Os contraceptivos e a Zika

closeAtenção, este artigo foi publicado 1 ano 2 meses 7 dias atrás.

O grande Paulo VI, na sua conhecida encíclica Humanae Vitae, estabeleceu o seguinte ensinamento lapidar: “[é] de excluir toda a ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento das suas conseqüências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação” (HV 14). Não satisfeito, antevendo talvez as objeções que porventura lhe pudessem fazer, o Servo de Deus continua assim o seu arrazoado:

Não se podem invocar, como razões válidas, para a justificação dos atos conjugais tornados intencionalmente infecundos, o mal menor (…). Na verdade, se é lícito, algumas vezes, tolerar o mal menor para evitar um mal maior, ou para promover um bem superior, nunca é lícito, nem sequer por razões gravíssimas, fazer o mal, para que daí provenha o bem; isto é, ter como objeto de um ato positivo da vontade aquilo que é intrinsecamente desordenado e, portanto, indigno da pessoa humana, mesmo se for praticado com intenção de salvaguardar ou promover bens individuais, familiares, ou sociais [id. ibid.].

Esta encíclica não diz diretamente que a contracepção é intrinsecamente má. Quem o faz é S. João Paulo II na Veritatis Splendor (n. 80). O que são atos intrinsecamente maus? São aqueles — ainda S. João Paulo II — que são maus “sempre e por si mesmos, ou seja, pelo próprio objecto, independentemente das posteriores intenções de quem age e das circunstâncias” (id. ibid.). Aliás, vale a pena a leitura dos parágrafos desta encíclica que falam sobre o tema: os nn. 79-83 e 95-97 ajudarão a conhecer com mais clareza a posição da Igreja sobre o assunto. Em suma, não é legítimo, “nem sequer por razões gravíssimas”, tornar um ato conjugal intencionalmente infecundo — independente das circunstâncias em que se encontre o agente (e.g. às voltas com um surto de uma moléstia incurável) e das intenções que ele porventura tenha (evitar que um filho nasça gravemente doente, v.g.).

[Existe, talvez, uma discussão teologicamente legítima que se pode fazer a respeito da posição católica contrária à contracepção: é a que indaga se o Magistério versa sobre todo e qualquer ato sexual, em qualquer contexto, ou se fala especificamente a respeito do ato conjugal entre esposos legitimamente casados. Pode-se encontrar aqui uma discussão a este respeito. A argumentação é pertinente porque, em se tratando da fornicação — da prática do ato sexual fora do casamento, entre solteiros — tão desgraçadamente comum nos dias de hoje, não é claro se o uso do preservativo agrava ou não o pecado (que, lembremo-nos, já é mortal). De qualquer maneira, não se discute (obviamente) se existe alguma situação em que o uso dos contraceptivos seja legítimo, mas sim se há alguma que o Magistério não abrangeu. São duas coisas completamente distintas, mas a questão tem a sua relevância prática, quando menos, para responder à acusação estapafúrdia de que a Igreja, condenando a camisinha, é responsável (v.g.) pelos altos índices de gravidez na adolescência. Tal é um completo nonsense (afinal, a Igreja condena os atos sexuais fora do Matrimônio, e não apenas “a camisinha”), contra o qual, por frustrante que seja, o baixo nível do anti-catolicismo contemporâneo obriga-nos por vezes a nos batermos.]

Coletiva do Papa aos jornalistas durante o voo de retorno do México deixou perplexos católicos e não-católicos por conta de uma resposta estranha que Sua Santidade deu a uma pergunta a respeito da Zika, do aborto e da contracepção. Ei-las, pergunta e resposta, na íntegra (grifos da RV):

(Paloma Garcia Ovejero, “Cope”)

Santo Padre, há algumas semanas há muita preocupação em muitos países latino-americanos, mas também na Europa, sobre o vírus “Zika”. O risco maior seria para as mulheres grávidas: há angustia. Algumas autoridades propuseram o aborto, ou de se evitar a gravidez. Neste caso, a Igreja pode levar em consideração o conceito de “entre os males, o menor”?

Papa Francisco: O aborto não é um “mal menor”. É um crime. É descartar um para salvar o outro. É aquilo que a máfia faz, eh? É um crime. É um mal absoluto. Sobre “mal menor”: mas, evitar a gravidez é – falemos em termos de conflito entre o quinto e o sexto Mandamento. Paulo VI, o Grande!, em uma situação difícil, na África, permitiu às religiosas de usar anticoncepcionais par aos casos de violência. Não confundir o mal de evitar a gravidez, sozinho, com o aborto. O aborto não é um problema teológico: é um problema humano, é um problema médico. Mata-se uma pessoa para salvar uma outra – nos melhores dos casos. Ou por conforto, não? Vai contra o Juramento de Hipócrates que os médicos devem fazer. É um mal em si mesmo, mas não é um mal religioso, ao início: não, é um mal humano. Além disso, evidentemente, já que é um mal humano – como todos assassinatos – é condenado. Ao invés, evitar a gravidez não é um mal absoluto: e, em certos casos, como neste, como naquele que mencionei do Beato Paulo VI, era claro. Ainda, eu exortaria os médicos para que façam tudo para encontrar as vacinas contra estes dois mosquitos que trazem este mal: sobre isto se deve trabalhar. Obrigado.

Não há reparos a serem feitos no que diz respeito ao aborto, penso, uma vez que a sua condenação está bastante clara e enfática; prestemos atenção no que concerne à contracepção.

Primeiro, que evitar a gravidez não é um mal absoluto. Verdade. A própria HV citada ensina que, havendo “motivos sérios para distanciar os nascimentos, que derivem ou das condições físicas ou psicológicas dos cônjuges, ou de circunstâncias exteriores” (HV 16), é lícito “regular a natalidade”. Mas, atenção!, que isto não se pode fazer de qualquer modo: o que é lícito é “ter em conta os ritmos naturais imanentes às funções geradoras, para usar do matrimônio só nos períodos infecundos” (id. ibid.). Uma epidemia de Zika é motivo suficientemente grave para espaçar o nascimento dos filhos? Sim, é. Isso significa que, em tais circunstâncias, um casal pode legitimamente recorrer aos “períodos infecundos” para não engravidar.

Segundo, a história de Paulo VI e as freiras. Aqui o negócio fica mais nebuloso; parece que ninguém conseguiu encontrar uma referência primária a este fato. O pe. Z., aliás, afirma, altissonante, que isso é uma mentira e Paulo VI jamais deu permissão alguma para que freiras usassem contraceptivos; houve um artigo, publicado no início da década de 60, onde esta hipótese era aventada, e nada mais. Há referências esparsas a coisas parecidas com isso (por exemplo, o pe. Cullinane afirma, num panfleto, que há um decreto do Santo Ofício com este teor na época de Pio XII), mas nada capaz de dirimir a questão.

Se a materialidade da história é — pra dizer o mínimo — controversa, o seu conteúdo não é mais cediço. Del Greco ensina que é lícito à mulher violentada expulsar do seu corpo o sêmen do estuprador, e que isto se deve considerar como legítima defesa; no entanto, parece que este uso “defensivo” dos anticoncepcionais não tem sido tão pacificamente aceito pelas autoridades vaticanas como dá a entender a entrevista pontifícia. Na década de 90, já sob S. João Paulo II, a Santa Sé proibiu a pílula mesmo para freiras que, missionárias em zona de guerra, corriam risco de estupro. Roma, portanto, non locuta, e esta causa não se pode pretender finita.

Terceiro, por fim, a ilação anticatólica — que, malgrado o Papa não diga com estas exatas palavras, os meios de comunicação do mundo inteiro foram praticamente unânimes em alardear — de que é lícito usar contraceptivos durante o surto de Zika para evitar o nascimento de crianças com microcefalia. Sobre isso, é preciso dizer

i) que a situação das freiras na África aparentemente não guarda semelhança alguma com a de pessoas tendo relações sexuais livres e consentidas em um país da América Latina afligido pela Zika: no primeiro caso há a violência que permite aventar a hipótese da legítima defesa e, no segundo, não;

ii) que, portanto, para que se possa discutir a possibilidade de se usar contraceptivos como no (suposto) caso de Paulo VI, é preciso que se esteja diante de uma situação que lhe seja minimamente análoga — é o que faz o National Catholic Register, ao aventar o exemplo de uma mulher que é constrangida, pelo marido doente de Zika, a ter relações sexuais com ele;

iii) que o Pe. Lombardi, comentando a entrevista, disse que o uso dos contraceptivos só poderia ser objeto de deliberação da consciência em casi di particolare emergenza e gravità — casos de particular emergência e gravidade –, o que parece ir ao encontro do que NCR publicou; por fim,

iv) que independente de tudo isso permanece integralmente válido o ensino tradicional da Igreja, contido no Magistério de — entre outros — Paulo VI e S. João Paulo II, segundo o qual o uso de contraceptivos não é legítimo nem “mesmo se for praticado com intenção de salvaguardar ou promover bens individuais, familiares, ou sociais” (HV).

Evidentemente o aborto é um pecado mais grave que a contracepção; claro que peca mais quem tira a vida de um ser humano inocente do que quem torna um ato sexual intencionalmente infecundo. Esta diferença de gravidade entre os pecados, no entanto, não tem o condão de “justificar” o pecado menos grave, que continua sendo pecado, e pecado grave, é bom lembrar. Nunca é lícito fazer o mal para que dele provenha o bem; tendo lembrado Paulo VI no avião, o Papa Francisco bem que poderia ter-lhe citado esta frase — esta, sim, de cuja autoria não há dúvidas, e cuja doutrina é certa e segura.

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21 thoughts on “Os contraceptivos e a Zika

  1. Leonardo Oliveira

    Caro Jorge Ferraz e colegas aqui do blog, o antipapa Francisco, do alto de sua infinita misericórdia e consternado com o surgimento de mais alguns mal-entendidos (mais alguns de uma série interminável), mandou um recado especial (na verdade uma lembrança) para todos vocês que o admiram, o respeitam e observam os seus ensinamentos. Segue abaixo:

    “Queridos irmãos do país do futebol (ahhh!… las pelotas, quanto me gusta!), em momentos em que sentires desnorteado, aparvalhado, aturdido, lembrem-se, lembrem-se sempre do lema do meu antipontificado, inspirado que é num grande pensador de seu país, o inesquecível Chacrinha. Ele muito sabiamente disse, e eu humildemente subscrevi, sua máxima irretorquível:

    “Eu vim aqui pra confundir; não pra explicar.”

    Portanto, caros amigos (aliás, este é o nome de uma excelente revista editada em seu país. Leitura obrigatória para um bom cristão. Ainda mais sabendo que ela gosta muito de mim), não se espante. Não se alarme com nada. Keep calm and vamos a la cancha!

    Abrazos muy misericordiosos a toda la gente,

    Seu querido antipapa.

    PS: Qualquer embaraço, não me pergunte nada, mas envie todas as suas dúvidas ao outro Jorge, o Ferraz.”

  2. joaquim

    O Papa Francisco errou ao dizer isso? O Papa Francisco está errado e o Jorge brasileiro está certo? Está corrigindo o Papa?

  3. Rui Ribeiro Machado

    Sei que não é o assunto que move a escrita do artigo, mas eu não consigo enxergar como não poderia ser lícito o uso de anticoncepcionais sob o risco de estupro. A vítima tem o direito de repelir com veemência tudo o que provém do seu agressor, dado que ela nunca consentiu com aquilo. Ela tem direito de tentar livrar-se do sêmen que foi posto contra a sua vontade em sua vagina da mesma forma como o teria se tivesse caído sobre seu braço. E nessa questão de livrar-se do sêmen do estuprador, expeli-lo ou torná-lo inócuo é mero detalhe. Se a Santa Sé, de fato, não autorizou isso, eu por outro lado, não vejo qualquer comparação possível com a proibição expressa na “Humanae vitae”.

  4. Jorge Ferraz (admin) Post author

    Rui, eu também não vejo maiores problemas com a tese de Palazzini. Penso que i) em situações normais as freiras não têm vida sexual e, portanto, o uso regular da pílula se assemelha ao seu emprego terapêutico; e ii) na hipótese da violência sexual a mulher tem o direito de repelir o sêmen do agressor — e se o seu organismo já está condicionado (pela pílula) a o tornar estéril, tanto melhor.

    O que você diria da laqueadura para freiras? Encaixar-se-ia no mesmo caso, ou o fato de ser mutilação exigiria consideração à parte?

    De todo modo, a questão maior aqui não é a licitude (ou não) do uso de anticoncepcionais em casos extremos, mas i) o fato de que isso, ao que parece, não é pacífico na história recente da Igreja e — principalmente! — ii) que o caso não guarda nenhum termo de comparação com a corrente epidemia de Zika, onde diversos outros meios podem ser empregados para evitar a infecção da criança.

  5. Rui Ribeiro Machado

    Jorge,

    Eu acho que, por ser mutilação, não seria lícita.

    Relendo a resposta do Papa, na verdade, eu acho que Sua Santidade apenas se atrapalhou um pouco. Para mim, é bem plausível que tenha querido dizer que os métodos NATURAIS de evitar a gravidez podem ser utilizados no caso da epidemia de Zika, e IMPROVISOU um exemplo, que não condizia com sua explicação, apenas para dizer que evitar a gravidez não é um mal absoluto. Todo mundo se atrapalha, quando pego de imprevisto. O Papa não é infalível nesse quesito.

  6. joaquim

    Rui Ribeiro, de acordo com o Padre Lombardi, porta-voz do Papa, o Papa fala em contracepção, preservartivo e discernimento de acordo com os casos particulares. Acho que o porta-voz do Papa é um intérprete mais abalizado das palavras do Papa, e ele não diz que o Papa se atrapalhou nem que quis falar de métodos naturais. Vamos ao Padre Lombardi:
    “Il Papa distingue poi nettamente la radicalità del male dell’aborto come soppressione di una vita umana e invece la possibilità di ricorso a contraccezione o preservativi per quanto può riguardare casi di emergenza o situazioni particolari, in cui quindi non si sopprime una vita umana, ma si evita una gravidanza. Ora non è che lui dica che vada accettato e usato questo ricorso senza nessun discernimento, anzi, ha detto chiaramente che può essere preso in considerazione in casi di particolare emergenza.”

  7. joaquim

    Jorge Ferraz, há outra problema nos anticoncepcionais que afetaria mesmo as freiras: eles não são 100% eficazes, algumas vezes não impedirão a ovulação, mas impedirão a nidação do óvulo fecundado, fazendo ocorrer o chamado “aborto oculto”. É lícito assumir o risco de um aborto oculto?

  8. Jorge Ferraz (admin) Post author

    Joaquim, não sei se há registros de efeitos pré-implantatórios na pílula atual.

    Uma vez que tal probabilidade é baixa e ela não é de modo algum querida diretamente, talvez o risco de um “aborto oculto” equipare-se ao de um aborto natural de uma mulher que toma uma taça de vinho sem saber que está grávida.

  9. Thiago

    Joaquim, sua mensagem não foi pra mim mas irei fazer uma indagação.

    Se o Papa disse isso, então quer dizer que o Papa não está em acordo com a Humanae Vitae. Ora, a única forma moral de prevenir um mal como este seria pelo uso de métodos naturais aprovados pela Igreja, ou seja, o recurso as períodos infecundos do ciclo da mulher (método billings) ou outro parecido. Se o Papa aprova a contracepção/preservativo nesse caso ele está contra a doutrina moral da Igreja, que desaprova o fechamento à vida por meio da infertilidade voluntária do casal. Se o Papa está contra a doutrina moral, não sei bem o que pensar disso, mas se queremos ser católicos ficaremos com o ensino moral de sempre da Igreja e não com uma frase dita em uma avião, mesmo que essa frase seja do Papa!

  10. Deu nó no meu cerebro

    Senhor Jorge Ferraz,

    Agradeço sua disposição em tratar do assunto com o artigo em comento.

    Embora tenha trazido luz nas questão em geral, deixou-me, em outras questões, obscurecido.

    Há, por exemplo, nos casos de pecados graves, ações que aumentem ou diminuam a gravidade deles? Não conheço esse ensinamento.

    No exemplo, o uso do contraceptivo, não aumenta ou diminui a gravidade do pecado. É sempre grave. Pode haver que se cometendo um pecado, do mesmo exemplo – embora haja várias matizes( caso ocorra o coito anal durante o pecado contra o sexto mandamento etc) -, se cometa outro pecado grave. Por exemplo, que ao usar métodos contraceptivos que possam levar ao aborto, matar um embrião humano – ovo fertilizado – se comete dois pecados graves. Aumentando as penas (no inferno – caso de danação eterna; nesta vida – castigos sofridos neste mundo; no purgatório – as penas devidas).

    Não há de maneira nenhuma justificativa para que uma religiosa faça uso de qualquer método contraceptivo, visto que religiosos fazem votos de castidade. É lícito que uma religiosa defenda com a própria vida seu voto de castidade, evitando que seja destruída sua pureza e tornando-se mártir. No mais, é acidental caso aconteça inevitavelmente o estupro. E seria, no mínimo, temerário o uso de métodos não comprováveis – e por isso mesmo( não comprováveis) o risco de pecar mortalmente, caso provoquem aborto – por parte das religiosas.

    Assim, não há coerência no argumento “equipare-se ao de um aborto natural de uma mulher que toma uma taça de vinho sem saber que está grávida.”

    Mas quanto aos pecados que brandam aos céus por vingança? Ora, poderia que concluir que pecados graves possam ter qualidades de diminutos e aumentativos. Mas que se aumenta, na verdade, são os castigos devido a malicia deles.

    Respeitosamente,

    O amigo.

  11. Deu nó no meu cerebro.

    Também não vejo como se aplicar o principio do mal menor ou do bem maior nos casos de pecados.
    Mas nesse tema o senhor já do disse. O que não ficou claro para mim, foi a relação de mal absoluto e pecado grave.

    Agradeço a atenção.

  12. Jorge Ferraz (admin) Post author

    Prezado “amigo”,

    Uma coisa é a gravidade dos pecados no que os distingue entre leves (ou veniais) e graves (ou mortais). Outra coisa é a gravidade específica de cada pecado concreto, para a qual concorrem todas as circunstâncias em que ele se deu. Por exemplo, bater em meu pai é mais grave se o meu pai for um velho doente do que se ele for um homem sadio.

    Situações há em que não fica claro se a gravidade da ação é maior ou menor — por exemplo, se eu sedar um desafeto antes de o matar a golpes de enxada, isso é um agravante (porque impossibilitou-lhe a defesa) ou um atenuante (porque mitigou-lhe o sofrimento)? Exatamente pelo fato de o homicídio ser já pecado mortal a Igreja não entra nesta seara de “qual a menira mais virtuosa de assassinar alguém”.

    O mesmíssimo se dá no caso da fornicação. É exatamente pelo fato de a fornicação ser já um pecado gravíssimo que não existe o ensino da Igreja a respeito de “como se deve fornicar”. No caso do preservativo usado pela prostituta: torna o seu ato mais ou menos grave? Se a sua resposta for “mais grave, porque aí concorrem dois pecados, a prostituição e o uso de contraceptivos”, isso pode até ser uma opinião, mas certamente o senhor não vai conseguir arrolar muitos moralistas que sustentem esta posição…

    O que serve para a prostituição, que é o caso mais extremo e, por isso mesmo, mais fácil de ver, parece servir também para a fornicação lato sensu, pelo mesmo argumento.

    Sim, há ampla justificativa para que religiosas usem a pílula, exatamente porque no caso delas — pessoas que fazem voto de castidade — a droga não é contraceptiva. Veja o artigo citado, do Card. Palazzini.

    Não existe “risco de pecar mortalmente” em uma coisa que não se quer diretamente e cuja probabilidade de ocorrência é muito baixa. O pecado mortal, exatamente para ser mortal, requer que o ato pecaminoso seja objeto da vontade. Não fosse assim, as mulheres casadas em idade fértil não poderiam nunca tomar uma taça de vinho, porque haveria a possibilidade de estarem grávidas e o risco de que a bebida provoque danos ao embrião — inclusive um aborto. É o mesmo caso: uma coisa (tomar a pílula lá, tomar a taça de vinho aqui) feita com determinada intenção x (esterilizar o sêmen do agressor naquele caso, divertir-se licitamente neste) mas que tem a possibilidade remota de provocar y (um aborto). A coerência do argumento é fulgurante.

    Não acho que “mal absoluto” e “pecado grave” sejam categorias teológicas que o Papa esteja relacionando. Para mim, é claro que ele quis simplesmente dizer que o aborto não pode ser realizado de nenhuma maneira, independente de se o considerar um pecado ou não.

    Abraços,
    Jorge

  13. Thiago

    Sou um dos ferrenhos defensores de Bergoglio. Constantemente vejo seus discursos sendo desvirtuados e interpretados de forma bem distinta daquilo que ele desejou falar. Algumas vezes por falta de clareza dele mesmo e outras (a maioria) por um discurso antiberbogliano crescente dentro da própria Igreja.

    Sinto que muitas vezes seus discursos e respostas são postos em interesses bem alheios ao verdadeiro sentido de suas próprias palavras. Porém, dada tamanha incoerência e contradição nesta resposta que poderia ser tão simples e objetiva, a lambança está feita e tenho que admitir que não é “forçoco” ou de “má fé” interpretar que Francisco sinalizou uma ruptura com o ensinamento da Igreja ou uma abertura ao uso do contraceptivo ainda que sua entrevista não seja um ato formal de ensino do Magistério. Ao citar o caso do grande (sic) Paulo VI, Francisco não cria qualquer distinção, não aponta diferenças. É como se os colocasse em uma balança e ambos tivessem o mesmo peso, logo, a mesma solução.Portanto, por ocasião desta infeliz resposta dada pelo Papa Francisco, sinto que no mínimo ele deve uma nota de esclarecimento para corrigir-se e evitar tamanha confusão causada não só pelo seu próprio discurso, como também pelo de Lombardi que parece nem querer concordar e nem desautorizar o Papa explicitamente.

    A pergunta da jornalista é advinda de um discurso claro de “neo-eugenia”. Ela não trata do uso profilático em vista da prevenção da transmissão do Zika, ela claramente o relaciona a uma medida anticoncepcional a fim de se evitar o possível nascimento de uma criança com microcefalia. Seria isto eugenia ou não? Utilizar o discurso do “mal menor” neste caso é admitir que a vida de uma criança com microcefalia é em si má, quando na verdade a vida de qualquer ser humano é sempre graça e dom divino.

    Métodos de contracepção e profiláticos (de prevenção de transmissão de doenças) são moralmente distintos. Embora em relação à contracepção a discussão na Teologia Moral é menor e em geral os discursos são sempre concordes com o ensinamento da Igreja que afirma que é “intrinsecamente má toda a ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, quer no desenrolar das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação”, o mesmo não acontece quando se fala em métodos profiláticos. Nestes casos a Teologia Moral tem discutido a tolerância em alguns casos específicos, sobre tudo nos casos fora do matrimônio e do amor conjugal. De qualquer forma o discurso do mal menor pode levar a uma enorme confusão, como ocorreu com as interpretações por ocasião da publicação do livro-entrevista de Bento XVI, “Luz do Mundo”. Caso este que jamais deveria ter sido colocado em paralelo ao caso de Francisco. Pois no caso de Bento XVI é necessário o uso de má fé para se interpretar erroneamente, no de Francisco não.

  14. narin

    Pois, o complicado, verdadeiramente complicado, é explicar estas questões ao católico médio, o católico comum, que soube da novidade via mídia. Deus tenha misericórdia de nós e de Bergoglio

  15. Otto

    Caramba! Quando surge um papa mais evoluído o pessoal começa a reclamar por aqui…

  16. Vinicius

    Penso que toda esta confusão é o resultado da velocidade com que as informações circulam hoje em dia. Antigamente, qualquer palavra do Papa, para chegar a nós, passava por uma revisão de mais de 20 teólogos e era enviada num texto oficial e formal. Hoje, entretanto, temos em primeira mão qualquer comentário improvisado e desprevenido do Papa que, inegavelmente, é um homem e pode falhar.
    Esse tipo de discurso é, em essência, diferente dos supracitados e, assim, necessita de uma hermenêutica diferente. Não podemos interpretar uma resposta a uma repórter como uma locução do Santo Magistério. É apenas uma opinião pessoal, impensada e desprevenida. Diz sobre os pensamentos – e não as conclusões destes – de Bergoglio, e não sobre os ensinamentos da Igreja.

  17. Wilson Junior

    Se o Papa Paulo VI foi considerado “grande”, então tudo está num caminho obscuro. Mas, como Bento XVI disse certa vez, “Deus coloca um limite ao mal”. Até quando Deus permitirá essa confusão na Igreja?

  18. JB

    Vinicius,

    O problema é agravado porque durante muitos anos a apologia católica pela internet especializou-se em defender tudo o que o Papa dizia. Era um reflexo automático. Qualquer coisa que fosse dita ou feita pelo Papa, em qualquer ocasião, deveria ser imediatamente defendida a qualquer preço. Esse reflexo condicionado de defesa total acabou por levar na prática a uma hiperinflação da infalibilidade papal entre os católicos ditos “neoconservadores”.

    Talvez seja ocasião para retornar ao bom senso e, com o auxílio da luz da Tradição, saber separar o que há de bom e o que há de ruim em Francisco.

    Recomendo o último vídeo (em inglês) de Michael Voris, um “neoconservador” americano. Voris não fala em erros e enganos hipotéticos. Ele fala em erros e enganos concretos, cometidos por Francisco e até mesmo por Bento XVI.

    “Popes make mistakes. They have private thoughts that are simply wrong, not well thought out, a result of poor misunderstanding of some theological point, even badly informed about history. (…) It is we with our poor understanding of the office of Pope who need to break this pattern of errant thought or approach to the successor of St. Peter.”

    http://www.churchmilitant.com/video/episode/a-disgrace-to-the-chair-of-peter

  19. Wilson Rmiro

    A grande exposição na mídia secular, as constantes declarações diretamente à esta mídia, permite-lhes serem “portadores” das palavras do papa, para o católico simples.

    “Porei um freio em meus lábios, enquanto o ímpio estiver diante de mim”. (Sl 38,2)

    O cuidado com as palavras é fundamental em qualquer proposta de comunicação, agora quando o argumento ainda não está maduro ou as frases não estão bem formatadas, em declarações vindas do chefe de uma igreja de 1 bilhão de seguidores, toda frase solta torna-se um demônio difícil de tornar a prender.

    “Ponde, Senhor, uma guarda em minha boca, uma sentinela à porta de meus lábios”. (Sl 140,3)