Hans Küng defende sedevancatismo e acusa Bento XVI de cismático (!)

closeAtenção, este artigo foi publicado 5 anos 4 meses 26 dias atrás.

Eu ainda não vi traduzida para o português, mas esta notícia do Hans Küng “virando sedevacantista” é provavelmente uma das mais bizarras dos últimos tempos. E é verdade, publicada com estupor pelo Rorate Caeli. O motivo do rasgar de vestes do teólogo heterodoxo é a iminente e eminente reconciliação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X com Roma, motivo de júbilo para todos os católicos verdadeiros da Igreja Militante, Padecente e Triunfante, com festas excelsas ribombando entre os desta última. Mas, para o Küng, não há razão para se alegrar.

O teólogo suíço baseia o seu chamado à insubordinação em três pontos.

O primeiro, claramente nonsense, é colocar em dúvidas não apenas a licitude mas a própria validade da sagração episcopal dos quatro bispos da FSSPX (e, por conseguinte, da ordenação sacerdotal dos seus padres). E esta alegação é duplamente nonsense: primeiro porque não existe a mais remota razão para se duvidar da validade do Sacramento da Ordem de padres e bispos que se esforçaram, precisamente, por conservar férrea e rigidamente os ritos que eram usados pela totalidade da Igreja até a Reforma do século XX; e, segundo, porque ainda no caso absurdo de que houvesse invalidez de ordens, isto poderia perfeitamente ser resolvido com uma ordenação verdadeira no ato do retorno à Igreja (caso, aliás, dos anglicanos que voltaram com a Anglicanorum Coetibus). A queixa é, assim, puro delírio.

O segundo ponto é o mais divertido: o Küng demonstra que os seus estudos de teologia não foram completamente vãos, porque ele (ao menos) conhece e sabe citar Suárez, escolástico espanhol cuja teologia dista tanto da do seu companheiro de letras suíço. E cita Suárez precisamente na passagem sobre a hipótese do Papa Cismático, alardeando: até o Papa pode se tornar um cismático, se ele não guardar a unidade da Igreja! É verdade. Acontece que isto é tão-somente uma hipótese teológica e, ainda tomando partido por ela, é verdadeiramente espantoso que alguém considere que o retorno de um grupo de católicos à comunhão católica seja “não guardar a unidade da Igreja”! Depois de anos de má teologia, o Küng está claramente degenerando em uma incapacidade de raciocínio lógico assustadora.

Por fim, no terceiro ponto, Hans Küng cita as conseqüências advindas da contingência de um Papa cismático ocupar a Cátedra de Pedro. Arremata: tal Pontífice “perde[ria] sua posição”, ou “[p]elo menos não poderia [mais] esperar obediência” do resto da Igreja. Senhoras e senhores, nós estamos vendo o Küng dizer que o Papa, se cismático fosse, não poderia mais esperar obediência! E censurando Bento XVI por isso, ele, Hans Küng, aquele que é o teólogo desobediente por antonomásia desde muito antes de insinuar que o Papa é (ou está em vias de ser) cismático! O teólogo que dedicou seus anos de teologia a desobedecer sistemática e repetidamente a tudo o que vem de Roma, chegando ao ponto de receber uma censura da Congregação para a Doutrina da Fé em 1979 (em 1979!), ameaçando agora o Papa com a desobediência! Isto é verdadeiramente inacreditável. Viva Bento XVI!

E rezemos muito, tanto pro pontifice nostro Benedicto quanto pro unitate Ecclesia. As batalhas são terríveis e, por isso mesmo, importantes e heróicas. Épicas. Bendito seja Deus, que nos colocou nestes dias dramáticos um valoroso general por cabeça da Sua Igreja Visível. Que Ele nos conceda a graça de combater o Bom Combate. Que Ele nos dê a honra de servi-Lo nestes dias cruéis. Que Ele Se levante e faça resplandecer a Sua glória.

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22 thoughts on “Hans Küng defende sedevancatismo e acusa Bento XVI de cismático (!)

  1. Fides_et_Ratio

    Eu acho difícil que os lefebvristas retornem em massa à Igreja tão cedo. Eles são muito teimosos. Eles metem o pau no João Paulo Magno e chamam de modernista até o Bento XVI!
    E eles rejeitam a doutrina da liberdade religiosa.

    São necessários muitos rosários. Apenas Deus pode mover os corações da Cúria Romana, para ser generosa com essas ovelhas teimosas, e principalmente mover os corações dos lefebvristas, para que aceitem a sã e eterna doutrina Católica.

    Se eles voltarem para a Igreja, a sua força anti-modernista e a sua fidelidade litúrgica vão ser uma poderosa força para enfraquecer as heresias. Mas se eles continuarem atacando o Santo Padre, vão continuar atrapalhando mais que ajudando.

    Por isso, rezem! Se isso der certo, vai ser um capítulo marcante na história da Igreja! Que a santíssima Virgem nos ajude!

  2. Sandro de Pontes

    Prezado Jorge, salve Maria.

    Você constatou racionalmente que Hans kung é modernista. O que o impede de fazer o mesmo com relação ao padre Joseph Ratzinger?

    Abraços sempre cordiais,

    Sandro de Pontes

  3. eduardo

    Em toda essa briga teológica o que me deixe pasmo é ver que há católicos-leigos emitindo opinião sobre aquillo que não conhecem, baseados apenas em publicações pela internet. Acho engraçado ver a fúria de alguns…Ora, a FSSPX precisa desse acordo com Roma pra usa pórpria sobrevivência. Acho que a demora em aceitar o acordo é prejuducial pra ambos os lados. A FSSPX por sua convicção será uma grande força no combate ao modernismo dentro da Igraja. Assim,o seu retorno é bom para o futuro da Igreja. Acho engraçado quando vejo alguns dizendo: Fellay traiu Lefebvre, x triau y, w traiu z…Será que não enxergam que essa postura nega a Cristo e a Igreja?

  4. Pingback: Teólogo Hans Küng acusa o Papa – Virtus Impavida

  5. Pingback: Küng: contra a unidade e a santidade da Igreja « Ecclesia Una

  6. Gustavo

    Dom Jorge Ferraz (OSC [ordem da sua cabeça]),

    Salve Maria!

    Quer dizer que agora V.Exca. Revma. e neoconservadores associados atribuem títulos a [ainda não] santos da Igreja Romana?
    Sua benção episcoposa…já que, de bispo, o “arrecife” está vazio…

  7. Alexandre Magno

    Jorge Ferraz:

    no caso absurdo de que houvesse invalidez de
    ordens, isto poderia perfeitamente ser resolvido com uma ordenação
    verdadeira no ato do retorno à Igreja (caso, aliás, dos anglicanos que
    voltaram com a Anglicanorum Coetibus).

    E quanto às ações de antes dessa ordenação verdadeira no ato do retorno, aquelas que se pretendeu realizar na condição de sacerdotes (ex.: Eucaristia, perdão de pecados de fiéis etc), elas passariam a ser “válidas na eternidade”, retroagindo?

  8. Alexandre Magno

    Este comentário era uma duplicata do comentário anterior. Ele foi submetido acidentalmente e não pode ser apagado. Foi editado.

  9. Jorge Ferraz

    Não, Alexandre, não existe “ordenação com efeitos retroativos”. A única coisa que funciona de um jeito parecido com isto que tu estás dizendo é a “sanatio in radice”, quando um Matrimônio é inválido por algumas razões específicas e o bispo, sanado o impedimento, ratifica o Sacramento com efeitos ex tunc (valendo a partir de quando ele foi (erroneamente) celebrado da primeira vez).

    Quanto às confissões, se o fiel está de boa fé, o estado de graça se recupera com a Comunhão Eucarística (claro, uma de verdade; o fulano que passou a vida se “confessando” e “comungando” com um leigo-vestido-de-padre só vai recuperar o estado de graça quando se confessar / comungar com um sacerdote de verdade – e isto só vai “valer” a partir de quando ele o fizer, e não “desde sempre”).

    Abraços,
    Jorge

  10. Alexandre Magno

    Significa que, se o relacionamento com Deus fosse somente uma matemática, muitas pessoas estariam gravemente prejudicadas, tendo elas passado muitos anos sem sacramentos. Talvez até uma vida inteira. Mas o Deus onisciente e misericordioso vê e julga tudo isso desejando a salvação de todos. Não teria cabimento Ele cobrar de um ignorante que morreu santamente acreditando que O comia todos os domingos.

  11. Jorge Ferraz

    Veja, é claro que Deus não vai “cobrar” de quem de boa fé pensava que estava recebendo Sacramentos verdadeiros porque o próprio pecado (grave) exige o conhecimento do que se está fazendo, mas o fato objetivo e indiscutível é que as pessoas, por inocentes que estejam, não recebem as graças dos sacramentos se não tiverem sacramentos verdadeiros.

    Sim, muitas pessoas estão gravemente prejudicadas, e é exatamente por isso que precisamos suplicar ao Senhor da messe que mande empregados para Sua messe, e precisamos rezar pela liberdade e exaltação da Santa Madre Igreja.

  12. Alexandre Magno

    Eu não entendo. Se essas pessoas estão gravemente prejudicadas, é como se o Senhor estivesse “cobrando” sim. E isso não me parece justo! Logo, não acredito que Deus esteja privando essas pessoas da Graça, se elas realmente ignoram o que se passa com elas. Existe o batismo de desejo, não é?!

  13. Jorge Ferraz

    Sim, existe o Batismo de Desejo e, sim, é em princípio possível que estas pessoas tenham a graça [santificante], mas além da Graça Santificante existem as graças próprias dos Sacramentos (que entre outras coisas nos ajudam a perseverar na vida da Graça) e, estas últimas, não existem sem sacramentos (por serem próprias deles). P.ex., a Eucaristia não é para dar a vida da Graça (como o Batismo), é para aumentá-la e aperfeiçoá-la, e esta graça específica da Eucaristia o sujeito que está comendo pão – com a maior boa vontade do mundo – simplesmente não recebe.

  14. Alexandre Magno

    e esta graça específica da Eucaristia o sujeito que está comendo pão – com a maior boa vontade do mundo – simplesmente não recebe

    Acho estranho, isso no direito divino. Prefiro pensar que Deus tem uma exceção — uma outra realidade — para tal pessoa ignorante e inocente. De acordo com o estado de alma desse comungante, é possível, por exemplo, que o que ele coloque na boca não seja o pão ázimo que foi distribuído segundos antes. Penso que pensar assim pode não ser herético. Espero que não!

  15. Jorge Ferraz

    Rapaz, “possível” é um conceito bem cômodo, até porque para Deus tudo é possível… :) Acontece que nem tudo o que é possível ocorre de fato, menos ainda freqüentemente. Se Deus transformasse de ordinário o pão comum no Seu Corpo (sem forma, matéria ou ministro), então não faria sentido haver sacramentos e Ele não tinha pra quê instituir o sacerdócio ordenado.

    Agora, o que também é fato é que a graça não está circunscrita aos Sacramentos e, portanto, Deus sempre é livre para distribuir (extraordinariamente) a Sua graça da maneira que melhor Lhe aprouver.

    Abraços,
    Jorge