As melhores homilias do Papa Francisco

closeAtenção, este artigo foi publicado 4 anos 2 meses 2 dias atrás.

O Papa Francisco tem feito homilias sem sombra de dúvidas excelentes. Mas, na minha opinião, as suas melhores homilias são as que não se encontram disponíveis no site do Vaticano. Explico: o Papa tem o hábito (que eu absolutamente não sei dizer se era compartilhado pelos seus predecessores) de improvisar breves homilias em todas as missas que ele celebra, mesmo durante os dias de semana, mesmo diante de um grupo pequeno de pessoas. Como elas são feitas de improviso, os órgãos de imprensa da Santa Sé não as recebem previamente e, portanto, não podem divulgar-lhes o conteúdo pelos canais de comunicação oficiais da Igreja. Temos acesso a fragmentos delas somente mediante as testemunhas auriculares dessas celebrações, às quais por vezes os órgãos de imprensa conseguem ter acesso.

Trago três exemplos disso que estou falando; nenhuma das datas abaixo consta no calendário (oficial) das atividades do Santo Padre [p.s.: a homilia do dia 23 de abril está disponível aqui; além disso, o site do Vaticano está disponibilizando uma compilação das meditazioni do Papa Francisco, «a cura de L’Osservatore Romano», que é o que de mais próximo temos dos “textos oficiais” dessas homilias do Papa].

06 de abril de 2013, via Sandro Magister, com tradução do Ecclesia Una, que eu já mencionei en passant aqui: «A fé não se negocia. Esta tentação sempre existiu na história do povo de Deus: cortar um pedaço da fé, ainda que não seja muito. Mas a fé é assim, tal como a recitamos no Credo. É necessário superar a tentação de fazer o que todos fazem, não ser tão, tão rígidos, porque precisamente daí começa um caminho que acaba na apostasia. De fato, quando começamos a destroçar a fé, a negociá-la, a vendê-la à melhor oferta, começamos o caminho da apostasia, da não fidelidade ao Senhor».

23 de abril de 2013, via Agência Ecclesia: «[E]ncontrar Jesus fora da Igreja não é possível (…) [O Papa Paulo VI dizia ser] uma dicotomia absurda querer viver com Jesus sem a Igreja, seguir Jesus fora da Igreja, amar Jesus sem a Igreja. (…) Não se pode acreditar em Jesus sem a Igreja, di-lo o próprio Jesus».

22 de abril de 2013, via Avvenire, com tradução livre minha: «Qualquer um de vocês poderia dizer: ‘Padre, o senhor é um fundamentalista!’. Não, simplesmente é isto que Jesus disse: ‘Eu sou a Porta’, ‘Eu sou o Caminho’ para nos dar a vida. Simplesmente. É uma porta bela, uma porta de amor, é uma porta que não nos engana, não é falsa. Sempre disse a Verdade. Há talvez caminhos mais fáceis, mas são enganosos, não são verdadeiros: são falsos. Somente Jesus é o Caminho».

São somente três exemplos que porventura chegaram-me ao conhecimento; quantos outros não existem, sobre os quais eu não fico sabendo nada? E essas sentenças são bastante significativas para compreendermos o pensamento do Papa: ora, uma homilia oficial é aconselhada, redigida (por vezes através de ghost writers…), revisada, criticada, enviada para o Papa, traduzida, etc.; enquanto que nessas homilias espontâneas nós temos o Papa Francisco falando totalmente por conta própria, de improviso, sem influências (boas ou más) de ninguém!

Por isso, faço coro a este pedido do Rorate Caeli: alguém deveria transcrever essas homilias e colocá-las (sob uma seção menos formal da página do Papa, que fosse) no site do Vaticano! Não se compreende que bem pode advir da divulgação apócrifa das palavras de Sua Santidade, nem tampouco que mal causaria a veiculação integral desses ensinamentos tão belos (e tão atuais) do Bispo de Roma.

P.S.: Atendendo aos nossos pedidos, eis as «Meditazioni del Santo Padre Francesco nelle Messe quotidiane celebrate nella cappella della Domus Sanctae Marthae».

Gostou? Compartilhe!Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someonePrint this page

6 thoughts on “As melhores homilias do Papa Francisco

  1. Alexandre Magno

    Jorge Ferraz:

    … sem influências (boas ou más) de ninguém!

    “Sem influências formalizadas” ― acho que seria melhor colocar assim, não?!

    Não se compreende que bem pode advir da divulgação apócrifa das palavras de Sua Santidade, nem tampouco que mal causaria a veiculação integral desses ensinamentos tão belos (e tão atuais) do Bispo de Roma.

    Francisco, Bento XVI, João Paulo II… Pedro! Não são, nunca foram, e nunca serão Deus. Em mais de um momento eles podem ter falado abobrinhas.

    Reservar-se à oficialidade não é hipocrisia ou covardia. É um cuidado próprio de quem ensina. Pode-se ensinar com informalidade, mas é mais seguro fazer jus à gravidade do que se ensina, sempre que possível.

    Graças a Deus que o site do Vaticano é “modesto”. Acho que a palavra é essa, não é?

  2. JB

    Jorge, Jorge…

    As homilias do Papa são no geral excelentes, melhores até que as de Bento XVI por serem mais diretas. Ninguém em são juízo põe em dúvida a catolicidade do Papa Francisco.

    O problema é mais profundo e sutil. E você inadvertidamente o expôs em sua mensagem acima. Não vê que até você já começou a mudar a maneira de expressar-se? Quantas vezes antes você já havia se referido ao Papa como Bispo de Roma? Suponho que nenhuma.

    Quando um católico inteligente e brilhante, de ortodoxia comprovada, como o Jorge Ferraz certamente é, refere-se ao Papa desapercebidamente como Bispo de Roma, é porque algo de muito errado está acontecendo subrepticiamente mesmo no fundo das almas mais devotas.

    Embora não seja tecnicamente errado, “Bispo de Roma” é o modo como os protestantes, os anglicanos e os cismáticos orientais referem-se ao Santo Padre para não terem que admitir o Primado. Antigamente, seria até considerado ofensivo. É como chamar a Rainha da Inglaterra de Duquesa de Edimburgo.

    Em você, o efeito “Bispo de Roma” provavelmente será apenas estilístico, mas em seus filhos e netos (ou seja nas gerações vindouras), esse efeito aderirá a camadas progressivamente maiores de consciência. Até um dia alterar a compreensão das pessoa sobre a doutrina do primado de Pedro.

  3. Jorge Ferraz (admin) Post author

    Alexandre, sim, sem influências “formalizadas” (ou “diretas”), é o que estou dizendo.

    Até concordo com o argumento da prudência, mas penso que o efeito que se está buscando com ele [= impedir a divulgação (e posterior utilização política) das palavras do Papa que não foram joeiradas pela Cúria] já foi anulado pelo simples fato de que as homilias dele estão sendo divulgadas. Mas isso está sendo feito de modo apócrifo, o que é muito ruim, pois existe a possibilidade de se misturar algo espúrio à homilia verdadeira e não dispormos do texto oficial para conferir.

    JB, eu acho que o seu temor está superestimado. Até concordaria que ao longo do tempo o emprego da expressão “Bispo de Roma” poderia aderir “a camadas progressivamente maiores de consciência” até “um dia alterar a compreensão das pessoas sobre a doutrina do primado de Pedro”, mas penso que isso só acontecerá se a doutrina do primado do Papa deixar de ser ensinada ou (pelo menos) se a expressão “Bispo de Roma” passar a ser usada em referência ao Papa com exclusão de todos os demais títulos pontifícios – e eu não estou disposto a deixar acontecer nem uma coisa e nem outra.

    Abraços,
    Jorge

  4. JB

    Jorge,

    A correta doutrina católica sobre o ecumenismo e a liberdade religiosa nunca deixou de ser ensinada. A doutrina não mudou um iota.

    No entanto, por causa de uma ou outra palavra mal colocada, de um gesto imprudente do Papa astutamente divulgado pela mídia, a compreensão que se tem hoje sobre ecumenismo e liberdade religiosa é completamente equívocada entre a maioria do clero e dos fiéis.

    Foi um processo paulatino em que muitos católicos transformaram-se em (semi-)protestantes sem sequer perceberem a mudança. Se alguém lhes apontava a verdade, logo diziam “Radical! Exagerado!”.

    O mesmo está acontecendo hoje debaixo de nossas barbas em relação ao Primado Petrino. A doutrina não mudará e nem deixará de ser ensinada aqui e ali, mas as pessoas começarão a compreende-la e a vive-la de maneira cada vez mais diferente.

    (Até você já começa a usar palavras que antes não usava!).

    É bom que a doutrina não mude. Essa é a garantia da Igreja. Mas é melhor ainda quando as pessoas vivem conforme a doutrina de sempre. E não há garantias disso.

  5. Pingback: Nec rubricat, nec cantat | Deus lo Vult!