O materialismo da Campanha da Fraternidade

closeAtenção, este artigo foi publicado 6 anos 11 meses 20 dias atrás.

Ano passado, eu escrevi um post aqui no Deus lo Vult! onde eram apresentadas algumas estatísticas sobre o texto-base da Campanha da Fraternidade de então. Este ano, agora que a CNBB disponibilizou a versão eletrônica do texto da CF/2010, eu posso fazer a mesma coisa.

As oitenta páginas do referido documento podem ser baixadas aqui, no site da CNBB. Ao contrário de certas análises de conjunturas que andam circulando internet afora, até onde me conste este é um documento oficial da Conferência, sim.

Eis aqui as estatísticas. A metodologia utilizada é trivial: a caixa de pesquisa do Acrobat Reader. Quando as expressões aparecem “puras”, é porque a busca foi feita por elas ipsis litteris; quando aparece “e derivados”, é porque consultei pelo radical (p. ex., ‘arrepend’, o que engloba tanto ‘arrependimento’ quanto as formas verbais ‘arrependei-vos’, ‘arrependi-me’, ‘arrepender’, etc.).

Os resultados são os seguintes:

  • “Jesus”: 37 ocorrências (“Nosso Senhor”, uma única ocorrência, na oração da CFE).
  • “Católica” e “católicos”: 8 ocorrências.
  • “Conversão” (e derivados): 7 ocorrências.
  • “Oração”: 5 ocorrências (sendo duas vezes no título “oração da CFE 2010”, a do índice e a da página correspondente).
  • “Caridade”: 4 ocorrências.
  • “Esmola”: 3 ocorrências.
  • “Pecado” (e derivados): 2 ocorrências.
  • “Jejum”: 2 ocorrências (e recomendo que vejam quais são!!).
  • “Virgem Maria” (a pesquisa foi feita por “Maria”): 2 ocorrências (“Nossa Senhora”, nenhuma).
  • “Arrependimento” (e derivados): 2 ocorrências.
  • “Sacramento”: 2 ocorrências.
  • “Papa”: 2 ocorrências.
  • “Magistério”: 1 ocorrência.
  • “Penitência”: nenhuma ocorrência.
  • “Eucaristia”: nenhuma ocorrência.
  • “Missa”: nenhuma ocorrência.
  • “Sacerdote”: nenhuma ocorrência.
  • “Calvário”: nenhuma ocorrência.
  • “Cruz”: nenhuma ocorrência.
  • “Trindade”: nenhuma ocorrência.
  • “Santificação”: nenhuma ocorrência (“santificar” tem duas, no comentário sobre o Pai Nosso).
  • “Redenção” (e derivados): nenhuma ocorrência (“Redentor” aparece uma única vez, numa nota de rodapé, em referência – pasmem! – a um livro sobre Martin Luther King, chamado “O Redentor Negro”! Está à página 55).
  • “Confissão” (sacramento): nenhuma ocorrência (há duas referências a “confissão”, na expressão “Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil”, com as maiúsculas por conta da CNBB).

Em contrapartida:

  • “Economia (e derivados): 142 ocorrências.
  • “Solidariedade” (e derivados): 81 ocorrências.
  • “Pobre” (e derivados): 75 ocorrências.
  • “Direito(s)”: 74 ocorrências.
  • “Terra”: 64 ocorrências.
  • “Trabalho”: 56 ocorrências.
  • “Social” (e derivados): 54 ocorrências.
  • “Política” (e derivados): 39 ocorrências.
  • “Mercado” e “Mercadoria”: 30 ocorrências.
  • “Desenvolvimento”: 29 ocorrências.
  • “Povo”: 27 ocorrências.
  • “Miséria”: 12 ocorrências.
  • “Exploração” (e derivados): 11 ocorrências.

Isto é sintomático. No segundo grupo, a palavra que menos aparece é “exploração”; mesmo assim, ela aparece mais do que todas as palavras do primeiro grupo, à exceção de “Jesus”. E até mesmo “política” aparece mais do que “Jesus” neste documento!

Coisas absolutamente fundamentais para qualquer texto que se pretenda servir para o tempo quaresmal, é inexplicável a total ausência de palavras como “Missa”, “Eucaristia” e “Confissão”. Que espécie de preparação para a Páscoa pode ser feita sem que se fale na Santa Missa? Sem que se fale em comunhão eucarística, em confissão dos pecados, em arrependimento? Sem que se fale na Virgem Santíssima? A conclusão é inevitável: este texto não serve para a Quaresma. Não pode servir, porque não trata de temas espirituais. Fica perdido no naturalismo, na horizontalidade, na materialidade estéril – e passa longe das necessidades espirituais dos fiéis católicos.

A julgar por este texto-base, parece ser opinião da CNBB que a Igreja deve, durante a Quaresma, falar mais em exploração do que em oração. Deve falar mais em miséria do que em pecado. Mais em trabalho que em conversão. Mais em política do que em Nosso Senhor.

E isto é muito triste. Se o sal perde o sabor, para quê ele servirá? Até quando suportaremos esta campanha da materialidade, que nega toda a riqueza espiritual do tempo da quaresma, soterrando a piedade católica sob uma profusão de temas naturalistas estéreis? Usquequo, Domine…?

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24 thoughts on “O materialismo da Campanha da Fraternidade

  1. Lampedusa

    Jorge,

    Voce chegou a testar as palavras “libertação”, “igualdade” e “minorias”? E “ecologia”?

  2. Carlos Eduardo

    Jorge,

    Muito triste isto. Imagine você que na paróquia em que atuo como catequista da Pastoral da Crisma o pessoal adora a CF, e o pároco nos obriga a passar as “propostas” da dita cuja aos crismandos em todos os detalhes. Por disciplina, eu me submeto. O único espaço que eu tenho é esclarecer aos jovens que apenas se tratam de “sugestões” da CNBB, não sendo, portanto, de seguimento obrigatório. Muito triste mesmo. Saindo do assunto: o que quer dizer “Deus lo vult!”?

    Que Deus te abençoe.

  3. Jailson Oliveira

    Carlos Eduardo,
    .
    A pergunta não foi para mim, mas permita-me responder. A explicação o Jorge nos dá logo no início do Blog, no link “Sobre Mim”, a qual reproduzirei abaixo:
    .
    “Deus lo vult! é a versão latina do “Dieu le veut!” francês, que significa “Deus o quer!” e que foi o grito dado pelos soldados franceses em resposta à convocação das Cruzadas feita pelo Papa – brado que se tornou daí em diante o grito de guerra dos cruzados. É o título do BLOG para indicar o seu caráter combativo, e também por causa da minha íntima convicção de que Deus quer efetivamente que os Seus soldados defendam valorosamente a Religião Verdadeira dos ataques que Ela recebe de todos os lados, brandindo a espada da palavra contra os inimigos da Santa Igreja. Sobre o assunto, vale ler o post de abertura do BLOG.” Jorge Ferraz

  4. Pingback: Senhores Bispos do Brasil, queremos servir a Deus e não ao dinheiro! « “Erguei-vos, Senhor”

  5. Pingback: CF2010 = + Política – Jesus « Vida sim, aborto não!

  6. Vinícius

    Que vergonha! Vá falar mal da CNBB para você ver…vira anti-católico.

  7. Fabiano Vasconcelo

    Cuidado, vocês serão excomungados. Qual será a real intenção deles. E deixo uma pergunta, porque os bispos da ala que respeita o Vaticano ficam calados?

  8. Alien

    Fabiano, porque são minoria! Nota-se que cada vez mais a CNBB está com “cara” de partido político… não se espentem se futuramente aparecer o PCNBB (Partido da CNBB)para concorrer nas eleições e fazer uma frente parlamentar para bater de frente com a bancada evangélica (será que o objetivo final não seria esse?)…

  9. Jose

    Muito bem, Jorge…

    com tal pressão talvez as próximas sejam mais católicas!

    J. Armando

  10. Magna

    Escrevi no post errado.
    Segue: Por que razão não fazemos um baixo-assinado reunido com algum dossiê e enviá-lo para a Santa Sé?

  11. Fabiano Vasconcelo

    Jorge, eu esqueci o que a nunciatura apostólica representa no Brasil, você sabe? Me parece que é uma espécie de embaixada do Vaticano, se for não seria lá que poderíamos levar o tal abaixo assinado sugerido pela Magna? Lembro-me que a alguns anos um representante de uma comunidade foi até a Brasília reclamar alguma coisa e resolveu, eles estão acima da CNBBzinha.

  12. Francisco

    # “Penitência”: nenhuma ocorrência.
    # “Eucaristia”: nenhuma ocorrência.
    # “Missa”: nenhuma ocorrência.
    # “Sacerdote”: nenhuma ocorrência.

    A Campanha deste ano é Ecumênica pra piorar. Então estes termos foram evitados para não agredir os irmãos do outras “igrejas”

  13. delnir

    Fiz uma pesquisa nestes moldes e apresentei na minha paróquia na reunião do grupo de liturgia e não deram importância.
    Então redigi um texto analisando a CFE2010 e citei as ocorrências de minha pesquisa. Resultado: uma chuva de emails caridosos dos coordenadores de pastorais e até de um sacerdote solicitando que eu retirasse o email deles de minha lista pois não queriam mais receber textos deste teor.
    A Teologia da Libertação é um cancer na Igreja.

    Pesquisem também “doutrina social”. Nenhuma ocorrência.

    A Paz de Cristo

  14. Valdir A. C.

    Faça-mos (credo!)…. é “Façamos”, desculpem (deve ser a raiva com a CNb do B)!.

    Em Jesus e Maria!

  15. Pingback: Jorge Ferraz e o materialismo da Campanha da Fraternidade | VS Blog – O seu canal de informação católica

  16. Edilson

    Prezados,

    A Paz de Cristo!

    Deus tenha misericórdia de todos nos assolados por essa campanha comunista.

    Em Cristo.

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