Dominus Flevit

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[Baseado na homilia ouvida na missa de hoje, 9º domingo depois de Pentecostes. Evangelho: S. Lucas 19, 41-47]

“Virão sobre ti dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos os lados; destruir-te-ão a ti e a teus filhos que estiverem dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo em que foste visitada”. Estas foram as palavras – proféticas – que Nosso Senhor dirigiu a Jerusalém. Cumpriram-se à risca; a Queda de Jerusalém ocorreu no ano 70 e foi um dos mais dramáticos episódios da história antiga. Flavio Josefo narrou-a com riqueza (e crueza) de detalhes (infelizmente, só encontrei online esta edição protestante da clássica obra do famoso historiador judeu), dizendo ao final: “Assim terminou Jerusalém, no dia oito de setembro, no segundo ano do reinado de Vespasiano. […] [N]em a sua antigüidade, nem as suas riquezas, nem a fama difundida por todas as partes da terra, nem a glória que a santidade da religião lhe havia conquistado puderam impedir-lhe a ruína e a destruição”.

Nosso Senhor chorou sobre Jerusalém, porque a Cidade Santa não conheceu “o tempo em que foi visitada”. Muito mais importante que toda Jerusalém, no entanto, é uma única alma humana; será acaso exagero, então, imaginar que Nosso Senhor chora pelas almas que não O reconhecem e preferem viver como se Ele não existisse? E estas divinas lágrimas do Redentor não serão ainda mais amargas do que aquelas derramadas no Evangelho, porque o castigo das almas que rejeitam ao Senhor é tanto maior do que aquele sofrido por Jerusalém quanto as almas são mais importantes do que a Cidade Santa? Se Nosso Senhor derramou lágrimas pela queda de Jerusalém, quantas mais não terá Ele derramado pelas almas que se perdem, mais valiosas – uma única delas! – do que Jerusalém inteira?

E, contudo, estas lágrimas do Redentor do Mundo são incapazes de comover os corações dos homens! Em outra passagem dos Evangelhos, dirige-se Nosso Senhor a Cafarnaum, dizendo: “se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro dos teus muros, subsistiria até este dia” (cf. Mt 11, 23). Penso que esta passagem pode muito bem ser aplicada a nós próprios, e podemos com muita propriedade dizer: “ó, alma! Se Jerusalém tivesse recebido a graça que foi derramada sobre ti, existiria até hoje”. Se Cafarnaum foi mais ingrata do que Sodoma, nós somos muitíssimo mais ingratos do que Cafarnaum. Se foi terrível o crime de Jerusalém, nós somos muito mais criminosos do que a Cidade Santa.

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Azulejos Portugueses - Salvador

Há ainda um detalhe. Na seqüência desta passagem das lágrimas de Nosso Senhor derramadas sobre Jerusalém, o evangelista nos conta que Jesus, “[e]m seguida, entrou no templo e começou a expulsar os mercadores” (v. 45). A passagem é bem conhecida, e é sempre muito atual. Tal como o Templo da época de Jesus, a Igreja de Deus, hoje, está repleta de vendilhões; a “casa de oração” foi profanada, e fala-se muito em política e em economia, em desarmamento e em redução de maioridade penal, em ecologia e em transposição do Rio São Francisco, em inter-eclesiais e em Amazonas, em neoliberalismo e em exploração social, e muito pouco no Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. É necessário ter a coragem de, à semelhança de Jesus, expulsar – com a violência necessária – estes ladrões da Igreja de Deus.

Porque Nosso Senhor chorou por Jerusalém, e não consigo deixar de imaginar que as Suas divinas lágrimas estavam ligadas à triste situação do Templo, narrada no Evangelho logo em seguida. Se a Cidade Santa não conheceu o tempo em que foi visitada, foi sem dúvidas em grande parte porque o Templo não estava bem cuidado; e se, hoje, as almas não conseguem ver que Nosso Senhor as visita, é em parte porque há vendilhões na Casa de Deus que não as deixam perceber que Cristo chama. Também por estas – e principalmente por estas – chora Nosso Senhor. Mas, mesmo após as lágrimas, ele expulsou os vendilhões do Templo. É preciso expulsá-los também hoje. Que as lágrimas do Divino Mestre possam comover o nosso coração empedernido e fazê-lo voltar-se a Deus, e que a Sua Santa Cólera possa nos inflamar o zelo pelas coisas sagradas, é o que pedimos ao Deus Altíssimo no dia de hoje. Que seja em nosso favor a Virgem Soberana.

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One thought on “Dominus Flevit

  1. Julie Maria

    “Que as lágrimas do Divino Mestre possam comover o nosso coração empedernido e fazê-lo voltar-se a Deus, e que a Sua Santa Cólera possa nos inflamar o zelo pelas coisas sagradas”.

    Amém!!!!

    JM