Kardec e Talião

Está rolando um interessante debate nos comentários de um texto do Deus lo Vult! do mês passado, sobre espiritismo e catolicismo. Trago de novo o assunto à baila só para fazer algumas considerações ligeiras sobre Justiça, Misericórdia y otras cositas más.

Antes de qualquer coisa, salta aos olhos como os espíritas – muito provavelmente sem perceberem – aplicam com uma extrema rigidez a Lex Talionis que criticam no Velho Testamento, elevando-a contudo a patamares inacreditáveis. “Olho por olho, dente por dente” – muitos consideram isso bárbaro e desumano. No entanto, os espíritas aplicam o mesmíssimo princípio a todas as coisas que acontecem no mundo e pensam com isso resolver o problema do mal!

Como responde um espírita à pergunta “por que sofro”? Ele diz “sofro porque, em uma vida passada, eu fiz alguém sofrer”. Olho por olho, dente por dente, dor por dor: esta é a Doutrina Espírita. A tal “lei da causa e efeito” com sua mecanicidade só confere um status metafísico à lei de Talião, que passa a ser absoluta e implacável. “Nenhum mal causado fica impune”. Se Talião é desumano e inaceitável, muito mais inaceitável é este “super-Talião” onipresente que os espíritas acreditam ser Deus.

Não há espaço para o perdão na Doutrina Espírita, por causa da lei acima. Se eu causei um mal, eu vou precisar sofrer um mal “equivalente” para poder lavar a minha alma da mancha da culpa adquirida. Se não for nesta vida, será numa próxima. E, com isso, julgam explicados os problemas do mundo… mas a que preço? Por acaso viver em um mundo nestes moldes é reconfortante? Por acaso isto é “Justiça”?

Além deste “talionismo espiritual”, os espíritas acreditam em um igualitarismo totalmente ilógico. A parábola do administrador que dá “a um, cinco talentos; a outro, dois talentos; e a outro, um talento” simplesmente não cabe na lógica espírita. Provavelmente eles vão explicar a diferença de tratamento entre os empregados do patrão com base em uma “vida pretérita” deles. Eles não aceitam que Deus possa dar a um mais do que a outros – mesmo quando Nosso Senhor, a Quem eles têm por “mestre”, por diversas vezes deu mostras claras e inequívocas de agir com desigualdade. Oras, por que algumas pessoas nascem com saúde, outras com saúde e dinheiro, outras com saúde, dinheiro e beleza, etc? Por que o administrador dá um talento a um, a outro dois, a outro cinco? Acaso é injusto o administrador? Acaso Deus é injusto quando distribui os Seus bens da maneira como Lhe apraz?

E quanto aos trabalhadores da última hora (Mt 20, 1-16)? Que trabalharam somente uma hora e ganharam exatamente a mesma coisa que os que suportaram “o peso do dia e do calor”? Mas é precisamente a este “pai de família”, a quem é permitido fazer dos seus bens o que lhe apraz, que o Reino dos Céus é comparado. Onde fica o igualitarismo espírita? Por que, então, o sujeito que se arrepender na hora da morte vai entrar no mesmo Reino dos Céus onde a outra pessoa que passou a vida toda sendo temente a Deus também estará? Nosso Senhor já respondeu a estas questões! Elas só são difíceis para quem acredita que Talião é o Senhor do Universo, e que as coisas são regidas por um mecanicismo igualitário cego e impessoal. Crêem em Deus os espíritas? Por certo, não no mesmo Deus que eu creio.

O Cristianismo tem o mérito de dar valor ao sofrimento. Mas não como na Doutrina Espírita – o sofrimento não é uma “punição” por pecados de vidas passadas, mas sim uma oportunidade de santificação. Nosso Senhor era Justo, nele não havia pecado e, mesmo assim, Ele sofreu – é por isso que o sofrimento humano tem valor. Ele foi “divinizado” quando Deus tomou as nossas dores. Ele foi o preço da nossa Redenção; é por meio do sofrimento, então, que se alcança o Reino dos Céus, não na lógica talionesca espírita, mas na lógica da gratuidade do Amor Divino. O problema do mal só encontra sentido na Cruz de Nosso Senhor – é para Ela que os espíritas deveriam olhar, ao se questionarem sobre os males do mundo. Infelizmente, eles preferiram olhar para a Lei de Talião. São tão poucos os pontos em comum entre a doutrina de Kardec e a de Nosso Senhor Jesus Cristo, que somente com um olhar totalmente superficial é possível julgá-las parecidas ou mesmo compatíveis.

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Leia também:

  1. Os dogmas sem sentido do Espiritismo
  2. Robinho – o intolerante?
  3. Orígenes, a reencarnação e a Igreja Primitiva

Antes de comentar, por favor leia a política de comentários do Deus lo Vult!.

  • Wilson_Ramiro

     Caro Angelo

    Uma confissão sem arrependimento perde sua validade, uma vida correta é bom viver, não para pagar dívidas, mas porque é bom viver.

    A salvação que buscamos é algo tão grandioso que não é possível alcançá-la por nossos méritos apenas, eu não quero voltar em uma nova encarnação para me recuperar desta, esta basta. Infinitas destas vidas não me aproximariam do destino que quero.

    Deus e sua misericórdia quer que todos sejam salvos e nenhuma alma se perca. Mas Deus deseja pessoas livres, Ele quer que cada um escolha e luta para que MUITOS sejam salvos, ou melhor que muitos de forma livre digam que querem ser salvos e de forma sincera peçam-lhe.  Não é a falta de liberdade que destrói é o excesso.

    O arrependimento verdadeiro e que lava a alma e leva à salvação, não pode ser considerado como coisa pequena É uma coisa que pessoas arrogantes e que acreditam ser salvas pelo próprio esforço poderão ter dificuldade de compreender.

  • Angelo

     Uma única existência humana por mais longa que seja não é suficiente para que um Ser se torne um Ser elevando, muito menos um “Anjo”. São necessárias muitas labutas porque o Universo foi feito por Deus desta forma. Pelo menos esta é a mais racional e coerente diante de sua sabedoria e justiça que são infinitas como ele próprio é e que portanto não pode a divindade e sua providencia se enganarem.

    A unicidade da existencia humana não é compativel com a Justiça divina porque torna a vida de muitas criaturas sem sentido. Usando de uma expressão já utilizada por aqui, a vida desta forma torna-se uma sucessão de “dores por dores”, porque se a sorte de todos nós está irrevogavelmente definida para uma eternidade de bem aventurança para os bons e de sofrimento para os maus, então muitas coisas tornam-se “toscas” e as respostas catolicas são insuficientes para uma resposta sã e conforme a magnanima Justiça de Deus.

    Por exemplo:

    1 – Qual a sorte das crianças que perecem em tenra idade se não foi dada a elas a oportunidade de viverem um numero de anos maior para seguirem um caminho qualquer, seja do bem ou um caminho do mal? (Ahhh! tá!! vão para o limbo, o purgatorio ou seja lá que nome o Catolicismo criou para tal nível espiritual e que sabemos não encontra-se em nenhum dos evangelhos a menção de tal lugar por Jesus);

    2 – Se as almas são criadas juntamente com seus corpos por Deus, como explicar o progresso da humanidade? Ela estaria sempre a recomeçar porque desde os tempos remotos e pré-historicos que o homem então estaria no mesmo patamar e em um estado de primitividade. Ahhh! Já sei! Deus está criando almas mais aperfeiçoadas e isso já começou a um certo tempo, porque as almas de hoje são mais privilegiadas que as de ontem e portanto tem mais merecimento que as dos tempos pré-historicos??? Que Deus parcimonioso esse não?? Soberanamente justo e bom!! Ou não??

    3- Engraçado! Cristo no Evangelho toca neste ponto e responde a Nicodemos o seguinte: “o que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é espírito”, fazendo então a clara distinção entre o corpo e o Espírito e arrematando que “o espírito sopra onde quer e não sabeis de onde ele vem e nem pra onde vai”, numa clara menção de que ele já existia. Não está claro aqui que Jesus tenha dito que a alma nasça junto com o corpo. Não vejo outro sentido nestas palavras. E muito menos quando Jesus afirma “que é necessário nascer de novo” para ver o reino de Deus, ou seja, para alcançar o pensamento divino.

    4 – E o que dizer dos suicidas? Estarão eternamente perdidos para Deus nos infernos de fogo, sem remissão, mesmo que se arrependam?? Deus não quer em ultima instancia que “nenhum de seus filhos se perca”? Então como será o julgamento de tais criaturas? Não terão mais nenhuma oportunidade? Nem poderão mais reabilitarem-se do seu momento de insânia quando transgrediram a maior lei divina que é o dom da encarnação?

    Os pontos poderão aqui ser colocados de forma enfadonha e ainda assim não teriam uma resposta satisfatória no cabedal dos dogmas catolicos que são incongurentes, confusos e irracionais.

  • http://www.deuslovult.org/ Jorge Ferraz

    Incrível a quantidade de besteiras cuspidas aqui! Ao invés de entupir o espaço de comentários com as abobrinhas espíritas, sr. Angelo, o sr. faria melhor se procurasse responder às objeções levantadas contra o dogmatismo irracional espírita. Que tal?

  • http://www.deuslovult.org/ Jorge Ferraz

    Esta “historinha” é de uma pobreza espiritual assustadora! Custa acreditar que haja pessoas defendendo este mecanicismo grosseiro como se fosse uma doutrina elevada… :(

  • http://www.deuslovult.org/ Jorge Ferraz

     Angelo (em resposta a isto aqui):

    Eu não sei como é possível que isto não esteja claro, mas este post é sobre o mecanicismo grosseiro da concepção espírita de Deus (ou, em outras palavras, sobre como os espíritas confeccionaram uma nova roupagem meia-boca para Talião e a passaram a apresentar como se isto fosse uma doutrina evoluída).

    A tua “historinha” tosca demonstra exatamente isso: como os espíritas não conseguem ir além da Lex Talionis. A única diferença aqui é meramente quantitativa e não essencial: para você, a novidade do Evangelho é que fulaninho passa a perder um dedo somente ao invés de perder a mão inteira…

    Para defender o espiritismo, você deveria começar a) ou rejeitando a “historinha” ridícula como sendo uma fábula enganosa e mostrando que – a contrário do que ela diz – há, sim, perdão dentro do espiritismo; b) ou explicando como “dedo por mão” não é simplesmente uma versão (ligeiramente) mais light de “olho por olho”.

    Obviamente, o Purgatório não está em discussão aqui (o título deste post é “Kardec e Talião”) e nem eu tenho o menor interesse em discutir “assuntos sortidos” com um espírita de ethos protestante (!) incapaz de identificar a lei de Talião quando é ele próprio que a escreve.

    Abraços,
    Jorge

  • Sidnei

    “20 É o pecador que deve perecer. Nem o filho responderá pelas faltas do pai nem o pai pelas do filho. É ao justo que se imputará sua justiça, e ao mau a sua malícia. 21 Se, no entanto, o mau renuncia a todos os seus erros para praticar as minhas leis e seguir a justiça e a eqüidade, então ele viverá decerto, e não há de perecer. 22 Não lhe será tomada em conta qualquer das faltas cometidas: ele há de viver por causa da justiça que praticou. 23 Terei eu prazer com a morte do malvado? – oráculo do Senhor Javé. – Não desejo eu, antes, que ele mude de proceder e viva? 24 E, se um justo abandonar a sua justiça, se praticar o mal e imitar todas as abominações cometidas pelo malvado, viverá ele? Não será tido em conta qualquer dos atos bons que houver praticado. É em razão da infidelidade da qual se tornou culpado e dos pecados que tiver cometido que deverá morrer. 25 Dizeis: não é justo o modo de proceder do Senhor. Escutai-me então, israelitas: o meu modo de proceder não é justo? Não será o vosso que é injusto? 26 Quando um justo renunciar à sua justiça para cometer o mal e ele morrer, então é devido ao mal praticado que ele perece. 27 Quando um malvado renuncia ao mal para praticar a justiça e a eqüidade, ele faz reviver a sua alma. 28 Se ele se corrige e renuncia a todas as suas faltas, certamente viverá e não perecerá. 29 E eis que a casa de Israel pretende que o modo de proceder do Senhor não seja justo! Não é acaso o vosso modo de proceder que é injusto? 30 Assim, pois, casa de Israel, é segundo o vosso próprio proceder que julgarei cada um de vós – oráculo do Senhor Javé. Convertei-vos! Renunciai a todas as vossas faltas! Que não haja mais em vós o mal que vos faça cair. 31 Repeli para longe de vós todas as vossas culpas, para criardes em vós um coração novo e um novo espírito. Por que haveríeis de morrer, israelitas? 32 Não sinto prazer com a morte de quem quer que seja – oráculo do Senhor Javé! Convertei-vos, e vivereis!  (Ez. 18, 20-32)

    “1 Com efeito, o Reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar operários para sua vinha. 2 Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para sua vinha. 3 Cerca da terceira hora, saiu ainda e viu alguns que estavam na praça sem fazer nada. 4 Disse-lhes ele: – Ide também vós para minha vinha e vos darei o justo salário. 5 Eles foram. É sexta hora saiu de novo e igualmente pela nona hora, e fez o mesmo. 6 Finalmente, pela undécima hora, encontrou ainda outros na praça e perguntou-lhes: – Por que estais todo o dia sem fazer nada? 7 Eles responderam: – É porque ninguém nos contratou. Disse-lhes ele, então: – Ide vós também para minha vinha. 8 Ao cair da tarde, o senhor da vinha disse a seu feitor: – Chama os operários e paga-lhes, começando pelos últimos até os primeiros. 9 Vieram aqueles da undécima hora e receberam cada qual um denário. 10 Chegando por sua vez os primeiros, julgavam que haviam de receber mais. Mas só receberam cada qual um denário. 11 Ao receberem, murmuravam contra o pai de família, dizendo: 12 – Os últimos só trabalharam uma hora… e deste-lhes tanto como a nós, que suportamos o peso do dia e do calor. 13 O senhor, porém, observou a um deles: – Meu amigo, não te faço injustiça. Não contrataste comigo um denário? 14 Toma o que é teu e vai-te. Eu quero dar a este último tanto quanto a ti. 15 Ou não me é permitido fazer dos meus bens o que me apraz? Porventura vês com maus olhos que eu seja bom? (Mat. 20, 1-15)

  • Wilson_Ramiro

     Caro Jorge Ferraz

    Vamos e convenhamos que paciência tem limite.

    Se um individuo  entra em um post, e ele mesmo afirma que Não pretende debater e pretende apenas vomitar vitupérios contra Igreja Católica, tá faltando substituir o lixo enviado por uma “tag” [LIXO].

    Estes espíritas que apareceram aqui no teu blog tem muitas limitações, eles evitam o debate por não terem o domínio de sua própria doutrina, o que é uma pena, pois debater com que pensa diferente é sempre interessante, quando este debatedor tem educação conteúdo e pensa.

    Trabalha na mesma empresa que eu, um espírita que espera que antes do debate, ele seja aceito como sendo mais evoluído, é muito frustrante para um início de conversa, ele também acredita em todos os dogmas espíritas, mas jura que os mesmos não existem, e também quer que todos aceitem que, se ele acredita, então não é preciso nem confirmações nem evidências de seus dogmas.

    Se for debater com alguém não católico, não adianta eu relacionar os dogmas católicos e esperar que por isto ele aceite minhas opiniões, eles fazem isto é dizem “É O RESULTADO DE FATOS. É O RESULTADO DE REVELAÇÕES DE ALMAS”  blá blá blá…