Sermão do Nascimento da Mãe de Deus – pe. António Vieira

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[Não poderíamos deixar de lembrar com alegria e gratidão do dia de hoje; do dia em que nasceu Aquela que haveria de ser a Mãe do Salvador. Hoje a Igreja inteira celebra a festa da natividade da Virgem Santíssima; d’Aquela Mulher que, quando o mundo jazia no pecado, resplandeceu cheia de Graça iluminando-o com uma luz que ele não via há muito tempo. Iluminando-o com uma luz que era prenúncio da Luz do Seu Divino Filho.

Os diversos títulos da Virgem Mãe de Deus sempre me deixam admirados. Em particular, gosto de quando A vejo chamada “Stella Matutina”, Estrela da Manhã. Assim como esta estrela (Vênus, se não me engano) surge brilhante quando ainda é noite, assim a Virgem Santíssima surgiu ainda nas trevas do mundo. Como um sinal d’Aquele que estava por vir.

Que Ela também surja em nossas vidas, escurecidas pelo pecado; que seja a esta Senhora, Refugium Peccatorum, que nos apeguemos com confiança quando nossas almas estiverem em trevas. Que A recebamos com filial confiança, certos de que, d’Ela, mais uma vez, havemos de receber Nosso Senhor, havemos de receber a Graça capaz de transformar as nossas vidas. Antes que a Luz resplandecesse nas Trevas esta Estrela surgiu na escuridão dos Céus; e, tão certo como a aurora segue o aparecimento da Estrela da Manhã, também a Graça há de (re)nascer nas almas que permitirem que, nelas, resplandeça gloriosa a Virgem Imaculada. Que Ela nasça em nós, para que em nós Nosso Senhor possa nascer d’Ela. Que estejamos sempre muito unidos a Ela, a fim de estarmos unidos ao Seu Divino Filho.]

Mas o que sobretudo dificultava o entendimento de tantos e tão vários enigmas era ser um só o sentido de todos. E qual era? Era a prodigiosa Menina que hoje nasce, e o fim – e fins altíssimos – para que nasceu. Nasce (ide agora lembrando-vos, ou desenrolando as figuras) para ser Arca de Noé, em que o gênero humano afogado no dilúvio se reparasse do naufrágio universal do mundo. Nasce para ser Escada de Jacob, e não para que os descuidados de sua salvação se não aproveitassem dela, como o mesmo Jacob dormindo, mas para que vigilantes e seguros subam por Ela da terra ao Céu. Nasce como Vara de Moisés, para ser o instrumento de todas as maravilhas de Deus, e a segunda jurisdição [?], fama e alegria de Sua onipotência. Nasce para ser o verdadeiro e infalível Propiciatório, em que o Deus das vinganças, ofendido e irado, trocada a justiça em misericórdia, tenhamos sempre propício. Nasce para ser Trono do Rei dos Reis, o Salomão divino, ao qual Trono as três hierarquias das criaturas visíveis e as três das invisíveis servem de penha [?], não humildes como degraus por se confessarem sujeitas à Sua grandeza, mas soberbas como leões por acrescentarem altura à Sua Majestade. Nasce para ser Torre fortíssima de David, fornecida e armada de milhares de escudos tão próprios [?] e aparelhados sempre à nossa defesa, como seguros e impenetráveis a todos os tiros e golpes de nossos inimigos. Nasce para ser verdadeira Arca do Testamento, coroada com as duas coroas de Mãe e Virgem, dentro da qual não só se conservarão sempre inteiras as tábuas da Lei, mas esteve e está encerrado o Maná, que desceu do Céu, onde quotidianamente o podemos colher, por isso coberto e encoberto, mas não fechado. Nasce para ser Tabernáculo no deserto, e Templo em Jerusalém: Tabernáculo em que Deus havia de caminhar peregrino, e Templo em que havia de morar de assento, tão imóvel e permanente n’Ela como em Si mesmo. Nasce para ser não uma, senão as duas árvores famosas do Paraíso terrestre, a da vida e a da ciência; porque d’Ela havia de nascer o bendito fruto em que estão depositados todos os tesouros da ciência e da sabedoria de Deus, e o da vida da Graça no mesmo Paraíso perdida e por Ela restaurada. Nasce para ser em Seus passos como os daquelas duas colunas que guiaram o Povo escolhido à terra de Promissão: uma de nuvem para nos emparar e defender dos raios do Sol da Justiça, e outra de fogo para nos alumiar na noite escura desta vida até nos colocar seguros no dia eterno da glória. Nasce, enfim, para ser Vara de Jessé, de cujas raízes havia de nascer a mesma Vara Maria que hoje nasce, e a mesma flor Cristo Jesus que dela nasceu: Maria, de qua natus est Iesus.

[…]

Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde; perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios; perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo; perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação; perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres; perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança. Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz; os discordes, para Senhora da Paz; os desencaminhados, para Senhora da Guia; os cativos, para Senhora do Livramento; os cercados, para Senhora da Vitória. Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho; os navegantes, para Senhora da Boa Viagem; os temerosos da sua fortuna, para Senhora do Bom Sucesso; os desconfiados da vida, para Senhora da Boa Morte; os pecadores todos, para Senhora da Graça; e todos os seus devotos, para Senhora da Glória. E se todas estas vozes se unirem em uma só voz, dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus: Maria, de qua natus est Iesus.

[…]

Para entrar no Céu e para ir ao Céu basta guardar os mandamentos; mas uma coisa é poder entrar no Céu e, outra, ter e gozar no Céu um lugar e um trono muito alto e altíssimo, e este é o fim dos que na terra guardam os conselhos de Cristo. Lastimosa, e lastimosíssima coisa é que neste mundo todos queiram ser dos maiores, e só para o Céu nos contentemos com ter lá um cantinho: Si vis ad vitam ingredi…

Ora, Senhoras, para que o fim que vos espera no Céu seja não só alto, mas altíssimo (sendo certo que o grau em que lá havemos de ver e gozar a Deus se há de medir com a mesma ventagem [?] e excesso com que O servimos e amamos na terra), que exemplo vos proporei eu para imitar nesta primeira parte do mesmo fim? Estou quase certo [de] que nunca ouvistes deste lugar uma lisonja [como a] que agora vos direi. E qual é? Que para agradecerdes a Deus o terdes nascido neste mundo, imiteis a mesma Virgem Maria que hoje nasceu. E em quê? Naquele mesmo fim com que provamos ser digno das maiores demonstrações de festa, aplausos e alegria o dia do seu nascimento. O fim com que provamos esta verdade, não foi nascer Maria para dela nascer Jesus: Maria, de qua natus est Iesus? Pois este mesmo fim, e em próprios termos é a lisonja, que vos prometi dizer. Vede se pode ser maior. Vem a ser: que nenhuma filha de São Bernardo, pois é filha de tal Pai, se contente com menos [do] que com ser Mãe de Jesus. Nosso Pai São Bernardo, falando nesta matéria mais altamente que todos, disse com a eminência do seu espírito e juízo que, havendo Deus de ter Mãe, não era decente que fosse senão Virgem, e que havendo uma Virgem de ter Filho, não era também decente que fosse senão Deus. (…) Não é coisa logo alheia do estado virginal, ó Virgens consagradas a Deus, que cada uma de vós imite a Virgem das Virgens em ser Mãe de Jesus.

Pe. António Vieira,
Sermão do Nascimento da Mãe de Deus

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