Mais sobre a comunhão na boca

closeAtenção, este artigo foi publicado 8 anos 24 dias atrás.

Sempre foi prática na Igreja que os fiéis recebessem a Sagrada Comunhão do sacerdote, e diretamente na boca. Por exemplo, o Concílio de Trento disse que “sempre foi costume na Igreja de Deus receberem os leigos a comunhão das mãos do sacerdote”, e que “se deve conservar este costume como proveniente da Tradição apostólica” (Trento, Seção XIII, Cap. 8). E Santo Tomás de Aquino chega a dizer que nada que não seja consagrado pode tocar na Santíssima Eucaristia, e é por isso que os vasos sagrados são consagrados, como consagradas são as mãos do Sacerdote (cf. Summa, IIIa, q. 82, a. 3).

A comunhão de joelhos e na boca tem um riquíssimo significado catequético: os leigos recebem dos Sacerdotes o Corpo de Deus, i.e., recebem-No da Igreja, e não O pegam por si próprios; recebem-No de joelhos, na adoração que é devida ao Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor. Há um bom artigo sobre isto no site do Reino da Virgem.

A história  da mudança deste costume chega a ser surreal e seria tomada por inverossímil caso não tivesse acontecido. A Memoriale Domini, a instrução da Sagrada Congregação para o Culto Divino que permite a comunhão na mão, faz uma belíssima defesa da comunhão na boca e de joelhos. Entre outras passagens, pode-se citar:

Esse método de distribuição da Santa Comunhão [de joelhos, na boca] deve ser conservado, levando-se em consideração a situação atual da Igreja em todo o mundo, não apenas porque possui por trás de si muitos séculos de tradição, mas especialmente porque expressa a reverência do fiel pela Eucaristia.

[A] prática que deve ser considerada a tradicional assegura, mais efetivamente, que a Santa Comunhão seja distribuída com o devido respeito, decoro e dignidade.

Este documento traz uma coisa curiosíssima: foi feita uma consulta “a todos os Bispos da Igreja Latina [sobre] se era oportuno introduzir esse ritual [da comunhão na mão]”. O resultado?

Sim: 597
Não: 1.233
Sim, mas com reservas: 315
Votos inválidos: 20

A partir daqui, as coisas ficam surreais: após a consulta – diz o documento -, “fica claro que a vasta maioria dos Bispos crê que a disciplina atual não deve ser modificada, e caso viesse, que a mudança seria ofensiva aos sentimentos e à cultura espiritual desses Bispos e de muitos dos fiéis”. E então “o Santo Padre decidiu não modificar a maneira existente de administrar a Santa Comunhão aos fiéis”.

No entanto, após tudo isso, numa conclusão que sinceramente vai de encontro a tudo que tinha sido dito até então, termina a Memoriale Domini: “Onde um uso contrário, o de colocar a Santa Comunhão nas mãos, prevalecer, a Santa Sé – desejando ajudá-las a cumprir sua tarefa, muitas vezes árdua, como nos dias atuais – deixa às Conferências a tarefa de avaliar cuidadosamente qualquer circunstância especial que possa existir, tomando o cuidado de evitar todo risco de falta de respeito ou de falsa opinião com relação à Sagrada Comunhão, e de evitar quaisquer outros efeitos maléficos que possam se seguir”.

E a decisão foi entregue às Conferências Episcopais. E elas conseguiram sufocar a clara voz dos bispos que se tinham levantado contra a introdução deste costume. E a comunhão na mão foi universalizada, minando a piedade eucarística das almas dos fiéis, fazendo com que se concretizassem os temores dos bispos que foram consultados no final da década de 60. E a fumaça de Satanás entrou na Igreja. E o Demônio riu-se no Inferno.

Antes que me entendam mal: faz já quarenta anos, o estrago já foi feito, os católicos mudaram muito desde então, as normas atuais da Igreja permitem que se receba a Comunhão Eucarística nas mãos e, portanto, é perfeitamente lícito ao fiel comungar na mão; ele não comete nenhuma blasfêmia ou sacrilégio se o fizer. Não é esse o ponto; não se trata de dizer às pessoas que elas não podem comungar na mão, porque podem, é a Igreja que o autoriza. É uma questão de defender e promover a forma tradicional de se receber a Eucaristia na Santa Missa. Porque, sinceramente, olhando para o passado e para os dias de hoje, não posso deixar de considerar a urgência de se resgatar o costume tradicional de se receber a comunhão eucarística.

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13 thoughts on “Mais sobre a comunhão na boca

  1. Pedro M

    Em resumo: comungar na mão é uma concessão, não um direito. Por outro lado, comungar na boca é um direito do fiel, e ele pode exigir do padre (ou do MESCE, ou acólito) a comunhão diretamente na boca, quando as circunstâncias assim o permitirem.

  2. Laerte Rodrigues

    Bem, na prática, hoje em dia poucos católicos crêem na presença real do Senhor na Santíssima Eucaristia. Basta parar um momento durante as missas e contemplar o comportamewnto das pessoas, seja antes, durante ou depois da comunhão. Creio que os sacerdotes poderiam promover a comunhão de joelhos e na boca para os fiéis quando fossem comungar com ele, deixando as outras formas de comunhão para os meces… como faz o Santo Padre.

  3. Pingback: Curtas diversos « Ecclesia Una

  4. Francisco Silva de Castro

    “deixando as outras formas de comunhão para os meces…” Não compreendi a diferença. dainte Padre na boca e de joelhos e com os outros de qualquer forma? Jesus é o mesmo quer nas mãos de um padre ou de Ministro da eucarisita. A Adoração é a ele não quem o dá… Eu nunca ajoelho odiante do padre. Me ajoelho perante DE JESUS!

  5. Emerson

    O padre da nossa paróquia disse na missa que o abraço da paz poderíamos fazer, com
    a ressalva de quem estivesse gripado não o fizesse, porém a comunhão na boca não, e dizia ainda: tem pessoas que insistem em comungar na boca, nós podemos tocar em uma gotícula de saliva e blá, blá, blá…
    Devo considerar pecado mortal espirrar na igreja?

    O abraço da paz pode, a comunhão na baoca não. É mais importante abraçar o irmão do que deixar o fiel escolher como quer comungar.

    E toma Heresia da Libretação.

  6. Tiago

    Mas que porcaria você fez nesse texto. Escolha de que lado você está. Se por um lado diz que o melhor é a comunhão na boca, por outro diz que não! A Igreja está com Trento e Sto. Tomás e não com o consenso entre católicos e protestantes do qual surgiu essa missa nova.

  7. Paula

    O Cristo presente na Hóstia Consagrada, que é Caminho, Verdade e Vida, agora está sendo tratado como transmissor de doença. Que absurdo!

  8. Ricardo Gomes

    Este assunto está gerando conflito na minha família. Agora só quero comungar na boca. O Pároco não deu comunhão na boca de minhas filhas. Minha esposa diz que tenho que obedecer. Mas vou obedecer a Deus ou aos homens?

  9. Cláudia

    Tenho 41 anos, moro em Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais e sempre comunguei diretamente na boca. Acabei de chegar da missa das 18:00 h onde me aconteceu uma situação muito constrangedora, que me deixou abismada, essa é a palavra: “ABISMADA”.Estava eu na frente do banco para comungar e o padre veio pelo meio dos bancos distribuindo a Sagrada Comunhão, eu permaneci com as mãos no peito, em sinal de respeito pela Hóstia Sagrada como sempre faço. O padre parou na minha frente e me perguntou:
    – Você não vai comungar? (eu de pé esperando a comunhão)
    _Vou, mas não na mão.
    Ele virou as costas pra mim e continuou dando a Comunhão para os outros fiéis e me negou a Comunhão.
    Parece absurdo, mas ele me NEGOU a Comunhão.
    Nesse momento, eu me ajoelhei e comunguei espiritualmente e fiz as minhas orações como se tivesse recebido a Hóstia na boca. Agradeci a Deus a Comunhão e pedi a Deus que perdoasse o ato absurdo do padre por essa atitude que nada tinha haver com o Cristo que ele representava naquele momento.
    Minha filha que viu o que aconteceu, ficou pasma tanto quanto eu.
    Não pude esconder o meu constrangimento. Mas aí me veio um pensamento na cabeça: Deus deve estar testando a minha fé. Se eu fosse uma pessoa de cabeça fraca era hora de ir procurar acolhida em outras igrejas. Mas graças a Deus não sou. Simplesmente não vou mais a essa Igreja, pra não passar pelo mesmo constrangimento. É por situações como essas que a Igreja Católica está infelizmente cada vez menos acreditada. Isso me entristece. Mas sou Católica Apostólica Romana e não acho que esse padre represente a Santa Igreja de Deus.

  10. Luiz

    Hoje conversando com sacerdote, citei o exemplo de um abuso de poder, um sacerdote que obrigava as pessoas a receberem a comunhao na mao. Assim como nao podemos obrigar as pessoas a receberam a comunhao na mao, creio também que nao se pode obrigar o fiel a receber na boca. Já que a Igreja deu a liberdade da pessoa optar.

  11. Luiz

    Desculpe-me pela pergunta o que é mais diábolico comungar na mao ou criticar a Igreja através das novas tecnologias?
    Li em algum lugar que um reino dividido nao subsistirá.
    Vale a pena pensar. Muitas vezes os defensores da ortodoxia sao aqueles que com boa intençao contribuem para a divisao.

  12. Renato Felipe

    Prezada Cláudia,

    Esse padre abusou da própria autoridade e desrespeitou o ensinamento e a prática secular da Igreja. No seu lugar, em virtude da gravidade do fato, eu faria uma queixa diretamente a Dom Geraldo Lyrio Rocha, arcebispo de Mariana, a cuja Arquidiocese pertence Conselheiro Lafaiete, constando na queixa a descrição do que ocorreu, o nome da igreja e o do padre.

    O email do arcebispo é [email protected]. Outros dados você pode encontrar aqui, como o número de fax (página 16): http://www.arqmariana.com.br/guiageral/guia_final.pdf

    Caso você tenha tempo, venha a Belo Horizonte assistir à Santa Missa tridentina, onde é dada a comunhão na boca e de joelhos, sinal máximo de reverência e adoração à Presença Real de Nosso Senhor na Hóstia Consagrada.

    Caro Luiz,

    Não vejo aqui críticas à Igreja, mas sim críticas à prática de alguns padres que ferem frontalmente o magistério e a prática secular da Santa Igreja. São esses padres que promovem a divisão, e creio que é diabólico (ou ignorância culpável) um padre negar Nosso Senhor a um católico que deseja recebê-Lo como a Igreja sempre o fez.

    Abraço!

  13. Frederico Silva

    Acredito firmemente que os pontos centrais da polêmica não seja a “forma” com que se comunga o Corpo de Nosso Senhor, mas: 1) na negativa de se garantir ao fiel a comunhão na boca, ou mesmo na boca e de joelhos; 2) na perniciosa trivialização do sagrado e 3) na perda da noção de que é Deus que se dá a nós na Comunhão, mesmo não sendo merecedores.

    Isto já aconteceu comigo, e na ocasião, tive que dizer ao ministro extraordinário da eucaristia – estando eu de joelhos a esperar a comunhão – que era direito meu recebê-la na boca e de joelhos, como recomenta o Santo Padre. Pude perceber que meu irmão ficou perplexo diante de minha solicitação, mas permitiu-me comungar. Não fiquei chateado – nem podia, pois o Senhor estava comigo e dizia baixinho ao meu ouvido: “Tudo bem filho! Tudo bem, coragem!” Então, agradeci a Deus por esta experiência que, misteriosamente, e de uma forma que não consigo compreender, fortaleceu minha fé na presença real de Nosso Senhor naquela pequenina partícula.

    Ora, se tenho certeza de que Nosso Senhor está ali, presente em corpo e sangue na hóstia consagrada sob a espécie de pão, tenho o dever de adorá-Lo quando for comungar, e diga-se, com todo respeito e reverência, mesmo que não seja compreendido por meus irmãos. Não poderia escusar-me, pois estaria ferindo gravemente minha consciência, e, consequentemente, pecando em razão de um aviltante respeito humano, faltando com a devida reverência, respeito e temor filial a Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Por certo, no caso de o sacerdote negar ao fiel a comunhão na boca, ou na boca e de joelhos, é extremamente recomendável, em sinal de “obediência e humildade”, obedecê-lo, afinal, ele é alguém muito especial, um escolhido; um “ungido” por Deus Pai, tendo sido constituído pastor e guia do rebanho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por outro lado, é sempre uma grande honra para qualquer cristão sofrer uma pequena humilhação ou incompreensão, por estar tentando ser o mais reverente e respeitoso possível com a Santa Eucaristia, nos casos em que ela nos é negada pelo sacerdote nos casos apontados.

    Portanto, devemos vencer o mal com o bem e através da força do testemunho, de modo a encorajar, com nossas atitudes, medidas concretas que visem possibilitar a comunhão da forma secular e tradicional (na boca e de joelhos), conforme prescrito, por exemplo, por São Pio X, em seu Catecismo Maior, ou ainda, tendo em vista a grande graça que Deus nos concede ao nos permitir o acesso a tão sublime sacramento que é a Eucaristia, conforme argumenta de São Tomaz de Aquino, em sua Suma Teológica (Suma Teológica, III, q.82, a.III). Ou ainda, conforme recomendado pelo Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos no Vaticano, Cardeal Antonio Cañizares Llovera, que recomenda a comunhão na boca e de joelhos, adotando entendimento litúrgico e teológico do Santo Padre Bento XVI.