Eu não sabia de quem se tratava

closeAtenção, este artigo foi publicado 3 anos 1 mês 12 dias atrás.

exatamente um ano este blog publicava em seqüência os anúncios de «Habemus Papam» e «Franciscus». Lembro-me da demora, diante da televisão, entre a fumata bianca e o esperado aparecimento do novo Pontífice no balcão diante da Praça de São Pedro. Pareceu-me demorar mais do que há alguns anos, à eleição de Bento XVI. Ou talvez eu estivesse mais velho, menos paciente, mais ansioso… mais contaminado com o espírito do mundo.

O velho jesuíta veio do fim do mundo e surpreendeu a todos. Confesso: eu não sabia de quem se tratava. Ao que parece, muitas pessoas também não. Daqui, do outro lado do Atlântico, ouvi-lhe o «buona sera» antológico. Recebi a primeira Urbi et Orbi do novo pontificado. A televisão continuou ligada, e eu saí. Estava perplexo.

Demorei um pouco a perceber que toda pressa era vã e, toda ansiedade, inimiga da compreensão serena. Não seria possível descobrir quem é o Chefe de uma Igreja de dois mil anos com a velocidade à qual nos acostumamos graças às modernas telecomunicações. A Igreja é Eterna, e isso faz com que haja algo de atemporal em todos os Papas. Quem entende isso, já sabe mais do que é possível aprender com uma legião de vaticanistas.

Um Papa fora eleito e eu não sabia de quem se tratava. Para meu temor, parece que hoje, transcorrido um ano, ainda há muitas pessoas que continuam sem saber. Leio uma profusão de matérias sobre o Papa Francisco na mídia secular, ouço falar dele o tempo inteiro em ambientes religiosos. É impressionante esse mistério: trata-se talvez da pessoa de quem mais se falou ao longo do último ano e, mesmo assim, ela permanece completamente desconhecida para a maior parte dos que ouviram falar dele.

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Como explicar? Tudo parece girar em torno da obsessão que se tem hoje em dia pelo conceito de «mudança», à luz do qual é impossível entender o Catolicismo. Pior ainda quando este conceito é substituído pelo de «Revolução», tão ao gosto da imprensa anti-clerical ou dos desgostosos – de séculos… – com a Igreja. Sob essa clave muito se falou e fala sobre o Papa Francisco. E sob ela o Bispo de Roma é aos homens de hoje cada vez menos conhecido.

Trago um exemplo somente, de tantos que se podiam coligir. Há poucos dias um amigo publicou no Facebook que o Papa era tão revolucionário que ele temia por sua vida, agora que ele – o Papa – estava tentando incluir os “casais gays” dentro da Igreja. A história é de um descabimento retumbante, de uma inverossimilhança tão grotesca que espanta alguém dar crédito. No entanto, ouve-se algo parecido com isso, as pessoas projetam suas expectativas no que acharam ter ouvido dizer, a história se repete e, de repente, tem-se a histeria formada. Contudo, longe dessa pirotecnia irracional, o humilde jesuíta que hoje calça as Sandálias de Pedro se encontra na mais solitária obscuridade. Já há um ano ele guia a Igreja e ainda não sabem de quem ele se trata.

Criou-se muita falsa expectativa em relação ao Vigário de Cristo, e qual o resultado disso? Passou-se um ano, o wishful thinking não se realizou e o papado do primeiro latino-americano permanece para muitos uma incógnita tão grande quanto o era naquele outro 13 de março.

Esta tragédia foi abertamente anunciada. Menos de quinze dias depois da eleição do Papa Francisco, eu ecoei aqui a denúncia de Vortex sobre o «seqüestro do Papa» que estava em andamento. Hoje, um ano depois, ficamos com a impressão de que o plano macabro teve uma perturbadora eficácia. Hoje, ainda há multidões de pessoas que não sabem quem é o Papa e nem se apercebem disso.

Sempre à volta com quimeras. Já se completou um ano. Quantos outros aniversários será preciso esperar para que as sucessivas frustrações com «mudanças» que nunca podem vir dêem enfim lugar à serena aceitação da realidade?

Tarefa difícil. Veja-se: abro um texto de uma revista não-religiosa sobre este primeiro ano de pontificado. Lá, perdido no meio de uma matéria enorme, é dito en passant, quase como se fosse uma curiosidade sem importância, que o Papa Francisco é um homem que passa uma hora em oração diante da Santíssima Eucaristia todas as tardes. E penso que há nessa pequena frase mais sobre o atual Bispo de Roma do que nos desvarios e tresvarios que se costumam apresentar como análises da Igreja. Se as nossas manchetes sobre o Papa Francisco do último ano fossem assim, talvez hoje os homens já soubessem melhor de quem ele se trata…

Faz um ano. Eu não sabia quem ele era. Mas sabia que se tratava do Vigário de Cristo, da Cabeça Visível da Igreja, daquele a quem toda submissão é necessária para os que desejam se salvar. Eu não sabia quem ele era, mas sabia que precisava rezar por ele. E refaço aqui as orações de um ano atrás, as súplicas de cada dia, pelo nosso Pontífice Francisco. A fim de que o Bom Deus o conserve e vivifique. A fim de que o torne feliz sobre a terra. A fim de que jamais o entregue nas mãos dos seus inimigos.

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13 thoughts on “Eu não sabia de quem se tratava

  1. José Carneiro

    O problema é que Francisco faz questão de não ser conhecido, de falar ambiguidades, palavra tão repetida pelos tradicionalistas mas que é a única que me vem à cabeça ao ler ou escutar o que diz o Papa.

    Sabemos que o Papa não pode mudar coisa alguma na Doutrina, que o Papa é um escravo de Cristo, é a pedra firmada na pedra angular que é Cristo, fora da qual vira pedra de tropeço, quando Pedro pensa pelos homens e não por Deus, Pedro é pedra de tropeço, palavras impressionantes do Evangelho de São Mateus. Mas nem todos compreendem que o Papa é o doce Cristo na terra, é quem visivelmente conforta os irmãos, e muitos usam as prevaricações ou omissões de Pedro quando fala pelos homens e não por Deus, para causar confusão e legitimar heresias!

    Os divorciados recasados e os homossexuais já até usam camisas com “quem sou eu para julgar” de Francisco, como bandeira da causa deles, e Francisco é visto idolatrado por hereges, é elevado para acima de todos os outros Papas, é capa de revistas mundanas que em seu nome espalham erros, e nem assim diz de uma vez por todas que a Igreja não muda, que não tem o que negociar. Aliás, os casos inegociáveis já são negociáveis em algum contexto para Francisco, desmentindo o antecessor.

    Rezemos, rezemos muito para que o Papa nos conforte na Fé de sempre, não em novidades!

  2. Lucas.

    Uma igreja sem mundo, é um mundo sem Deus.A igreja só tem sentido,quando fala para o homem de seu tempo.Nisso Francisco é uma excelência,como um bom jesuíta que é.Os equivocados,tradicionalistas,sedevacantistas,estaõ torcendo o nariz,pois na verdade em vez ficarem procurando deslizes do Papa,deveriam buscar a genuína conversaõ de que tanto precisam.

  3. Camilo Soares

    As duas mensagens acima são muito sintomáticas. Elas parecem dois monólogos. Elas não dialogam uma com a outra, nem dialogam com o texto ao qual deveriam se referir. Mostra uma triste realidade de como se encontra a situação dos católicos no nosso país: cada vez mais se fecham em grupos autônomos, cada um se julgando o grande detentor de toda verdade, e vendo no outro lado apenas o erro. Lamentável.

  4. JB

    Jorge,

    Caso você ainda não saiba a que veio o Papa Francisco, não se preocupe. Os Cardeais Kasper, Hummes e Maradiaga vão lhe explicar direitinho nos próximos anos.

    Não, não se trata de doutrina.

    “Now I think Church teaching against divorce-and-remarriage will, in the end, be squarely upheld in principle. My concern is different: what if Church teaching is duly upheld but, as happened after Humanae vitae, that teaching is allowed to twist slowly in the wind? For ecclesiastical officialdom to look the other way on contraception was, in a sense, possible; but for it to do so in regard to divorce, remarriage, and the reception of holy Communion would be immediately recognized as the practical abandonment of a major doctrino-disciplinary point.”

    http://canonlawblog.wordpress.com/2014/03/13/why-the-gathering-storm-over-divorce-might-be-worse-than-was-that-over-contraception/

  5. Cardeal O'Connor, Arcebispo Emérito de Westminster

    Para os que ainda não sabem o que está por vir, essa é do dia 13/03/14:

    http://vaticaninsider.lastampa.it/en/inquiries-and-interviews/detail/articolo/murphy-oconnor-32696/

    Q. Do you foresee that there could be a change in relation to the question of the divorced and remarried?

    A. I don’t know. The Church does not change, it develops. By that I mean the doctrine of the Church develops by going out in a different direction. That is to say, it changes in an indirect way. And it could develop in the question of the divorced and remarried.

    Não, não se trata de mudar a doutrina. É pastoral “d’abord”.

  6. Alexandre Magno

    Em “Papa Francisco e a mídia: quem ganhou o primeiro round?“:

    De qualquer forma, o que grande parte da mídia está fazendo é criar um “espírito de mudança radical do papa Francisco”. Se a mídia conseguir implantar este suposto “espírito do papa Francisco” no lugar daquilo que ele realmente diz, a mídia vencerá a batalha. E quando o papa disser qualquer coisa “ortodoxa”, a mídia o acusará de descumprir as suas próprias promessas. Ele será então pintado pela mídia mundial como um hipócrita confuso.

  7. Guilherme

    Quando ele se for, a grande mídia vai dizer: eis um homem bom que não conseguiu fazer as mudanças necessárias na Igreja.

  8. Renato

    Francisco terá o apoio da mídia para poder implantar o modernismo definitivamente dentro da Madre Igreja. E por que Francisco terá o apoio da mídia, e o próprio Francisco, quer esse apoio da mídia?

    Porque Francisco sabe que cresce cada vez mais o número de católicos tradicionais e até mesmo de sedevacantistas.

    Seremos uma pedra no sapato de Francisco impedindo-o de implantar todo o modernismo dentro da Santa Igreja Católica Apostólica Romana de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

    Francisco sabe disso, e por isso quer o apoio da mídia para bajula-lo e até orientá-lo.

    Francisco está tremendo com uma reação verdadeiramente católica.

    E como o JB já falou mais acima, para saber o que Francisco pretende realmente, é só ver o que dizem os principais cardeais assessores modernistas escolhidos pelo próprio Francisco.

  9. Alexandre Magno

    Estou com muita dificuldade para traduzir a referência de JB. Alguém ajuda?

  10. Edward Peters

    “Agora, eu acho que o ensino da Igreja contra o divórcio-e-recasamento, no fim das contas, será mantido integralmente em princípio. Minha preocupação é outra: E se a doutrina da Igreja for mantida intacta mas, tal como aconteceu com a Humanae vitae, deixar-se que tal doutrina seja lentamente distorcida pelo tempo? Que a hierarquia eclesiástica fizesse vista grossa a respeito da contracepção era, em certo sentido, possível [devido ao caráter privado]; mas fazer vista grossa em relação ao divórcio, recasamento e recepção da Santa Comunhão seria imediatamente identificado com o abandono prático de um importante ponto doutrinal e disciplinar.”

    Edward Peters é um dos maiores canonistas vivos.

    http://canonlawblog.wordpress.com/2014/03/13/why-the-gathering-storm-over-divorce-might-be-worse-than-was-that-over-contraception/

  11. Cardeal O'Connor

    http://vaticaninsider.lastampa.it/en/inquiries-and-interviews/detail/articolo/murphy-oconnor-32696/

    “Entrevistador: Você prevê que haja uma mudança em relação à questão dos divorciados e recasados?

    Cardeal O’Connor: Eu não sei. A Igreja não muda, ela evolui. Por tal quero dizer que a doutrina da Igreja evolui avançando numa direção diferente. Isto é, ela muda de uma maneira indireta. E ela poderia evoluir na questão dos divorciados e recasados.”

    O Cardeal Murphy-O’Connor é Arcebispo Emérito de Westminster, Inglaterra.

  12. Alexandre Magno

    Obrigado a quem fez as traduções.

    Vixe! Como se “evoluir” não fosse mudar…

  13. JB

    Além de Kasper, Hummes e Maradiaga, pode-se acrescentar também o nome de S.Exa. D. Luís Antônio Tagle à lista de cardeais que nos explicarão detalhadamente para que afinal o Papa Francisco foi eleito.

    O Cardeal Tagle, das Filipinas, será um dos presidentes do próximo sínodo, em outubro deste ano, que tratará da família e do matrimônio.

    “In his Globe interview, he said that he’s open to considering the arguments for allowing Catholics who divorce and remarry without an annulment, a declaration from a church court that the first marriage was invalid, to receive communion and the other sacraments.”

    “Em sua entrevista ao Boston Globe, o Cardeal Tagle disse estar aberto a considerar os argumentos para que católicos que se divorciam e recasam, sem declaração de nulidade sobre a invalidade do primeiro casamento, possam receber a comunhão e outros sacramentos”.

    http://www.bostonglobe.com/news/world/2014/03/15/conversation-with-asian-pope-francis/tYuecMO8hOG2gW8mZE5r0O/story.html

    Como o Cardeal Tagle é bastante jovem e goza da amizade do Papa Francisco, é interessante ler a reportagem toda. É uma amostra do que o futuro nos aguarda.