O combate ao erro e também àquele que erra

closeAtenção, este artigo foi publicado 6 anos 2 meses 15 dias atrás.

[O texto apareceu recentemente na lista “Tradição Católica”; buscando-o na internet, descobri que ele já havia sido publicado aqui. Reproduzo-o na íntegra, por julgar as considerações do autor extremamente pertinentes. São palavras que fazem eco àquelas de São Francisco de Sales (aliás, o mesmo a dizer que é mais fácil capturar moscas com mel do que com vinagre): “os inimigos de Deus e da Igreja devem ser difamados tanto quanto se possa, contanto que não se falte com a verdade; porque é dever de caridade gritar “Eis o lobo!” quando ele está entre o rebanho, ou em qualquer lugar onde se encontre”.

No mesmo sentido, é extremamente recomendada a leitura deste “Capítulo II” do “Em defesa da Ação Católica”, de Plínio Corrêa de Oliveira.]

Capítulo XXIII

SE É CONVENIENTE AO COMBATER O ERRO COMBATER E DESAUTORIZAR A PERSONALIDADE DO QUE O SUSTENTA E PROPALA

Dir-se-á porém: “Conceda-se isso com respeito às doutrinas em abstrato. Mas será conveniente ao combater o erro, por maior que o seja, cevar-se e encarniçar-se contra a personalidade do que o sustenta?”

Responderemos que muitas vezes sim, é conveniente e não só conveniente, mas até indispensável, e meritório diante de Deus e da sociedade. E ainda que bem pudesse deduzir-se esta afirmação do que anteriormente havemos exposto, queremos, todavia, tratá-la aqui ex professo, pois é grande a sua importância.

Com efeito, não é pouco freqüente a acusação que se faz ao apologista católico de ocupar-se sempre das pessoas, e quando se lança em rosto a um dos nossos o atacar uma pessoa, parece aos liberais e aos contaminados de Liberalismo que já não há mais que dizer para condená-lo.

E, não obstante, não têm razão; não, não a têm. As idéias más hão de ser combatidas e desautorizadas; é preciso torná-las aborrecidas, desprezíveis e detestáveis à multidão, a essa que intentam embair e seduzir. Mas quer o acaso que as idéias não se sustentem por si mesmas no ar, nem por si mesmas fazem todo o dano à sociedade. São como as flechas ou balas, que a ninguém iriam ferir, se não houvesse quem as disparasse com o arco ou com a espingarda.

Ao atirador se devem, pois, dirigir primariamente os tiros do que deseje destruir a sua mortal pontaria; e qualquer outro modo de fazer a guerra será tão liberal como queiram, porém, não terá sentido comum. Soldados com armas de envenenados projéteis são os autores e propagandistas de doutrinas heréticas; suas armas são o livro, o jornal, o discurso público, a influência pessoal.

Não basta, pois, desviar-se para evitar o tiro, não; o principal e mais eficaz é deixar inabilitado o atirador. Assim, convém desautorizar e desacreditar o seu livro, periódico, ou discurso; e não só isso, senão desautorizar e desacreditar em alguns casos a pessoa. Sim, a pessoa, porque é este o elemento principal do combate, como o artilheiro é o elemento principal da artilharia, e não a bomba, a pólvora ou o canhão.

Pode-se, pois, em certos casos, trazer a publico suas infâmias, ridicularizar seus costumes, cobrir de ignomínia o seu nome e apelido. Sim, senhor; e pode-se fazer em prosa ou em verso, a sério ou brincando, em gravuras e por todas as artes e processos que no futuro possam inventar-se.

Somente se deve ter em conta que não se ponha a mentira ao serviço da justiça. Isso não; ninguém neste ponto se afaste um só ápice da verdade, porém, dentro dos limites desta, recorde-se aquele dito de Cretineau-Joly: – A verdade é a única caridade permitida à história; e poderia acrescentar: À defesa religiosa e social.

Os mesmos Santos Padres, que temos citado, provam esta tese. Até os títulos de suas obras dizem claramente que, ao combater as heresias, o primeiro tiro procuravam dirigi-lo contra os heresiarcas. Quase todos os títulos das obras de Santo Agostinho se dirigem ao nome do autor da heresia: Contra Fortunatum manichaeum; Adversus Adamancium; Contra Felicem; Contra Secundinum; Quis fuerit Petilianus; De gestis Pelagii; Quis furiet Julianus, etc. De sorte que quase toda polêmica do grande Agostinho foi pessoal, agressiva, biográfica, por assim dizer, tanto como doutrinal; corpo a corpo com o herege, como contra a heresia. E assim poderíamos dizer de todos os Santos Padres.

Onde foi, pois, o Liberalismo buscar a novidade de que ao combater os erros se deve prescindir das pessoas e até animá-las e acariciá-las? Firmem-se no que ensina neste ponto a tradição cristã, e deixem-nos a nós, os ultramontanos, defender a fé como se defendeu sempre a Igreja de Deus. Penetre, pois, a espada do polemista católico, fira e vá direto ao coração, que esta é a única maneira real e eficaz de combater!”.

O Liberalismo é Pecado, de D. Felix Sardá y Salvani, 1949.
Ed. Companhia Editora Nacional, pp. 89-91.

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15 thoughts on “O combate ao erro e também àquele que erra

  1. Felipe Coelho

    Caríssimo Jorge, Salve Maria!

    Tendo sido eu próprio quem divulgou esse texto recentemente, como você sabe, em oposição aos que pediam clemência ao Sr. Favo de Mel, creio que você não se importará se eu acrescentar também aqui a ressalva que já fizera ali, de que esta não é a regra ordinária da controvérsia católica (contrariamente ao que pretende certo tradicionalismo), como explica brevemente o Sr. John Daly, citando o Papa Leão XIII, em seu excelente artigo:

    Leão XIII e D. Félix de Sarda y Salvany, 2005, blogue Acies Ordinata, http://wp.me/pw2MJ-Kn

    Um grande abraço,
    Em JMJ,
    Felipe Coelho

  2. Jorge Ferraz Post author

    Salve Maria, Felipe!

    Sim, sim. Obrigado pelo importante acréscimo ao tema. Às vezes, no afã de combater certos erros, acabamos baixando a guarda para os que lhes são opostos – o que termina dando margem para que nos interpretem erroneamente.

    Abraços,
    Jorge

  3. Gustavo Jobim

    Vocês viram que o PDL 224 que pretendia derrubar a decisão do STF sobre o união estável gay foi rejeitado?

    Depois de uma pesquisa que mostrou que 82% da população eram contra este projeto, ele foi vetado pelo presidente da camera. Viu como a sociedade está com o Padre Fabio de Melo.

  4. roberto quintas

    e eis que está explicado porque cristãos/católicos recorrem tanto ao ad-hominem…

  5. Wilson Ramiro

    Caro Jorge

    Concordo com o texto, mas…

    A mim, parece que precisamos distinguir bem, dois tipos básicos de hereges:
    1) O Herege seguidor que foi convencido da validade da heresia por um discurso persuasivo e enganador.
    2) Aquele que conta a heresia como verdadeira porque lhe interessa que assim seja e procura perverter as mentes desprevenidas.

    Aos primeiros não devemos usar o ataque pessoal ou a destruição da pessoa como objetivo, a estes quase sempre a argumentação séria é suficiente e se não é suficiente a falha é quase sempre do católico, que frequentemente tem boa intenção mas nenhum preparo.

    Agora quanto aos segundos, é preciso primeiro descobrir qual a vantagem que ele espera obter por defender algo herético, isto quase sempre tem ha ver com orgulho, vangloria ou avareza, nesta ordem. A estes, o discurso que não ataque seu “prêmio desejado”, mas que apenas demonstre a fraqueza de seus argumentos é realmente “pérola a porcos”.
    A estes é preciso que tenham sua face exposta para evitar que envenenem alma incautas.

    Santo Agostinho, como citado, realmente atingia a heresia em sua fonte, e esta fonte sempre era alguém orgulhoso cego e surdo, era preciso quebrar qualquer qualquer influência ou autoridade que o pestilento portasse para então tratar de suas ideias.

    Em alguns debates atuais, a herética ideologia gay é defendida por gays militantes, mas também o é por anti católicos que nem são gays, a estes e àqueles, o debate é perda de tempo, eles não procuram a verdade, acreditam que desta forma atacam a igreja, fonte de seus males, e destruindo-a querem viver justificados em seus pecados.

    Por outro lado existem pessoas com tendências, ainda não bem definidas, e que são o alvo deste demoníacos de plantão, estes embora possam ser classificados como hereges, talvez possam participar de um dialogo produtivo.

  6. lucas

    Caro Jorge,

    A frase de São Francisco de Sales citada no post tb pode ser aplicada aos maus sacerdotes ?

    Abraços,
    lucas

  7. Ricardo

    Como foi citado acima, o que o texto faz é recomendar o uso do Ad Hominen.

    Aos olhos da ciência, não importa a vida moral da pessoa nem suas crenças, importa o que ela disse com respeito a algo e o conhecimento que produziu.

    Já ouvi dizer que Einstein abandonou um filho deficiente e supostamente batia na mulher. Sim, ele é ridículo. Mas isso não prejudica em nada o conhecimento que ele produziu sobre a Teoria da Relatividade.

    Isso poderia ser usado contra os próprios católicos. Pensem no caso dos papas: se um papa teve uma vida imoral então suas encíclicas ou talvez até algum dogma que tenha pronunciado não tem mais valor? Onde fica aquele negócio de “o ouro da igreja passou por mãos sujas, mas não deixou de ser ouro”.

    Acho que a vida da pessoa deve ser levada em conta apenas no caso de ela fazer algo que vai contra o que ela fala. Assim, se um socialista escrever um belo livro em defesa do socialismo mas esse mesmo socialista viver como um capitalista, isso deve ser usado para descreditá-lo. Mas no caso das ciências exatas (em que a vida da pessoa raramente tem alguma conexão com a ciência) esse Ad Hominen é simplesmente ridículo.

  8. Benjamin Bee

    APÊNDICE

    “Mas, para que esse zelo de ensinar produza os frutos que dele se esperam e sirva para formar em todos a Jesus Cristo, nada é mais eficaz que a caridade; gravemos isso fortemente na memória, ó veneráveis irmãos, pois o Senhor não está no furor. Em vão esperareis atrair as almas a Deus por um zelo carregado de amargura; reprovar duramente os erros e repreender os vícios com aspereza causa muitas vezes mais dano que bem.”
    (São Pio X, E Supremi Apostolatus, 4 de outubro de 1903).

  9. Alien

    Jorge, desculpe o off-topic, mas te enviei um e-mail que acho que vais gostar. Este post depois de lido pode ser deletado.

    Abraço!

  10. Guilherme

    Eita, que povo louco esse que falou de ad hominem.

    O que o texto faz é dizer que os charlatães devem ser expostos publicamente como charlatães, para que percam a credibilidade imerecida da qual gozam.
    Mesmo conselho é dado há anos pelo Olavo de Carvalho.

    Com gente que vive de vomitar sofismas e calúnias você não deve argumentar, mas expôr a desonestidade do sujeito.

    Isso nem de longe é falácia ad hominem. Quem não consegue perceber a diferença precisa reler seus livros de lógica.

  11. Ichthys

    É isso aí Guilherme. Nada acrescentar a não ser o fato de o Salvador e seus discípulos fazerem como o Sr. diz publicamente.

    Que Deus abençoe a todos!

  12. Rodrigo

    Dizer que se deva usar um tom comedido no combate às pessoas que propagam erros não significa que em nenhum caso não se possa usar um tom mais agressivo com o inimigo, aliás para alguns charlatões, isso não só é recomendado, como necessário conforme citado no texto. Tudo é questão de discernimento.
    Esse pessoal extremista e mente fechada (que muitas vezes se julgam mente aberta) pensa que só existe um sim e um não, mas na prática é que verificamos qual o tom deve prevalecer, claro que essa verificação se baseia no amor a verdade e na caridade.
    Às vezes as pessoas absolutizam coisas que são relativas e relativizam coisas que são absolutas, esse parece ser o caso daqueles que acham estranho o fato de os textos citados pelo Jorge e pelo Felipe serem complementares.
    Inclusive nem precisa de religião para saber disso, basta um pouco de bom senso.

  13. Ygor

    Ricardo,

    Desculpe mas penso que você saiu do foco. Se Einstein falar de sua teoria, nós o ouvimos e até admiramos. Se caluniar nossa Igreja, nós o combatemos, no sentido exposto pelo post. Observe que não são considerados o conhecimento produzido nem a vida particular do indivíduo.

    A frase de São Francisco de Sales reforça o tema:

    “os inimigos de Deus e da Igreja devem ser difamados tanto quanto se possa, contanto que não se falte com a verdade; porque é dever de caridade gritar “Eis o lobo!” quando ele está entre o rebanho, ou em qualquer lugar onde se encontre”.

    Sobre sua argumentação dos papas, pense o seguinte: Se um Papa tem uma vida particular imoral, isto é um escândalo. Mas qual encíclica ou dogma da Igreja contradiz a Sã Doutrina? Se encontrar, me avise!

  14. Olegario

    Sr.Molina:

    “Mas afinal, o que o padre Fabio de Melo fez de errado?”

    Respondo:

    O que ele faz de correto?

    Olegario.