Dois curtas

PT decide dia 17 se expulsa deputados antiaborto. “O Partido dos Trabalhadores decide na próxima semana se expulsa, adverte, suspende ou mantém na legenda dois deputados que são abertamente contrários à legalização do aborto, uma das bandeiras assumidas pelo partido do presidente Lula durante encontro nacional de militantes”.

Parece-me claro que o melhor para nós é que o monstro abortista expulse logo os pró-vida de seus quadros. Na verdade, o melhor realmente seria se os pró-vida tivessem a decência de sair por conta própria do partido assassino; mas a política brasileira me parece cada vez mais incompreensível.

Só receio que os excelentíssimos deputados não saiam do PT batendo a poeira dos sapatos, nem o Partido os expulse impiedosamente, e aí os pró-vida continuem fingindo esquizofrenicamente que dá para fazer militância anti-aborto fazendo parte do partido que apóia o aborto, enquanto o PT continue fingindo que não é abortista. Esperemos.

* * *

Está Instaurada a Idiocracia. “Sim, é isso que esse projeto [que ‘consiste em reduzir a complexidade linguística dos textos, substituindo palavras raras (menos frequentes) por palavras mais usuais ou dividindo e reorganizando orações longas e complexas, entre outras adaptações’] propõe, o emburrecimento institucional de uma população já burra de nascença. Ao criar mecanismos que ‘facilitem’ a compreensão de textos estamos GARANTINDO que essas pessoas JAMAIS se interessarão em desenvolver capacidade de entendimento, JAMAIS ampliarão seu vocabulário e dependerão dos programas para dizer o que pensam sobre determinado assunto”.

Como não concordar? Lembrei-me do que dizia um amigo há muito tempo atrás, nos saudosos debates do Orkut: quem não escreve direito é porque não pensa direito. E, por extensão, também quem não lê direito. Mas, fala sério, já imaginaram um software dividindo orações longas e supondo manter-lhes a semântica?! Tem como proibir este mutilador do trabalho intelectual alheio de ser aplicado àquilo que escrevo?!

Publicado por

Jorge Ferraz (admin)

Católico Apostólico Romano, por graça de Deus e clemência da Virgem Santíssima; pecador miserável, a despeito dos muitos favores recebidos do Alto; filho de Deus e da Santa Madre Igreja, com desejo sincero de consumir a vida para a maior glória de Deus.

16 comentários em “Dois curtas”

  1. Caro Jorge:

    Quanto ao segundo item, parece haver um certo exagero. Li o artigo linkado por você e li também o original que está no site da FAPESP.

    Simplificar textos densos para populariza-los é uma atividade perfeitamente normal e comum a décadas. Desde há tempos que existem versões “juvenis”, “infantis” e “populares” de todas as grandes obras da literatura universal. Existem, inclusive, “Bíblias em quadrinhos” para crianças e adultos semi-analfabetos. Edições “abridged” (resumidas) de obras clássicas, mas excessivamente longas, também são comuns a décadas.

    Não acho que isso esteja errado. O erro consiste na perda da noção de hierarquia. O erro consiste em achar que ler “Os Lusíadas” em quadrinhos é o mesmo que ler o original. O erro consiste em achar que ler a Summa em português é o mesmo que lê-la em latim.

    Mas isso é outra discussão.

  2. JB,

    Um certo exagero parece-me haver na sua comparação! Como assim, colocar lado a lado Os Lusíadas em quadrinhos e a Summa em português? :)

    Na verdade, eu nunca gostei da idéia das adaptações e sempre primei pelo texto integral. Aceito, vá lá, como tolerável a existência delas (e bem a contragosto: para mim, dever-se-ia escrever uma, sei lá, crítica literária simples sobre os textos, ou escrever uma nova história e colocar como subtítulo “adaptado d’Os Lusíadas”, ou coisa que o valha).

    Note, no entanto, que vai uma gigantesca diferença entre adaptar um romance ou um épico e adaptar um texto dissertativo [não existem os quadrinhos das cartas de São Paulo, existem?], e mais ainda fazer uma linha de produção para isso (Deus do Céu!) com softwares que se proponham a manter a coerência semântica entre a matéria prima e o produto final. Isso me parece um erro de princípio, uma estupidez e um engodo.

    Abraços,
    Jorge

  3. Caro Jorge:

    Nesse contexto, “Os Lusíadas” em quadrinhos estão para “Os Lusíadas” em verso, assim como a Summa em português está para a Summa em latim.

    Em ambos os casos, alterou-se o original para facilitar a compreensão devido às limitações dos leitores culturais dos leitores.

    Cem anos atrás, diríamos que era um absurdo traduzir a Summa para o vernáculo pois todas as pessoas potencialmente interessadas em ler tal obra conheciam o latim.

    Você gosta de ler os textos integrais e faz muito bem. Mas isso nem sempre é possível. Por isso, adaptações e resumos são benvindos, desde que se tenha em mente que eles jamais substituíram inteiramente o texto original.

    Muitos leitores do seu blog devem ter lido o clássico “Declínio e Queda do Império Romano” de Edward Gibbon publicado no formato “abridged” recentemente pela Companhia das Letras. É um livro ótimo, mas quantos se encorajariam a ler os seis volumes em inglês do século XVIII?

    As diversas traduções da Bíblia são também tentativas de simplificar um texto que a maioria acharia complicado se lido no original. Pelo seu raciocínio, São Jerônimo nunca deveria ter escrito a Vulgata. Deveríamos ler somente a Vetus Latina. Ou melhor, deveríamos ler apenas os originais em grego e aramaico.

  4. Na proposta original está claro que o objetivo é facilitar o acesso de crianças, adultos semi-analfabetos e pessoas com algum tipo de limitação a textos mais densos.

    Isso é caridoso e só pode merecer nossos aplausos.

    O que há de horripilante na proposta, isso sim, é fazer com que um trabalho eminentemente intelectual e pessoal possa ser executado de forma automática por um programa de computadores.

  5. JB,

    Eu certamente concordo que os originais são melhores do que as traduções (quando publico traduções cá no Deus lo Vult!, agrupo-as numa categoria chamada Traduttore, Traditore…), mas insisto na diferença abissal entre uma mera tradução e uma adaptação. Parece-me óbvio que há muita diferença entre os versos de Camões vertidos para o francês, p. ex., e transformados em quadrinhos.

    Acho que traduções são sempre bem-vindas, sim, tendo-se em mente que elas não substituem o original. Mas o mesmo não se aplica às adaptações; estas, são muitíssimo mais perigosas e devem ser olhadas com muito mais cautela.

    Acho igualmente que uma pessoa com limitações intelectuais graves ao ponto de não conseguir digerir textos densos não vai, miraculosamente, conseguir captar idéias e raciocínios densos por meio da mera substituição das palavras e orações do original. O risco de deturpação do pensamento do autor e de má compreensão do leitor parece-me enorme.

    Sempre é possível, no entanto, dar uma série de conferências sobre textos mais densos quaisquer a crianças ou a semi-analfabetos, explicando, em um trato pessoal, mais demorada e detalhadamente a obra original, a fim de torná-la mais palatável. Isso é louvável e merece aplausos. Mas nem isso é uma adaptação simpliciter e nem muito menos (como você bem notou) é factível via software com os resultados almejados.

    Abraços,
    Jorge

  6. Tomara mesmo que o PT expulse esses deputados pró-vida, e escancaradamente se assuma abortista frente a todos nós.Mas duvido que isso aconteça…

  7. [Insight entre amigos à hora do almoço]

    Tive acesso à versão beta do software da FAPESP, que tem como feature a redução da complexidade lingüística de arquivos de áudio.

    Fiz um teste com um CD de Nelson Gonçalves recém-adquirido. Quando pus para tocar Tinha rendas de Sevilha / a pequena maravilha / que teu corpinho ocultava; / e eu era o dono de tudo, / do divino conteúdo / que a camisola ocultava…, prontamente o programa me saiu do outro lado com use e abuse! Use e abuse! Minha calcinha é preta, com sabor de tutti-frutti!. Quando reproduzi o Moça, / me espere amanhã… / levo meu coração / pronto pra te entregar, escutei clara e nitidamente a tradução do programa: Ô menininha, cadê seu pai? / Não sabo, não sabo.

    Abraços,
    Jorge

  8. Michele, o PT já se assume abortista. Qualquer um que se interesse em ir até o seu site e digite “aborto” no campo de busca do site, irá chegar a essa conclusão.
    Abraços, e que Deus abençoe a todos,

    Jones.

  9. Caro Jorge:

    Toda tradução é necessariamente uma adaptação, já que não há duas línguas iguais e até mesmo um único idioma sofre modificações ao longo do tempo. É exatamente por isso que não confiamos em traduções automáticas.

    No caso em questão, parece-me que por “denso” queremos dizer coisas diferentes.

    Evidentemente, há certos textos “densos” que não podem ser simplificados sem sofrer sérias distorções. Mais ou menos como as epístolas de São Paulo não podem ser transformadas em quadrinhos sem serem gravemente mutiladas.

    Por outro lado, há textos que são “densos” apenas por conterem frases longas, por usarem voz passsiva e por serem ataviados de gongorismos e atavismos. Exemplo típico é o discurso de certos políticos, que falam muito e falam bonito, mas não dizem nada.

    No texto linkado no site da FAPESP, está claro que o tal projeto se destina a este último tipo de texto “denso”.

    Parece-me claro também que o objetivo de tal projeto não é substituir os originais e sim produzir adaptações que sejam úteis aos portadores de limitações culturais.

    Se vão conseguir, é outra discussão.

  10. Olha o que diz o Código de Ética do PT:

    “…Art. 3º. São princípios éticos fundamentais que devem orientar a conduta de todos os filiados ao
    Partido dos Trabalhadores: …

    III – o dever de combater, por todos os meios ao seu alcance, a exclusão social, a desigualdade, e
    quaisquer formas de discriminação quanto ao sexo, à raça, à etnia, à religião, à condição
    econômica, à atividade profissional, às convicções políticas, a qualquer condição de deficiência, de
    idade, de orientação sexual, bem como os atos de assédio moral, sexual, a pedofilia, a violência
    doméstica e outros da mesma natureza; …

    VIII – a defesa da atuação autônoma e plural dos movimentos sociais e populares, das suas
    associações, das centrais sindicais e sindicatos;

    IX – o respeito à democracia interna e o respeito à pluralidade de idéias e às posições manifestadas
    dentro ou fora dos órgãos partidários por quaisquer filiados ao partido; “

  11. “XIV – a defesa e o respeito à imagem pública do Partido, de todos os seus os seus filiados,
    dirigentes e portadores de mandato, ressalvado o direito de divergência de idéias e a liberdade de
    expressão de posições políticas;”

    Bonito no papel, né?!?! Para mim, já se chama há muito Partido dos Traidores do Povo.

    Vem cá, aborto não é um tipo de discriminação,não? Discriminação por idade, origem, forma, condição social…

    Mas me encheram de esperança os comentários de repúdio à posição declaradamente pró aborto do PT.

  12. Caro Canônico:

    Já pensou então se São Tomás pudesse ter lido Aristóteles no original?

    Parece que quem está sendo muito purista é o Jorge e não eu.

    Seja como for, parece-me fora de questão que se você quer realmente entender a fundo um autor, você deve ser capaz de lê-lo no original. Seria curioso encontrar um especialista em Hemingway que não soubesse inglês.

    Evidentemente, a imensa maioria das pessoas não precisa ser especialista e já estaria muito bom se tivessem o hábito de ler traduções e adaptações juvenis dos clássicos (aqueles clássicos que se permitem isso, óbvio).

  13. Caro Jorge:

    Para um celibatário, na flor da idade, “A Camisola do Dia” (Herivelton Martins) pode ser forte demais, não?

    :-)

    http://www.youtube.com/watch?v=pTDqTRISuYY

    Amor, eu me lembro ainda
    Era linda, muito linda
    Um céu azul de organdi
    A camisola do dia
    Tão transparente e macia
    Que eu dei de presente a ti
    Tinha rendas de Sevilha
    A pequena maravilha
    Que o teu corpinho abrigava
    E eu era o dono de tudo
    Do divino conteúdo
    Que a camisola ocultava
    A camisola que um dia
    Guardou a minha alegria
    Desbotou, perdeu a cor
    Abandonada no leito
    Que nunca mais foi desfeito
    Pelas vigílias de amor

  14. Caríssimo JB,

    :-)

    Quando escrevi sobre a adaptação d’A Camisola do Dia para a música de calcinha preta, estava justamente pensando em como a diferença entre uma música e outra é majoritariamente material.

    Dava um post. “Onde passa o boi, passa a boiada”; ou “involução musical e degeneração moral”; ou ainda “por que a Igreja estava certa ao condenar a inocente valsa”. Ah, se eu tivesse mais tempo…

    Abraços,
    Jorge

  15. Sim! Muito bom! Por favor, aproveite o fim-de-semana para alongar-se nesse assunto. Será um prazer adicional ler seu blog na segunda-feira.

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