A imoralidade tornada pública é, sim, digna de censura igualmente pública

closeAtenção, este artigo foi publicado 1 ano 11 meses 7 dias atrás.

Os santos católicos, decididamente, não eram as figuras adocicadas – verdadeiros paspalhões! – que costumam pintar por aí. Ainda nos dias de hoje; lembrava-me, agora, de um texto a esse respeito que eu lera há muitos anos, da pena do falecido prof. Orlando Fedeli (que Deus o tenha!). Recuperei-o no Google; faz mais de uma década. A passagem cuja impressão se me apresentava mais vívida à memória era a seguinte:

Ser santo era fazer milagres, andar de camisolão azul celeste, com uma flor de lírio na mão, e com jeito semifeminino.

Lembro-me de que quando me disseram que os santos eram assim, decidi não ser santo.

Ah se me tivessem dito que os santos — todos os santos foram combativos e foram odiados — eram “briguentos”! Ah se me tivessem dito que ser santo era ser combativo, era ser herói no mais alto sentido desse termo!

E eu me lembrava disso porque hoje é o dia de São João Batista; e, decerto, o santo passaria longe, muito longe!, dos padrões de “civilidade” e “bom trato” que se exigem nos dias que correm. Certo, o dia de São João Batista – 24 de junho – é o dia do seu nascimento e, portanto, existe uma certa lógica nas suas representações como criança de colo que são tão comuns neste período junino; mas isso não justifica, absolutamente, que nós nos esqueçamos do homem que ele se tornou e da história que ele legou ao mundo.

Não vou nem discorrer muito sobre o fato de que ele vivia fora da cidade, longe da convivência social normal, vestido somente com peles de animais e comendo coisas nojentas como gafanhotos e mel silvestre. (Mesmo assim, as pessoas acorriam ao deserto para vê-lo.) Não vou me deter no fato de que ele, com as suas palavras profundamente indelicadas, trovejava invectivas e ameaças que, hoje, dir-se-iam fanáticas: coisas como “raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera vindoura?” ou “o machado está posto à raiz das árvores, e toda ela que não der frutos será cortada e lançada ao fogo!”. (Ainda assim, as pessoas se aproximavam para ouvi-lo.)

O que hoje não me sai da cabeça é uma outra passagem, já mais próxima do final da sua vida. Herodes, o rei, tomara por concubina a esposa do seu irmão. Por conta disso, São João Batista o repreendeu duramente, e Herodes o mandou encarcerar. Depois disso, em uma festa de aniversário do velho rei, a sua enteada dançou-lhe tão lubricamente que o deixou com o baixo ventre em chamas. Cego de volúpia, disse à filha de Herodíades que lhe pedisse o que quisesse. A adolescente, provavelmente com bem pouca malícia de vida afora a necessária para seduzir velhos monarcas, correu à barra da saia da mãe para lhe pedir conselhos. “A cabeça de João Batista em uma bandeja de prata!”, foi o pedido que se tornou proverbial. E assim fez Herodes. Entristecido, como nos contam os Santos Evangelhos, mais ainda assim o fez.

É curioso que Herodíades tenha guardado tanto rancor contra o homem que ousou desaprovar as suas aventuras sexuais com o cunhado. A fixação da própria Salomé para com São João Batista, aliás, foi retratada de maneira impressionante na peça de Oscar Wilde que, hoje, vale uma (re)leitura: o santo incorruptível, a cujos lábios Salomé só tem acesso – a despeito de todos os seus rogos! – na bandeja de prata; e o Tetrarca todo-poderoso, suplicando pateticamente para que a filha de Herodíades simplesmente dançasse para ele. Talvez poucas obras da literatura mundial tenham conseguido retratar, assim, com tanta clareza, como é desprezível o homem escravo de suas paixões – e, por via de contraste, como são admiráveis os santos no seu desprezo pelas coisas terrenas.

Que abismo atrai abismo nós já sabemos muito bem, e a história de Herodes é um belo exemplo dessa progressão no mal: o sujeito começa desejando a mulher do irmão, depois já está fantasiando com a enteada e termina como mandante de um assassinato que ele próprio, por si só, de início não queria realizar. Mas o que mais nos interessa aqui é o fato de São João Batista ter censurado, pública e asperamente, esse aspecto (que hoje se diria “da vida privada” ou “da intimidade”) do tetrarca da Galiléia!

Se o sujeito quer tomar para si a mulher do seu irmão – e se ela também o quer, como parece ser o caso -, o que as outras pessoas têm a ver com isso? E se, uma vez cansado da mãe, o velho volta os seus desejos libidinosos para a filha dela, isso é porventura da conta de alguém? Esse tal de João Batista – perguntar-se-ia, certamente, nos dias de hoje – não tem mais o que fazer além de ficar se metendo na vida dos outros?

O que esta passagem da vida de São João nos ensina é que a imoralidade tornada pública é, sim, digna de censura igualmente pública, e de censura inclusive violenta se for o caso. Apesar de o santo não ter nada a ver com a vida de Herodes e de Herodíades – com o que dois adultos fazem consentidamente entre si -, o escândalo provocado pelos maus hábitos praticados às claras é passível, sim, de ser criticado, deplorado e condenado pela autoridade espiritual e moral de quem anuncia o Evangelho – igualmente às claras. Ninguém pode ser coagido a uma vida íntegra, é verdade; mas os que levam uma vida dissoluta não têm direito algum a silenciar a voz dos que anunciam a importância de se levar uma vida reta e agradável a Deus.

Nos dias de hoje, em que querem relegar a moral à esfera subjetiva e onde parece ser já senso comum a idéia de que ninguém pode condenar os hábitos de outrem, lembremo-nos de São João Batista e peçamos, sempre, a sua poderosa intercessão. Olhemos para ele e nos convençamos, de uma vez por todas!, de que os santos não são aquelas pessoas que estão sempre em paz com todo mundo. Imitemos a vida de São João, também e principalmente, na sua vocação profética de chamar o mal de mal, às claras e diante de todo o mundo, ainda que tentem nos calar os poderosos. Ainda que isso nos valha o ódio dos dissolutos. Ainda que os leve a pedir as nossas cabeças.

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8 thoughts on “A imoralidade tornada pública é, sim, digna de censura igualmente pública

  1. Vinicius Nascimento

    Brilhante texto! Nós, católicos, temos que parar de ser omissos e bonzinhos com todo mundo para agradar a todos. Nossa função é proclamar o Evangelhos, às claras, para todos os povos. Se não usarmos os nossos talentos para produzir mais, o Senhor nos lançará fora de seu Reino, onde haverá choro e ranger de dentes.

  2. Alexandre Magno

    Estou “rindo” com a desgraça de uma lembrança. Segundo consigo imaginar, uma determinada pessoa muito engajada na Igreja retrucaria: “O Senhor não quer divisão. Esse Jorge está com o espírito da divisão. É triste, meu irmãos. Devemos nos amar.”

  3. Pe. Diego Baltz

    Gostaria de parabeniza-lo pelo texto. Ainda ontem, após a Santa Missa, eu dizia aos jovens: “Nós venceremos pelo Amor, mas um Amor que seja firme, que não seja bom-mocismo politicamente correto e que seja capaz de desmascarar o mal e o demônio publicamente. O inimigo tem que ser denunciado, bem como toda a sua atividade imunda e nefasta. Cristianismo verdadeiro nunca foi essa baboseira melosa que vemos em determinados círculos ditos “católicos”. Deus lhe abençoe copiosamente.

  4. frandyarc

    Bombástico Jorge. Falou Deus pela boca de Jorge. Que te faça o Senhor, tão guerreiro quanto ele, o santo.

  5. Daniel

    Jorge, Pax et bonum!

    Gostei muito do texto, mas não compreendi quando você fala “de censura inclusive violenta se for o caso”. Você pode me esclarecer? Seria usar de violência? Desculpe-me realmente não entendi.

  6. Augusto Paiva

    “Com efeito, Herodes havia mandado prender e acorrentar João, e o tinha mandado meter na prisão por causa de Herodíades, esposa de seu irmão Filipe. João lhe tinha dito: Não te é permitido tomá-la por mulher! De boa mente o mandaria matar; temia, porém, o povo que considerava João um profeta. Mas, na festa de aniversário de nascimento de Herodes, a filha de Herodíades dançou no meio dos convidados e agradou a Herodes. Por isso, ele prometeu com juramento dar-lhe tudo o que lhe pedisse. Por instigação de sua mãe, ela respondeu: Dá-me aqui, neste prato, a cabeça de João Batista. O rei entristeceu-se, mas como havia jurado diante dos convidados, ordenou que lha dessem; e mandou decapitar João na sua prisão. A cabeça foi trazida num prato e dada à moça, que a entregou à sua mãe.” (S. Mateus 14,3-11)

    O cisma anglicano se deu assim: o Papa Clemente VII se recusou a conceder o divórcio a Henrique VIII (um homem de sete mulheres, adúltero e uxoricida), tal como São João Batista censurou Herodes. O rei Henrique VIII ficaria satisfeito [se o Papa aceitasse o adultério], e não teria acontecido o cisma anglicano, não é mesmo? Mas a Santa Igreja preferiu perder toda a Inglaterra a trair o Evangelho [1]. É é assim de tem que ser! Se temos e cumprimos com o Santo Evangelho, temos tudo, e não importa como o mundo nos veja, pois não é de nós agradarmos a concupiscência do mundo, porquanto ele odiou o Nosso Senhor e Salvador antes de nós (S. João 15,18-19). Temos que nos revestir de cilício e cinza e clamar por toda parte (S. Mateus 11,21).

    † A Paz do Nosso Senhor Jesus Cristo (Jo 14,27) †
    _________________

    [1] “A Igreja Anglicana e a profecia de São Domingos Sávio”, O Catequista.