O “grave dever” dos bispos de orientarem os fiéis também em questões políticas – discurso de Bento XVI aos bispos da Regional Nordeste 5

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Porém, sempre lhe deve ser permitido [à Igreja] pregar com verdadeira liberdade a fé; ensinar a sua doutrina acerca da sociedade; exercer sem entraves a própria missão entre os homens; e pronunciar o seu juízo moral mesmo acerca das realidades políticas, sempre que os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem (Gaudium et Spes, 76).

A comunidade política e a Igreja não se confundem, porque ambas têm fins próprios e distintos e têm em si os meios necessários para alcançar estes fins: o Estado serve para cuidar da ordem temporal e, a Igreja, da ordem espiritual. O Estado existe para servir à sociedade e, a Igreja, para levar os homens ao Céu. Nas palavras da Gaudium et Spes, “[n]o domínio próprio de cada uma, comunidade política e Igreja são independentes e autónomas” (id. ibid.). Esta é a boa doutrina católica.

No entanto, embora não se confundam, Estado e Igreja também não são duas realidades completamente distintas, sem nenhum ponto de intersecção entre elas: afinal, os homens que fazem parte da sociedade são os exatos mesmos homens que a Igreja tem a missão de guiar neste mundo. Os domínios temporal e espiritual são distintos, mas o homem faz parte de ambos. É na realidade humana, portanto, que Fé e Política se tocam. A política tem o dever de facilitar ao homem o cumprimento de sua vocação sobrenatural. Em contrapartida, a Fé tem também o dever de defender a dignidade humana inclusive nos seus aspectos temporais, quando esta é ameaçada. Esta, repito, é a boa doutrina católica.

Têm, portanto, os pastores – os bispos! – o dever de emitir juízos morais também sobre as realidades políticas, quando as circunstâncias assim o exigirem. E foi isso que o Papa recordou hoje, em discurso aos bispos brasileiros do Regional Nordeste 5 da CNBB. O discurso de Pedro veio corroborar aquilo que alguns prelados corajosos fizeram no Brasil ao longo dos últimos meses: denunciar as mazelas morais do Partido dos Trabalhadores, bem como a intrínseca e radical incompatibilidade entre o programa político deste partido e a dignidade da pessoa humana e, portanto, a proibição moral de que se apóie tal partido com o próprio voto.

Os bispos têm não apenas o direito, mas também o dever, de emitir juízos morais sobre as realidades políticas – é o Papa quem o diz com todas as letras! E quantos prelados no Brasil cumpriram com este “grave dever”? Quantos outros, ao contrário, preferiram silenciar, ou confundir os fiéis com declarações contrárias à realidade dos fatos, ou ainda – pior! – tentaram calar as vozes proféticas que se levantaram em defesa da dignidade humana ameaçada pelas políticas imorais do partido que ora se encontra no Governo do Brasil? A estes, o Papa manda um (nada) sutil recado: tínheis um dever a cumprir, e não o fizestes. Calastes, quando devíeis levantar a vossa voz bem alto para defender a dignidade humana ameaçada. Silenciastes diante das iniqüidades de César.

E o Papa vai além, ao afirmar que não é possível falar em avanços sociais se os direitos básicos da pessoa humana são violados. Não são lícitos os projetos políticos, econômicos ou sociais – por mais justos que se apresentem – que não contemplem a radical defesa da vida humana da concepção à morte natural. A defesa do aborto, velada ou aberta, não pode ser aceita sob nenhuma justificativa, e é dever dos bispos dizer isso com toda a clareza possível, sem temer qualquer tipo de impopularidade ou oposição. É o Papa que fala aos bispos do Brasil, às vésperas do Segundo Turno das eleições presidenciais. É Bento XVI que vem em socorro dos bispos fiéis desta Terra de Santa Cruz, que não trocaram o múnus episcopal por conluios promíscuos com este mundo. E não se calaram, quando a situação exigiu que suas vozes se levantassem em defesa da vida humana ameaçada. Bento XVI hoje diz: eles só cumpriram com um seu dever.

Estamos às vésperas do pleito. Que as palavras do Doce Cristo na Terra possam encontrar eco nos corações de todos os brasileiros de bem. E que as luzes do Espírito Santo possam iluminar o entendimento dos eleitores do próximo dia 31: que eles entendam que certos valores são inegociáveis, e não podem ser aceitos sob nenhuma justificativa.

Segue abaixo, o discurso do Papa [p.s.: versão oficial na Rádio Vaticana]. Todos os grifos são meus. E que Nossa Senhora Aparecida salve o Brasil.

P.S.: Não deixe de ler também: Bento XVI defenderá hoje ação política da Igreja contra o aborto.

* * *

Amados Irmãos no Episcopado,

«Para vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo» (2 Cor 1, 2). Desejo antes de mais nada agradecer a Deus pelo vosso zelo e dedicação a Cristo e à sua Igreja que cresce no Regional Nordeste 5 [cinco]. Nos nossos encontros, pude ouvir, de viva voz, alguns dos problemas de caráter religioso e pastoral, além de humano e social, com que deveis medir-vos diariamente. O quadro geral tem as suas sombras, mas tem também sinais de esperança, como Dom Xavier Gilles acaba de referir na saudação que me dirigiu, dando livre curso aos sentimentos de todos vós e do vosso povo.

Como sabeis, nos sucessivos encontros com os diversos Regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tenho sublinhado diferentes âmbitos e respectivos agentes do multiforme serviço evangelizador e pastoral da Igreja na vossa grande Nação; hoje, gostaria de falar-vos de como a Igreja, na sua missão de fecundar e fermentar a sociedade humana com o Evangelho, ensina ao homem a sua dignidade de filho de Deus e a sua vocação à união com todos os homens, das quais decorrem as exigências da justiça e da paz social, conforme à sabedoria divina.

Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem social justa é próprio dos fiéis leigos, que, como cidadãos livres e responsáveis, se empenham em contribuir para a reta configuração da vida social, no respeito da sua legítima autonomia e da ordem moral natural (cf. Deus caritas est, 29). O vosso dever como Bispos junto com o vosso clero é mediato, enquanto vos compete contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças morais necessárias para a construção de uma sociedade justa e fraterna. Quando, porém, os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas (cf. GS, 76).

Ao formular esses juízos, os pastores devem levar em conta o valor absoluto daqueles preceitos morais negativos que declaram moralmente inaceitável a escolha de uma determinada ação intrinsecamente incompatível com a dignidade da pessoa; tal escolha não pode ser resgatada pela bondade de qualquer fim, intenção, conseqüência ou circunstância. Portanto, seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até à morte natural (cf. Christifideles laici, 38). Além disso no quadro do empenho pelos mais fracos e os mais indefesos, quem é mais inerme que um nascituro ou um doente em estado vegetativo ou terminal? Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático – que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana – é atraiçoado nas suas bases (cf. Evangelium vitae, 74). Portanto, caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (ibidem, 82).

Além disso, para melhor ajudar os leigos a viverem o seu empenho cristão e sócio-político de um modo unitário e coerente, é «necessária — como vos disse em Aparecida — uma catequese social e uma adequada formação na doutrina social da Igreja, sendo muito útil para isso o “Compêndio da Doutrina Social da Igreja”» (Discurso inaugural da V conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe, 3). Isto significa também que em determinadas ocasiões, os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a promoção do bem comum (cf. GS, 75).

Neste ponto, política e fé se tocam. A fé tem, sem dúvida, a sua natureza específica de encontro com o Deus vivo que abre novos horizontes muito para além do âmbito próprio da razão. «Com efeito, sem a correção oferecida pela religião até a razão pode tornar-se vítima de ambigüidades, como acontece quando ela é manipulada pela ideologia, ou então aplicada de uma maneira parcial, sem ter em consideração plenamente a dignidade da pessoa humana» (Viagem Apostólica ao Reino Unido, Encontro com as autoridades civis, 17-IX-2010).

Só respeitando, promovendo e ensinando incansavelmente a natureza transcendente da pessoa humana é que uma sociedade pode ser construída. Assim, Deus deve «encontrar lugar também na esfera pública, nomeadamente nas dimensões cultural, social, econômica e particularmente política» (Caritas in veritate, 56). Por isso, amados Irmãos, uno a minha voz à vossa num vivo apelo a favor da educação religiosa, e mais concretamente do ensino confessional e plural da religião, na escola pública do Estado.

Queria ainda recordar que a presença de símbolos religiosos na vida pública é ao mesmo tempo lembrança da transcendência do homem e garantia do seu respeito. Eles têm um valor particular, no caso do Brasil, em que a religião católica é parte integral da sua história. Como não pensar neste momento na imagem de Jesus Cristo com os braços estendidos sobre a baia da Guanabara que representa a hospitalidade e o amor com que o Brasil sempre soube abrir seus braços a homens e mulheres perseguidos e necessitados provenientes de todo o mundo? Foi nessa presença de Jesus na vida brasileira, que eles se integraram harmonicamente na sociedade, contribuindo ao enriquecimento da cultura, ao crescimento econômico e ao espírito de solidariedade e liberdade

Amados Irmãos, confio à Mãe de Deus e nossa, invocada no Brasil sob o título de Nossa Senhora Aparecida, estes anseios da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e de todos os homens de boa vontade em defesa dos valores da vida humana e da sua transcendência, junto com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres da província eclesiástica do Maranhão. A todos coloco sob a Sua materna proteção, e a vós e ao vosso povo concedo a minha Benção Apostólica.

Benedictus PP. XVI

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23 thoughts on “O “grave dever” dos bispos de orientarem os fiéis também em questões políticas – discurso de Bento XVI aos bispos da Regional Nordeste 5

  1. Karina

    Ainda bem que temos nosso Papa, a serviço da Palavra de Deus, para conduzir a barca de Pedro por mares turbulentos.

    Fico pensando nos padres que teimam em remar contra a barca. Deus os ilumine, e a nós todos.

  2. André

    Glória a Deus pela nossa Igreja! Glória a Deus pelo Bispo de Roma!

  3. Francisco de Castro

    Devemos rezar muito pelo papa. Pois como ouvi dito com toda naturalidade, por uma pessoa da Igreja “O papa não é obedecido há muito tempo…” e isto não só em relação ao João Paulo II e os anteriores. infelizmente a palavra do papa não muda em nada a postura dos clérigos do Brasil. A não ser que voce se torne tradicionalista aí sim, num isntante eles vão dizer que voce está contra a Igreja e contra o papa porque rejeita o Vaticano II, enquanto eles rejeitam as determinações do concilio Vaticano II na pratica.

  4. lucas

    Para nós leigos resta rezar muuuuuito… e possamos já no final de domingo festejar a derrota da Dilma.

  5. Lampedusa

    Creio que mais que influenciar essas eleições de domingo, esse discurso do Papa pode ser um divisor de águas na relação Igreja x Governo no Brasil.

    Viva o Papa!

  6. Pingback: E Pedro falou! « Ecclesia Una

  7. Renato

    Olá a todos,

    Ajudem a divulgar esse vídeo, com as palavras do Santo Padre proferidas na manhã de hoje, que fortalecem a todos que estão empenhados nessa batalha em nosso país.

    O Papa falou, agora o assunto ganhou uma voz de peso inigualável:

    http://www.youtube.com/watch?v=qGgf3l_r0Qw

    Chega de medo e confusões: A Igreja tem toda a voz nesse debate!

  8. Lucio

    Preparai-vos, irmãos: os infiéis vão rasgar suas vestes ainda mais fortemente, e gritar à nossos ouvidos como religião e estado não devem se misturar, mas esquecendo a própria liberdade de expressão, de opinião e de consciência que eles DIZEM defender, e cujas origens de tolerância, amor e justiça remetem ao coração da religião cristã. Devemos fazer todo o possível para impedir que a intolerância escureça o futuro, seja tal individual, seja tal coletivo. O impossível à Deus compete.

    Misere, Domine. Sancti, ora pro nobis…

  9. NovaCivilizacao

    Fiquei muito Feliz com a declaração do Papa. Estou em oração, rezando o terço diariamente e pedindo muito a Deus pelo nosso Brasil,

    Amém

    Abraços fraternos

    Gisele

  10. Alex A.B.

    Vale a pena, neste caso, chover no molhado!

    Vejam o que diz o Catecismo:

    2246. Faz parte da missão da Igreja «proferir um juízo moral, mesmo acerca das realidades que dizem respeito à ordem política, sempre que os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem utilizando todos e só os meios conformes com o Evangelho e o bem de todos segundo a variedade dos tempos e circunstâncias» (31).

    http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s2cap2_2196-2557_po.html

  11. juliete

    Como vai ficar a posição de certos padres e bispos que emitiram até manifestos em favor da Dilma e do PT, depois do pronunciamento de S.S. Bento XVI?

  12. Alex A.B.

    Juliete, o juízo de que o Papa fala é sempre de acordo com a Lei Natural e com a Fé Católica.
    Apoiar partidos abortistas e canidatos abortistas e comprometidos com causas anti-cristãs ou contrárias à vida, sobretudo humana, é sempre errado e anti-ético.

  13. Alex A.B.

    P.S.: Desculpem pelos erros de digitação. É que estou com uma das mãos efaixada.

  14. Olegario

    Juliete,

    “Como vai ficar a posição de certos padres e bispos que emitiram até manifestos em favor da Dilma e do PT, depois do pronunciamento de S.S. Bento XVI?”

    Do mesmo jeito que está.
    O Papa orientando e eles, os socialistas, contrariando.
    Filha, o que O Papa diz, ensina e direciona, não importa para essa gente.
    O sucessor de Pedro na mente deles é o Boff.
    E fecha a conta.

    Olegário.

    Em tempo: Ficou feio, mas muito feio mesmo,foi pro Chalita e a CN. Que papelão!
    Há pouco fiquei sabendo ( cá entre nós, bem baixinho…) que o apoio do Chalita à Dilma está condicionado a uma causa nobre.
    Adivinha o que é?
    Ministério da Educação.
    Esse foi seu “prato de lentilhas”.
    Bobo é quem pensa que ele é bobo.

  15. Pingback: Bento XVI neles! « Vida sim, aborto não!

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  18. Geronimo Sachett

    Quanta furia religiosa destes fanaticos, preocupados com a vida de um feto, mas nem um pouco preocupados com milhões de vidas mundo afora sendo exterminadas em guerras e miséria promovidas por paises que se dizem cristãos, pelo contrario até colaboram para isto, não é por acaso que a igreja católica esta sendo odiada cada vez mais no mundo, é justamente por estar sempre do lado dos poderosos e ajudando a oprimir o povo. Um exemplo disto é na Bolivia, o que a igreja tem que opinar e ser contra a nacionalização do gáz e do petroleo pelo governo de Evo Morales, o que isto tem a ver com religião? um país rico em petroleo e gaz no entanto seu povo não usufruia destas riquesas, tudo era canalisado ao exterior, será que Deus não permite que bolivianos tenham direito a gaz mais barato. Eu trabalhei na bolivia e vi e estudei as causas da pobreza deste povo, desde o descobrimento eles foram espoliados e roubados, primeiro pela corja espanhola aliada da igreja e depois pelas multi nacionais, dai entende- em se meter em assuntos que não lhe diz respeitose as preocupações da igreja. Felizmente os Bolivianos estão começando a entender o que esta corja quer na verdade.