O questionário preparatório para a Assembléia do Sínodo dos Bispos sobre a Família

closeAtenção, este artigo foi publicado 3 anos 10 meses 17 dias atrás.

Em preparação para a Assembléia Extraordinária do Sínodo dos Bispos – que acontecerá no próximo ano e abordará o urgente tema da Família -, foi recentemente tornado público um questionário que o Papa preparara para supostamente ser respondido por todos os católicos do mundo. O citado questionário trazia perguntas sobre casais de fato, casais em segunda união, duplas gays e a doutrina da Humanae Vitae, entre outras coisas.

Vi primeiro a notícia no Facebook, ainda na semana passada, e a idéia de se consultar todos os católicos do mundo sobre o tema me pareceu duplamente absurda. Primeiro pela (evidente) virtual impossibilidade logística de uma consulta desta magnitude, e segundo porque semelhante “democracia direta” era obviamente estranha à constituição da Igreja.

Depois, vi a notícia no Infovaticana. O absurdo escopo da pesquisa continuava presente:

O Papa Francisco preparou uma pesquisa mundial para todos os católicos do mundo [sic: a todos los católicos del mundo] que, segundo o Annuarium Statisticum, são no total 1,214 bilhão [1214 millones].

Ora, a notícia fazia questão de informar o número de católicos atualmente existentes no mundo, o que era um indicativo bastante claro de que seriam todos estes, afinal de contas, os destinatários da pesquisa! O que continuava me parecendo totalmente nonsense.

Fui procurar. Na verdade, trata-se de um procedimento absolutamente normal para a preparação das assembléias do Sínodo dos Bispos: estas reuniões são precedidas por um Instrumentum Laboris elaborado a partir de – entre outras coisas – consultas enviadas às Conferências Episcopais a respeito do tema sobre o qual o Sínodo se vai debruçar. Por exemplo, o último Sínodo dos Bispos, de 2012, dizia o seguinte em seu Instrumentum Laboris (grifos meus):

[1.] Com o intuito de facilitar a preparação específica deste evento foram preparados os Lineamenta. Aos Lineamenta e aos questionários responderam as Conferências Episcopais, os Sínodos dos Bispos das Igrejas Católicas Orientais sui iuris, os Dicastérios da Cúria romana e da União dos Superiores Gerais. Acresce também as observações de Bispos, sacerdotes, membros de institutos de vida consagrada, leigos, associações e movimentos eclesiais. Um processo de preparação muito participado que confirma quanto este tema escolhido pelo Santo Padre está no coração dos cristãos e da Igreja hodierna. Todos os pareceres e as reflexões alcançadas foram recolhidas e sintetizadas neste Instrumentum laboris.

Ou seja, não se trata de nenhum “questionário inédito”, uma vez que este é o procedimento padrão universalmente adotado na preparação das Assembléias do Sínodo dos Bispos. A menos, é claro, que o “ineditismo” aqui se refira ao conteúdo da pesquisa – afirmação que é uma verdadeira platitude, uma vez que as perguntas são tão “inéditas” quanto é a primeira vez que o Sínodo se reúne pra tratar deste tema específico…

O documento de preparação pode ser encontrado em português aqui. Ele consta de uma introdução e do questionário. São diversas perguntas, algumas das quais muito interessantes, como por exemplo:

  • Em que medida – e em particular sob que aspectos – este ensinamento [da Bíblia, da “Gaudium et spes”, da “Familiaris consortio” e de outros documentos do Magistério pós-conciliar sobre o valor da família segundo a Igreja católica] é realmente conhecido, aceite, rejeitado e/ou criticado nos ambientes extra-eclesiais? Quais são os fatores culturais que impedem a plena aceitação do ensinamento da Igreja sobre a família?
  • Como é contestada, na prática e na teoria, a lei natural sobre a união entre o homem e a mulher, em vista da formação de uma família? Como é proposta e aprofundada nos organismos civis e eclesiais?
  • Em todos estes casos [convivência ad experimentum; uniões livres de facto, sem o reconhecimento religioso nem civil; os separados e os divorciados recasados]: como vivem os batizados a sua irregularidade? Estão conscientes da mesma? Simplesmente manifestam indiferença? Sentem-se marginalizados e vivem com sofrimento a impossibilidade de receber os sacramentos?
  • Que atenção pastoral é possível prestar às pessoas que escolheram viver em conformidade com este tipo de união [homossexual]?
  • No caso de uniões de pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças, como é necessário comportar-se pastoralmente, em vista da transmissão da fé?
  • Qual é o conhecimento real que os cristãos têm da doutrina da Humanae vitae a respeito da paternidade responsável? Que consciência têm da avaliação moral dos diferentes métodos de regulação dos nascimentos? Que aprofundamentos poderiam ser sugeridos a respeito desta matéria, sob o ponto de vista pastoral?
  • Como promover uma mentalidade mais aberta à natalidade? Como favorecer o aumento dos nascimentos?
  • Em que medida as crises de fé, pelas quais as pessoas podem atravessar, incidem sobre a vida familiar?

Trata-se de perguntas pertinentes e incômodas; fico imaginando a cara de certos prelados brasileiros quando, por exemplo, forem responder sobre «[c]omo favorecer o aumento dos nascimentos» em suas dioceses…

São perguntas que delineiam de forma bastante clara a tônica das discussões das quais será palco a Cidade Eterna no ano que vem. Muito bem elaboradas, cirúrgicas até, sem dar margens para tergiversações. Excelentes.

No entanto, como não poderia deixar de ser, há os espíritos de porco. Por exemplo, o Janer Cristaldo expôs sobre o assunto esta boçalíssima análise:

É a Igreja sondando seus bispos para ver se pode ampliar o rebanho sem causar muitos estragos na instituição. A interdição ao homossexualismo não é dogma. Dogmas só tratam de questões de fé. Ocorre que faz parte da doutrina da Igreja, uma doutrina tão sólida quanto os dogmas. Não seria de espantar que, num esforço insólito de “aggiornamento” – e de ampliação de mercado – a Santa Madre desse o salto inesperado.

“Esqueceu-se” apenas o articulista de que a Igreja é infalível em Fé e em Moral e, portanto, a interdição aos atos de homossexualismo é tão irreformável quanto a crença «na ressurreição do Cristo, na virgindade de Maria e no deus três-em-um». Simplesmente não há “aggiornamento” possível aqui, e nem se pode compreender sob qual lógica uma pergunta sobre «atenção pastoral» aos homossexuais poderia indicar uma “abertura” da Igreja ao homossexualismo que não fosse imediatamente fechada por outra pergunta sobre o aprofundamento da «lei natural sobre a união entre o homem e a mulher (…) nos organismos civis e eclesiais». A superficialidade desta análise seletiva do Cristaldo chega a ser deprimente.

Se ainda fosse possível haver alguma dúvida sobre o objetivo deste documento preparatório, a sua apresentação feita pelo Cardeal Erdö exorcizaria definitivamente qualquer espírito de confusão. O prelado explica com todas as letras; nele,

a família aparece como uma realidade que desce da vontade do Criador e constitui uma realidade social. Portanto, não é uma mera invenção da sociedade humana, muito menos de qualquer poder puramente humano, mas sim uma realidade natural, que foi elevada por Cristo Nosso Senhor no contexto da Graça divina… O documento, assim como a própria Igreja, une estritamente a problemática da Família com a do Matrimônio.

E o arcebispo Bruno Forte arremata, citando João XXIII:

Não se trata, em definitivo, de debater assuntos de doutrina, em outras partes já explicados pelo Magistério recente… O convite que se faz a toda a Igreja é o de escutar os problemas e expectativas que estão vivendo hoje em dia tantas famílias, mostrar-se próxima delas e oferecer-lhes de forma crível a misericórdia de Deus e a beleza da resposta ao Seu chamado.

É este e não outro o caminho da Igreja de todos os séculos, é este e não outro o caminho da Igreja de hoje. Rezemos pela próxima Assembléia Extraordinária do Sínodo dos Bispos! Que ela possa ajudar a luz de Cristo a resplandecer com renovado fulgor; que possa fazer a beleza da resposta ao chamado de Deus ser apresentada aos homens modernos em toda a sua formosura.

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8 thoughts on “O questionário preparatório para a Assembléia do Sínodo dos Bispos sobre a Família

  1. Julio

    “Esqueceu-se” apenas o articulista de que a Igreja é infalível em Fé e em Moral”

    A-ha! Em que mundo você vive, filho? A Revolução Francesa acabou com isso faz tempo!

  2. José carlos Alves Machado

    A bíblia tem respostas para tudo, e para todos, Ela tem o condão de nos mostrar o caminho, a vida e a verdade, é Ela por graça de Deus atual para qualquer tempo ou época, se umas das pretensas decisões forem contra as Palavras dos ensinamentos de Deus, fico com o Santo Evangelho, não sirvo a criatura, sirvo ao Criador. De ser Cristão Católico, passo a ser somente Cristão, e isto é o que nosleva a salvação > Amém!

  3. Adriano

    O colunista Clóvis Rossi, em sua coluna na Folha de S. Paulo, sustentou, com base em reportagem do jornal espanhol El País, que Francisco já sabe do resultado dessas pesquisas, e quer se armar com esses dados para a Assembleia, fazendo mudanças, sim. Não sei se em termos de doutrina e/ou moral, mas nada cheira muito bem. É bem verdade que Rossi é um dos neopapistas…

  4. Ygor

    Caro Jorge,

    Muito me assusta o modo como alguns ditos católicos interpretam o que alguns veículos de comunicação, também ditos católicos, vêm noticiando sobre o Papa e/ou o Vaticano. Não se diferenciam fatos e especulações, não há boa vontade no entendimento das entrevistas, pelo contrário, há uma má fé misturada com medo, ressentimento e desconfiança pre-concebidas. É incrível, mas me parece que atualmente o pior inimigo da Igreja está dentro dela.
    Você é dos poucos que se depara como uma notícia e antes de julgá-la, procura entendê-la da melhor forma possível, como convém agir.
    Nestes tempos, com a quantidade de informação e sobretudo de desinformação a respeito do Papa e da Igreja, vejo como muito atual uma frase de São Paulo: 1cor10-12 “Portanto, quem pensa estar de pé veja que não caia.”

  5. Renan

    O “EL PAYS” DE QUANDO EM TEMPO APRONTARIA AS SUAS…
    Todo cuidado é pouco com noticiarios tendenciosos e especuladores anti cristãos da mídia globalista!
    Li o artigo do Clovis Rossi – nesse contexto insinuaria que os novos direcionamentos da Igreja católica via papa Francisco concernente à doutrina ético-moral, porque não religiosa inclusive, seriam sob consulta popular – uma democracia – onde a maioria por interesses particulares preferiria isso a aquilo.
    De fato, na DITADURA DO RELATIVISMO camufladamente defendida por El Pays os “fieis” serão os neo deuses da Igreja – o S Padre, Pontífice e coadjuvantes em seu ministerio serão dispensáveis – seria ele apenas um mandatário popular doutrinando sob consultas, coadjuvado por seus ministros auxiliares de governar esse suposto rebanho.
    Há diferenças nesse caso das dezenas de milhares de relativistas seitas protestantes? Claro que não; apenas métodos diferentes, mas todos direcionados para o relativismo, onde cada um deusifica-se, as minhas, as nossas opiniões prevalecem, enfim, nós disporíamos doravante do como será a religião, a fé do povo, mas direcionado a um certo “pontífice” que dessa vez estaria oculto, quem sabe, vinculado a um certo GOVERNO MUNDIAL…
    Cirilo I, primaz da Igreja Ortodoxa Russa por ex., era ex agente da KGB, amigo de Putin, hoje desempenha suas funções numa das facções da Igreja ortodoxa que se subdivide em muitas seitas relativistas; e a seu lado se ajuntarem outras idem, tanto melhor…
    Parece-me que há supostos religiosos na Igreja que têm ódio mais por seus acertos que por seus erros e aproveita das fragilidades de seus membros em os retrucar para a vilipendiar.
    De igual forma existem certos religiosos que desejam ver a Igreja se ajoelhando diante do laicismo, não diante de Deus!
    Não é o que o anti Cristo deseja que se implante no mundo, numa babel, numa das muitas sucursais da DITADURA DO RELATIVISMO sob forma de Igreja católica?

  6. GERALDO MAJELA FERREIRA CONDÉ

    PARA DEUS SIM E SIM NAO E NAO PORTANTO A LEI DE DEUS E PARA SER CUMPRIDA E NAO ADAPTADA PARA AGRADAR AQUELES QUE NAO A OBEDECE ATANÇAO CATOLICOS DO MUNDO INTEIRO NOSSA SENHORA DISSE A PADRE GOBI QUE A FUMAÇA DE SATANES HAVIA PENETRADO NA CUPULA DA IGREJA AI ESTA A PROVA, MELHOR DIZENDO ESTA TAMBEM E UMA DAS PROVAS EXISTE TANTAS OUTRAS MAS INFELISMENTE OS CATOLICOS ESTAO SEGOS E AQUELES QUE COMO EU QUE COMENTA ,CRITICA OS ABSURDOAS COMETIDOS POR EXEMPLO EM UMA CELEBRAÇAO DE MISSA SOMOS CHAMADOS DE EREGES IRMAOS EM CRISTO O ULTIMO PAPA DE NOSSA IGREJA FOI JOAO PAULO II FICAI ATENTOS.

  7. Duddu Pontes

    Parabéns mais uma vez pela sua sempre pertinente e cuidadosa análise! Você ajuda a clarear e simplificar muitos assuntos que parecem confusos aos fiéis! Que Deus te abençoe e mantenha firme na fé! Abraco

    PS – Triste mesmo é ler comentários como o de logo acima! JPII o último papa? Cheiro podre de sede-vacantismo!

  8. CONDÉ

    Em junho de1963,Nossa Senhora em Aparição, disse as videntes,após a morte do Papa Joao XXIII ”DEPOIS DESTE QUE ACABA DE MORRER,SÓ RESTAM MAIS TRES,e então será o fim dos tempos( vieram Paulo VI, Joao Paulo I, Joao Paulo II) EM 1938JESUS DISSE A SANTA FAUSTINA “AMO A POLONIA DE MANEIRA ESPECIAL E SE ELA FOR OBEDIENTE A MINHA VONTADE, EU A ELEVAREI EM PODER E SANTIDADE .DELA SAIRÁÁ CENTELHA QUE PREPARARÁ O MUNDO PARA A MINHA VIDA DERRADEIRA” Será que alguém tem duvida que as duas profecias estão se cumprindo?