Papa Francisco e os ateus, filhos de Deus

A motivação deste post me vem de duas fontes distintas. Uma diz que o Papa “confundiu” pro multis e pro omnibus; a outra, que o Papa afirmou a heresia da salvação universal. Aos que tenham se sentido confusos com estes artigos (ou outros análogos), oferecemos este contraponto, esperando que possa ser útil.

Quanto ao primeiro texto, a resposta é imediata: uma coisa é a redenção objetiva e, outra, a redenção subjetiva. Aquela diz que o Santíssimo Sangue de Nosso Senhor derramado na Cruz do Calvário é suficiente para a salvação de todos os homens; esta, que – não obstante – os méritos de Cristo são eficazes apenas para os que aceitam voluntariamente o Sacrifício Vicário de Cristo, por meio da Fé e dos Sacramentos. A primeira é o pro omnibus e, a segunda, o pro multis. Afirmar a precisão histórica desta no contexto das palavras da Consagração que Cristo ensinou aos Seus apóstolos na Última Ceia não é (nem de longe!) a mesma coisa que sustentar ser aquela herética em qualquer contexto em que seja empregada. Aliás, é o próprio Bento XVI quem o afirma, em carta enviada há pouco mais de um ano à Conferência Episcopal Alemã (grifos meus):

Isto põe em evidência um elemento muito importante: a tradução «por todos» de «pro multis» não era, de facto, simples tradução, mas uma interpretação. Esta tinha seguramente fundamento, e continua a tê-lo; contudo é mais do que uma tradução, é já interpretação.

[…]

Porventura o Senhor não morreu por todos? O facto de Jesus Cristo, enquanto Filho de Deus feito homem, ser o homem para todos os homens, ser o novo Adão faz parte das certezas fundamentais da nossa fé. Sobre este ponto, queria apenas recordar três textos da Escritura. Deus entregou seu Filho «por todos»: afirma Paulo na Carta aos Romanos (Rm 8, 32). «Um só morreu por todos»: diz-se na Segunda Carta aos Coríntios, ao falar da morte de Jesus (2 Cor 5, 14). Jesus «entregou-Se a Si mesmo como resgate por todos»: está escrito na Primeira Carta a Timóteo (1 Tm 2, 6). Mas então devemos, ainda com maior razão, pôr-nos a questão: Se isto é assim claro, porque é que na Anáfora Eucarística está escrito «por muitos»? O motivo é que a Igreja tomou esta formulação das narrações da Instituição no Novo Testamento. Ela diz assim por respeito à palavra de Jesus, para se Lhe manter fiel até mesmo nas palavras. O respeito reverencial pela própria palavra de Jesus é a razão de ser da formulação da Anáfora Eucarística.

Portanto, não há absolutamente nenhum problema em afirmar que Cristo morreu «por todos» nós. Aliás, o próprio texto da Montfort indicado no Blog do Angueth explica a diferença entre redenção objetiva e redenção subjetiva, donde se vê que a estranheza do professor manifestada em seu artigo, data venia, é incompreensível.

Quanto ao segundo texto, digo o seguinte:

Primeiro, que não há problema algum em afirmar que Nosso Senhor “ampliou os horizontes” dos discípulos. É aliás óbvio que Ele fez isso, posto que a alternativa é pretender que os Apóstolos sempre souberam tudo e Nosso Senhor nada teve a lhes ensinar! Claro que Cristo corrigiu muitas das idéias erradas dos discípulos e mesmo dos Apóstolos, os Evangelhos estão cheios de exemplos disso. Absurdo (e aliás herético) seria afirmar que Nosso Senhor incutiu idéias erradas nos Apóstolos, e não que Ele corrigiu os pensamentos errados que os Apóstolos tinham.

Segundo, que os católicos jamais mataram em nome de Deus, pelo menos não nos eventos históricos que costumam ser evocados como exemplo disso (v.g. Inquisição e Cruzadas). Aliás, parece-me claro que o Papa não está pensando na história da Igreja ao fazer esta crítica, porque ele vai mais fundo e diz que isso «é simplesmente uma blasfêmia». Ora, como o Antigo Testamento está repleto das guerras de Israel e das prescrições divinas para a morte dos corruptores da religião judaica, é claro que o Papa Francisco não pode estar chamando de «matar em nome de Deus» coisas como a Guerra Justa ou a pena de morte legitimamente aplicada aos falsificadores da Religião Verdadeira. A alternativa – outra vez absurda – é sustentar que o Papa estaria dizendo que o Antigo Testamento é «simplesmente uma blasfêmia», e a hipótese de que o líder máximo da Igreja Católica possa ter em tão repugnante conta [mais da] metade do livro sagrado da sua religião simplesmente não faz sentido para ninguém que pretenda manter intacto seu senso de realidade.

Ao invés, existe uma certa religião que – aí sim – é conhecida por “matar em nome de Deus”: trata-se do Islã, cuja Jihad faz até hoje tantas vítimas entre aqueles que não aceitam prostrar-se diante de Allah e seu profeta, e portanto é muito mais razoável supôr que foi a esta que o Papa Francisco dirigiu as suas imprecações. Considerando isso, e dado que hoje em dia não existe nenhum indivíduo ou grupo católico que pretenda (mesmo em teoria!) matar não-católicos em nome de Deus (*), a hipótese de que o Papa esteja se referindo a um comportamento inexistente nos dias de hoje unicamente para desmoralizar a Igreja Católica (!) carece de verossimilhança.

[(*) O IRA, que é o exemplo que poderia ser citado para negar a minha afirmação, não se encaixa aqui pois i) não conta com o apoio da Igreja; ii) usa o elemento religioso – isso quando o usa… – unicamente como pretexto para disfarçar conflitos políticos; e iii) não faz parte do contexto próximo ou remoto da homilia pontifícia. No entanto, mesmo admitindo que o Papa pudesse estar pensando no Exército Republicano Irlandês quando condenou o «matar em nome de Deus», ainda assim as suas colocações seriam legítimas e pertinentes e a) nem autorizariam “retroagir” sua condenação para abarcar também eventos católicos do passado e b) nem deixariam de valer como crítica às outras religiões que ainda hoje fazem guerra «em nome de Deus».]

Terceiro, que Deus morreu por todos os homens sim, como foi explicado acima, e que o Sangue d’Ele é suficiente para redimir o mundo inteiro sim, embora isso naturalmente não signifique que todas as pessoas vão inexoravelmente se salvar sem fazer nada para isso.

Quarto, que a filiação de Deus é dupla: por um lado recebemos a filiação divina pelo Batismo sim e não sem ele, mas por outro todos os seres humanos – mesmo os ateus – somos filhos de Deus por conta da nossa inteligência e nossa vontade, que são a imagem de Deus em nós. Assim nos ensina São Pio X no Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã (negritos meus):

285) Por que podemos nós dizer que somos filhos de Deus?

Somos filhos de Deus:

1º porque Ele nos criou à sua imagem e nos conserva e governa com a sua providência;
2º porque, por especial benevolência, Ele nos adotou no Batismo como irmãos de Jesus Cristo e co-herdeiros, juntamente com Ele, da eterna glória.

Portanto, mesmo os ateus são filhos de Deus, porque Ele os criou à Sua imagem e os conserva e governa com Sua providência. Destarte, o Papa não disse nenhuma novidade – apenas repetiu um ensinamento tradicional da Igreja – quando lembrou que, em certo sentido, mesmo os que não crêem são filhos de Deus.

Por fim, quinto, que é verdadeiramente espantoso não se ter percebido o mais importante desta homilia, que é o seguinte: quando o Papa diz que «todos nós temos o dever de fazer o bem» e que isso «não é uma questão de fé, mas um dever», ele está lançando um duro ataque contra a ditadura do relativismo e explicando que não é porque fulano ou sicrano crê ou deixa de acreditar que ele pode se considerar eximido de seguir os ditames morais que valem para todos! Ora, num mundo em que os hipócritas clamam o direito de casar homem com homem porque não são católicos e em que dizem à Igreja para que Ela não imponha a Sua proibição ao aborto àqueles que não comungam da Fé Católica, afirmar que até os ateus têm o dever moral de fazer o bem é um duro golpe no ateísmo mesmo e o sepultamento definitivo do relativismo moral que grassa nos dias de hoje.

Este ensinamento não é só verdadeiro: é tremendamente oportuno. Se não percebem isso aqueles que por um lado louvam o Papa por ter alegadamente aberto o Céu aos ateus e por outro aqueles que o criticam por supostamente ter negado a Igreja fundada por Cristo, é porque estão mais preocupados com os seus pré-julgamentos do que com a compreensão serena e desapaixonada daquilo que o Vigário de Cristo tem para nos dizer.

Publicado por

Jorge Ferraz (admin)

Católico Apostólico Romano, por graça de Deus e clemência da Virgem Santíssima; pecador miserável, a despeito dos muitos favores recebidos do Alto; filho de Deus e da Santa Madre Igreja, com desejo sincero de consumir a vida para a maior glória de Deus.

49 comentários em “Papa Francisco e os ateus, filhos de Deus”

  1. Prezado Jorge,

    cito dois pontos importantes que não apareceram no seu post e que são relevantes para a discussão:

    1) Como informado em post de hoje no Fratres in Unum, o Papa Francisco tem dito “por todos” na oração eucarística, contrariando a excelente carta de Bento XVI à Conferência Episcopal Alemã.

    2) Você não fez nenhum comentário ao seguinte trecho da homilia do Papa Francisco: “Se nós, cada um de nós, fizer o bem aos outros, pouco a pouco, lentamente, realizamos aquela cultura do encontro: aquela cultura de que tanto precisamos. Encontrar-se fazendo o bem. ‘Mas eu não acredito, padre, eu sou ateu!’. Mas faça o bem: vamos nos encontrar lá”.
    São palavras que, vindas da autoridade máxima da Igreja, favorecem o indiferentismo religioso entre os hereges. Em outras palavras, dão toda margem para uma interpretação errônea do dogma Extra Ecclesiam nulla salus.
    “Vamos nos encontrar lá…”
    Lá onde?

    Concordo com praticamente tudo que você escreve no seu blog, mas será que daqui para frente (gracejo) terei mesmo que assistir o Pe. Lombardi desmentindo as boas ações do Papa e o Jorge justificando as suas más homilias?

    Em Jesus, Maria e José.

  2. Caríssimo Frederico, respondendo rapidamente:

    o Papa Francisco tem dito “por todos” na oração eucarística

    Sim, porque em italiano é “per tutti” mesmo, e se Bento XVI não corrigiu a tradução italiana em oito anos, é claro que o Papa Francisco não ia fazê-lo em dois meses.

    Na verdade, a informação relevante aqui (e que eu não sabia) é que o Santo Padre está celebrando em italiano (cf., p.ex., o livreto da celebração de Corpus Christi amanhã) mesmo as grandes festividades litúrgicas, e não mais em latim. Isto é muito ruim, mas não é surpresa. Ele é argentino, é jesuíta, non rubricat. Rezemos pelo Papa.

    “Vamos nos encontrar lá…”
    Lá onde?

    Não faço idéia. Veja, o fato mesmo do Papa não ter especificado que “lá” é este já obriga moralmente a que se lhe interprete da melhor maneira possível, não sendo lícito atribuir-lhe a pior interpretação do mundo e dizer que ele está favorecendo «o indiferentismo religioso» ou levando a «uma interpretação errônea do dogma Extra Ecclesiam nulla salus». Note que se trata de uma homilia improvisada! Não dá para exigir rigor acadêmico em cada palavra que o Papa diga, e nem é razoável pretender analisar este tipo de discurso com a má vontade de um censor mal-humorado que quer cumprir a quota do dia para ir pra casa.

    Mas, vamos lá. A julgar pelo texto em italiano, que começa falando numa «bella strada verso la pace» [bonita estrada rumo à paz] e diz que «ci incontriamo facendo il bene» [encontramo-nos fazendo o bem] quando cada um faz o bem, penso que «là» é “na paz” ou “na ‘fazedura’ do bem”.

    Talvez signifique “no Céu” mesmo, mas logicamente não sem a Fé; o Santo Padre faz questão de complementar o seu «ci incontriamo là» com um “poiché «su questa strada di vita» il Signore «parlerà a ciascuno nel cuore»” [porque «nesta estrada de vida» – que estrada? A de “fazer o bem”, lógico – o Senhor «falará a cada um em seu coração» – mostrando que Deus há de Se revelar aos ateus se estes se empenharem em “fazer o bem”].

    Resumindo, o Papa diz i) que os ateus estão obrigados a fazer o bem [e “fazer o bem”, como todo católico sabe, inclui cumprir os deveres para com Deus]; e ii) que eles, fazendo o bem, poderão encontrar a Deus! E a galera ainda vem me dizer que o que o Papa disse foi que os ateus vão pro céu! Francamente.

    terei mesmo que assistir (…) o Jorge justificando as suas más homilias?

    No que depender de mim, com certeza irei protestar cada vez que alguém pretenda semear a confusão entre os católicos e incitá-los à irreverência para com o Santo Padre. O Papa precise que rezem por ele, e não que fiquem catando em suas homilias qualquer coisa que sirva para o condenar.

    Abraços,
    Jorge

  3. D. Estevão escreveu:

    “. A Salvação dos Ateus

    1) Se um ateu ou uma atéia vive decente e moral, por que um Deus amoroso e compassivo se preocupa com acreditarmos ou não acreditarmos nele/nela/nisso?

    Resposta: Ninguém vive decente e moralmente bem se não por graça de Deus. É Ele quem se entrega mesmo a quem nele não crê. Deus nos fez para si, e não pode deixar de querer bem às suas criaturas, dando-lhes o necessário para chegarem ao seu Fim Supremo. – Aliás, é de crer que, se algum ateu vive corretamente, cedo ou tarde virá a descobrir a Deus e ter fé. As virtudes humanas (sinceridade, fidelidade, lealdade, senso de responsabilidade…) são o ponto de partida para que alguém reconheça Deus. Um ateu sincero e amigo da verdade está no caminho que leva a Deus.”

    http://afeexplicada.wordpress.com/2012/12/19/respostas-a-um-ateu-d-estevao-bettencourt-osb/

    Santo Tomás ensina, no livro das Sentenças, que, fazendo o homem tudo o que está ao seu alcance, com a ajuda da graça atual, Deus disporia um meio da salvação chegar até ele, fosse através de inspirações interiores sobre o que deveria crer, seja enviando-lhe um missionário.

    Não é que o homem possa, pela prática do bem natural, ordenar-se a si mesmo para a graça de Deus. É a graça de Deus que ordena o homem, contudo, em razão da vontade salvífica universal de Deus, todo homem tem ao seu alcance o cooperar com a graça, e assim, ordenar-se aos meios de salvação.

    Rui

  4. Caro Jorge,
    Excelentes as suas palavras. É da nossa responsabilidade cristã a defesa intransigente de nosso líder maior, o Santo Papa. E você o fez com muita competência. Parabéns. Continue firme nesse seu santo propósito. Abs.
    Irsef Ivan

  5. Meu amigo Jorge, salve Maria!!!

    Ao ler suas palavras lembrei-me de um grande político e economista que dizia que as estatísticas revelam tudo, menos o essencial. Assim também você comentou tudo, menos aquilo que realmente importa e que demonstra a heresia, ou pelo menos o sabor dela, nas palavras de Francisco.

    Pois bem, é claro que os ateus são capazes de boas obras materiais, pois que realmente eles possuem os dez mandamentos impressos na alma. Eles podem ajudar pessoas na miséria, visitar idosos nos asilos e fazer-lhes companhia, adotar crianças abandonadas e lhes dar um lar, dar banhos em leprosos levando-lhes conforto e carinho, etc… mas estas obras que porventura venham a praticar não passam de filantropia, e não podem ser confundidas com caridade, que sempre supõe a fé.

    Daí São Paulo ter ensinado que ainda que tudo fizesse, sem caridade ele nada seria. Ou seja, ainda que realizemos todos os tipos de boas obras, sem caridade elas de nada valem. E a caridade, que deriva da fé verdadeira, só pode ser encontrada na Igreja Católica, como você bem sabe. Fora dela o que existe é filantropia, tão praticada pela maçonaria e pelo espiritismo.

    Claro também que, pela criação, pela natureza, somos todos neste sentido filhos de Deus (filhos com “f” minúsculo, eu diria). Porque por Deus todos foram criados. Mas dizer que neste sentido somos todos filhos de Deus é mais uma figura de linguagem que reflete apenas a ordem natural, mas não a realidade da Graça. E é justamente este o ponto nevrálgico negligenciado por Francisco que você evitou bater de frente! Vejamos o que ele disse:

    “O Senhor remiu a todos, redimiu todos nós com o sangue de Cristo: todos, não só os católicos. Todos! ‘Padre, e os ateus?’. Os ateus também. Todos! E ESTE SANGUE NOS TORNA FILHOS DE DEUS DE PRIMEIRA CLASSE (sic!!!!). Nós fomos criados filhos à imagem de Deus e o sangue de Cristo redimiu todos nós!”.

    Prezado, pelo amor de Deus: é certo que o sangue de Cristo remiu a todos, mas este sangue não torna ninguém filho de Deus: o que torna o homem filho de Deus é o batismo, como você está careca de saber, pois que pelo batismo se aplica os méritos do sangue de Cristo derramado na cruz, o que significa que este mesmo sangue de valor infinito só traz proveito para aqueles que o aceitam. Para os ateus o sangue de Cristo não traz proveito nenhum, antes, é apenas causa de suas condenações eternas.

    O sangue de Cristo na cruz não torna ninguém filho de Deus pela graça, ainda que por ele Nosso Senhor tenha remido a todos. E se é verdade, como concordamos, que todos somos filhos de Deus pela natureza, filhos com “f” minúsculo como disse e faço questão de realçar, então neste item também o sangue de Cristo não torna ninguém filho de Deus. Resumindo: ou somos filhos de Deus pela natureza, e desta forma até os ateus o são, ou somos filhos de Deus pela Graça, e neste caso filhos com “F” maiúsculo, e só o são os batizados.

    Dito isso, vejamos novamente o ensinamento de Francisco:

    “(…) O Senhor remiu a todos (…) nós com o sangue (…) e este sangue nos torna filhos de Deus de primeira classe”.

    O sangue derramado por Cristo na cruz não faz ninguém Filho de Deus, ainda mais de “primeira classe”, porque se assim fosse o batismo já seria desnecessário. Este ensinamento de Francisco é altamente herético, ou pelo menos com sabor de heresia. Não tem como salvar qualquer boa interpretação destas palavras: ele não crê na Igreja como os católicos crêem, ele não crê no batismo como os católicos crêem. O que ele crê é tão somente em si mesmo e na sua “pobreza” falsa e piegas, pobreza esta que é tudo, menos franciscana e muito menos ainda católica.

    Como disse em meu texto, é justamente esta heresia que João Paulo II pelo menos insinuava, a saber, que o sangue de Cristo derramado na cruz fazia da humanidade uma grande família em Cristo, pois que cada homem estaria unido a Cristo, embora não completamente. É a aplicação da gnose no catolicismo, o que Francisco agora repete. Depois como se assustar com o fato da igreja conciliar a cinqüenta anos omitir o inferno de suas pregações?

    Prezado Jorge: se Francisco fosse católico ele falaria corretamente sobre as formas de filiação divina, das redenções subjetiva e objetiva e da necessidade do batismo. Enfim, ele faria todas as distinções que são absolutamente fundamentais no momento de tratar uma questão espinhosa como esta. Mas ele fez isso? Não, ele não fez, porque não é católico. Quem o fez foram os súditos dele que tem que apagar o incêndio que este homem provoca.

    Vou comentar agora uma coisa que você escreveu que não faz o menor sentido. Veja:

    “(…) o Papa diz i) que os ateus estão obrigados a fazer o bem [e “fazer o bem”, como todo católico sabe, inclui cumprir os deveres para com Deus]; e ii) que eles, fazendo o bem, poderão encontrar a Deus”.

    Prezado, se “os ateus estão obrigados a fazer o bem” e isso “inclui cumprir os deveres para com Deus” logo eles são incapazes de fazer o bem, pelo menos enquanto ateus!!! Porque justamente estes ateus não cumprem os deveres para com Deus!

    Como lhe disse acima, eles são capazes de filantropia, mas não de fazer o bem tal como o bem é compreendido pelo catolicismo, porque só pode fazer o bem quem tem a verdadeira fé. As obras de misericórdia corporais supõem as obras de misericórdias espirituais. Resumindo: os ateus são incapazes de fazer o bem, tomando “bem” com o rigor católico.

    E você concluiu dizendo que os ateus, fazendo o bem, poderão “encontrar a Deus”, mas antes havia dito que fazer o bem inclui cumprir os deveres para com Deus, e quem cumpre os deveres para com Deus já o encontrou. É claro que praticar boas obras predispõe a alma e a dirige para o transcendente, mas a forma que você expôs sua argumentação para salvar a fala de Francisco ficou incoerente, e o que é pior: totalmente irreal!

    Abraços cordiais. Em breve estaremos unidos verdadeiramente, creia-me: este mérito Francisco há de possuir, o de unir todos que amam verdadeiramente a Igreja fundada por Cristo.

    Sandro de Pontes

  6. Sandro, não seria por que foi o Sacrifício (Sangue) a viabilizar nos tornarmos “Filhos de Deus pela Graça”? O efeito do Batismo e todo o resto indispensável à Salvação subjetiva somente foi possível pela Imolação do Cordeiro, não?

    O ateu pode cumprir deveres para com Deus sem reconhecê-Lo como pessoa. É o que faz quando obedece a um dos dez mandamentos que — nas suas palavras — “possue impresso na alma”.

  7. Prezado Alexandre, salve Maria.

    O primeiro dever para com Deus é reconhecer-lhe Sua soberania. O que o ateu pode fazer, se estiver de boa fé, é cumprir os deveres para com a sua consciência. É o que ensina São Paulo.

    Cumprir os deveres para com Deus vai muito além do que é capaz um ateu: a pessoa, além reconhecer esta soberania, ainda precisa aceitar Cristo e a Igreja, e posteriormente manter-se em estado de graça. O protestante, os deístas, os espíritas e demais grupos que reconhecem a soberania de Deus ainda assim não cumprem os deveres para com Ele.

    Agora, se como diz Francisco, o sangue de Cristo “nos torna filhos de Deus de primeira classe” então os ateus que fazem estas obras corporais já são filhos de Deus de primeira classe. O que se faz então da fé, sem a qual é impossível agradar a Deus? O que se faz do batismo, se todos já são filhos de Deus de primeira classe graças ao sangue de Cristo derramado na cruz? Ou Francisco agora corrige também o evangelho, dizendo que sem a fé pode-se agradar a Deus, e sem o batismo pode-se ser filho Dele, e ainda de primeira classe? Ou alguém pode desagradar a Deus por falta de fé e do batismo e ao mesmo tempo ser Seu filho de primeira classe?

    Realmente, não tem para onde correr, prezado Alexandre. Eu sabia que chegaria o dia em que os defensores dos papas conciliares não teriam como defendê-los. Com Bento XVI era um pouco mais difícil, porque ele é o tipo de herege um pouco mais mitigado, o que dificulta um pouco as coisas.

    Mas com Francisco esta tarefa nos é facilitada, porque ele é escandaloso. Inclusive tem vídeo dele na internet participando de forma ativa de culto judeu, como você já deve ter visto. Caso contrário, constate neste link que lhe indico abaixo ele não apenas tomando parte nas orações e pregações judaicas mas inclusive acendendo velas durante o “Hanukkah”, tradicional culto realizado para comemorar a vitória sobre Antíaco, prefiguração do anticristo. Esta vitória só foi possível graças a resistência dos Macabeus:

    http://www.youtube.com/watch?v=92oEEdpwYVI

    O que me diz desta matéria que lhe indico? É ou não uma participação ativa em um culto judeu? E se for, o que a Igreja diz sobre isso? Novamente não tem para onde correr, porque os conservadores sempre fizeram a distinção entre o ato ecumenico e a participação ativa em cultos acatólicos, sustentando a licitude da primeira e recusando a segunda. Mas e agora, o que dizer?

    O mesmo Bergoglio também participou ativamente do “Rosh Hashaná”, outro culto judeu tradicional:

    http://www.zenit.org/pt/articles/cardeal-bergoglio-em-uma-sinagoga-pelo-ano-novo-judaico

    Porém, realço ainda mais uma vez, a Igreja condena a participação ativa em cultos acatólicos. Quem o faz seria no mínimo suspeito de heresia e se persiste nesta prática é propriamente herege.

    Antes de encerrar, gostaria de agradecer o tom cordial com que se dirigiu a mim. Um Santo feriado é o que lhe desejo. Cristo está presente na hóstia consagrada, pois assim como a plenitude de Deus Nele repleta, da mesma forma Sua plenitude na hóstia se encontra. Ó augusto mistério que somente os católicos podem vivenciá-lo, e por isso mesmo somos os felizes desta terra!!!

    Sandro de Pontes

  8. Concílio de Florença (1438-1445): “Firmemente crê, professa e predica que ninguém que não esteja dentro da Igreja Católica, não somente os pagãos, mas também, judeus, os hereges e os cismáticos, não poderão participar da vida eterna e irão para o fogo eterno que está preparado para o diabo e seus anjos, a não ser que antes de sua morte se unirem a Ela(…)”.

  9. Encíclica Quanta Cura,que foi acompanhada pelo famoso Syllabus errorum, que condenava as ideologias do panteísmo, naturalismo, racionalismo, indiferentismo, socialismo, comunismo, franco-maçonaria,judaísmo, Igrejas dadas como Cristãs a tentar explicar a bíblia e vários outras formas de liberalismo religioso tidos por incompatíveis com a religião católica.

  10. Ah, em tempo: as palavras do tal professor Angueth são totalmente desacertadas, o que demonstra tão somente que alguns, apesar da aparente erudição com que defendem a fé católica, não conhecem sequer os seus ensinamentos mais importantes a ponto de fazer as necessárias distinções na hora de explaná-los, algo que até uma criança de dez anos bem formada consegue fazer.

    Realmente, como disse Francisco, o sangue de Cristo remiu toda a humanidade. Porém, na missa o padre deve dizer que o sangue foi derramado por muitos, e não por todos, como nós sabemos. Pena que os governantes da igreja conciliar não sabem disso.

    Cordialmente,

    Sandro de Pontes

  11. Prezado Sandro Pontes,

    Corrija-me se estiver interpretado mal suas palavras, mas me pareceu, nas suas respostas, que você não concebe distinção entre bem natural e bem sobrenatural, entre mérito natural e mérito sobrenatural. O Jorge não disse que, para a salvação, não é necessário ter fé, esperança e caridade sobrenaturais, e elas podem existir na pessoa em ignorância invencível que não esteja incorporada à Igreja. Ele disse, na realidade, que essa verdade estava implícita nas palavras de Francisco. Na pior das hipóteses, deve-se dar ao Papa o benefício da dúvida e interpretar suas palavras da forma mais benevolente possível. Com isso, evita-se o julgamento temerário que não devemos ter com ninguém. Dizer que um determinado texto é suspeito de heresia ou tem sabor de heresia supõe uma jurisdição, que nem eu nem você possuímos.

    Rui

  12. Rui,

    Sim, você está me interpretando muito mal. O contrário é que é verdadeiro. Releia o que eu escrevi e constate justamente que toda a minha argumentação no ponto em que você cita se concentrou em distinguir entre o bem natural (que os ateus podem fazer, como dito largamente acima, onde reconheci que eles podem visitar velhinhos nos asilos, amparar doentes, adotar crianças, etc) e o bem sobrenatural (que somente os católicos podem fazer, porque as obras de misericórdia corporais verdadeiras implicam a fé, como também largamente deixei claro. Aqui acrescento o exemplo de Dom Bosco que sempre ajudava corporalmente alguém desde que simultaneamente esta ajuda fosse principalmente dirigida a alma deste alguém).

    Outro ponto importante, aliás, este é o único que realmente importa relacionado a tudo o que foi dito acima: o trecho em que eu estou o acusando de desvio doutrinário não tem nada a ver com esse relacionado a possibilidade dos ateus fazerem o bem, ainda que natural, mas sim àquele onde ele diz que “o sangue de Cristo derramado na cruz torna todos, inclusive os ateus, filhos de Deus de primeira classe”.

    Este é o ponto que ninguém, nem o Jorge, conseguirá arrumar uma forma de salvar o dito, que é ou propriamente herético ou no mínimo com sabor de heresia.

    E sobre a falta de jurisdição para acusar os desviados da fé de heresia, esta questão já foi explicada muitas vezes pelos sedevacantistas, com muitos argumentos e ensinamentos de papas, santos doutores e teólogos. Uma coisa é você pessoalmente acusar alguém de desvio dentro da doutrina e caridade católica, outra coisa é a jurisdição para condenar infalivelmente este alguém, algo que somente a Igreja possui.

    Uma coisa é você encontrar um cadáver apodrecendo e constatar que se trata de um corpo sem vida e assim ligar para a polícia enviar os peritos e outra coisa é você ser o médico-perito que assinará a certidão de óbito atestando a morte e a sua causa.

    Por isso São Paulo escreve a Tito alertando-o para que se afaste dos desviados após uma primeira e segunda admoestação, sabendo que estes tais se condenam. Por isso São Paulo diz que se alguém pregar um evangelho diferente, seja quem for, que seja anátema. São Vicente de Lerins diz que isso se aplica até a Pedro, até ao Papa. Por isso São João diz para não recebermos em casa os desviados, e nem cumprimentá-los pelas ruas, entre inúmeras outras citações que poderiam ser usadas.

    Por isso Cristo nos manda fugir dos lobos que vem travestidos de cordeiros. O católico não é um tipo de cordeirinho preso a arbustos em meio as feras soltas na floresta, pelo contrário, quem possui a fé verdadeira não se submete, e nem pode se submeter, a qualquer pessoa que não a possui. Assim como Cristo não se submeteu aos desviados, nós também hoje não podemos nos submeter a estes mesmos desviados.

    O Papa Inocêncio III ensina que um papa desviado pode ser “mostrado como já julgado, porque quem não crê já está julgado”. Ora, se tal ato é possível de ser feito, se é possível mostrar um papa desviado como “já julgado”, então os sedevacantistas não faltam com a caridade ao acusar os papas conciliares, todos eles desviados da sã doutrina, que passa a quilômetros de distância destes infelizes.

    Cordialmente,

    Sandro de Pontes

  13. Bem, eu não quis dizer que não se pode reconhecer a heresia quando esta se manifesta com total clareza, mas um texto sapiente à heresia pode decorrer de circunstâncias que escapem até mesmo à intenção do autor, e, nesse caso, somente a Igreja, com sua jurisdição, poderia aplicar uma sanção ou um “monitum”. Um fiel sempre pode dizer que um texto é sapiente à heresia, mas sempre será um parecer objetivo sobre o texto e não sobre o autor.

    O caso, obviamente, é diferente do herege que praticamente confesse a sua heresia, pela sua posição e contundência com que a afirme, mas isso vai depender de circunstâncias. Por exemplo, um livro, no qual o autor tem tempo para refletir sobre o que escreve é diferente de uma homilia feita de improviso.

    Rui

  14. Prezado Rui, salve Maria.

    Concordo “Ipsis litteris” com o que disse. Apenas esclareço que tanto no caso de Bento como de Francisco não os acuso por frases isoladas, o que seria obviamente temeroso, insano, anti-caritativo e auto-condenatório.

    Bento deixou biografia extensa com heresias gigantes como a negativa de que a missa seja propiciatória. Ele disse “recuar horrorizado” diante desta doutrina dogmática que de acordo com ele “contraria o evangelho do amor”!!!! Ele inclusive nega que Cristo seja O Filho de Deus, gerado e não criado, consubstancial ao pai, e defende que Cristo tornou-se Filho de Deus por sua obediência ao morrer na cruz. Para justificar esta blasfêmia ele usa aquela passagem “Tú és meu filho, eu hoje te gerei!!!! Ou seja, é o modernismo mais escancarado do mundo o que este senhor defende em suas obras e todos fingem que não vêem. Padre Paulo Ricardo nada fala sobre isso, o que é uma vergonha sem tamanho.

    Já Francisco nega o dogma “fora da Igreja não existe salvação”, como deixa claro tanto em suas palavras nos últimos anos como na participação ativa em cultos acatólicos, entre outros gestos que caracterizam a sua defecção da fé católica. O que me diz do vídeo acima?

    E a questão do discurso dele ter sido “ improvisado” isso em nada ameniza sua culpa, porque a boca fala do que o coração está cheio! Qualquer católico conhecedor da doutrina (como deve ser um bispo, ainda mais o de Roma), não pode dizer o que ele disse, nem por lapso, nem por engano.

    Note que você não achará ele defendendo a doutrina católica corretamente neste ponto, o que você achará são os súditos dele defendendo a doutrina corretamente e afirmando que ele crê corretamente. Mas ele próprio ensinando sem deixar dúvidas esta doutrina verdadeira você não o achará fazendo em lugar nenhum.

    Cordialmente,

    Sandro de Pontes

  15. “Ancora oggi qualcuno dice: “Cristo sì, la Chiesa no”. Come quelli che dicono “io credo in Dio ma non nei preti”. Ma è proprio la Chiesa che ci porta Cristo e che ci porta a Dio; la Chiesa è la grande famiglia dei figli di Dio.”
    (Papa Francisco 29/05/2013)

    Para mim está bom, não quero nem preciso de mais…

  16. Amigos, salve Maria.

    Apenas para dar mais luz ao debate, vejamos o que diz o Catecismo de São Pio X:

    112. Se Jesus Cristo morreu pela salvação de todos, por que nem todos se salvam?

    Jesus Cristo morreu por todos, mas nem todos se salvam porque nem todos O reconhecem, nem todos seguem a sua lei, nem todos se servem dos meios de santificação que nos deixou.

    113. Para nos salvarmos, não basta que Jesus tenha morrido por nós?

    Para nos salvarmos, não basta que Jesus Cristo tenha morrido por nós, mas é necessário que sejam aplicados, a cada um de nós, o fruto e os merecimentos da sua Paixão e morte, aplicação que se faz, sobretudo, por meio dos Sacramentos, instituídos para este fim pelo mesmo Jesus Cristo; e, como muitos ou não recebem os Sacramentos, ou não os recebem com as condições devidas, eles tornam INÚTIL PARA SI PRÓPRIOS A MORTE DE JESUS CRISTO.

  17. Alguém que viaja na primeira classe não necessariamente é alguém que chegará ao destino. O avião pode cair. Com o “bônus necessário e suficiente” que foi dado a todos, nenhum de nós viaja em outra classe que não a primeira. Isso não significa que na primeira classe não possa haver vexames. Morre gente na primeira classe, por causas variadas.

    O que eu estou dizendo, Sandro? Eu estou dizendo que o Santo Padre usou uma linguagem analógica não comprometedora. E acrescento que você é chegado a um espantalho!

    Se eu devo naturalmente obedecer a um mandamento que os crentes sabem ser “de Deus”, e o faço, então eu cumpro um dever “para com Deus”, ainda que não esteja cônscio disso. E quando/se protestantes, deístas ou espíritas reconhecem a soberania de Deus, cumprem ao menos um dos deveres para com Ele.

    Quanto a se Bergoglio já participou ativamente em cultos acatólicos, impossível constatar que sim somente mediante as imagens. Nem tudo é o que parece! É melhor não desprezarmos o benefício da dúvida para esse homem. Não tanto por que hoje ele é Papa, quanto por que naqueles dias ele já era Bispo. Só Bergoglio e Deus sabem o que ele tinha no coração quando acendeu aquela vela, se ele não já teve e aproveitou oportunidade de explicar o gesto a terceiro(s). O resto é difamação infundada! Ao contrário do que se quer com o adágio, a verdade é que nem sempre imagens falam melhor do que algumas palavras.

    Se você quer insistir nas mesmas acusações, consegue fazê-lo. É só escrever, escrever, e escrever mais um pouco. Se você estiver errado, o acerto não virá com os caracteres digitados.

  18. Um Papa pode ser herege ? depois que um bispo é escolhido pelo Espirito Santo para ser Papa , ele pode errar em matéria de fé como diz o Sandro ?

  19. Infalibilidade, não é sinonimo de impecabilidade. O Papa, como todo ser humano, peca, erra e não esta acima da Lei de Deus.
    Objeto da infalibilidade são as verdades de fé e costumes, reveladas ou em íntima conexão com a revelação divina.

  20. Caríssimo Sandro, salve Maria!

    O ponto fulcral do discurso do Santo Padre não é meramente que os ateus sejam «capazes de boas obras materiais», mas sim que eles tenham o «dever» de fazê-las! O que está em discussão não é o valor das obras naturais, mas sim se os ateus têm ou não algum dever moral de agir retamente. O objetivo da homilia, assim, não é fazer considerações de caráter soteriológico, e sim postular a universalidade do alcance da Lei Natural. O que interessa dessas considerações sobre a dignidade humana é isso aqui: «tutti noi abbiamo il dovere di fare il bene».

    Você encasquetou com o negócio do “filhos de Deus de primeira classe”. Eu ia lhe responder que não existe esse negócio de “primeira classe” e “segunda classe” no que se refere às distinções que a Teologia Dogmática faz a respeito da filiação divina (e que portanto a expressão não tem nenhum significado, a não ser enfático), mas nem vai ser necessário. Na versão oficial sobre a homilia não consta essa expressão: diz somente que «questo sangue che ci fa figli di Dio», e ponto final.

    Aliás, a rigor, a frase «os ateus são filhos de Deus» nem existe nessa homilia, nem se referindo à natureza e nem muito menos à Graça.

    Sobre a frase «È questo sangue che ci fa figli di Dio», solta do jeito que ela se encontra nos recortes da homilia que L’Osservatore Romano nos disponibiliza, ela pode significar qualquer coisa. O Sangue de Cristo nos faz (aos sacramentalmente batizados, aos que sofreram Batismo de Sangue ou aos que têm ao menos implícito o Batismo de Desejo) filhos de Deus pela Graça, porque a virtude dos Sacramentos deriva em última instância do Sacrifício do Calvário. Ainda, já que o Santo Padre estava se referindo à redenção objetiva na frase imediatamente anterior, pode-se igualmente dizer que, em virtude do Sacrifício da Cruz, os pecadores são agora potencialmente filhos de Deus. Pode ser que ele esteja se referindo à filiação divina pela natureza mesmo, e então o Sangue está aqui evocado não como sua causa eficiente, mas sim como seu testemunho, testemunho do amor de Deus, como diz o Apóstolo: «Mas eis aqui uma prova brilhante de amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós (Romanos 5, 8)». Enfim, existe um sem-número de interpretações ortodoxas que podem ser feitas, e portanto não existe razão para sustentar que o Papa está dizendo precisamente a coisa mais herética possível, i.e., que ninguém precisa levar uma vida reta porque Cristo redimiu todo mundo independendo do que a pessoa faça!

    Eu repito: trata-se de uma homilia proferida de improviso, da qual só temos acessos a trechos anotados pelos órgãos de imprensa que lá estavam. Não dá pra exigir rigor acadêmico deste tipo de discurso. A própria Igreja, quando emite censuras eclesiásticas, fá-lo com base em escritos sistematizados e devidamente revisados pelo autor antes de serem publicados, e não com base no que disseram que alguém disse numa prédica matutina improvisada.

    Por fim, sobre:

    Prezado, se “os ateus estão obrigados a fazer o bem” e isso “inclui cumprir os deveres para com Deus” logo eles são incapazes de fazer o bem, pelo menos enquanto ateus!!! Porque justamente estes ateus não cumprem os deveres para com Deus!

    É exatamente isso: os ateus não cumprem, mas o Papa os manda cumprir. Os ateus são por definição incapazes de fazer todo o bem, claro, mas podem fazer algum bem e, fazendo-o, predispôr-se cada vez mais para abandonar o ateísmo. Ninguém deixa de ser ateu com um ato súbito e único da inteligência: o caminho em direção à Fé é um caminho gradual. Os deveres para com Deus consistem antes de qualquer outra coisa em procurá-Lo, e isso os ateus podem e devem fazer mesmo enquanto não creiam. Com o passar do tempo, eles poderão encontrá-Lo e, assim, deixarem de ser ateus.

    Abraços cordiais. Em breve estaremos unidos verdadeiramente, creia-me: este mérito Francisco há de possuir, o de unir todos que amam verdadeiramente a Igreja fundada por Cristo.

    Amen!

    Abraços, em Cristo,
    Jorge Ferraz

  21. Alexandre, salve Maria.

    Nossas posturas diante dos fatos que se nos apresentam serão julgadas por Cristo naquele dia. Eu estou cumprindo a minha parte, alertando a todos que a casa pega fogo ao mesmo tempo em que aponto os piromaníacos, que são os papas conciliares.

    Já você diz que eu sou um tipo de destemperado que repito “ad infinitum” argumentos errôneos,e portanto sem valor, que crio “espantalhos” e que portanto não passo de um temerário a ser evitado.

    Dizer que pelos links que coloquei não se constata que este senhor participou ativamente de cultos acatólicos é de uma cegueira inacreditável, e certamente aos olhos de Deus injustificável. Não importo os motivos que levaram este homem a acender as velas na sinagoga, o que importa é que tal ato constitui-se participação ativa em cultos acatólicos, o que é condenado pela Igreja.

    Repense se vale a pena defender uma pessoa como esta, que vai destruir ainda mais a Igreja, se é que é possível descer ainda mais baixo.

    Que Deus, naquele dia, ponha tudo as claras.

    Cordialmente,

    Sandro de Pontes

  22. Prezado Jorge, salve Maria.

    Vamos ao que realmente importa: eu fiz o meu “espantalho” (palavras do Alexandre) baseando-me na tradução do Zenit. Ora, tal agência é oficialmente reconhecida por esta Roma que aí está. Se caso eles erram, a culpa não é minha, certamente.

    Porém, fui averiguar a citação original no link que você sugeriu e constatei que em nada melhora para Francisco aquilo que ele disse. Ou seja, ainda que este senhor não tenha dito a expressão “primeira classe”, isso em nada atenua o seu ensinamento anti-católico. Pois ele disse:

    “(…) E gli atei? Anche loro, tutti. È questo sangue che ci fa figli di Dio”.

    Traduzindo, meu amigo Jorge:

    “(…) E os ateus? Mesmo todos eles. Este é o sangue que nos torna filhos de Deus”.

    Ou seja, o sangue derramado por Cristo torna a todos filhos de Deus! Tal ensinamento é um absurdo, é imoral, irreal e contraria toda a teologia católica proposta em dois mil anos de Igreja.

    Estas palavras no mínimo sugerem a salvação universal, e como disse se esta frase não for propriamente herética pelo menos tem o sabor e o odor da heresia. Pois sabemos que o sangue derramado de Cristo é inútil para os ateus que não reconhecem a soberania do Senhor.

    Cordialmente,

    Sandro de Pontes

  23. Jorge, salve Maria.

    Uma coisa importante que faltou eu realçar. Você escreveu:

    “(…) já que o Santo Padre estava se referindo à redenção objetiva na frase imediatamente anterior, pode-se igualmente dizer que, em virtude do Sacrifício da Cruz, os pecadores são agora potencialmente filhos de Deus”.

    Realmente em virtude do Sacrifício da Cruz os pecadores são agora potencialmente filhos de Deus. Isso está correto.

    Pena que não foi isso que Francisco disse, é impossível depreender esta intenção em suas palavras pois suas palavras são totalmente diferentes.

    Isso que você sugere é o que você gostaria que ele tivesse dito. Mas nem sempre aquilo que desejamos é a realidade, dura realidade que nos cerca. Aliás, ao fugir do sentido óbvio do ensinamento de Francisco você já me dá razão: é uma baita de uma heresia ou tem pelo menos o sabor dela!

    Sandro de Pontes

  24. Sandro, caríssimo,

    Insisto que você cobra um rigor desmedido (injusto até) para homilias feitas de improviso e – mais importante – para um público católico, cujo conhecimento da teologia sacramental rudimentar deve ser pressuposto.

    Sim, o sacrifício de Cristo faz aos pecadores filhos de Deus. É aliás para isso que ele serve. Que tal se possa dar, contudo, sem que os pecadores façam nada para obtê-lo é uma ilação totalmente indevida, mais ainda num texto onde o Papa está pregando que os ateus têm o dever de fazer o bem. Ora, se houvesse salvação universal independente do que se fizesse ou se todo mundo fosse filho de Deus pela graça pelo simples fato de ser humano, então não faria nenhum sentido pregar um suposto dever de se fazer o bem!

    Os ateus são filhos de Deus pela natureza. Pela graça, após o Sacrifício de Cristo, são filhos de Deus em potência, pois lhes falta a graça santificante. Tenho certeza de que você pode enviar uma carta para o Papa Francisco perguntando-lhe se é esse o seu entendimento e ele vai responder afirmativamente. Este é, aliás, o modo de proceder da Igreja, mesmo dos seus membros que (ao contrário de nós) têm autoridade para distribuir censuras eclesiásticas: perguntar ao autor suspeito o que é que ele entende por suas palavras.

    Abraços,
    Jorge Ferraz

  25. Prezado Jorge, salve Maria.

    Francisco não está dizendo que os ateus não precisam fazer nada. Ele está dizendo que o sangue de Cristo os torna filhos de Deus, o que é inconcebível, porque este sangue não os torna nada, é inútil para os ateus.

    E Francisco está dizendo, junto com esta afirmação, que estes “ateus-filhos-de-Deus” tem obrigação de fazer o bem, de acordo com sua consciência, que possui os dez mandamentos naturalmente. Aqui faltou ele distinguir entre o bem que somente os católicos podem fazer com o bem que todos os seres humanos podem fazer, e de fato fazem, mesmo os acatólicos, obviamente. Seria o bem com “b” minúsculo, eu diria.

    Você escreve:

    “(…) Sim, o sacrifício de Cristo faz aos pecadores filhos de Deus. É aliás para isso que ele serve. Que tal se possa dar, contudo, sem que os pecadores façam nada para obtê-lo é uma ilação totalmente indevida”.

    Prezado, a rigor não se pode dizer que o sacrifício de Cristo faz os pecadores filhos de Deus! Ao contrário, ele é inútil para os que rejeitam este sacrifício. Mais correto seria você ter dito que este sacrifício, como dito alhures, faz os pecadores potencialmente filhos de Deus.

    Com relação ao restante, eu já falei e você já respondeu. Para mim está bom. Encerremos aqui mais uma batalha entre nós. Até a próxima!

    Apenas uma última coisa: o que dizer aí da pregação feita por ele durante o culto judaico e das velas acesas por ele durante este mesmo culto, cujas imagens são claras, ainda mais com a informação da reportagem? O que dizer do outro link com a notícia da agência Zenit demonstrando que ele também participou de outro culto ativamente, desta vez em 2007?

    Abraços,

    Sandro de Pontes

  26. Caríssimo Sandro, Salve Maria!

    O meu ponto é que se fosse verdadeira a salvação universal independente de qualquer coisa, não caberia falar em dever de fazer o bem. Todo dever implica, por definição, em mérito caso se lhe cumpra ou punição caso se prevarique. Em um sistema teológico no qual todo mundo vai pro Céu e ninguém pro Inferno independente do que se faça ou deixe de fazer, é totalmente sem sentido falar em “dever”. Dever, pra quê? Dever, sob pena de quê? Daí, o próprio fato do Papa Francisco ter dito que os ateus *devem* fazer o bem (e ter depois dito que, deste modo, Deus Se lhes ia revelar) implica em que, para ele, ainda “falta” algo aos ateus, eles ainda precisam mudar. Se não for assim, a sua homilia fica inconsistente.

    Como disse antes, tenho certeza de que o Papa, se perguntado se ele acha que o Batismo é inútil ou que a Igreja não tem serventia para as pessoas se salvarem, responderia com um rotundo não. Basta olhar para as outras homilias dele, onde ele falou que não há Cristo sem Igreja, que se deve pedir a Deus a graça da união com o Bispo de Roma, que a única forma de interpretar as Escrituras é em consonância com o Magistério da Igreja, etc. Em termos de catecismo básico, o Papa Francisco é até muito mais claro do que Bento XVI.

    Sobre cerimônias judaicas, fogem ao assunto do post. Talvez um dia eu comente, talvez não, porque – como disse logo após a eleição papal – o card. Bergoglio morreu, e hoje quem existe é o Papa Francisco gloriosamente reinante. E o Papa precisa mais de quem reze por ele e pelo seu ministério do que de quem lhe vasculhe o passado à caça do que lhe possa desabonar.

    Abraços,
    Jorge

  27. Sandro, é fato que eu NÃO disse que você é “um tipo de destemperado”. Esse é outro espantalho, na fase de projeto. Espero que seja abortado.

    Se você quer presumir o pior, que eu quis simplesmente atacar sua pessoa, pressuposto isso, você até consegue logicamente “encontrar” que insinuei algo afim de um xingamento do tipo “seu destemperado”. Acontece que EU POSSO — e nem um outro pode — lhe dizer que não foi isso o que eu fiz. Não foi por esses caminhos que optei. Eu quis algo como: “Sandro, pare um pouco. Veja só: você está atacando espantalhos.”

    Claro que eu quis deixar um aviso aos observadores. Para o bem de todos nós. Pode soar um ad hominem, admito. Mas eu nem cheguei perto de insinuar você estar de má fé.

    Ah… mas tá encasquetado… isso está!

    OK, nem todos os obstinados estão errados, e por isso eu tive o cuidado de encerrar com um “se você estiver errado”. Mesmo o pH estando mais alto.

    Não, eu não estou me contradizendo. Eu acredito que você tem errado sobre o Papa.

  28. Jorge, Viva Cristo Rei!

    Você não compreende plenamente o pensamento dos modernistas que defendem a salvação universal, que em linhas gerais é o seguinte:

    01) todos os homens foram remidos por Cristo e estão intimamente unidos a Ele por causa do sangue derramado na cruz;

    02) todos tem o dever de cumprir pelo menos os mandamentos que estão impressos na alma;

    03) Ainda que os homens não cumpram os seus deveres eles não serão condenados eternamente pelo fato de Deus ser misericordioso. Daí eles dizerem de forma irônica que se o inferno existe, ele está vazio;

    Veja estes dois links cuja doutrina modernista segue neste linha que estou lhe indicando:

    http://cleofas.com.br/o-inferno-nao-existe-eb/

    http://www.verdadegospel.com/pastor-americano-polemiza-ao-afirmar-que-o-inferno-nao-existe/

    Inclusive, no primeiro link Dom Estevão aborda o desvio de Leonardo Boff , que disse o seguinte:

    “(…) é preciso afastar a idéia de que Deus criou o cria o inferno (… ) Este não é um espaço dimensional nem é um lugar, mas sim um estado de alma … estado de alma no qual o próprio indivíduo se projeta quando rejeita radicalmente a Deus pelo pecado grave; começa então o estado infernal, do qual o pecador se pode insensibilizar pelo
    fato de não dar atenção ao seu íntimo OU À SUA CONSCIÊNCIA, mas que saltará à
    tona quando ele não mais puder escapar à voz da consciência”.

    Francisco vem agora e afirma que todos são filhos de Deus graças ao sangue de Cristo na cruz, ao mesmo tempo em que afirma o dever que todos tem de fazer o bem. Isso omitindo o inferno, que penso que ele não ensina em lugar nenhum. Por favor, gostaria de vê-lo, se puder mostrar-me, ele ensinando sobre o inferno de fogo, lugar eterno onde os réprobos são castigados.

    Mudando um pouco de assunto, eu lhe digo que no batismo Francisco pode até crer, mas não nos outros sacramento, cuja eficácia ele já colocou em dúvida, questionando-os da seguinte maneira:

    “(…) E pensar que o batismo, apenas, PODERIA SER SUFICIENTE… penso naquelas comunidades cristãs do Japão que ficaram SEM SACERDOTES por mais de duzentos anos. Quando os missionários voltaram, encontraram todos batizados, todos validamente casados para a Igreja, e todos os seus falecidos tinham tido um enterro católico.

    A fé permaneceu intacta, graças aos dons da graça que alegraram a vida desses leigos que só haviam recebido o batismo e vivido sua missão apostólica em VIRTUDE UNICAMENTE DO BATISMO. Não devemos ter medo de depender apenas da ternura de Deus…”

    http://www.30giorni.it/articoli_id_16546_l6.htm

    Prezado, você concorda que somente o batismo poderia ser suficiente? E o que se faz da confissão, ou da eucaristia, sendo estes sacramentos essenciais para a salvação?

    Lembro-lhe que heresia não é apenas negar um dogma, mas também colocar em dúvida um dogma. Aqui certamente ele coloca em dúvida o dogma da necessidade dos sacramentos para a salvação.

    Chiiiiii………………

    Cordialmente,

    Sandro de Pontes

Os comentários estão fechados.