Sobre opiniões errôneas na interpretação dos decretos do Concílio Vaticano II [1966]

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[Por incrível que pareça, foi publicada pela CNBB (in “Documenta: documentos da Congregacao para a Doutrina da Fe 1965-2010”, Brasília, Edições CNBB, 2011). Dir-se-ia de tal carta “profética”, se o mais provável não fosse que ela simplesmente apontava os problemas que já aconteciam em 1966 e que, desde então, generalizaram-se de uma maneira horripilante. Convém ser lida e relida, estudada e apresentada com vigor aos católicos dos dias de hoje! Rezemos pela Igreja.

Fonte: Cartas a Probo.]

CARTA SOBRE OPINIÕES ERRÔNEAS NA INTERPRETAÇÃO DOS DECRETOS DO CCONCÍLIO VATICANO II
Congregação para a Doutrina da Fé

Depois da promulgação do Concílio Ecumênico Vaticano II, concluído recentemente, sapientíssimos documentos, tanto sobre questões doutrinais, quanto disciplinares, para promover eficazmente a doutrina da Igreja, incumbem a todo o Povo de Deus a lutar com todo o empenho para que se realize tudo o que, com a inspiração do Espírito Santo, foi solenemente proposto ou decretado naquele sínodo de Bispos, presidido pelo Romano Pontífice.

À hierarquia compete o direito e o dever de vigiar, dirigir e promover o movimento de renovação que o Concílio começou, de modo que os documentos e decretos do referido Concílio recebam uma reta interpretação e sejam levados a efeito com exatidão segundo a força e o sentido dos mesmos. Portanto, esta doutrina deve ser defendida pelos Bispos, já que, como tais, gozam do poder de ensinar com autoridade, unidos à cabeça de Pedro. É digno de elogio que muitos Pastores do Concílio já tomaram a iniciativa de explicá-la convenientemente.

Sentimos, contudo, que de diversas partes chegam notícias de como não somente pululam os abusos na interpretação da doutrina do Concílio, como também de como aqui e ali surgem opiniões estranhas e audazes, que perturbam não pouco a alma de muitos fiéis. Devemos louvar os trabalhos ou intentos que buscam penetrar mais profundamente na verdade, distinguindo retamente entre aquilo em que se deve acreditar e o que é opinião; porém, pelos documentos examinados nesta Sagrada Congregação, consta que existem não poucas sentenças que, passando por alto facilmente os limites da simples opinião, parecem afetar o mesmo dogma e os fundamentos da fé.

Convém que expressemos, como exemplo, algumas das sentenças e erros, tal como são conhecidos através da relação de doutores e das publicações escritas.

1) Primeiramente, referimo-nos à Sagrada Revelação: há quem recorra à Sagrada Escritura, deixando de lado intencionalmente a Tradição, porém restringem o âmbito e a força da inspiração e da inerrância, já que pensam equivocadamente sobre o valor dos textos históricos.

2) No que se refere à doutrina da Fé, diz-se que as fórmulas dogmáticas devem ser submetidas à evolução histórica, de tal modo que o sentido objetivo das mesmas seja exposto a mudanças.

3) Esquece-se ou subestima-se o Magistério ordinário da Igreja, principalmente do Romano Pontífice, de tal maneira que se relega ao plano das coisas opináveis.

4) Alguns quase não reconhecem a verdade objetiva absoluta, firme e imutável, expondo tudo a um certo relativismo, alegando o falaz argumento de que qualquer verdade deve seguir necessariamente o ritmo da evolução da consciência e da história.

5) Ataca-se a admirável pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando, ao refletir sobre a Cristologia, utilizam-se tais conceitos de natureza e pessoa, que apenas podem se conciliar com as definições dogmáticas. Insinua-se certo humanismo pelo qual o Cristo é reduzido à condição de simples homem, que foi adquirindo pouco a pouco consciência de sua filiação divina, Sua concepção virginal, seus milagres e sua Ressurreição são concedidos de palavra, porém frequentemente reduzem-se à mera ordem natural.

6) Igualmente, ao tratar da teologia dos sacramentos, alguns elementos são ignorados ou não se lhes presta a suficiente atenção. Sobretudo no que se refere à Santíssima Eucaristia. Não falta quem discuta sobre a presença real de Cristo sob as espécies de pão e vinho, defendendo um exacerbado simbolismo, como se pão e vinho não se convertessem no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo pela transubstanciação, mas que simplesmente fossem empregados com certa significação. Há quem insista mais no conceito de ágape, com relação à missa, do que no de Sacrifício.

7) Alguns desejam explicar o Sacramento da Penitência como um meio de reconciliação com a Igreja, sem explicar suficientemente a reconciliação com Deus ofendido. Pretendem que, ao celebrar este Sacramento, não seja necessária a confissão pessoal dos pecados, mas somente se preocupem em expressar a função social da reconciliação com a Igreja.

8) Não falta quem menospreze a doutrina do Concílio de Trento sobre o Pecado Original, ou quem a interprete obscurecendo a culpa original de Adão ou, ao menos, a transmissão do pecado.

9) Não são menores os erros que circulam no âmbito da teologia moral. Com efeito, não poucos se atrevem a refutar a razão objetiva da moralidade; outros não aceitam a lei natural e defendem, por outro lado, a legitimidade da chamada “moral de situação”. Propagam-se opiniões perniciosas sobre a moralidade e a responsabilidade em matéria sexual e matrimonial.

10) A todos estes temas, temos de acrescentar uma nota sobre o Ecumenismo. A Sé Apostólica, certamente, louva todos os que, no espírito do Decreto Conciliar sobre o ecumenismo, promovem iniciativas para fomentar a caridade com os irmãos separados e atraí-los à unidade da Igreja; porém lamenta que não falte quem, interpretando a seu modo o decreto Conciliar, exija uma ação ecumênica que vá contra a verdade, assim como contra a unidade da Fé e da Igreja, fomentando um perigoso irenismo e indiferentismo, que é totalmente alheio à mente do Concílio.

Espalhada esta classe de erros e perigos, apresentamo-los sumariamente, nesta Carta aos Ordinários do lugar, para que cada um, segundo seu cargo e ofício, cuide de refreá-los e preveni-los.

Este Sagrado Dicastério roga encarecidamente para que os Ordinários do lugar tratem disso nas reuniões de suas conferências episcopais e enviem relações à Santa Sé, aconselhando o que creem oportuno, antes da festa da Natividade de Nosso senhor Jesus Cristo do ano em curso.

Esta carta, que, por uma óbvia razão de prudência, nos impede de fazê-la de domínio público, deve ser guardada sob estrito segredo pelos Ordinários e por todos aqueles que com justa causa a ensinam.

Roma, 24 de julho de 1966.
A. Card. Ottaviani,
Pró-prefeito.

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12 thoughts on “Sobre opiniões errôneas na interpretação dos decretos do Concílio Vaticano II [1966]

  1. Wilson Ramiro

    Caro jorge, este documento é um tapa na cara quem acredita que a Igreja é cega e de quem acredita que ela é volúvel.

    Um documento perfeito para todos os tradicionalistas que imaginam que apenas eles sentiram os problemas que o mau uso do CVII geraria, e criaram um cisma para manter a “unidade da Igreja”.
    Um documento perfeito para os modernista que acreditaram que a Igreja não estava, já naquele tempo, atenta aos erros pregados pela má interpretação do CVII.

    Uma carta perfeita para mim, para nós, católicos, que nos dois mil anos da Igreja conhecemos tantos hereges e ainda nos surpreendemos com a malícia dos que se julgando melhores que a igreja geram cismas e seitas fugazes.

    Quando Cristo afirmou que estaria com sua Igreja até o fim, falava muito sério.

    Wilson Ramiro

  2. Rafael Bessa

    Um belo documento para divulgar entre os católicos.

    Pena que o clero modernista nem deu ouvidos e se instalou na Igreja espalhando todos esses erros. Vide CNBB, os Teólogos da Libertação “a todo vapor” e a sandice litúrgica praticada nas paróquias de todo o Brasil.

    Independente dos textos do CV II, o tal “espírito do concílio” gerou a crise que aí está.

  3. Jucken

    E aí pseudo-tradicionalistas, vão por acaso alegar que esta carta do Cardeal Ottaviani também foi forjada? Que belo tapa na cara dos católicos de fachada que só sabem mentir e mentir e só são “tradicionalistas” por motivos políticos…

  4. Leniéverson Azeredo

    Olá, gente, aproveitando de forma boa a temática mariana, tenho uma notícia não muito boa, ou seria melhor, péssima para repercutir aqui, neste blog.Leiam a matéria abaixo e o seguinte link retirado da repetidora da Rede Globo para vocês verem as imagens de tamanha intolerância.

    A imagem da Imaculada Conceição da igreja de São Fidélis foi pichada e atingida por ovos no último domingo (4).

    Há dois meses, ladrões haviam entrado na igreja e levado várias peças religiosas. Eles também violaram o sacrário. O episódio do fim de semana será registrado na Polícia e o pároco informou que vai instalar câmeras de segurança na igreja.

    Para o padre Luiz Carlos Reis, o ato de vandalismo serve de exemplo para que haja mais tolerância religiosa.

    http://intertvonline.globo.com/rj/noticias.php?id=20346

  5. Roger

    E A PENA DE MORTE QUE A IGREJA APOIA NÃO ESTA NO DOCUMENTO? VEJA O LIVRO DO CATECISMO

  6. lucas

    Um “cala boca” tanto para os modernistas como para os rad-trads( e comunidades amigas) pois apesar de parecerem diametralmente opostos pertecem ao mesmo chifre.

    abraços,
    lucas

  7. Olegario

    Bem, não sou especialista para tratar dos documentos do CVII.
    Mas na minha ignorância percebo que esse concílio mais atrapalhou do que ajudou os católicos.
    E a discrepância é tanta que usamos o termo de “irmãos separados” para tratar dos hereges consumados; enquanto tratamos os católicos batizados, crismados e fieis, de “rad trads”.

    Adulamos os infieis e inimigos de Nossa Senhora com pompas…
    E defenestramos aqueles que defendem a honra da mãe de Deus com ofensas.
    E esse é só um pequeno ponto do livro.
    Um pequenino ponto do livro apenas.
    Se existem católicos que rejeitam radicalmente o CVII é porque antes existiu quem o tratou com idolatria ( falo do CVII).
    Se a FSSPX despreza o CVII, e isso é um cisma; vejam quem esta unido a Roma por ele:

    Leornardo Boff…Frei Betto…RCC…Canção Nova…Comunidade Shalom…etc…

    Abandonar a Igreja por conta do CVII é um erro grave.
    Ficar unido a Pedro por idolatria a um Concílio é outro pecado gravíssimo.

    Olegario.

  8. lucas

    Desculpe Jorge por repetir o comentário,pois o anterior ficou esquisito.

    Caro Olega,

    A FSSPX diz, entre outras pérolas,“que o CVII é um conciliábulo repleto de erros doutrinários em ruptura com a Tradição.”

    Os modernistas dizem “…bastam para termos uma idéia do que se defende apelando-se ao presumido “espírito do Concílio”. Em nome do Vaticano II, o texto defende: a) a relativização da Igreja católica e sua equiparação às demais religiões; b) a separação entre razão e fé, conhecimento e religião; c) a introdução de uma razão “iluminista”, que, todos sabemos, é racionalismo e secularismo; d) outras coisas mais parecem ser sugeridas pelo texto: aceitação da teologia da libertação, da ordenação de mulheres e de movimentos modernos (Quais seriam? Movimento abortista? Movimento gay? Movimento de casais homossexuais?). Defende tudo isso acusando o Papa Bento XVI de ser infiel ao “espírito do Concílio” e de se opor à modernidade.”

    Nosso Santo Padre Bento XVI quando Cardeal : “ em primeiro lugar, é impossível para um católico tomar posição a favor do Vaticano II contra Trento ou Vaticano I. Quem aceita o Vaticano II,assim como ele se expressou claramente na letra, e entendeu-lhe o espírito, afirma ao mesmo tempo a ininterrupta tradição da Igreja, em particular os dois concílios precedentes. E isto deve valer para o chamado “progressismo”,pelo menos em suas formas extremas. Segundo: do mesmo modo, é impossível decidir-se a favor de Trento e Vaticano I contra o Vaticano II. Quem nega o CV II, nega a autoridade que sustenta os outros dois Concílios e ,dessa forma, os separa do seu fundamento. E isso deve valer para o chamado “tradicionalismo”, também eles em suas formas extremas. Perante o CVII qualquer opção parcial destrói o todo, a própria história da Igreja, que só pode subsistir como uma unidade indivisível.”

    Espero ter ajudado a compreender melhor !
    Abraços,
    lucas skywalker

  9. Jorge Ferraz Post author

    Roger, sim, a Igreja considera lícito o recurso à pena de morte se este for a única maneira de proteger a sociedade e punir justamente o agressor.

    E daí?

    Abraços,
    Jorge

  10. lucas

    Relendo a carta ,só agora, notei que é de 1966 !!! … porém, tão atual….

    abraços,
    lucas

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