A Igreja não pode ser pautada pelos que a Ela se opõem

closeAtenção, este artigo foi publicado 2 anos 9 meses 17 dias atrás.

Pediram-me um comentário a respeito da notícia de que o Papa Francisco estaria “sinalizando” a nomeação de mulheres para cargos importantes na cúria. Vejam, o que realmente importa nesta pergunta – assim interpreto eu os sentimentos dos que se sentem angustiados com este tipo de notícias – não é o que ela denota objetivamente. A rigor e analisada em si mesma, essa notícia (1) não possui substância alguma e, (2) ainda que possuísse, seria algo de extremamente banal e corriqueiro.

Por que digo que a notícia não possui substância? Porque ela faz todo um escarcéu em cima de uma frase solta numa entrevista à qual provavelmente nem o próprio Papa Francisco deu a importância que os microscópios da mídia artificialmente lhe conferem. Existe uma mulher concreta cujo nome está sendo cogitado pelo Papa? Não. Existe um cargo concreto que o Papa pretende conceder a uma mulher? Não. Existe um prazo definido dentro do qual passará a haver mulheres – ou pelo menos uma mulher – nomeadas para os dicastérios romanos? Não. Existe ao menos a certeza de que o Papa vai realmente fazer isso? Também não. Não há absolutamente nada, portanto, exceto o Papa dizendo em uma conversa privada com outro padre que “deve” nomear uma mulher «porque [elas] são mais inteligentes que os homens». Isso, sim, é literal: por que não apareceu ninguém, então, para criticar a novidade doutrinária de que as mulheres possuem uma inteligência metafisicamente superior à dos homens?

“Porque isso é besteira”, alguém haverá de dizer, “mas o empoderamento das mulheres em uma instituição tradicionalmente conduzida por homens tem um importante valor simbólico para a luta dos movimentos feministas”. E este é o ponto relevante aqui.

Os que se preocupam com essa notícia (e outras análogas) estão, na verdade, preocupados não com ela, mas sim com o “valor simbólico” do (possível) gesto noticiado. Mais ainda: estão, na verdade, preocupados com a instrumentalização, por parte de grupos revolucionários tradicionalmente avessos à Igreja, do (possível) gesto, conferindo-lhe um valor simbólico que ele absolutamente não possui e utilizando-o para justificar um sem-número de barbaridades (no caso em pauta, ordenação feminina e abolição das diferenças entre os sexos, p.ex.) que ele absolutamente não justifica. O problema, portanto, não está com o Papa, o problema não está nas mulheres trabalhando ou deixando de trabalhar nos órgãos da Santa Sé: o problema está naquelas pessoas que não estão nem um pouco preocupadas com a Doutrina Católica, mas são ávidas em pinçar palavras, atitudes e gestos do Romano Pontífice para dar (aparência de) força à sua concepção de mundo particular. O problema, em suma, não é o Papa nomear mulheres para cargos importantes na cúria. O problema é as pessoas usarem indevidamente uma coisa banal e corriqueira dessas em benefício de sua própria agenda ideológica.

E por que digo que é uma coisa banal e corriqueira? Por diversas razões. Primeiro, porque o trabalho administrativo nos órgãos da cúria não tem nada a ver, nem remotamente, com nada da doutrina (ou mesmo da disciplina) da Igreja Católica. Segundo, porque as mulheres ocupam desde sempre um lugar de especialíssima proeminência dentro do universo doutrinário católico – basta pensar na Santíssima Virgem Maria, referência de todo fiel, do menor dos leigos aos Papas. Terceiro, porque historicamente já foram concedidas a mulheres posições de poder totalmente inimagináveis mesmo pelo mundo laico contemporâneo. Quarto, porque já existem mulheres trabalhando nos dicastérios romanos, é óbvio, sempre devem ter existido: se elas não ocupam os cargos mais altos – de prefeitos, secretários etc. – é por razões de ordem sacramental e não sexista: a reserva é aos sacerdotes em preferência aos leigos, e não aos homens em preferência às mulheres. Quinto, porque isso é uma mera convenção em si indiferente que poderia ser de um sem-número de outras maneiras.

O problema, em suma, é a tentativa de enquadrar a Igreja – ou, melhor dizendo, aspectos desconexos da Igreja – em uma clave que A deforma e termina por A retratar de uma maneira totalmente infiel à realidade. Há uma quantidade potencialmente infinita desse expediente pouco criterioso: se um Papa não permite a ordenação de mulheres então é um misógino, se cogita dar algumas responsabilidades a uma mulher então é porque é um feminista revolucionário, se é contra a camisinha favorece a AIDS, se diz que o uso de preservativos por parte de um prostituto é o menor dos problemas morais nesta situação envolvidos então é um libertino querendo entronizar a revolução sexual na Igreja, se celebra versus populum é um modernista, se celebra versus Deum é um tridentino retrógrado, se condena o comunismo é um porco capitalista, se protesta contra as injustiças sociais é porque é um agente da KGB infiltrado.

Isso acontece, isso é feito o tempo inteiro pelos inimigos da Igreja e pior: isso tem dado certo. Há hoje muitas e muitas pessoas que odeiam a Igreja por Ela ser misógina, por ser esquerdista, por ser antiquada em excesso, por ser modernosa demais, por ser muito rígida, por ser muito lassa, por oprimir os ricos, por desprezar os pobres, por tudo: e só uma minoria ínfima odeia a Igreja por Ela ser o que Ela de fato é. Fulton Sheen dixit. E ele estava certíssimo. As pessoas via de regra não são contra a Igreja Católica. São contra a imagem desfigurada que elas têm da Igreja Católica.

O texto já vai longo, e arremato: a solução desse problema não passa por se abster de fazer as coisas em atenção às leituras distorcidas que pessoas ignorantes ou mal-intencionadas farão dessas coisas feitas. Isso é um erro monumental e absolutamente injustificável. Ninguém pode deixar de venerar a Santíssima Virgem para não ser acusado de idolatria, ninguém pode deixar de celebrar a Santa Missa com decoro e diligência para evitar ser olhado como a um fariseu. E, pela mesmíssima razão, para não ser confundido com um TL não é legítimo a ninguém esquecer que negar ao trabalhador o salário justo é um pecado que clama aos Céus vingança. Pela mesmíssima razão, ninguém pode determinar o que vai fazer ou deixar de fazer em função das reações do movimento feminista a esta ação ou omissão.

Se a Igreja tem que preservar a Sua independência, Ela a precisa preservar também (e talvez até principalmente) contra esses reducionismos maniqueístas tão em moda hoje em dia. A Igreja não pode ser pautada pelos que a Ela se opõem, isso é bastante evidente. Mas não é tão evidente assim que há formas mais sutis de pautar o comportamento de outrem, e também contra estas é preciso se precaver. A Igreja não pode ser coagida pelos “católicos” de esquerda a sancionar as teses já condenadas da teologia da libertação, é óbvio. Mas Ela também não pode negar que a pobreza evangélica seja um valor – ou que existam deveres de caridade para com os pobres que são mandatórios para todo cristão, por exemplo. É preciso combater o lobby modernista que é feito diuturnamente contra Igreja. Mas é igualmente preciso perceber que evitar fazer coisas em si legítimas para não ser visto como modernista é também uma forma de se ser influenciado. E a liberdade de anunciar o Evangelho não pode conhecer esses limites. Os inimigos da Igreja não podem ditar o que Ela pode fazer, é claro. Mas também não podem determinar – nem mesmo indiretamente – o que Ela não deve fazer.

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14 thoughts on “A Igreja não pode ser pautada pelos que a Ela se opõem

  1. JB

    A hipótese de que o Papa Francisco queira propositadamente mudar a visão que as pessoas têm da Igreja está naturalmente fora de cogitação…

  2. Jorge Ferraz (admin) Post author

    JB, pelo contrário, está cogitabilíssima! :)

    É aliás uma das teses plausíveis à luz de quanto escrevi aqui: as pessoas têm uma visão de que (v.g.) falar contra a miséria é ser da TL, e o Papa parece-me querer, sim, mudar essa visão.

    O que deveria estar fora de cogitação para os católicos é a hipótese de que o Papa (i) é interiormente avesso à Doutrina Católica, (ii) age de maneira dissimulada no sentido de tornar as pessoas cada vez mais hostis à Igreja e, por isso, (iii) deve ser sempre posto sob suspeição e deve-se ter permanentemente um pé (ou os dois!) atrás em relação a tudo o que vem dele. A primeira é um juízo sobre intenções ocultas absolutamente vetado aos católicos, a segunda, uma tremenda falta de caridade (qual era o santo que dizia que se deve interpretar as ações dos outros sempre da melhor maneira possível?) e, a terceira, é o perfeito contrário das obrigações que os católicos têm para com os seus superiores legítimos.

    Abraços,
    Jorge

  3. Renan

    No momento, todo cuidado é pouco com noticias veiculadas na imprensa geral a respeito da Igreja, pois além de em geral serem os repórteres muito ignorantes em fé católica, são mercenarios, estão a serviço dos globalistas para lançarem os católicos uns contra os outros e contra a alta hierarquia, o papa em particular.
    Inclusive há infiltrados na Igreja em postos chaves espalhando calunias de dentro dela para fora, passando-se por seus hierárquicos!
    Antes de mais nada, saber se a noticia procede de fonte fidedigna de credibilidade, pois o que se já falou do papa Francisco, que ele teria dito não foi pouco, depois desmentido, mas o mal já foi feito. Sempre alguns foram enganados e não saberão do engano em que caíram.
    Vejam os procedimentos de altos membros da Igreja, caso recente de uma alto dignitário da Igreja: D Leonardo Steiner da esquerdista CNBB elogiando o comunista Plinio de Arruda Sampaio, um dos fundadores do PT e PSOL, recentemente falecido, como exemplo de cristão e muito mais, por sinal ambos tomando uma merecida surra na net…
    Só se ele for cristão desses que o diabo mais aprecia…

  4. Addrian

    Belíssimo post! Destaco aqui um trecho, que acredito ser o ponto-chave de toda essa polêmica inútil a respeito do Santo Padre: “O problema, em suma, é a tentativa de enquadrar a Igreja – ou, melhor dizendo, aspectos desconexos da Igreja – em uma clave que A deforma e termina por A retratar de uma maneira totalmente infiel à realidade. Há uma quantidade potencialmente infinita desse expediente pouco criterioso: se um Papa não permite a ordenação de mulheres então é um misógino, se cogita dar algumas responsabilidades a uma mulher então é porque é um feminista revolucionário, se é contra a camisinha favorece a AIDS, se diz que o uso de preservativos por parte de um prostituto é o menor dos problemas morais nesta situação envolvidos então é um libertino querendo entronizar a revolução sexual na Igreja, se celebra versus populum é um modernista, se celebra versus Deum é um tridentino retrógrado, se condena o comunismo é um porco capitalista, se protesta contra as injustiças sociais é porque é um agente da KGB infiltrado.”

    Parabéns Jorge! Você é um dos poucos que analisa as situações de nossa Igreja de uma maneira clara e direta. Deus Te cumule de bençãos!

  5. Estamos aqui

    Jorge,

    o seu artigo foi espetacular, simplesmente esplêndido e ao mesmo tempo esclarecedor.
    Rezo muito por sua saúde e que o Espírito Santo te ilumine sempre, com tem sido.

    Paz a ti !

  6. Ygor

    Caro Jorge,

    A meu ver, seu post ficou próximo da perfeição. Exposição clara, simples, direta e completa sobre o assunto. Uma palavra para resumir:

    Touché!

  7. JB

    Notei que o layout do blog mudou. O cavaleiro templário não está mais aqui…

  8. Alien

    É isso que eu ia perguntar (o mesmo que o JB perguntou). O Vaticano sumiu também. Também tinha te feito uma pergunta ´no tópico sobre o filme “Noé”. Mas nem esquenta! Te recupera bem. Abraços! :)

  9. Jorge Ferraz (admin) Post author

    Alien,

    Sim, agora o Deus lo Vult! está minimalista. É a tendência :)

    Talvez eu ponha um banner, mas só se conseguir um personalizado, porque o grande problema daquela imagem da Piazza San Pietro é que se trata de uma foto genérica de Wikipedia, que vez por outra aparecia na internet e me fazia associar o lugar onde a encontrava ao DLV.

    Abraços,
    Jorge

  10. Jorge Ferraz (admin) Post author

    ATENÇÃO,

    Brincando com as configurações do Deus lo Vult!, acabei perdendo o banco de dados e precisando restaurar um backup. Com isso, foram perdidos quatro comentários que haviam sido feitos de ontem para hoje. Foi a seguinte conversa com o JB:

    * * *

    JB:

    Minimalista de fato. Deve ser o efeito Francisco. Muito trendy e em sintonia com o zeitgeist.

    * * *

    JORGE FERRAZ:

    JB, é o Novus Ordo Missae do Deus lo Vult! :)

    * * *

    JB:

    Então prepare-se para a queda nas vocações e na frequência aos sacramentos…

    Não haverá ao menos a chance de um motu proprio para satisfazer os velhos leitores que, como eu, têm maior sensibilidade para com o velho lay-out?

  11. Jorge Ferraz (admin) Post author

    Bom, as coisas mais simples são geralmente as melhores… :)

    JB,

    Não haverá ao menos a chance de um motu proprio para satisfazer os velhos leitores que, como eu, têm maior sensibilidade para com o velho lay-out?

    Vai na barra de endereços e digita um /?csspreview=true após o fim do link. Exemplo:

    http://www.deuslovult.org/?csspreview=true

    Depois eu vejo um jeito de deixar isso mais fácil.

    Abraços,
    Jorge