Receber a Liturgia, não reformá-la

closeAtenção, este artigo foi publicado 11 meses 8 dias atrás.

Não li ainda o livro do Card. Sarah (grande cardeal!) que, segundo consta, chegou há poucos meses às livrarias do Brasil; mas hoje, no Facebook, tive acesso a uma peça publicitária do livro-entrevista que me chamou a atenção. Traduzo livremente:

Se nós fabricamos a liturgia por nossa própria conta ela se afasta do divino; ela se transforma em um ridículo, vulgar e maçante jogo teatral. Acabamos, assim, com liturgias que se parecem com programas de auditório, com uma festa dominical engraçada para relaxar após uma semana de trabalho cheia das mais variadas preocupações. Uma vez que isso acontece, os fiéis voltam para a casa após a celebração da Eucaristia sem haverem encontrado Deus pessoalmente — ou sem O terem ouvido no mais profundo dos seus corações.

Tenho para mim que esta questão é importante e, a ela, não se costuma dar a devida atenção fora dos ambientes (ditos) tradicionalistas. O cerne do argumento aqui desenhado é o seguinte: os homens vão à Igreja para se relacionar com Deus. Para tanto, é necessário que eles encontrem, na Igreja, algo maior do que eles próprios, algo que eles próprios não seriam capazes de confeccionar com suas próprias mãos. Mas, ora, tornar a Liturgia uma coisa que cada “comunidade” produz — ainda que seja uma “construção coletiva” — é fazer com que ela seja percebida não mais como algo que se recebe (de Deus, do passado ou de um determinado conjunto de pessoas santas), mas como algo que se constrói. E se eu construo a Liturgia, então eu não preciso ir à Igreja: é o corolário mas óbvio aqui, de cuja precisão o esvaziamento de nossas igrejas (mormente no pós-Concílio) dá a prova mais triste e incontestável.

Os homens já se relacionam consigo próprios o tempo inteiro — afinal de contas, a vida secular é exatamente isso. Não se vai à Igreja para fazer, lá, o que mesmo que já se faz no mundo; vai-se para a Igreja, ao contrário, para lá se abrir ao diferente. É aliás esta uma característica muito própria da Religião Cristã: nela se tem não a obra de um grande homem, não o resultado acumulado do progresso da humanidade, nem nada disso, mas o próprio Deus que vem ao encontro da humanidade que, sem esta Vinda, estaria para sempre condenada a nunca O encontrar. É por isso que se vai à Igreja: porque n’Ela Deus vem até nós. E imaginar que Deus poderia vir até nós mediante a virtude de qualquer coisa propriamente nossa não passa de uma superstição ímpia; achar que somos capazes de O invocar mediante determinado conjunto de palavras e gestos inventados por nós é ainda mais insano do que acreditar, por exemplo, que determinada dança é capaz de fazer chover. É bárbaro e primitivo.

A Liturgia só funciona (lembrando, Sacramento é um sinal sensível e eficaz da graça divina) porque Ela nos foi dada: não é obra nossa mas do próprio Cristo, através do Seu Corpo que é a Igreja. Essa verdade, fundamental para um relacionamento sadio com Deus, fica completamente obscurecida quando «nós fabricamos a Liturgia por nossa própria conta»: é o que o Card. Sarah está dizendo. Nós perdemos a capacidade de nos abrir a Deus (lembrando, os Sacramentos agem ex opere operato mas os seus efeitos só se percebem ex opere operantis) se não somos capazes de enxergar, nos gestos e palavras da Santa Missa, mais do que uma simples convenção arbitrariamente definida pelos católicos que nela tomam parte. No limite, como se disse, a Liturgia artificialmente produzida torna desnecessária a própria ida à Igreja.

Penso que o maior problema da questão litúrgica não se encontra na parte objetiva, mas sim na subjetiva; i.e., não na capacidade do rito de conferir a graça, mas sim na de tornar os fiéis propícios a recebê-la. Isto, penso, respeita a Doutrina Católica no que diz respeito à indefectibilidade da Igreja em matéria litúrgica; isso, igualmente, explica a situação de miséria espiritual em que se encontra o catolicismo com o Novus Ordo.

Com uma interessante vantagem. Se a questão é subjetiva e não objetiva, então ela depende das disposições interiores dos que se acercam dos Sagrados Mistérios — e, portanto, a possibilidade de correção orgânica é muito maior. Ora, uma Missa repleta de invencionices locais é sem dúvidas uma coisa muito artificial. Um rito produzido por uma comissão burocrática é artificial também; mas ele só o é dentro de um horizonte temporal muito restrito. Quanto mais se caminha no tempo, mas o Rito de Paulo VI deixa de ser uma novidade para se tornar algo que simplesmente é assim na Igreja — para as novas gerações a Missa simplesmente “sempre foi assim”, é a missa que os seus pais sempre assistiram, dentro de algumas poucas décadas se tornará a missa de que os seus pais e avós sempre participaram e assim sucessivamente. Em algumas gerações a aura da ancestralidade irá reluzir também sobre o Novus Ordo; é simplesmente questão de tempo para que os católicos encontrem, nele, algo que vem de um passado (cada vez mais) remoto da Igreja — e, portanto, algo que é recebido e não confeccionado. O problema apontado pelo Card. Sarah, assim, naturalmente deixa de existir.

É justamente para impedir essa correção orgânica que os assassinos da Liturgia precisam, o tempo inteiro, inventar coisas e mais coisas para atormentar os fiéis que assistem à Missa. Celebrar estritamente o N.O.M. não atende mais à sanha iconoclasta dos inimigos da Igreja, exatamente porque para as novas gerações o N.O.M. é a liturgia tradicional. É por isso que é preciso lhe acrescentar cada vez mais coisas, cada vez mais novidades: para mantê-lo indefinidamente como uma coisa fabricada, sempre construída pela comunidade, nunca recebida da Igreja. As posições do Card. Sarah, assim, não são uma nova intervenção Ottaviani: o alvo dele é a mentalidade de que a Liturgia deva (ou mesmo possa) ser continuamente fabricada, e não um rito específico. E este combate é prévio a qualquer discussão sobre forma ordinária ou extraordinária do Rito Romano. Sem esta concepção, qualquer apostolado litúrgico é vão. Para que qualquer “Reforma da Reforma” possa ser possível, é preciso antes entender — por paradoxal que pareça — que a Liturgia se recebe e não se reforma. Sem isso estaremos apenas recauchutando velhos erros.

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9 thoughts on “Receber a Liturgia, não reformá-la

  1. Teresa Cristina

    Brilhante, Jorge Ferraz. É bem isso mesmo. Gostaria muito de ler o tal livro também, embora veja que, ainda que com outras palavras, nele haverá muito do que já li de Bento XVI em outros livros.
    Também não sei de que me adiantará ler já que como leigos nada podemos fazer, ainda mais tendo o clero contra. Realmente, ler essas coisas só aumenta a tristeza por ver o que vemos e não ter o que precisamos.
    Mesmo assim gostaria de ler o livro do cardeal Sarah. Sabe onde se encontra? será que as editoras católicas publicam? … paulinas, talvez…

  2. Cesar Augusto

    Excelente análise, Jorge. Cheguei á Missa Tridentina ainda na época em que era celebrada na Imbiribeira, para conhecer o “rito antigo da Igreja”. Era uma novidade para mim. Fiquei encantado. Pela mentalidade que tinha na época, eu teria deixado,mas justamente entender essa questão da Liturgia ser “algo que recebemos”, me fez e vem fazendo cada vez mais, preferir o silêncio antigo, e cada vez mais me afastar dos barulhos da Liturgia moderna. Ainda pondero ela celebrada “como está no Missal’. O problema é que as normas oferecem tantos “buracos adaptativos” que quase ninguém a celebra dessa forma. Ou talvez celebrem, já que indiretamente, ela permite com a autorização para “adaptações”.

  3. Pingback: Receber a Liturgia, não reformá-la

  4. Vinicius

    Excelente, Jorge! São Luís Maria de Montfort dizia que muitos, cheios de escrúpulos, acabam tendo medo de dar as devidas glórias a Nossa Senhora. Hoje vemos escrúpulos que atrapalham católicos bem intencionados de verem o Concílio Vaticano II como um fruto do Santo Magistério da Igreja, que tem total autoridade para tal. Mais do que isso, muitos sequer compreendem verdadeiramente o que o Concílio disse. Como você exortou, temos que aprender a receber a Liturgia e, diferente do que fazem os protestantes, aceitar os ensinamentos da Santa Madre Igreja, a Coluna e Sustentáculo da Verdade.
    Pax et bonum!

  5. Vinicius Nascimento

    Preciso acrescentar ainda o quanto este ponto nos distancia dos protestantes. Tenho uma amiga protestante que é muito inteligente – ouso dizer até inteligente demais para continuar protestante – e ela postou um artigo sobre a importância de reformar continuamente os seus cultos. Felizmente nós, católicos, somos, como diz Pe. Zezinho, a Igreja do Pão, do Pão que vem do céu, e não pode ser fabricado por meras mãos humanas. Salve a Igreja Católica.

  6. Jorge Ferraz (admin) Post author

    Olá Marcelo!

    Que o Papa tenha elevado a memória de Sta. Maria Madalena à categoria litúrgica de “Festa” é verdade. Veja a notícia:

    http://papa.cancaonova.com/papa-eleva-festa-dia-da-memoria-de-santa-maria-madalena/

    Agora, que isso implique em “Sagrado Feminino”, que haja alguma verdade dos romances do Dan Brown ou que Sta. Maria Madalena seja esta “Mestre Nada” de que o autor fala, aí é totalmente falso. Esta matéria pega um fato verdadeiro (a Festa de Sta. Maria Madalena) e tenta vender, junto, um monte de bobagem sem pé nem cabeça.