Bento XVI e o Papa Copta

closeAtenção, este artigo foi publicado 4 anos 7 meses 7 dias atrás.

Referente ao comentário aleatório que foi feito hoje à tarde aqui no blog (o que me leva a crer que o seu autor quer algum comentário meu sobre o assunto), sobre a recente eleição do novo Papa Copta, é preciso dizer que o texto e (principalmente!) os comentários do Cum Ex Apostolatus Officio são totalmente nonsense.

O Patriarca de Alexandria historicamente sempre ostentou o título de “Papa”, sem que isso jamais significasse nenhuma pretensão de usurpar a primazia de governo que o Bispo de Roma exerce sobre a Igreja Universal. Aliás, parece que o título de “Papa” foi atribuído ao Bispo de Alexandria antes mesmo de ter sido usado pelo Bispo de Roma – e isto séculos antes do Cisma do século XI. Uma coisa, portanto, é o Papa enquanto Sucessor de São Pedro, Vigário de Cristo e Pastor Supremo da Igreja Católica, e outra coisa totalmente diferente é o Papa enquanto Patriarca de Alexandria – cujo título remete a um uso histórico ininterrupto e incontroverso. Não me consta que o Papa Copto-Ortodoxo tenha jamais possuído, no passado ou no presente, pretensão de exercer governo universal sobre a Igreja. O Patriarca de Alexandria não é atualmente (e, até onde me conste, historicamente nunca foi) o que se pode chamar de um Antipapa.

É claro que hoje em dia existe o cisma e, atualmente, a Igreja Copto-Ortodoxa não reconhece ao Bispo de Roma senão uma “primazia de honra”, mas isto – ao contrário do que é insinuado nos comentários do artigo – não tem absolutamente nada a ver com o título “Papa” empregado pelo Bispo de Alexandria ou de Roma. Para os ortodoxos, “Papa” significa simplesmente “Patriarca”, sem nenhuma conotação minimamente análoga ao Papado católico. E, por conseguinte, o Papa Bento XVI “reconhecer” a eleição de Tawadros II, mesmo tratando-o por “Papa”, não tem nada a ver com abdicar do Papado, negar que ele próprio seja o Sucessor de São Pedro ou qualquer outro disparate análogo.

Deduzir da mensagem de Bento XVI ao novo Patriarca da Igreja Copto-Ortodoxa que aquele “abdicou do papado” – como escreveu uma garota em seu blog – porque não pode haver dois Papas é fazer uma confusão totalmente sem sentido. É claro que não pode haver dois Papas no sentido que a palavra tem dentro da Teologia Católica, mas pode haver – e há – mais de um Patriarca na Igreja de Cristo, e para os coptas “Papa” significa precisamente “Patriarca” e não mais que isso.

Há Patriarcas de Igrejas Particulares unidas a Roma – como o Patriarca de Antioquia dos Sírios, p.ex. – e há Patriarcas de igrejas cismáticas, como o recém-eleito Tawadros II. Este chamar-se a si mesmo de Papa (fazendo uso, repitamos, de um título que remete ao século III, jamais questionado pela Igreja) ou o Papa Bento XVI tratá-lo por este título (que em si é legítimo) em nada afeta a posição que o Vigário de Cristo detém na Igreja Católica. Dizer diferente disso é disseminar a confusão, e nós já vivemos em tempos onde existe confusão demais.

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10 thoughts on “Bento XVI e o Papa Copta

  1. Sandro de Pontes

    Prezado Jorge, salve Maria.

    Que a Igreja sempre reconheceu o título de “papas” (em um sentido lato) a patriarcas orientais unidos a Roma não resta dúvida. Papas romanos chamaram patriarcas orientais pelo título de “papa”.

    O escândalo causado por Bento é justamente pelo fato da mensagem se dirigir a um “papa” (portanto, “pai”) cismático e herege, negador do dogma do papado tal qual foi definido pelo Vaticano I e negador também do Filioque.

    O escândalo está em reconhecer tal “eleição”, que tal homem é um “padre espiritual autêntico (sic)”. Ora, Jorge, autêntico é característica do que não pode ser contestado.

    O escândalo está em enviar a um cismático “bons votos” e a “solidariedade orante, PEDINDO AO SENHOR que conceda as suas BENÇÃOS ABUNDANTES sobre o alto ministério que Vossa Excelência se prepara para assumir”.

    Este é o ecumenismo do Vaticano II: chega-se a pedir as bençãos divinas àquilo que o próprio Deus detesta e a abençoar e se unir àqueles que devemos converter, não pela “amizade e diálogos constantes”, mas pela autoridade dada pelos céus, a exemplo de Cristo. Não dá para aguentar isso, meu amigo, isso não é católico. Como você não vê?

    Dá para imaginar São Pio X mandando uma mensagem destas para um herege cismático “eleito” “papa” copto ortodoxo?

    Abraços sempre sinceros e fraternos,

    Sandro de Pontes

  2. lucas

    Encontrei no blog A Vida Sacerdotal de Sâo Pio X entre outros aqui http://www.avidasacerdotal.com/2010/12/communicatio-in-sacris.html

    abraços,
    lucas

    Roma 17.02.1908
    Santíssimo Padre!Andrew Szeptycki, Metropolitano de Halycz, Administrador Metropolitano de Kiev e de toda a Rússia, ao pé da Sua Santidade humildemente pede que permissões possam ser concedidas para si e também aos confessores em comunhão para dispensar os fiéis seculares da lei que proíbe a communicatio in sacris com os ortodoxos quantas vezes eles julgarem na consciência de ser oportuno.Nosso Santíssimo Padre Pio Papa X dignou-se a assinar com sua própria mão este documento escrito por mim com as palavras “podem ser tolerados”.

  3. Julio Cesar Chaves

    Apenas um pequeno comentário.
    A Igreja Copta foi uma das primeiras Igrejas a se separarem do restante da cristandade. Isso aconteceu após o Concílio de Calcedônia, em 451, quando a Igreja do Egito manteve sua posição em favor do Monofisismo.

  4. Francisco

    Jorge,

    O comentário do Sr. Sandro me parece coerente. Seu silêncio foi de concordância?

    At.

  5. Jorge Ferraz (admin) Post author

    Francisco,

    Parcialmente. Na verdade, o tema deste post era o título de “Papa” dado ao Patriarca Copta, sobre o qual – pareceu-me – algumas pessoas (p.ex., a garota do blog que eu linkei neste texto) estavam fazendo confusões desnecessárias e prejudiciais. Como o Sandro corroborou esta informação, creio que estamos de acordo quanto a isto.

    A questão das mensagens papais a hereges e cismáticos cai em outro tema mais amplo que é o próprio diálogo ecumênico, ao qual este dado específico da eleição de Tawadros II não acrescenta nenhuma novidade.

    E as minhas posições sobre o Ecumenismo podem ser encontradas aqui no blog, ao alcance de uma busca na caixa que fica no topo da coluna da direita.

    Abraços,
    Jorge

  6. Diácono Paulus

    Prezado Jorge,

    Sou diácono da Igreja Ortodoxa Siríaca (em comunhão com a Igreja Ortodoxa Copta) e, de fato, sua explicação sobre a diferença entre “papa copta” e “Papa de Roma” está correta. Os dois títulos, apesar de possuírem o mesmo nome, possuem significados específicos e abrangência completamente diferentes. Você foi muito feliz em sua explicação. Parabéns!

    De fato, o título de “papa” é usado pelo Patriarca de Alexandria bem antes de ser usado pelo “patriarca” de Roma e, portanto, é anterior ao cisma. O sentido, entretanto, de “papa” para o patriarca copta é unicamente e exclusivamente de “patriarca” ou de “pai” para os coptas. Enquanto o de “Papa de Roma” possui um sentido muito mais amplo e, obviamente, melhor conhecido por vocês do que por mim.

    Quanto às outras questões levantadas, o fato é que após o cisma, nossas Igrejas continuaram existindo, caminhando e elegendo seus líderes, ambas dentro de seus contextos, acreditando realmente estarem guardando a verdadeira doutrina, por mais que para nós ou para vocês uma e outra estivesse enganada. Se pra nós “Roma” em algum(s) quesito errou, ao mesmo tempo “Alexandria” em algum(s) quesito errou dentro da visão romana. Pra nós, nós estamos corretos. Pra vocês, vocês estão corretos.

    Isso é relativismo? Lógico que não!

    É só o que nós achamos. E é só o que vocês acham!

    E nós achamos isso porque, dentro de nosso contexto e daquilo que entendemos, isso é o correto e não porque temos o “plano mirabolante de dominar o mundo e acabar com a igreja de roma”…isso é coisa de protestante doido…não de ortodoxo.

    Isso não nos permite, pelo menos eu não aprendi assim, destratar ninguém. Ora, um reverendo anglicano, por exemplo, acha que possui sucessão apostólica e que celebra a eucaristia validamente. Assim, ele se considera um “reverendo sacerdote” e, mesmo eu não concordando com nada disso, eu me dirijo a ele como “reverendo”. Isso é só respeito, coisa rara em nossos dias, não relativismo.

    Sua Santidade o Papa Bento XVI, ao contrário de muitos católicos que só gostam dele quando convém, é um exemplo de cristão (inclusive para nós ortodoxos) e por isso sabe o que é respeito e pratica isso muito bem. Ele sabe que Tawadros II não tava lá em Calcedônia cismando a Igreja, muito menos tava em 1054 brigando por Filioque e nem estava no Vaticano I negando a infabilidade dos papas. Ele, o papa Tawadros II, nasceu, cresceu e viveu como um típico cristão copta, aprendendo e rezando como um cristão copta, evangelizando e defendendo a fé como um cristão copta e, depois de muita caminhada, chegou ao trono de São Marcos, que queira ou não queira, existe sim e pertence a Igreja Ortodoxa Copta. E ponto!

    O Papa Bento XVI pede “bençãos aos Senhor” para o papa Copta Ortodoxa porque ele sabe, ao contrário de muitos de seus filhos, que os coptas sofrem diariamente um martírio constante, sendo perseguidos e massacrados simplesmente por crerem que Jesus é o Filho Unigênito de Deus, mas isso não tá na mídia, nem na canção nova e muito menos nos blogs ditos “tradicionalistas”. Meu irmão, é gente morrendo aos montes só por não negarem a Cristo!!! Além disso, os coptas (tanto clero quanto leigos) são cristãos extremamente devotos e tradicionais, e pode chorar quem quiser o quanto quiser pra contrariar isso, mas o fato é que é isso e ponto. Para os católicos romanos eles são hereges, cismáticos e estão no inferno? Tá, tudo bem! Fiquem com a opinião de vocês! Mas quisera que pelo menos 10% dos católicos romanos tivessem 1% da devoção dos copta ortodoxos, talvez não tivesse tanta fumaça de satanás entrando pelas bandas daí.

    Queriam que o Papa Bento XVI dissesse o que? “Ei Tawadros, vá se explodir com aquele povo maldito, cismático e herege, porque o amor de vocês por Cristo é falso e me deixem em paz, porque eu vou já assistir o programa do Fábio de Melo”

    Não, Bento XVI não faria isso, porque ele aprendeu a ser cristão foi através do Evangelho de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, da Eucaristia e da devoção a Maria Santíssima, impregnando isso em sua alma através de muita oração e serviço a Deus.

    Ele não aprendeu a ser cristão em “blog tradicionalista”…ele não é mais um desses “católicos” de internet que só sabem “muito” é de “nada”.

    Mais uma vez, parabéns por suas observações. Aos demais, menos conexão banda larga e mais rosários!

  7. Sandro de Pontes

    Paulus,

    suas palavras demonstram a maldade que Satanás plantou no seu coração e que você talvez ainda não tenha se apercebido.

    Se você estivesse correto, Deus não estaria lhe dando graças suficientes ao longo de sua vida para que enxergasse os erros doutrinais que a sua posição encerra. Se você estivesse correto, ninguém no mundo poderia se converter a qualquer verdade revelada que se apresentasse: nem os judeus diante de Cristo estariam obrigados a se converterem, pois que, para eles, o judaísmo estaria correto, e para Cristo e os apóstolos, e tão somente para eles, o cristianismo estaria correto.

    E assim, como para cada um aquilo que se crê é aquilo que está correto, segue-se a vida tranquilamente, como se dos céus Deus não estivesse derramando enxurradas e mais enxurradas de graças há séculos para que hereges como os protestantes e cismáticos como você pudessem sair da família luciferina e adentrar a verdadeira Igreja, católica apostólica e ROMANA, fora da qual ninguém se salva, nem, infelizmente, o Diácono Paulus.

    E também, se você estivesse correto, Deus não seria justo: Sua misericórdia não estaria iluminando a inteligência de um um sacerdote anglicano que crê celebrar de forma válida a eucaristia para que ele pudesse, por meio da razão, abandonar o erro e aderir a verdade revelada por Deus e ensinada pela Igreja fundada por Cristo.

    Ninguém no mundo nunca poderia ter fé verdadeira, que é a adesão as verdades que Deus revela e que a Igreja ensina, caso você estivesse com a razão, porque cada um sempre crê estar com a verdade. E você diz que isso que professa não é o relativismo!!!

    Quanto aos fiéis oriundos do cisma que pessoas como você promovem e mantêm, que Deus as julgue de acordo com a capacidade espiritual e intelectual dada a cada uma delas. Certamente entre elas há de haver muitas boas almas retas e de intenção ilibada, a caminho do céu, cujo sofrimento é uma preparação para o catolicismo verdadeiro que ainda não professam, desgraçadamente.

    Mas dizer que Deus não lhes deu, ao longo de todas as suas vidas, oportunidades para que pudessem se tornar romanas é algo que vai contra a justiça divina. Vai contra a Santidade do verdadeiro Deus e contra as suas promessas, porque Deus não quer que ninguém se perca. Nem o Diácono Paulus, que anda, infelizmente, jogando fora as graças oriundas do céu para abandonar o cisma e se tornar cristão verdadeiro, porque somente católicos apostólicos romanos são verdadeiros cristãos. O restante são tão somente cristãos temerários, como diz o PAPA Pio XI.

    Rezando para que se converta e quando morrer entre no céu, despeço-me,

    Sandro Pelegrineti de Pontes

  8. Sandro de Pontes

    Paulus,

    Assim não me parece: assim é! Porque se assim me parecesse, de outra forma lhe pareceria, e novamente não teríamos certeza de mais nada: pareceria de uma forma para Cristo e Sua Igreja, e de outra para os judeus empedernidos! Pareceria de uma forma para o catolicismo romano, e de outra para os cismáticos coptos.

    E assim quem é que poderia ter acesso a verdade com certeza metafísica neste mundo onde a Sandros e Paulos pareceriam tantas coisas diferentes?

    Não, meu caro Paulus: não me parece que a Igreja Católica Romana é aquela fundada por Cristo e a sua uma ingrata que dela saiu originando o cisma: tal fato é absotutamente verdadeiro e pode ser constatado pela razão, a luz dos meios visiveis que o próprio Deus ordenou auxiliados pela graça abundantes que Ele derrama verdadeiramente há séculos para que homens como você deixem de manter e fomentar o cisma para que homens como aqueles que morrem nas mãos dos muçulmanos possam se tornar romanos. Pois que o povo segue a liderança, já dizem os santos católicos.

    Daí a responsabilidade dos sacerdotes ortodoxos cismáticos diante desta separação. Os camponeses até entrarão por sua boa fé, seguramente, mas vocês não entrarão porque receberam cinco talentos, ou seja, não estão em ignorância invencível.

    Ainda dá tempo para você. Não precisa ser comigo, se me julgar meio indigesto. Tem muito bom católico aí que pode te ajudar a sair das trevas. Veja o Jorge mesmo: ele lhe mostrará a luz do catolicismo. Aí quando chegar na questão do Vaticano II, que tem a ver com o mistério da iniquidade previsto pelas escrituras, nós voltamos a conversar.

    Sempre, mas sempre mesmo cordialmente, creia-me,

    Sandro de Pontes