Não, não há juízes em Brasília

closeAtenção, este artigo foi publicado 4 anos 10 meses 12 dias atrás.

Eu propositalmente mantive silêncio aqui no blog a respeito do julgamento (ora em curso) do STF sobre o escândalo do Mensalão. Não embarquei no entusiasmo nacional pela alegada “limpeza” que se estava fazendo em Brasília, nem faço coro jubiloso aos que estão comemorando a condenação de José Dirceu por compra de votos no esquema. Na verdade, a minha leitura dos fatos vai na contramão deste júbilo cidadão que tem invadido as mídias sociais. Explico o porquê.

Já há algum tempo, passaram a circular no Facebook algumas campanhas como esta que reproduzo abaixo. Consigo entender as razões que fazem com que este sentimento de admiração surja e se tenha o desejo de externá-lo; não concordo, absolutamente, é que ele corresponda à realidade e deva ser motivo de orgulho nacional. Aliás, muito pelo contrário.

Joaquim Barbosa não é um herói nacional. É simplesmente mais um arauto revolucionário empenhado na destruição do Brasil, da mesmíssima laia dos outros ministros do STF que, julgamento após julgamento, têm nos últimos anos utilizado a Suprema Corte como ponta de lança para implantar na sociedade brasileira uma visão de mundo imoral e contrária quer à verdadeira Justiça, quer aos anseios e valores da população brasileira. Não que o Mensalão não tenha sido o maior escândalo de corrupção da história recente do Brasil; é claro que foi. Eu sempre disse que não se tratava de um simples desvio de dinheiro público em benefício próprio, o que seria já bem grave, mas algo infinitamente pior: estamos falando de um esquema de escancarada violação da independência dos Três Poderes da Democracia, onde o Executivo comprava apoio político do Legislativo e, assim, o PT construía para si exatamente a concentração hegemônica de poder que a divisão tripartida dos poderes existe para evitar. Não se trata de um crime de dinheiro; é um golpe de morte na própria instituição da Democracia. É claro que isto é uma coisa enormemente imoral e escandalosa, e é evidente que tal atitude deve ser punida com o máximo rigor. Não é este o ponto.

A questão é que o STF vem aberta e sistematicamente realizando um incansável trabalho de implantar no Brasil – per fas et per nefas – uma visão jurídica imoral e revolucionária, amiúde ao arrepio do próprio ordenamento jurídico vigente – da Constituição Federal inclusive. E a coisa está tão impudicamente escancarada que, nos últimos tempos, a imagem da Suprema Corte estava (graças a Deus!) perigosamente desgastada junto à população brasileira. Ora, que melhor oportunidade para “limpar a barra” da Suprema Casa da Mãe Joana poderia se apresentar que não esta chance de ouro de fazer uma nababesca e midiática condenação exemplar do esquema do Mensalão, escondendo assim sob a glória da aclamação popular presente as vergonhas passadas e passando sobre a Suprema Corte um verniz de Justiça que possa depois ser usado para justificar, retroativamente, todas as barbaridades feitas no passado?

O Ministro Joaquim Barbosa não está “lutando contra os maiores vilões da história do Brasil” (!), é óbvio que não, porque os maiores vilões da história recente desta Pátria são, precisamente, os que usam Toga Preta e sentam-se à Praça dos Três Poderes para, do alto de seus tronos olímpicos, fulminar o Brasil com suas determinações disparatadas. O meritíssimo Joaquim Barbosa inclusive. Veja-se:

– Ministro Joaquim Barbosa sobre a destruição de embriões humanos em pesquisas científicas: «A meu sentir, pedindo vênia aos que pensam de maneira diferente, creio que a permissão para a pesquisa científica, tal como disposta na lei ora atacada, não padece de inconstitucionalidade».

Ministro Joaquim Barbosa sobre a “união homoafetiva”: «O não reconhecimento da união homoafetiva simboliza a posição do Estado de que a afetividade dos homossexuais não tem valor e não merece respeito social. Aqui reside a violação do direito ao reconhecimento que é uma dimensão essencial do princípio da dignidade da pessoa humana».

Ministro Joaquim Barbosa sobre o aborto de anencéfalos (voto que, conforme notícia do STF, foi juntado aos autos do julgamento da ADPF 54): «Em se tratando de feto com vida extra-uterina inviável, a questão que se coloca é: não há possibilidade alguma de que esse feto venha a sobreviver fora do útero materno, pois, qualquer que seja o momento do parto ou a qualquer momento em que se interrompa a gestação, o resultado será invariavelmente o mesmo: a morte do feto ou do bebê. A antecipação desse evento morte em nome da saúde física e psíquica da mulher contrapõe-se ao princípio da dignidade da pessoa humana, em sua perspectiva da liberdade, intimidade e autonomia privada? Nesse caso, a eventual opção da gestante pela interrupção da gravidez poderia ser considerada crime? Entendo que não, Sr. Presidente».

Portanto, este senhor não é um herói; muito pelo contrário aliás. Uma atitude correta isolada não é capaz de transformar ninguém em um herói, nem mesmo que ela seja alvo dos mais potentes holofotes da mídia. É justa, sim, a condenação dos criminosos petistas do caso do mensalão, mas a montanha de injustiças acumulada nos últimos anos pelo STF em geral e pelo Min. Joaquim Barbosa em particular sobrepuja – e muito! – o acerto da decisão presente. Isto não se deve perder de vista.

À luz de uma visão mais ampla, este julgamento atual não destoa de todos os outros. Muito pelo contrário, complementa-os admiravelmente, conferindo-lhes um poderoso elemento de legitimação: ora, se a Suprema Corte teve coragem de julgar com acerto este caso de corrupção política, como acusar-lhe de conspiração contra a Pátria? Como negar a seriedade deste tribunal? Como não confiar no julgamento deste impoluto herói nacional de toga brilhante que está empenhado em uma cruzada santa contra a corrupção no Brasil?

Sob um olhar mais aguçado, assim, este julgamento é somente mais um passo orquestrado da Revolução. Se humanamente orquestrado, embora seja possível, eu não o sei dizer; mas em obediência (quiçá involuntária) a um plano mais amplo de não-sei-que hostes infernais, com toda a certeza. Porque o desenho é muito claro para que não seja notado e, os seus desdobramentos lógicos, evidentes demais para não serem inferidos. Olhando para o processo como um todo, trata-se, objetivamente, de um sacrifício de indivíduos para salvar o processo revolucionário. Exemplo mais clássico de modus operandi da Revolução é impossível.

Hoje de manhã eu ouvia na CBN que José Dirceu fizera questão de participar de reunião do Diretório Nacional do PT, desejando as honrarias de um herói injustiçado e manifestando repúdio à decisão injusta do STF. E, embora esta analogia seja evidentemente falaciosa, ela não perde a sua força retórica calhorda: em um instante, eu vi todos nós, conservadores que lutamos contra os descalabros do STF, colocados pelos inimigos da Pátria lado-a-lado com petistas corruptos esperneando contra as justíssimas e sagradas decisões da Suprema Corte Brasileira. Não, não há juízes em Brasília. Há somente um teatro de fantoches, uma tentativa de tratar o povo brasileiro como se fôssemos marionete em mãos invisíveis de um punhado de megalomaníacos, arrogantes que padecem de um patológico e perigoso complexo de Deus. Nós não estamos assistindo a uma revitalização da moralidade das instituições brasileiras, muito pelo contrário. Embora escondido sob a pirotecnia da vez, o processo revolucionário segue o seu curso. E nós não temos o direito de nos deixarmos distrair pelos fogos de artifício.

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42 thoughts on “Não, não há juízes em Brasília

  1. Vanderley

    Só valorizo o trabalho do ministro na questão do Mensalão& PT.
    Mas no meu entendimento, está fazendo o óbvio, tamanha as evidências.
    (Penso que sua figura/atitude está sendo usada para “incomodar” o PT, na net).
    No resto, não. O STF tem sido, de fato, revolucionário.

  2. wilson

    Muito bom o post, perfeito.

    Estas condenações são apenas jogo de cena do STF, pra bobo ver.

  3. Vinícius Medeiros

    O julgamento realmente é um espetáculo, agora o seu artigo centralizar-se em outros julgamentos do tribunal é uma verdadeira comédia grega. Os ministros não são dignos de prestígio porque o autor não concorda com decisões anteriores do tribunal? Porque não concorda com julgamentos como o da união homoafetiva ou do aborto de anencéfalos? Eu até esperava que ele citasse a vergonhosa decisão da Corte sobre Collor, vintes anos atrás. Mas não, o tribunal é execrado pelo autor (religioso) na justificativa de ter ferido princípios que o autor segue. Sua posição deve ser respeitada, mas essa justificativa do artigo é deprimente. Além mais, o que é decidido pela Corte Suprema não se discute, se aceita. O Judiciário não é culpado de receber as questões que o Legislativo não quer resolver, ora por pressão de grupos específicos, ora por poder perder prestígio também. Artigo lastimável.

  4. Maxwell

    Você esqueceu ainda de outras decisões dele como a demarcação da reserva em Roraíma, a extradição de Battisti…

  5. Eduardo Caillaux

    Faço as palavras de Vinícius Medeiros as minhas. O senhor não devia permear tanto a religião em todos os assuntos, ainda mais os científicos. Parece-me que o senhor nem deve ter estudado a “Evolução das Espécies” no primeiro grau. Realmente lastimável seus exemplos o que me faz admirar ainda mais o Ministro Joaquim Barbosa. Use sua religião para se libertar meu senhor e não para crucificar os outros. Uma perda de tempo lê-lo, desculpe-me.

  6. wilson

    A intenção do crime, “mensalão”, era controle ideológico de um poder sobre outro, feito de forma burra, a nova forma de controle ideológica dos poderes, (na verdade aniquilando) feita usando juízes do STF é muito mais nefasta e difícil de combater.

    O problema nem chega ser religioso é ordinariamente ideológico e de direito constitucional, aos vinícius da vida é preciso avisar que ir contra a religião não resgata a democracia.

  7. Putorius Mustela Furo

    Aos que criticaram o autor do post por usar a sua Fé como argumento ou que no mínimo foi religioso demais em suas argumentações,um lembrete,este é um blog religioso escrito por um religioso,que analisa o mundo a sua volta através de um olhar religioso,por isso este tipo de crítica é sem sentido.
    Ao autor do blog,apesar de não concordar com o texto em sua íntegra,bato palmas,muito bem escrita e termino dizendo que,”Se tu fazes atos dignos de palmas então,palmas sem fim mas se seus atos são repreensível vaias eternas.”

    A todos a Paz do Cristo e o Amor da Virgem.

  8. Anônimo

    Excelente artigo, concordo plenamente!

    Aliás, vamos esperar para ver se os condenados do Mensalão, realmente, vão cumprir pena e por quanto tempo; ou se tudo isso não passa de mais um ‘teatro’ ou de mais um pouco de ‘pão e circo’ para enganar o povo brasileiro.

    E com quê autoridade o STF pode julgar o Poder Executivo de ter violado a independência dos Três Poderes e de ter tentando comprar o Poder Legislativo, se ele também está humilhando e passando por cima do Poder Legislativo e violando a própria Constituição Brasileira no que se refere ao aborto, aos testes com células embrionárias, ao casamento entre homossexuais, etc., etc., etc.

    Como podemos acreditar que vivemos numa democracia?

    Afinal, para quê serve um Poder Legislativo e uma Constituição, se o Poder Judiciário (cujos membros têm cargos vitalícios e sequer são eleitos pelo povo) pode interpretar (e, até mesmo, distorcer) as leis ao seu bel prazer?

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