As questões dos cardeais sobre a Amoris Laetitia

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Foi hoje tornada pública uma carta ao Papa Francisco onde um grupo de cardeais interpela Sua Santidade a respeito de algumas interpretações contraditórias que estão circulando no orbe católico sobre o Cap. VIII da Amoris Laetitia. Trata-se de uma atitude duplamente excelente, no conteúdo e na forma. No conteúdo, porque o seu objetivo é pôr freios à loucura generalizada que se apossou de muitos ambientes católicos; na forma porque tudo se fez de maneira exemplar, com toda a deferência exigida ao Soberano Pontífice.

Um simples olhar sobre o caso mostra a diferença gritante, estratosférica, entre ele e a histeria virtual generalizada que, aqui no blog, tanto me censuram por combater.

Em primeiro lugar a carta é, toda, de uma elegância exemplar. No lugar dos xingamentos, os preitos de submissão; no lugar das acusações vagas, as questões formuladas com todo o rigor acadêmico. Em nenhum momento o Papa é diminuído em qualquer das suas prerrogativas, em nenhum parágrafo as suas intenções ocultas são perscrutadas e censuradas. Não se encontra na carta — nem mesmo! — uma afirmação taxativa de que tal ou qual passagem da exortação apostólica esteja em desacordo com a doutrina da Igreja; simplesmente se pergunta se as disposições antigas ainda estão válidas e, se sim, de que modo.

Depois: a carta foi redigida por quatro cardeais da Santa Igreja, não pelo Zé das Couves da esquina. Foi entregue ao Santo Padre e não divulgada no Facebook. É total a diferença entre os Príncipes da Igreja, membros da cúria pontifícia, e o leigo brasileiro que mal ajuda a sua paróquia territorial. É absoluta a dessemelhança entre o documento formal, cerimoniosamente entregue ao próprio Soberano Pontífice, e o panfleto passional espalhado aos quatro ventos internet afora e cuja leitura só provoca a indisposição dos espíritos para com o Cristo-na-terra.

Finalmente, o modo de proceder dos cardeais foi aquele estabelecido por Nosso Senhor nos Evangelhos: primeiro o Papa foi procurado privadamente, e somente depois — quando tomaram consciência de que a resposta pontifícia não viria — os autores da carta decidiram ampliar a discussão, tornando-a pública. Não está, portanto, em questão aqui a pessoa do Romano Pontífice, o juízo moral sobre as suas atitudes, nada disso: o que se objetiva é, tão-somente, o esclarecimento dos fiéis católicos a respeito de algumas questões morais surgidas a partir da leitura de um capítulo da última exortação apostólica publicada pelo Papa Francisco.

As dubia enviadas ao Santo Padre são as seguintes:

  1. Se é agora possível (AL 305 c/c nota 351) conferir a absolvição sacramental, e consequentemente a Comunhão Eucarística, a uma pessoa que, conquanto possua um anterior vínculo matrimonial válido, viva more uxorio com alguém que não é o(a) legítimo(a) esposo(a).

  2. Se, após o n. 304 da Amoris Laetitia, ainda existem normas morais absolutas que proíbem incondicionalmente atos intrinsecamente maus e que são obrigatórias a todos, sem exceções.

  3. Se após o n. 301 da Amoris Laetitia ainda é possível afirmar que uma pessoa que habitualmente viva em contradição com um mandamento da Lei de Deus (e.g. o que proíbe o adultério) encontra-se em uma situação objetiva de pecado grave habitual.

  4. Se, à luz das “circunstâncias que mitigam a responsabilidade moral” (AL 302), permanecem válidos os ensinamentos de S. João Paulo II de acordo com os quais as circunstâncias, ou as intenções, não podem jamais transformar um ato intrinsecamente mau em algo subjetivamente bom ou defensável como uma escolha.

  5. Se, após o n. 303 da Amoris Laetitia, permanece válido o ensinamento segundo o qual a consciência nunca pode legitimar exceções a normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus em virtude do seu objeto.

O debate franco, aberto e desapaixonado a respeito dessas questões é da mais alta importância, e em muito boa hora os eminentíssimos cardeais as trazem a lume. Que a clareza das perguntas possa dar uma exata dimensão daquilo que atualmente se está discutindo; que elas propiciem respostas cada vez mais claras, a fim de fazer cessar a confusão instaurada no seio da Igreja Santa de Deus.

P.S.: Após escrever este texto descobri já haver uma tradução para o português no Sandro Magister do apelo feito pelos cardeais — leiam lá. As perguntas que transcrevi acima foram feitas em tradução livre por mim mesmo a partir do texto do Rorate Caeli.

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8 thoughts on “As questões dos cardeais sobre a Amoris Laetitia

  1. Pedro Henrique

    Já denunciei esse seu método de escolher seletivamente o que bem lhe convém e atribuir o que você pensa a todo um mundo de católicos tradicionalistas. Quando na verdade, a maioria deles se comportam exatamente como os cardeais.

    Você simplesmente não pode ignorar um Roberto de Mattei, ou os membros do Life Site News, Antonio Socci, o falecido e elogiado pelo próprio Papa, Mario Palmaro, por se oporem ao Papa escrevendo artigos e textos sobre suas falas escandalosas e sobre seus documentos que geram confusão.

    Mesmo quando você perde, você tenta enganar seus leitores. O Papa simplesmente não respondeu as dúvidas dos Cardeais. O Papa não esclarece nada, não diz nada e simplesmente deixa que a confusão continue reinando na Igreja. Isso mostra que temos, sim, o direito de demonstrar o nosso desapontamento em qualquer plataforma que exista, seja facebook, ou em algum blog.

    A manifestação de um simples fiel não pode ser comparada a de um Cardeal ou desses fieis leigos que eu acabei de citar. Mario Palmaro era demonizado, até o Papa telefonar-lhe dizendo que levava em consideração suas críticas e que não as via como falta de caridade.

    Até o Papa pensa diferente do teólogo recifense. Nem todos que pensam diferente de você, meu caro, hostilizam e desrespeitam o Papa. Já falei para você ser menos seletivo e pegar alguém com estatura para refutar. Cite alguns exemplos acima. Fique a vontade para escolher um.

    Só não pegue uma parte dos católicos tradicionais para demonizar toda uma parte da Igreja, quando todos sabemos que os rebeldes são os progressistas, são esses católicos que são deixados na ignorância pelo próprio Papa e seus bispos e profanam a Sagrada Eucaristia, é o silêncio dos neo-conservadores nas últimas cinco décadas permitindo, silenciosamente, a auto-demolição da Igreja e a perda de muitas almas. O joio e o trigo estão em todas as partes.

    Mas eu não me preocupo, o tempo sempre trata de te contradizer.

  2. Ygor

    “Finalmente, o modo de proceder dos cardeais foi aquele estabelecido por Nosso Senhor nos Evangelhos: primeiro o Papa foi procurado privadamente, e somente depois — quando tomaram consciência de que a resposta pontifícia não viria — os autores da carta decidiram ampliar a discussão, tornando-a pública.”

    Para mim é um absurdo não haver resposta pontifícia. Ainda mais se tratando de Cardeais. As perguntas são respeitosas e claras. Por que não responde? Volto a dizer, Jorge, é um absurdo o Papa não responder aos cardeais!!!

    ” Não está, portanto, em questão aqui a pessoa do Romano Pontífice, o juízo moral sobre as suas atitudes, nada disso: o que se objetiva é, tão-somente, o esclarecimento dos fiéis católicos a respeito de algumas questões morais surgidas a partir da leitura de um capítulo da última exortação apostólica publicada pelo Papa Francisco.”

    A falta de resposta neste caso é ainda mais grave, pois o orbe católico está completamente confundido. E nem estou julgando o por quê do Papa não responder, estou frisando a falta escandalosa de uma resposta clara e objetiva por parte do Papa aos eminentíssimos cardeais. Se a pergunta fosse feita por quatro leigos já seria necessária uma resposta, até por questão de caridade …

  3. Thiago

    Os cardeias publicaram a carta apenas depois de saber que o Papa iria respondê-los por meio do silêncio absoluto.

  4. Isac

    COMO SEMPRE, O CARDEAL L BURKE É ORTODOXO!
    Em recente *entrevista exclusiva ao Register, o Cardeal Raymond L Burke esclareceu devidamente o porque da tomada da posição desses cardeais – embora outros estejam de acordo, apesar de não terem sido signatarios – mas esses apenas acertaram de eles entrarem com essa especie de pedido filial de esclarecimento ao papa Francisco para se dirimirem dúvidas acerca de determinados pontos do capítulo VIII da Amoris laetitia.
    De parte deles, nota-se mesmo por que a publicação de sua carta ao papa Francisco deve ser vista como um ato de caridade, unidade e preocupação com o múnus deles como pastores, mais ainda como cardeais, não se tratando de provocar divisões dentro da Igreja ou politizar a questão, como o falsario e revolucionario que tanto se propaga por aí de “tradicionais x conservadores”, mas por justificar ser necessario que se esclareçam determinados pontos possuidores no tocante à fé, quer de ambiguidades ou se prestariam à confusão entre os fieis.
    A uma das perguntas nessa entrevista da decisão dos 4 cardeais, vejam como foi bastante contundente, como é seu estilo:
    *”O senhor tem ouvido muito essa preocupação com a confusão?
    Em todo lugar por onde passo. Os padres estão divididos, os padres separados dos bispos, e os próprios bispos entre si. Há uma tremenda divisão que se estabeleceu na Igreja, e essa não é a maneira da Igreja. É por isso que chegamos a um acordo sobre essas questões morais fundamentais que nos une”.
    Observe que ele mesmo admite haver uma possível divisão:
    **É um dever pastoral?
    É isso, e posso assegurar que conheço todos os cardeais envolvidos, e trata-se de algo que empreendemos com o maior sentido de nossa responsabilidade enquanto bispos e cardeais. Porém, empreendemos também com o maior respeito pelo Múnus Petrino, porque se ele não defende esses princípios fundamentais da doutrina e disciplina, então, praticamente falando, a divisão entrou na Igreja, o que é contrário à sua própria natureza”.
    RESTANTE DA ENTREVISTA:
    “O que acontecerá se o Santo Padre não responder a seu ato de justiça e caridade e deixar de dar o esclarecimento quanto ao ensinamento da Igreja que os senhores esperam?
    Então, teríamos que tratar dessa situação. Há, na Tradição da Igreja, a prática da correção ao Sumo Pontífice. Obviamente, é algo muito raro. Porém, se não houver resposta a essas questões, então, diria que seria o caso de realizar um ato formal de correção de um grave erro.
    Em um conflito entre a autoridade eclesial e a Sagrada Tradição da Igreja, qual delas é vinculante ao fiel e quem tem autoridade para determinar a respeito?
    O que é vinculante é a Tradição. A autoridade eclesial existe apenas a serviço da Tradição. Penso na passagem de São Paulo na carta aos Gálatas (1:8): “Mesmo se um anjo vos pregar qualquer Evangelho diferente do qual eu vos preguei, seja ele anátema”.
    Se o Papa ensinar um grave erro ou uma heresia, qual autoridade legítima pode declará-lo e quais seriam as consequências?
    É dever, em tais casos, e historicamente já aconteceu, que cardeais e bispos deixem claro que o Papa está ensinando o erro e peçam a ele que o corrija”.
    Doravante, rezar e aguardar para o que sucederá, se acaso o papa Francisco se manteria em posição inflexível de conceder a resposta.
    De qualquer forma, foi bastante conveniente que tenha havido esse movimento inicial de alerta público a partir desses apoiados também por outros!
    * ** Edward Pentin, National Catholic Register

  5. joaquim

    Onde está a resposta do Papa? Faltou você publicar a resposta do Papa! Ainda que a resposta do Papa seja o silêncio eloquente, então você deve falar sobre o silêncio eloquente. Os jornalistas no Vaticano não questionaram a Sala de Imprensa sobre isso? O Vaticano não respondeu nada?

  6. joaquim

    Desculpe, quando escrevi o comentário acima não tinha visto a resposta do Papa. Mas faça suas considerações sobre ela: usou o mesmo estilo, a mesma educação e o mesmo nível de elaboração de argumentos dos cardeias? Iniciou-se o belo debate que você antevia?

  7. A.R.

    Quanta hipocrisia neste artigo.
    Tenta reduzir a interpelação a um pedido de esclarecimento como se os cardeais não tivessem uma objeção séria ao documento de Bergoglio.
    Tenta encobrir o problema exaltando os termos respeitosos da interpelação, como se o documento Amoris Laetitia não tivesse nada errado.
    Hipocrisia ou imbecilidade?