“Amor, casamento, divórcio” – Gustavo Corção

closeAtenção, este artigo foi publicado 5 anos 5 meses 26 dias atrás.

Mas o divorcista — seja dito em sua homenagem — não percebe essa contradição; e não a percebe justamente porque renunciou, de antemão, usar aquilo com que se evidenciam as contradições. Para ele, como já disse, o casamento é casual, essencialmente irrefletido, e não pode deixar de ser assim uma espécie de loteria onde pesa mais a sorte do que a razão. Dizem por exemplo que o amor é cego, e que é impossível, em meses de noivado, conhecer perfeitamente a pessoa com quem se delibera fundar uma família.

Concedo que é impossível, em meses, conhecer perfeitamente o outro. Vou até mais longe. Se é preciso conhecer perfeitamente o outro em todos os seus recantos psicológicos, a vida inteira não basta, e deveríamos adiar todos os casamentos par o dia do juízo final. Ou então, para atender às flamas do mais impaciente amor, deveríamos estipular que os noivos esperassem a provecta idade dos senadores.

O que é evidente, nesse pessimista irracionalismo, é que a incapacidade de conhecer o outro, se destrói o casamento indissolúvel, destrói também o divórcio. Porque o divórcio se baseia justamente nessa idéia insensata de que, num certo ponto da vida conjugal, a gente esgota completamente o conhecimento do outro, a ponto de lhe recusar a mínima possibilidade de recuperação.

Gustavo Corção,
“Amor, casamento, divórcio”

Gostou? Compartilhe!Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someonePrint this page

4 thoughts on ““Amor, casamento, divórcio” – Gustavo Corção

  1. Miguel Carqueija

    Parabéns por trazer para nós um pouco de Gustavo Corção, um dos nomes que o Brasil não pode jamais esquecer.

  2. Alexandre Magno

    Lá na página do Permanência tem: A Ordem, Fevereiro de 1952. Como que o texto foi publicado em algum jornal ou revista de nome A Ordem. Mas o texto mais parece o capítulo de um livro. Nesse caso, alguém saberia qual?

    Editado em 30/03/2012, às 9h14.

    Ontem, antes do comentário ser aprovado, cogitei que o texto pertenceria a “Claro escuro: ensaios sôbre casamento, divórcio, amor, sexo e outros assuntos”. Mas não encontrei a confirmação na Internet. Se o livro Claro Escuro anda na mesma linha do texto acima, deve ser um livro muitíssimo bom. O texto “Amor, casamento, divórcio” é formidável!