A Lei Natural e a Ignorância

closeAtenção, este artigo foi publicado 7 anos 7 meses 26 dias atrás.

Eu sempre achei muito complicado falar em “Ignorância Invencível” em se tratando da Lei Natural. Os exemplos são os mais variados possíveis: os sacrifícios humanos dos astecas, os homossexuais, os ateus e, agora os suicidas: descobri hoje que a Leila Lopes se matou para ir para junto de Deus.

Por um lado, é fato incontestável que o suicídio é pecado mortal. Por outro lado, é também incontestável que, para que haja pecado mortal, é necessário, além da matéria grave, pleno conhecimento e deliberado consentimento. Estes dois últimos aspectos são subjetivos; mas será que a subjetividade é absoluta? O fiel da balança fica sendo, então, em última instância, a (má) consciência do indivíduo?

Santo Tomás de Aquino ensina que a Lei Natural só é conhecida de todos os homens no tocante aos seus primeiros princípios universais (Summa I-IIae, q. 94, a. 4). Ensina também que as paixões podem obscurecer a razão (id. ibid, q. 77, a. 2), e que as paixões antecedentes ao pecado o atenuam (id. ibid, q. 77, a. 6). No entanto, o mesmo Santo Tomás diz (id. ibid., q. 77, a 8) que, quando o ato pecaminoso ou o consentimento deliberado é executado de maneira passional, isso não ocorre repentinamente, de modo que a razão deliberante pode fazer frente e, se não o faz, é pecado mortal…

Reconheço que é complicado, e reconheço que, às vezes, sentimo-nos tentados a escusar. Seja o ateu que teve uma péssima formação filosófica e religiosa, seja o homossexual que, desde a mais tenra infância, foi exposto à depravação até o seu senso moral ser destruído, seja um asteca que levava a sua religião tão a sério a ponto de oferecer, ao que ele julgava ser Deus, o que há de mais excelente na Criação: um outro ser humano. Ao mesmo tempo, no entanto… é possível postular este subjetivismo radical da culpa?

Eu não consigo mensurar a culpabilidade de alguns atos. Acho, porém, que não vale a pena fazê-lo: o que realmente interessa, na minha opinião, é estabelecer as matérias pecaminosas e combatê-las nos casos concretos, independente da culpabilidade dos pecadores. Afinal, sem sombra de dúvidas é possível que, quando houver matéria grave, haja também pecado mortal. E o risco de não dar a devida importância a uma alma que – pelo menos – possivelmente caminha a passos largos para o Inferno é grande demais para ser corrido em tranqüilidade de consciência.

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6 thoughts on “A Lei Natural e a Ignorância

  1. profeta do profano

    exclenete exemplo de ignorância invencível, que tem durado 19 séculos: a Igreja Católica.

  2. profeta do profano

    ops, desculpem a falha. corrigindo:
    excelente exemplo de ignorância invencível, que tem durado 19 séculos: a Igreja Católica.

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  4. Wagner Moura

    Sábios e loucos podem ser presunçosos. Um profeta não pode sê-lo, sob pena de ser apenas um louco em pleito por sua inimputabilidade! E provavelmente é por imaginar contar com essa, mais que com a própria ignorância, que se afirma aqui ser a Igreja Católica exemplo do que ela não é. A afirmação de um louco qualquer pode ser metade verdade e metade ridícula, a afirmação de um profeta presunçoso não costuma ter metades, sequer em consequência da loucura que lhe atormenta. Não é possível ser ocidental e creditar “ignorância invencível” à Igreja que construiu o ocidente e que defende, inclusive, salvação para sábios e loucos (ao menos para os loucos inimputáveis por condição e não por pleito). Os que pleiteam a loucura por presunção não são profanos. Os profanos podem ser ignorantes, os presunçosos não. Mas em sua loucura podem ser até profetas, daqueles dos quais não se escreve o que dizem.

  5. Claudiomar

    A justa condenação de ignorantes não é um caso de intolerância desmedida, pois, por vezes se dá que no homem “a consciência se vai progressivamente cegando, com o hábito do pecado” (Veritatis Splendor 62). Um ignorante que seja justo por toda a vida, reflete-se algo quase que utópico, pois “quem pratica a verdade aproxima-se da luz” (Jo 3, 21). Ou seja, a sua prática de justiça o encaminhará para a vereda que lhe tirará da ignorância. Assim, para aqueles que serão contados entre os justos, a ignorância é algo passageiro e que fatidicamente se extinguirá quando ele se deixar guiar pelos caminhos da justiça, tal acontecimento consumando-se antes da morte, ordinária ou prodigiosamente.
    Da Fides et Ratio – Fé e razão –, de João Paulo II, extraem-se pistas racionais para compreender porque alguns ignorantes danam-se na ignorância, enquanto outros são contemplados com o conhecimento, com a fé e com a Igreja:
    O homem sempre está impelido à verdade e é plenamente capaz de conhecer a Deus e suas obrigações para com o Criador. Tal conhecimento se pode adquirir através da busca pela verdade que é recompensada por Deus. Acontece, porém, que muitos desvios são trilhados pelo homem quando põe outros interesses acima da verdade, posto que, quanto à verdade, “acontece também que o próprio homem a evite, quando começa a entrevê-la, porque teme as suas exigências. Apesar disto, mesmo quando a evita, é sempre a verdade que preside à sua existência” (Fides et Ratio. n. 28).
    O ser humano não pode ignorar Deus, já que a Sua existência é manifesta em todas as coisas criadas. No fundo de seu ser, o homem sabe de Deus, e não pode se desfazer da missão de buscá-lo. É pela mística da religião que ele se dispõe a alcançá-lo. Partindo desse pressuposto, todo justo que caminha para Deus não se contenta com propostas religiosas que contradigam ao Deus que se apresenta em uma consciência reta. Por isso o homem em sua busca de Deus é, por natureza, como um cientista em suas pesquisas à busca de comprovar sua intuição. É a própria Fides et Ratio que ratifica isso utilizando-se de tal analogia:
    O homem não começaria a procurar uma coisa que ignorasse totalmente ou considerasse absolutamente inatingível. Só a previsão de poder chegar a uma resposta é que consegue induzi-lo a dar o primeiro passo. De fato, assim sucede normalmente na pesquisa científica. Quando o cientista, depois de ter uma intuição, se lança à procura da explicação lógica e empírica dum certo fenômeno, fá-lo porque tem a esperança, desde o início, de encontrar uma resposta, e não se dá por vencido com os insucessos. Nem considera inútil a intuição inicial, só porque não alcançou o seu objetivo; dirá antes, e justamente, que não encontrou ainda a resposta adequada (Fides et Ratio. n. 28).
    Da mesma forma que as pesquisas que não apresentam um resultado satisfatório induzem o cientista a buscar respostas mais além, assim é o homem que se deixa conduzir até a verdadeira Igreja porque não se satisfaz com as contradições e erros crassos que facilmente uma consciência reta detecta nas falsas religiões. Mas quando ele deixa macular sua consciência acontece que ele se satisfaz com respostas incompletas e se desleixa na busca que lhe garantiria a salvação.

  6. Jonas

    É necessário precisar bem o conceito de ignorância invencível, bastante mal compreendido hoje em dia. Ignorância invencível é aquela do cara que nunca ouviu nem falar a respeito da coisa. Hipoteticamente, pode ser o caso do adolescente que se masturba, sem que nunca alguém lhe tenha dito que aquilo é pecado e sem que ele próprio tenha tido qualquer dúvida a respeito da moralidade do ato. Mas a partir do momento que uma pessoa prudente o adverte que aquilo é pecado, a ignorância deixa de ser invencível, simplesmente porque o sujeito já está em condições de vencê-la.

    Por isso, é muito difícil postular ignorância invencível em relação aos ateus: creio que não haja, em parte alguma do mundo, alguém que nunca tenha ouvido falar de Deus. Quem é ateu o é não porque ignora a Deus, mas porque o rejeita. Não é uma simples falha do intelecto, mas uma decisão da vontade do sujeito, um ato do livre-arbítrio pelo qual ele se responsabiliza. Quem fez a opção pelo ateísmo assumiu livre e espontaneamente o risco da eterna condenação, no caso de Deus existir.

    Como disse Marco Túlio Cícero:

    «Entre todas as espécies animais, nenhuma, com exceção do homem, tem o menor conhecimento de Deus, enquanto que, entre os homens, não há povo algum, civilizado ou bárbaro, que não se sinta obrigado a crer num Deus, mesmo que ignore o Deus em que se deve crer» (CÍCERO. Das Leis. São Paulo, Cultrix, 1967. livro I, p. 43).

    Quem fez a opção pelo ateísmo não pode alegar ignorância, simplesmente porque se levantou contra o senso comum da humanidade.