A «cegueira» dos que defendem o Papa

closeAtenção, este artigo foi publicado 5 meses 25 dias atrás.

Um amigo comentou que o recente texto do prof. Nougué parecia dirigido a mim, uma vez que lá ele criticava «alguns membros da chamada “linha média” católica [que] dizem, enquanto Francisco destrói o que resta dos escombros causados pelo Vaticano II e vai à Suécia comemorar os 500 anos da revolução luterana: “Francisco é o bom pastor que vai atrás das almas extraviadas”» e eu escrevi um texto aqui sobre o tema intitulado precisamente «O Bom Pastor vai ao encontro da ovelha desgarrada».

Sucintamente, a despeito da similaridade material entre as expressões empregadas nos dois textos, este blog não se identifica nos doestos do (aliás sempre excelente) Estudos Tomistas por uma simples razão: ao contrário dos comunistas, que vêem na coletivização dos meios de produção o fim último da sociedade, e dos liberais, que enxergam na democracia participativa o suprassumo da organização política, o Deus lo Vult! não encara a unidade dos cristãos como uma utopia a ser construída a qualquer preço. Enquanto os comunistas não podem aceitar uma sociedade onde exista a propriedade burguesa, este blog aceita um mundo onde exista a Igreja Católica e as seitas. Ao passo em que os liberais consideram errado um Estado que não seja erigido sobre o sufrágio popular, este blog considera verdadeira e correta uma Igreja que não inclua em Si todos os cristãos. Em uma palavra: comunistas e liberais acham que falta algo ao mundo que existe — e, não podendo aceitá-lo, querem construir um mundo diferente; já o Deus lo Vult! crê e professa que absolutamente nada falta à Igreja Católica que existe desde Cristo e existirá até a consumação dos séculos, e portanto em nada quer alterá-La.

A unidade dos cristãos não está para os católicos assim como o Socialismo Verdadeiro para os comunistas. Para alcançar este os comunistas aceitam destruir o mundo que existe, que consideram mau e errado; para atingir aquela, contudo, os católicos não querem — e aliás não podem — sacrificar a Igreja que existe, que consideram santa e perfeita. As duas situações portanto nada têm a ver uma com a outra, guardando entre si apenas uma semelhança material mas não formal. Ao se olhar de perto, as diferenças saltam aos olhos.

Um comunista tolera o extermínio de seus compatriotas como um meio para atingir o “bem maior” do Estado Socialista. Um católico, todavia, não pode tolerar a destruição da Igreja e a apostasia da Fé como um meio para atingir a “unidade” dos cristãos.

Há de fato “católicos” para os quais pode-se sacrificar questões doutrinárias em atenção à convivência pacífica entre os homens, “católicos” que entendem que a Igreja é uma espécie de ONG e não a portadora de uma Verdade a anunciar a toda criatura. Estes merecem censura e este blog jamais os poupou. No entanto, e graças ao bom Deus, não coaduno com as posições deles, que reputo equivocadas e que sempre mereceram, aqui, as mais acerbas críticas.

“Mas, então, como o Deus lo Vult! defende as fórmulas de compromisso da linguagem eclesiástica e a política vaticana de aproximação aos inimigos tradicionais da Igreja?” Ora, defende-as — e isso é importante — como uma opção de governo legítima, mas não necessária. Defende que as coisas possam ser conduzidas dessa maneira sem que isso implique em apostasia da Fé Católica, e não que elas devam ser assim realizadas sob pena de traição ao Evangelho. São duas coisas completamente diferentes. A Doutrina não exige que o Vigário de Cristo se sente com os falsificadores do Evangelho para discutir alguma colaboração mútua pontual; no entanto, a mera união contingente e acidental entre católicos e hereges para fins de uma empresa comum também não infirma a Doutrina Católica!

Não se trata, portanto, de fazer “vista grossa” a um mal presente em atenção a um bem futuro. Trata-se justamente de olhar o presente, analisá-lo, discuti-lo, esmiuçá-lo e, ao fim, concluir que ele não é exatamente o que os inimigos da Igreja andam alardeando. Não se trata de aceitar a ideologia de gênero para trazer os transexuais à Igreja: o ponto é que lavar os pés a um transexual não se confunde com sacramentar o transexualismo. Não se trata de liberar a comunhão eucarística para os adúlteros a fim de que eles se sintam acolhidos nas paróquias: a questão é que a Amoris Laetitia não manda dar comunhão indiscriminadamente a adúlteros. Mil outros exemplos poderiam ser citados; é sempre esta exata mesma coisa. É sempre conferir, prima facie e inaudita altera pars, a interpretação mais desabonadora possível a qualquer gesto esboçado pelo Romano Pontífice. É sempre transformar discordâncias de governo em questões doutrinárias inegociáveis. É o tempo inteiro confundir a pessoa de quem discordo politicamente com um apóstata excomungado que devo escorraçar como um cão sarnento — mesmo que se trate do Vigário de Cristo! Não, a alternativa a isso não pode ser uma cegueira voluntária moralmente censurável. Entender que o Papa pode tomar alguma atitude com a qual eu não concorde sem que ele seja, por isso mesmo, um papa iníquo que quer destruir a Igreja é questão de maturidade social, intelectual e espiritual. Evidentemente nada disso falta ao prof. Nougué e aos seus textos sempre equilibrados. Mas uma simples olhada pela caixa de comentários deste blog — e de outros blogs e páginas de Facebook que compõem o dito tradicionalismo lusófono de internet — mostra que estou longe de me bater contra moinhos de vento.

Em suma: a ida do Vigário de Cristo à Suécia não é a destruição «[d]o que resta dos escombros causados pelo Vaticano II». Este blog tem dedicado os últimos anos a argumentar precisamente que o Vaticano II não destrói a Doutrina Católica. Da exata mesma forma que os textos conciliares não implicam em uma apostasia da Fé, embora possam ser (e, aliás, tenham historicamente sido) lidos nesta chave, as atitudes do Papa Francisco não significam a negação da Fé Cristã — embora a mídia anticlerical e muitos dos sedizentes tradicionalistas estejam alegremente acordes nesta interpretação. O paralelismo é notável: se a ortodoxia do Concílio pode ser defendida então a das atitudes do Papa Francisco também o pode. No que concerne a este blog, tal praxis — esta «cegueira» — não vem de agora; trata-se, tão-somente, de coerência com os próprios pressupostos, com a Sã Doutrina da salvação, com a Fé Católica e Apostólica sem a qual é impossível agradar a Deus. Foi Santo Inácio quem disse estar disposto a afirmar que o branco que ele via com seus olhos era preto, se tal fosse assim definido pela Igreja; em matéria de não se deixar levar pelas aparências, portanto, o Deus lo Vult! parece estar em boa companhia.

Gostou? Compartilhe!Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someonePrint this page

9 thoughts on “A «cegueira» dos que defendem o Papa

  1. Renato

    A realidade de Bergoglio é tão diferente das palavras do teólogo recifense…

  2. Thiago

    “a Amoris Laetitia não manda dar comunhão indiscriminadamente a adúlteros.”

    Pena que vários Bispos e Padres descordam de você.

  3. Isac

    QUEM NEGA OU DESMERECE O VATICANO II FÁ-LO A TODOS OS OUTROS!
    “Este blog tem dedicado os últimos anos a argumentar precisamente que o Vaticano II não destrói a Doutrina Católica”…
    Estou de pleno acordo: quem negar ou atribuir erros ao Vaticano II nega e desmerece todos os outros concilios anteriores, sendo v e eu dos raríssimos na rede dessa forma!
    Em geral, ações de muitos supostos católicos, como sabemos, caluniando-o até de “conciliábulo” e desqualificativos similares – confessem esse grave pecado!
    O que sucedeu no Vaticano II é que houve infiltração de inimigos da Igreja e esses, via midia globalista, passaram a atribuir as heterodoxias deles a um incerto e indeterminado “ESPÍRITO DO CONCILIO” inventado por esses mesmos de má fé e conspiradores – uma tremenda fraude e calunia! Agem ainda hoje no mesmo estilo dos esquerdistas!
    Lembra do caso D Bugnini, D Benelli e mais?
    V sabe que uma mentira sempre contada sem ser contestada, ainda que erradamente, com o tempo se torna “verdade”!
    Por outro lado, não negaria que há certos procedimentos estranhos do papa Francisco que, com repeito e lamentando dentre varios mais, daria para discordar, vejam esses nessa Declaração Conjunta recente com o relativismo protestante:
    “Graças ao diálogo e testemunho compartilhado, já não somos desconhecidos; antes, aprendemos que aquilo que nos une é maior do que aquilo que nos separa”.
    O luteranismo é sub fruto do Iluminismo, nega os 7 sacramentos, adota a livre interpretação das S Escrituras, o batismo não apaga o pecado original, rejeita a Transubstanciação, rejeita o papado…. Precisa mais?
    “Ao mesmo tempo que estamos profundamente gratos pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma”…
    Reforma de quê? Hoje em dia são mais de 30 000 seitas dissensas entre si e 1 por H criada só no Brasil e qualquer uma delas equivale à seita-mãe, onde cada um é o auto espírito santo a se iluminar!
    ¨”Rezamos a Deus para que católicos e luteranos saibam testemunhar juntos o Evangelho de Jesus Cristo, convidando a humanidade a ouvir e receber a boa notícia da ação redentora de Deus”.
    Só que os testemunhos seriam contraditorios, tomando-se como base os luteranos querendo permanecerem no status quo alienante de uma doutrina a criterio individual.
    Leiam a “Profissão de fé de S Pedro Canisio” que foi em seu tempo o martelo dos hereges:
    “ABOMINO LUTERO,DETESTO CALVINO E AMALDIÇOO TODOS OS HEREGES; não quero ter nada em comum com eles, porque não falam nem ouvem retamente, nem possuem a única regra da verdadeira Fé proposta pela Igreja una santa católica apostólica e romana”.
    Há até certos grupos protestantes, protestando contra contra isso que chamariam de “ecumenismo”…

  4. Bruno Miranda

    Excelente colocação, Jorge!
    Pena que “defensores da Tradição Católica” e certos freis-fakes que existem por aí chamam defensores do papa Francisco de “cleaners”.

  5. Vinicius

    “Entender que o Papa pode tomar alguma atitude com a qual eu não concorde sem que ele seja, por isso mesmo, um papa iníquo que quer destruir a Igreja é questão de maturidade social, intelectual e espiritual.” Oremos por mais maturidade e piedade em nosso laicato. Muito boa reflexão, Jorge!

  6. JB

    Receio que a postagem acima não corresponda à verdade.

    O Deus lo Vult vai muito além de simplesmente defender a legitimidade de Francisco, o que aliás nem sequer está em causa. O Deus lo Vult defende não só a legitimidade como também a oportunidade e a razoabilidade de qualquer coisa que Francisco faça ou diga. Francisco já não é o representante de Deus; é o próprio Deus.

    O Deus lo Vult está longíssimo da franqueza mostrada, por exemplo, esta semana por um tal de Pe. Cavalcoli, OP, o tal que atribuiu os terramotos na Itália à cólera divina:

    “Il Papa non è eretico, ma si circonda di falsi amici e cattivi consiglieri come Kasper, Ravasi, Bianchi, Ronchi e Cantalamessa.”

    http://www.lafedequotidiana.it/esclusivo-padre-cavalcoli-si-spiega-il-terremoto-non-e-legato-alla-legge-sulle-unioni-civili-ma/

    Na postura do Deus lo Vult, há felizmente muito mais de comédia que de tragédia, como se viu recentemente no episódio da estátua de Lutero. No entanto, no afã de defender Francisco, é muito preocupante que este blog, outrora campeão da ortodoxia, tenha até já assumido posição favorável à comunhão dos divorciados-recasados, ao menos em certos casos, como se viu em postagem anterior.

    É um sintoma claro dos efeitos colaterais a que está sujeito quem sistematicamente defende o indefensável. De tanto violar a lógica e o bom-senso, ainda que seja com a melhor das intenções, acaba-se por perder o rumo da Verdade.

  7. Jorge Ferraz (admin) Post author

    Receio que a postagem acima não corresponda à verdade.

    O Deus lo Vult vai muito além de simplesmente defender a legitimidade de Francisco (…)

    Pois é, se as palavras expressas e taxativas do autor do blog valem menos do que a concepção que dele fazem os seus leitores, o que posso fazer? :)

    E se tal é assim diante de um blogueiro ao qual podem falar praticamente em face, que se não dirá do Papa em Roma?

  8. JB

    Ué?! Não entendi.

    Do episódio do “foicefixo” à comunhão dos recasados, passando pelo lavapés feminino, não há dito ou feita de Francisco que este blog não justifique ou defenda a qualquer custo.

    Se há algum aspecto deste pontificado sobre qual o Deus lo Vult tenha reservas ou ressalvas, em vez de adesão imediata e completa, favor é dizê-lo pois passou-me despercebido.