Rede de fast-food se diz abertamente contra o casamento gay: as repercussões deste “crime”

closeAtenção, este artigo foi publicado 5 anos 21 dias atrás.

Ainda esta semana eu informei aqui que diversas empresas mundo afora haviam deixado de contribuir com a Planned Parenthood por conta do boicote de cidadãos pró-vida. Isto, como eu disse, é uma notícia muito boa, uma vez que é perfeitamente legítimo que as escolhas dos cidadãos a respeito dos produtos que eles vão comprar ou deixar de comprar levem em consideração (entre outras coisas) também o que aquela empresa vai fazer com os seus recursos financeiros. Claro que cada um gasta o seu dinheiro com o que quiser, mas isto vale tanto para as empresas que contribuem para o aborto quanto para os consumidores que sustentam aquelas empresas.

[A propósito, sobre o mesmo assunto, a Boycott List é, como eu falei, protegida por direitos autorais – o que significa que só é possível ter acesso a ela diretamente com a LDI e mediante uma doação. Isto pode não parecer a forma mais eficaz do mundo de mobilizar consumidores para um boicote de proporções suficientes para que seja economicamente relevante como instrumento de pressão política; no entanto, a própria LDI expõe aqui as razões desta sua política, e elas são pelo menos razoáveis. Uma das minhas preocupações com estas listas (há uma aqui) sempre foi a fidedignidade dos dados contidos nelas. Quem as mantém? Quem as atualiza? Como eu confirmo que as informações lá são verdadeiras? A julgar pela forma como a LDI trata o seu trabalho, ela também leva bastante a sério estas questões, o que é bom para todo mundo. É melhor fazer assim do que perder a credibilidade com a divulgação de dados não-confiáveis.]

Curiosamente, uma coisa bem parecida está acontecendo neste momento nos Estados Unidos. A rede de restaurantes fast-food Chick-fil-A está no meio de uma terrível polêmica com ativistas gays porque um CEO da companhia fez algumas declarações contrárias ao casamento homossexual. Em português, saiu na Folha de São Paulo.

Houve conservadores que rapidamente se mobilizaram contra o boicote. P.ex., vi no Facebook hoje pela manhã uma figura do Willy Wonka dizendo algo como “então você vai deixar de comer na Chick-Fil-A porque o dono dela é contra o casamento gay? Conte-me como você está deixando de comprar gasolina no posto tal que vende gasolina para que queimem homossexuais” [p.s.: na verdade não é bem isso]. Aqui é preciso distinguir com cuidado as coisas.

O simples boicote (entendendo por isso o pacífico não-consumo de produtos da empresa, unido talvez à (também pacífica) contrapropaganda para que se deixe de comprar nela) não pode ser condenado. Primeiro porque, ao que parece, não foi simplesmente o CEO da Chick-Fil-A dizendo que “era contra” o homossexualismo; a empresa doou dinheiro para campanhas contrárias à legalização do casamento gay – o que (não podemos esquecer de dizer) é uma coisa legítima e aliás muito boa: se eu soubesse de um restaurante assim em Recife, faria questão de comer lá sempre que possível.

Segundo que a comparação do Willy Wonka é descabida: não existe (que eu saiba) nenhuma rede de postos de combustível que direciona institucionalmente uma quota da sua gasolina para queimar homossexuais ou quem quer que seja (e, se existisse, um boicote a semelhante empresa seria perfeitamente justificável): entre uma política institucional e um uso indevido de um produto pelo consumidor após ele ter deixado a empresa vai uma diferença tão grande que beira a desonestidade intelectual. Terceiro: é perfeitamente razoável que os militantes gays queiram deixar de comer numa rede de restaurantes que milita contra a ideologia gay: cabe aos que apoiam a política da empresa suprir, por meio do consumo e da propaganda positiva, a lacuna deixada pelos consumidores descontentes com o emprego que a Chick-Fil-A faz dos seus lucros. Isto é natural, e o que não faz o menor sentido é pretender obrigar os militantes gays a continuarem freqüentando uma rede de restaurantes que é abertamente contra o gay-way-of-life.

Claro que há exageros (vejam este link, que inclusive cita uma carta do prefeito de Boston à Chick-Fil-A dizendo que não havia lugar para a loja em sua cidade), mas é preciso tomar cuidado para não cairmos no exagero oposto. A coerência é uma virtude necessária. É sem dúvidas um absurdo pretender que a empresa americana não tenha o direito de ser contra o casamento gay, mas é também um absurdo condenar em bloco os gays que simplesmente organizem um boicote ordeiro à empresa. Dizer diferente disso, além de não fazer sentido, é pôr em dúvida o nosso próprio direito de boicotar empresas que contribuem com a Revolução.

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8 thoughts on “Rede de fast-food se diz abertamente contra o casamento gay: as repercussões deste “crime”

  1. Chris Klein

    Palmas para o seu texto. Em pé. Apesar de sermos adversários a priori, fazia tempo que não lia coisa tão coerente. Parabéns, Jorge! :)

  2. Gustavo Jobim

    O google está apoiando o casamento de pessoas do mesmo sexo, será que os religiosos irão deixar de usar esta ferramenta de busca e todos os aplicativos que derivam dela?
    Uma coisa é tu ser contra um direito que te prejudica ou que prejudica a sociedade. O que os religiosos não conseguem explicar é como o casamento gay prejudica toda a sociedade, ou como o direito dos homossexuais prejudicam os seus direitos.
    Aí eles acusam os gays de querem destruir o matrimônio pelo simples fato deles querem casar. Uma falácia absurda e sem noção. Se estão tão preocupados com a santidade do matrimônio, deviam combater o divorcio (que beira 50% dos casamentos), deviam combater o adultério que também contribui com uma porcentagem significativa dos divórcios.
    Mas porem eles não fazem nada para moralizar o matrimônio e apenas repetem que esse é um direito dos casais heterossexuais e que os homossexuais estão estragando o matrimonio. Já viu alguém se separar porque os gays se casaram? Já viu um casal brigar porque o vizinho é homossexual? T
    Acredito realmente que o Jorge estava sendo inspirado por anjos quando escreveu isso, foi imparcial e não atacou os homossexuais que não querem comer frango.

  3. Rafael Cresci

    Jorge, o Willy Wonka original em inglês é sobre “comprar gasolina vinda dos países da OPEC que assassinam homossexuais” (Não exatamente com estas palavras), em referência ao petróleo vir de países árabes muçulmanos, que mantêm esta prática.

  4. Leniéverson

    E daí que o Google, apoia?Esse restante de blá-blá Marxista é bem batidinho.Seja mais original.

  5. Fabiana Leite

    Ontem ouvi em um programa da globonews o repórter Jorge Pontual dizer que essa reação dos gays saiu pela culatra porque um senador ou deputado (não lembro bem) nos EUA, ex-pastor protestante, convidou os cristãos a se manifestarem a favor da rede de fast food e que o apoio foi tão grande que os restaurantes da rede tiveram dificuldades em atender a tantos pedidos, pois uma multidão compareceu para apoiar o dono da rede que deu a declaração contra o casamento gay! Eles que lutam tanto pela “diversidade” e pela liberdade de expressão(deles é claro) não aceitam uma opinião diferente…
    Tenham um bom dia!!!

  6. Pingback: O contraboicote: americanos apóiam em massa a Chick-Fil-A | Deus lo Vult!

  7. Gustavo

    Leniéverson

    Então me prova que o relacionamento entre homossexuais causam a destruição do sagrado matrimônio. Teu comentário deixou bem a desejar e não teve nada de original. Muita gente chama o discurso dos outros de Marxista, como se isso fosse argumento de réplica, ou achando que contra argumentou.

    Viu o que o sistema de cotas faz, poem pessoas despreparadas nas universidades que no futuro se tornam péssimos profissionais. Você sendo jornalista deixou muito a desejar, não argumentou e escapou pela tangente como se tivesse apresentado algum argumento hauhauahaauha. Mas porque minha surpresa, você faz isso o tempo todo, acusa os outros de marxismo e foge de expor algo que contribua no debate.