobre a Igreja na Lumen Gentium.

    Não é honesto interpretar o Concílio da mesma forma que os protestantes interpretam as Escrituras Sagradas, pinçando textos aqui e acolá e desprezando quer a integridade dos documentos, quer a interpretação do Magistério da Igreja.

    Se você disser que qualquer pessoa QUE NÃO CONHEÇA O CATOLICISMO vai entender bobagem caso leia somente a UR, eu concordo com você. Acontece que esta é uma forma errada de se aprender catolicismo, porque o Vaticano II [e menos ainda o decreto sobre o Ecumenismo] não pretende ser um catecismo de doutrina católica para iniciantes. Não é razoável exigir das coisas aquilo que elas não se propõem a oferecer.

    Quanto à UR, tu cometes ligeiras distorções no texto do Decreto que acabam por modificar o seu sentido. O decreto não diz que os protestantes “não tem culpa do pecado da separação”, e sim que “não podem ser acusados do pecado da separação” (cf. Unitatis Redintegratio, 3), e está se referindo não à culpa subjetiva do herege na adesão ao cisma, e sim ao cisma em si. Também não diz que os hereges e cismáticos “desenvolvem em suas comunidades realmente a vida da graça”, e sim que as “acções sagradas da religião cristã (…) PODEM realmente produzir a vida da graça” (cf. id. ibid.).

    Mas estamos perdendo o foco da questão. Este post é para mostrar que a presença de hereges e cismáticos nos Concílios Ecumênicos é praxis constante da Igreja e, portanto, o Vaticano II não pode ser honestamente condenado por causa disso, porque eles não fizeram, durante o Concílio, nada que não fosse permitido aos hereges e cismáticos fazerem em concílios anteriores. Ou fizeram?

    Quanto a Santo Agostinho, estou sinceramente em dúvidas sobre a tua explicação. O texto por mim citado [aliás, está na nota da própria UR] está disponível em latim aqui (mas especificamente, o ponto 29), e não me parece nada que o Doutor da Igreja esteja falando “sobre o primeiro momento do batismo, que se mantêm para as almas protestantes que não atingiram a idade da razão e para aqueles em ignorância invencível, não prevalecendo nos pertinazes”, e sim justamente sobre os hereges pertinazes (tanto que ele cita a parábola do Filho Pródigo, destacando as palavras do Pai: Frater tuus mortuus erat, et revixit; perierat, et inventus est; o Filho Pródigo não “deixou de ser irmão do irmão mais velho” por ter gastado o seu dinheiro com as prostitutas). Mas meu latim é pífio e posso estar entendendo errado. De onde tu tiraste a tua explicação?

    Abraços,
    Jorge

  5. Jorge Ferraz Post author

    Prezado Renato Lima,

    O roteiro apologético postado é excelente, e agradeço por o ter trazido. Só não posso concordar com a afirmação que consta logo no início, quando diz que o “que deixou a Igreja aberta aos saques do Protestantismo foi o Vaticano II”. Não, não foi isso – que mania de jogar a culpa de tudo nas costas do Concílio! -, e sim a crise de Fé que se precipitou sobre a Igreja nas últimas décadas [cujo nexo causal com o Concílio precisa ser inequivocamente provado, para que se possa sustentar opinião pública expressamente contrária ao Magistério da Igreja].

    Acho que faríamos maior bem promovendo mais a apologética católica e criticando menos o Magistério Autêntico.

    Abraços,
    Jorge

  6. Sandro de Pontes

    Prezado Jorge, salve Maria.

    Gosto de debater com você estas questões.
    Sei que o vosso tempo é raro (como também o meu), mas não posso deixar de comentar algumas coisas.
    Em primeiro lugar, penso que as correções feitas por você sobre aquilo que eu escrevi sobre a UR são apenas acidentais, em nada mudando o sentido daquilo que o documento quer transmitir.
    Com relação a Santo Agostinho, digo-lhe que é importante nós termos em mente que muitas das coisas que os santos nos ensinaram a Igreja adotou como doutrina. Outras coisas não. Chamar os não católicos de irmãos por causa do batismo não foi algo que a doutrina católica tenha assimilado da obra deste grande doutor, o que não diminui o seu ensinamento. Mas devemos nos aprofundar sobre o tema. Ah, e eu também jamais disse que chamar os não católicos de irmãos por causa do batismo seja uma expressão “herética e blasfema”, mas digo que é totalmente inadequada e fora da realidade atual levando em conta o contexto gerado a partir da reforma protestante (dez séculos depois de Santo Agostinho ter escrito o que escreveu) e também o fato da Igreja nunca os ter chamado e nem os tratado assim.
    E eu digo que Santo Agostinho se refere a este primeiro momento onde o batismo imprime o caráter na alma porque ele mesmo ensinou, como lhe mostrei, que não devemos nos unir aqueles que não guardam integralmente a fé católica. Logo, ele não poderia ter estas pessoas como irmãs.
    E finalizando, para não escrever demais (e eu sei que eu escrevo demais), o grande ponto que gostaria que você comentasse são:

    01) a suposta contradição apontada por mim entre a Lumen Gentium e a Unitatis Redintegratio, porque a LG diz aquilo que a Igreja Católica ensina neste numero 14 (embora outros trechos deste documento emitam noção herética da realidade da Igreja). Penso que você me faz uma concessão importante ao dizer que “qualquer pessoa que não conheça o catolicismo vai entender bobagem caso leia somente a UR, eu concordo com você”. Ora, prezado Jorge, mas me parece impossível um documento promulgado por um concilio da Igreja levar as pessoas a entenderem “bobagem”. Aonde você enxerga uma necessidade de juntar dois documentos (sendo que a Lumem Gentium não é nada ortodoxa) para correta hermenêutica, eu considero tática modernista para infiltrar erros no catolicismo, como foi muito bem dito pela Pascendi. E sustento isso com a letra da UR, que se lida a luz da LG 14 e da doutrina católica não se sustenta. Vejamos dois ensinamentos sobre isso:

    a) [A sacrossanta Igreja Romana(…)] crê firmemente e professa que “ninguém que não esteja dentro da Igreja Católica – não só pagãos, mas também judeus ou hereges e cismáticos – pode tornar-se participante da vida eterna, mas irá para o “fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25,41) a não ser que, antes da morte, se una a ela; e que é tão importante a unicidade do corpo da Igreja que só aos que nela permanecem lhe aproveitam, para a salvação, os sacramentos da Igreja e [lhes] dão prêmios eternos os jejuns, as esmolas e as demais obras de piedade e os exercícios do dever cristão. E que ninguém, POR MAIS ESMOLAS QUE DÊ, AINDA QUE DERRAME SEU SANGUE PELO NOME DE CRISTO, PODE SALVAR-SE se não permanecer no seio e na unidade da Igreja Católica. Bula Cantate Domino:

    b) Mirari Vos: “Outra causa que tem acarretado muitos dos males que afligem a Igreja é o indiferentismo, ou seja, aquela perversa teoria espalhada por toda a parte, graças aos enganos dos ímpios e que ensina poder-se conseguir a vida eterna em qualquer religião, contanto que se amolde à norma do reto e honesto. Podeis com facilidade, patentear à vossa grei esse erro tão execrável, dizendo o Apóstolo que há um só Deus, uma só fé e um só batismo (Ef. 4,5): entendam, portanto os que pensam poder-se ir de todas as partes ao Porto da Salvação que, segundo a sentença do Salvador, eles estão contra Cristo, já que não estão com Cristo(Luc. 11,23) e os que não colhem com Cristo dispersam miseravelmente, PELO QUE PERECERÃO INFALIVELMENTE OS QUE NÃO TIVEREM A FÉ CATÓLICA E NÃO A GUARDAREM ÍNTEGRA E SEM MANCHA(Simb. Sancti Athanasii).(…) Desta fonte lodosa do indiferentismo promana aquela sentença absurda e errônea, digo melhor disparate, que afirma e que defende a liberdade de consciência. Esse erro corrupto que abre alas, escudado na imoderada liberdade de opiniões que, para confusão das coisas sagradas e civis, se estende por toda parte, chegando a imprudência de alguém asseverar que dela resulta grande proveito para a causa da religião. Que morte pior há para a alma do que a liberdade do erro?, dizia Santo Agostinho (Ep. 166)”.

    Portanto, prezado, a luz destes dois textos e também da LG 14, é possível ainda defender os ensinamentos da UR?

    Abraços,
    Sandro de Pontes

  7. Sandro Pelegrineti de Pontes

    Jorge, salve Maria.

    Você também escreveu:

    “(…) a Unitatis Redintegratio faz expressa referência à Lumen Gentium logo no seu início”.

    Em minha opinião, o que é feito ali é uma referência tácita, mas não expressa.

    Abraços,

    Sandro

  8. Sandro Pelegrineti de Pontes

    Prezado Jorge, salve Maria.

    Você também escreveu:

    “(…) Este post é para mostrar que a presença de hereges e cismáticos nos Concílios Ecumênicos é praxis constante da Igreja e, portanto, o Vaticano II não pode ser honestamente condenado por causa disso, porque eles não fizeram, durante o Concílio, nada que não fosse permitido aos hereges e cismáticos fazerem em concílios anteriores. Ou fizeram?”.

    Realmente, as provas colocadas por você, ao meu ver, são irefutáveis. Parece-me certo, por tudo o que você colocou, que sempre foi praxe da Igreja convidar os protestantes com intuito de responder as suas perguntas e convertê-los. Penso que aqueles que criticam a presença de protestantes no concílio devem se aprofundar neste tema, porque esta presença é algo comum, pelas provas apresentadas por você.
    Simultaneamente parece-me certo também que o Vaticano II não promoveu a participação de acatólicos da mesma maneira que os concilios anteriores, convidando-os para “promover a unidade”, uma unidade mesmo sem a verdade, adotando para isso doutrinas condenadas pela Igreja no passado e práticas completamentes estranhas ao costume católico, que vale mais do que mil palavras. Eis o que São Tomás nos diz sobre isso:

    “O que possui a mais alta autoridade é o COSTUME DA IGREJA, que deve ser preferido a tudo o mais, pois a própria doutrina dos doutores católicos tira da Igreja a sua autoridade. Por onde, devemos nos apoiar, antes, na autoridade da Igreja do que na de Agostinho, de Jerônimo ou de qualquer outro doutor” 13. Summa Theologica, II-II, q. 10, a.12.

    E agora, prezado Jorge, veja o que nos ensinou o Papa Leão XIII em sua encíclica “Satis Cognitum”:

    “(…) Nada é mais perigoso do que os hereges que, enquanto conservam quase todo o remanescente do ensino da Igreja intacto, corrompem, com uma única palavra, como uma gota de veneno, a pureza e a simplicidade da fé que nós recebemos através da Tradição tanto de Deus quanto dos Apóstolos. Tal tem sido o COSTUME CONSTANTE da Igreja, apoiado pelo juízo unânime dos santos padres, que sempre tem tido por EXCLUIDO DA COMUNHÃO CATÓLICA E FORA DA IGREJA qualquer um que se separa NO MAIS MÍNIMO da doutrina ensinada pelo magistério autentico”.

    E aí, o que lhe parece? São Tomás fala que o que possui a “mais alta autoridade” é o Costume da Igreja, e Leão XIII vai dizer que este mesmíssimo costume constantemente tem por excluidos da comunhão católica e fora da Igreja aqueles que se separam dela.
    Dá para conciliar com a UR? Dá para conciliar isso com “comunhão imperfeita” ou com “estão no caminho da salvação”?
    Abraços,
    Sandro

  9. Teresa

    Jorge,
    como é que é possível que uma pessoa tão inteligente, com tantas capacidades intelectuais – de tão recta intenção como eu sei que vc tem – possa defender o Vaticano II?!

    Não me entra na cabeça…

    Um abraço,
    Salve Maria!