Inception

closeAtenção, este artigo foi publicado 6 anos 11 meses 27 dias atrás.

[ATENÇÃO! CONTÉM SPOILERS!]

Haviam me dito que “A Origem” (Inception, 2010) era um bom filme. Se esta opinião está equivocada, é por excesso de parcimônia nos elogios: o filme não é apenas “bom”, é uma verdadeira obra-prima. Assisti-o agora há pouco, e o recomendo enfaticamente: uma história inovadora, uma trama muito bem urdida, excelentes atuações, cenas de violência dentro do limite, completamente livre de cenas de sexo. Este último ponto merece destaque, por ser raridade na Sétima Arte. Inception prova, definitivamente, que um filme não precisa conter cenas apelativas para ser um incontestável sucesso de bilheteria. Quero tecer alguns comentários sobre o filme, mas aos que pretendem ainda ir ao cinema recomendo que o assistam antes de lerem estas minhas linhas: conhecer previamente a história vai estragar bastante a sensação – deliciosa! – de descobri-la pouco a pouco na sala escura do cinema.

Ouvi dizer que o filme é “muito cabeça” e exige “muita atenção” – besteira. O filme é relativamente simples. Somente possui um bom roteiro que naturalmente não pode ser acompanhado com a mesma displicência com a qual se assiste The Expendables; mas o desenrolar da trama percebe-se muito mais facilmente do que, por exemplo, em “Amnésia” (que, aliás, é do mesmo diretor). As cenas que só fazem sentido no final do filme ou são detalhes (que, imagino, devem fazer valer bastante a pena uma segunda ida ao cinema…) ou estão muito bem nítidas na memória, a despeito das quase duas horas e meia do filme – que, diga-se, nem se percebe passarem.

A história: existem uns sujeitos que conseguem entrar nos sonhos das outras pessoas. Isso pode ser feito com dois objetivos: extrair informação, que é de longe o mais comum, ou incutir uma idéia na mente da vítima – fazer uma inception, uma inserção, um “implante” (que talvez fosse uma tradução melhor para o nome do filme) de um pensamento que, quando acordada, a pessoa adopte como seu e com base no qual passe a agir. Há quem diga que inceptions são impossíveis, mas Cobb (DiCaprio) diz que é possível e aceita fazer um serviço desses em troca de ter a sua ficha limpa com a polícia americana.

O serviço para o qual Cobb é contratado não tem nada de simples: trata-se de fazer um inception em Robert Fischer, um jovem herdeiro de uma (praticamente) hegemônica companhia de eletricidade, para convencê-lo a dividir o império do pai e, assim, possibilitar que a empresa concorrente – que contrata Cobb – continue existindo. Esta idéia, para ser aceita, precisa naturalmente ser apresentada como uma boa idéia (“vou chutar o pau da barraca e acabar com a minha herança” não funcionaria), precisa que o alvo aceite-a como sua, própria (trata-se, assim, muito mais de insinuar alguma coisa que depois desenvolva-se naturalmente do que enxertar algo facilmente reconhecível como exógeno), e precisa ser feita no profundo do subsconsciente: para isso, Cobb e sua equipe abusam da técnica de “sonhos dentro dos sonhos”. Funciona assim: “entrar no sonho” leva até um nível do subconsciente da vítima; mas se, dentro do sonho, põe-se o sujeito para dormir e entra-se no “sonho do sonho”, atinge-se um nível de inconsciente mais profundo e, para os objetivos de Cobb, mais interessantes. O plano original é a adentrar “três níveis” no subconsciente de Fischer e, “lá embaixo”, incutir a idéia que desabroche, “lá em cima”, na decisão de se desfazer do império que o pai construiu.

Várias coisas encantam no filme. Primeiro, a “ambientação” é muito bem feita. Há os caras – “arquitetos” – que “desenham” o cenário do sonho onde fulano vai ser colocado. Quando o alvo é posto dentro do sonho, o seu subconsciente “povoa” o cenário criado: as pessoas que estão no sonho são projeções da sua mente, etc. Em particular, caso haja no cenário um “cofre” ou coisa parecida, a mente do sujeito, instintivamente, “joga” lá dentro aquilo que quer manter como segredo (tornando fácil a extração de informações para os invasores de sonhos – cria-se o cenário com o cofre, quando o sujeito sonha o seu subconsciente põe no cofre o segredo, e então basta arrombar o cofre e obter o segredo). Nos sonhos, o tempo passa mais devagar do que fora deles, e isso funciona recursivamente: se 1 minuto na “vida real” corresponde a 20 minutos dentro do sonho, vai corresponder a 400 minutos no “sonho dentro do sonho” – e assim por diante. No sonho, repercutem as sensações do que está acontecendo com o sujeito que dorme: se ele estiver molhado, p.ex., vai estar chovendo no sonho. A quantidade de detalhes impressiona.

Mas o filme tem “camadas”, como se costuma dizer hoje em dia – ou, melhor dizendo, sonhos dentro de sonhos, tramas dentro de tramas. Há toda essa história dos invasores de sonhos. Dentro disso, há os interesses políticos da companhia que quer convencer o Fischer a desfazer-se do império do pai, serviço que Cobb topa. Dentro deste serviço, há a motivação de Cobb que é poder voltar para os Estados Unidos e se encontrar com os filhos. E, dentro disso, no mais profundo das tramas, há o drama interior do protagonista de se desvencilhar das lembranças de sua mulher morta e da culpa que ele sente por a ter levado a cometer suicídio.

[Provavelmente vai aparecer quem diga que, ainda mais profundo do que isso, há a discussão sobre até que ponto a realidade é realmente real, mas este blá-blá-blá totalmente clichê e de valor filosófico nulo é indigno do filme. Volto a este ponto no final do texto.]

Encanta também a trama. O protagonista precisa se libertar da culpa que sente com relação à morte da esposa. Quer voltar para os filhos, e encontra esta possibilidade no serviço para o qual foi contratado. Antes de convencer um jovem bem-sucedido a lançar às favas o império que o pai a duras penas construiu, o que Cobb e sua equipe terminam fazendo é reconciliar um filho com o seu pai. E o protagonista, perdido nos seus sonhos e pensamentos, recebe da jovem arquiteta a ajuda necessária para vencer o seu próprio passado e ser finalmente capaz de viver o seu futuro. Notem: todas as motivações – e as atitudes – são positivas! A única coisa mesquinha que existe no filme – o desejo de “quebrar”, desonestamente, uma empresa bem-sucedida – é também apresentada de maneira positiva (“é importante para o mundo que esta empresa não detenha o monopólio da distribuição de energia”) e – principalmente – é alcançada por um meio extremamente positivo, provocando uma reconciliação familiar. No filme, não há vilões; há os dramas pessoais de almas sofridas que, por si sós, já são responsáveis pela virtual totalidade dos males que existem no mundo.

E, por fim, também encantam as sutilezas. A forma que Cobb usa para implantar em sua esposa a idéia de que a realidade é uma ilusão é simplesmente genial. O que Fischer encontra no cofre do pai lá no terceiro nível de sonhos – o catavento da foto de quando era criança – é emocionante. O que Cobb diz para a projeção (feita por seu subconsciente) da sua mulher, ao final do filme, é um elogio feminino para o qual eu não encontro paralelos no cinema recente: “não passas de uma sombra pálida da mulher que eu amei. És o melhor que eu consegui fazer e, no entanto, não és boa o bastante”.

As pessoas – a realidade! – ultrapassam infinitamente as imagens que temos delas, por mais honestos que sejamos, por mais que nos esforcemos! Não existe bobagem de ceticismo ou de dúvida idiota – estilo Matrix – sobre se o que julgamos ser a realidade é de fato real. No extremo oposto disso, o filme é um tremendo louvor à realidade, por dura que ela seja. É isto que o filme, ao final das contas, nos ensina. Por mais que possamos ser deuses e ter um mundo só nosso no “limbo” dos sonhos profundos, a realidade vale mais – muito mais – do que isso. É sempre necessário aceitá-la. Sempre vale a pena voltar.

Gostou? Compartilhe!Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someonePrint this page

11 thoughts on “Inception

  1. Vinícius

    O filme é excelente. Eu recomendo muito. Mas eu fiquei em dúvida se ele estava sonhando no final. Apensar de ter visto o rosto dos filhos, o peão continuou girando. Pelo que tinha entendido ele só tinha certeza de que não estava sonhando quando o peão estava parado.

    Outra dúvida que eu(e outros) tive foi por que o Fisher não os reconheceu no avião após a inserção.

    Enfim, acho que vou ter que assistir novamente para entender melhor alguns pontos.

  2. Jorge Ferraz Post author

    Eu tenho algumas dúvidas e algumas teorias.

    No final do filme, a carrapeta (aqui em Recife aquilo se chama “carrapeta”… pião é o que se roda com um cordão) bambeia e, IMMO, vai cair – só não cai porque a câmera corta. O corte pode ter sido feito por dois motivos: justamente para deixar uma dúvida no final do filme (“será que ele está sonhando? Será que ele está acordado?”) ou – minha favorita – para traduzir em atos a libertação do protagonista. No filme inteiro ele roda a carrapeta e fica olhando para ela, porque esta é a única forma que ele tem de distinguir o sonho da realidade. No final, ele a roda e não quer nem saber: dá-lhe as costas e corre para os filhos. A câmera ter-lhe focado enquanto ela não caía serve para destacar como aquele momento foi sublime: era a realidade, mas era “tão bom” quanto um sonho.

    Ainda sobre a carrapeta, há uma brecha para se fazer muitas reviravoltas em uma possível continuação porque, lá no limbo, na praia, os soldados pegaram-na e o velho, se a memória não me falha, pôs ela para rodar na mesa. O “segredo” do token consiste precisamente em que ninguém – a não ser o dono dele – saiba exatamente seu peso e suas dimensões. Se alguém pegar o token, ele deixa de funcionar como token; foi isso o que eu entendi da conversa lá entre a arquiteta e o outro sujeito, que lhe mostra o dado viciado.

    Quanto ao Fischer, eu tive ao contrário a impressão de que ele os conheceu: na sala de bagagem, ele olha de uma maneira estranha e faz uma cara como se estivesse tentando lembrar de alguma coisa. Acho que, dos sonhos – como é natural -, lembra-se do núcleo, do ‘sentido’ geral, e não de cada um dos detalhes.

    Uma dúvida absurda que eu tive (e que se me afigurou como a única falha imperdoável de roteiro) foi com relação aos “sonhos aninhados”: o que acontece (fisicamente) com quem está sonhando reflete no sonho que ele está tendo. Assim, quando os caras estão dormindo dentro da Van e esta está caindo, a sensação de queda livre destrói a gravidade no hotel (sonho). No entanto, no sonho da neve (dentro do sonho do hotel) a gravidade está normal! Por quê? As bagunças físicas deveriam perpassar as camadas. A música, p.ex., não perpassa? Por que a falta de gravidade não?

    Quanto à música, é GENIAL! Os caras acordam ouvindo “non, je ne regrette rien”: a coisa mais apropriada possível que poderia ser colocada para um sujeito que só se perdoou quando estava nos sonhos profundos! E só conseguiu tornar a viver após isso; e, aí, não canta no filme, mas quem conhece a música sabe que ela termina: “car ma vie, car mes joies, aujourd’hui, ça commence avec toi”! Ah, este filme foi muito bem pensado. :)

    Abraços,
    Jorge

  3. Vinícius

    E o que você apreendeu do que aconteceu com a sua esposa morta? Ele conseguiu “deletá-la” mesmo da mente?

    Desculpa, Jorge. Se você puder apagar a resposta acima…

  4. Jorge Ferraz Post author

    Vinícius,

    Entendi que ele não a “deletou” no sentido de esquecer, mas ele conseguiu – enfim! – relacionar-se com ela de forma madura: como as lembranças de um passado que foi bom, e não como uma obsessão que ele insistia em manter viva por não conseguir desvencilhar-se dela.

    Abraços,
    Jorge

  5. Wagner Moura

    Jorge, eu li o primeiro parágrafo do post e marquei na agenda para ver o filme e, então, retornar e ler o que você comentou. Realmente foi muito bom, mas, um pouco cansativo… O sonho, do sonho, do sonho, do sonho, às vezes fazia com que eu me perdesse! =D Por exemplo… Saí sem entender qual era a do sonho, do sonho, do sonho, do sonho, daquele velho oriental! Ora! Ele ficou preso em algum dos sonhos foi isso? Mas como se ele sempre acordou? Não entendi nada. Enfim, esses filmes que trabalham dimensões múltiplas são um paradoxo. Se 50 anos se passaram, então Cobb e Mal deveriam estar velhos. Sei lá. Muita coisa surreal. É sonho. É possível. Eu gostei mas não veria de novo.

  6. Pingback: O sonho do sonho « Vida sim, aborto não!

  7. Rogério

    Quanto a duvida do Jorge sobre a alteração da gravidade não afetar o outro nivel do sonho (da neve), no filme eles explicam que conforme vão “descendo” nos sonhos os efeitos sentidos vão diminuindo em intensidade (por exemplo a dor de Saito).
    E no momento em que a gravidade é alterada o efeito sentido no sonho da neve é uma avalanche.
    Achei o filme fantástico e acho que a história linear é genial, mas o seu ponto alto é a incerteza que deixa.

  8. Lampedusa

    Uma dúvida e uma impressão: a carrapeta era do Cobb ou da Mal? Não estava no cofre da casa dela no mundo do sonho?

    A impressão: ele parece ‘criticar’ o sentiimento de culpa, pois a existência da Mal nos sonhos de Cobb eram fruto da culpa que ele sentia e Mal sempre sabotava os sonhos dele. Ou seja, a culpa é algo ruim para Nolan?

  9. Jorge Ferraz Post author

    Lampedusa,

    A carrapeta era da Mal, mas o Cobb ficou com ela depois que ela morreu. Estava no cofre do subconsciente dela, mas também existia “de verdade”.

    Quanto à culpa, a impressão que eu tive é a de que é algo ruim enquanto “amarra” que impede a pessoa de se levantar e seguir em frente – e, neste sentido, é muito mais a obsessão que Cobb tinha pela Mal que a fazia “estragar tudo”.

    Abraços,
    Jorge

  10. Lampedusa

    Esse detalhe da carrapeta da Mal é interessante. Pode ter a seguinte interpretação: a força de uma ideia é de tal ordem que a pessoa pode “esconder num cofre” aquilo que é real se essa realidade contrariar a ideia. Leve isso para o campo das ideologias! O marxismo, por exemplo, se a realidade difere de suas ideias a realidade é que está errada e deve ser escondida (ou reinterpretada)…