O destino das obras realizadas “por conta própria”

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Não julgo ser fora de propósito repetir que a Igreja Católica é uma instituição hierárquica onde existe uma clara distinção de papéis entre aqueles a quem compete, em sentido próprio, a transmissão da Doutrina Católica e aqueles a quem não cabe senão recebê-la e guardá-la. E também não creio que faça mal lembrar que, sem Doutrina Católica, não existe a Igreja Católica. Como já foi dito e repetido muitas vezes, a Igreja não é uma instituição cujos princípios sejam passíveis de serem revisados e atualizados de acordo com as mais recentes descobertas do engenho humano, muito pelo contrário: Ela é detentora de um conjunto de verdades que o próprio Deus – Suma Verdade – legou aos homens por meio de uma sociedade perfeita (i.e., uma sociedade que possui em Si mesma todos os meios necessários à realização do Seu fim), que é a própria Igreja Católica, somente mediante a Qual os homens têm acesso àquelas verdades que o Altíssimo estabeleceu serem necessárias à sua salvação eterna.

Disto decorre que i) a distinção entre Igreja Docente e Igreja Discente, i.e., entre os Pastores a quem cumpre o encargo de transmitir sem supressões nem acréscimos a Sã Doutrina em Sua integridade, e os demais católicos que recebem dos legítimos pastores a Fé da Igreja e a devem cultivar e guardar, não é uma distinção acidental no Corpo Místico de Cristo; e ii) esta nítida separação de ministérios é tão grave e tão importante que a obediência da Fé não é, absolutamente, um assunto que seja facultativo aos fiéis católicos.

Duas notícias que recebi hoje me fizeram julgar oportuno relembrar estas verdades. A primeira fala sobre a volta de um tal “Romeu T. Campos”, que se apresenta como “padre casado”, ao exercício do ministério sacerdotal. Como se o fato por si só não fosse já escandaloso o bastante, o sacerdote ainda tem a pachorra de disparar: «[e]stou voltando às funções sacerdotais por própria conta, independente de autorização ou da aceitação de alguma autoridade da Igreja Católica». A segunda, de teor correlato, é esta entrevista da Ivone Gebara, onde a tristemente célebre freira abortista (que afirma candidamente só ter procurado, em sua vida, «fazer o que acreditávamos que era nossa interpretação do Evangelho») aparentemente quer nos convencer de que ela é a favor do aborto por acreditar ser esta a interpretação correta do Evangelho de Cristo. Mas fico com o pe. Romeu.

Por conta própria! Poucas coisas podem ser mais contrárias à Igreja Católica do que isso. Semelhante declaração do sacerdote consegue ser ainda mais diabólica do que a própria violação do sagrado celibato, uma vez que é possível imaginar um padre casado dentro da Igreja mas não é possível imaginar Igreja onde um sacerdote – celibatário ou não – faça as coisas “por conta própria”. O que dizer de semelhante declaração? Já seria possível entrever que este padre, pelo fato de ter dado as costas à Igreja e se amasiado com uma mulher, não conhecia muito bem o Evangelho de Cristo; agora, que ele se arroga o direito de fazer ou deixar de fazer o que lhe der na telha sem prestar contas a ninguém a não ser ele próprio, revela-se com deprimente clareza o quanto a própria noção de Religião lhe é estranha.

Religião, como o étimo ensina, é aquilo que religa, liga de novo, une novamente o homem pecador ao Deus três-vezes Santo. E a Religião Verdadeira, como se ensina nas aulas de catequese básica para crianças, é aquela onde a iniciativa da reunião parte do próprio Deus e tem a Ele próprio por fundamento. A História nos fornece abundantes testemunhos de homens que procuraram erigir pontes para chegar até Deus; todos eles, sem exceção, revelaram-se cedo ou tarde fragorosos fracassos. Do “sereis como deuses” a que deram ouvidos nossos Protoparentes, passando pela Torre de Babel e por toda sorte de paganismo e religiões animistas, chegando até as modernas e pobres filosofias relativistas de auto-ajuda contemporâneas cujo maior legado à história do pensamento ocidental é provavelmente a tag de “spiritual but not religious” consolidada pelo Orkut nos seus áureos tempos, todas essas coisas têm dois pontos em comum: o fato de serem obras humanas e o fato de serem fracassadas. E são fracassadas porque infinita é a distância entre a criatura e o Criador; infinito é o abismo cavado pela malícia humana e, portanto, somente Alguém infinito – somente o próprio Deus – seria capaz de suprir esta deficiência, de percorrer esta distância, de realizar esta miraculosa e sobre-humana religação.

Isto tudo é tão básico que é desalentador ler certas coisas escritas por membros da Igreja que detêm uma certa posição de destaque e cujas palavras, portanto, são levadas a sério por muita gente. O nosso consolo é que as falsas doutrinas não prevalecerão, e a fragilidade das modernas torres de Babel teológicas através das quais os inimigos de Cristo pretendem apresentar Deus aos homens não tardará a aparecer. Terão o mesmo destino da Torre original: cairão por terra gerando dor e confusão no caminho. E quando isto acontecer, a Igreja continuará aqui para recolher os cacos. Quando tudo o mais entrar em colapso, a Igreja permanecerá sendo o único caminho por meio do qual podem os homens ascender ao Deus para o Qual foram criados.

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One thought on “O destino das obras realizadas “por conta própria”

  1. Adriana

    As pessoas que não concordam com as interpretações teológicas da Igreja Católica Apostólica Romana, que não concordam com as normas eclesiais, que não concordam com a Bíblia, porque insistem em permanecer na Igreja, porque insistem em causar tumulto, balburdia?Porque simplesmente não saem, não se desligam de uma vez e criam suas próprias igrejas, teorias e religiões de acordo com sua vontade própria. Porque não criam suas instituições e saem por ai divulgando suas próprias interpretações do Evangelho e angariando seus seguidores? Quem os está obrigando a continuarem ligados à Igreja “cruel”, “desumana”, “atrasada”?Pergunto, se não podem obedecer a regras eclesiais (celibato dos sacerdotes e religiosos, por exemplo) como querem obedecer as Leis de Deus (não matarás)?Acho que o motivo é muito claro e já profetizado por Cristo e pelos apóstolos. Lobos em pele de cordeiro sempre se infiltraram na Igreja de Cristo, para tentar destruir, para minar a fé das pessoas, para causar discórdia, causar divisões e levar a desobediência e a separação total e eterna de Deus. Por isto esta gente tão “moderna”, tão “inteligente” e com a “correta interpretação” quer ficar em nosso meio causando o transtorno e ensinando a desobediência, assim como a serpente fez com Adão e Eva.Mas Cristo prometeu, que as portas do inferno não prevalecerão sobre sua Igreja. E Ele é o Caminho (não há outro), a Verdade (não há promessa que Ele não cumpra) e a Vida (vida eterna e abundante na presença do Senhor).