O que importa é a luta pela santidade

closeAtenção, este artigo foi publicado 2 meses 27 dias atrás.

Após a divulgação da última pesquisa Datafolha que anunciou uma nova redução do número de católicos no Brasil — hoje somos apenas 50% dos brasileiros –, a Folha de São Paulo noticiou que a CNBB comentou os dados dizendo que a «[l]uta por justiça é mais relevante que porcentagem de católicos». O aparente absurdo da declaração deixou a muitos perplexos. Olhemos, no entanto, a questão com um pouco mais de cuidado.

Em primeiro lugar, cabe um registro do nosso já antológico mau jornalismo. O primeiro parágrafo da reportagem diz o seguinte:

Mais importante que a porcentagem de católicos no Brasil é “quantas pessoas realmente buscam justiça e vivem o amor até as últimas consequências”, diz o secretário-geral da CNBB (conferência dos bispos brasileiros), dom Leonardo Ulrich Steiner, bispo auxiliar de Brasília.

Aqui já não se fala na «luta» estampada na manchete, embora o sentido ainda seja o mesmo. No entanto, olhando a íntegra da entrevista que a própria matéria disponibiliza mais abaixo, não se encontra a frase entre aspas que abre a reportagem!

O que tem de mais parecido na entrevista de D. Leonardo é o seguinte:

Desse modo, a resposta para a declaração de pertença das pessoas à Igreja ganha um significado mais espiritual que estatístico. Falta-nos, a todos, mais disposição para a conversão de vida e adesão ao cerne da mensagem cristã que é formado pela busca intransigente da justiça e da vivência do amor até as últimas consequências.

Ao que parece, para a sra. Ana Estela de Sousa Pinto (que assina a reportagem), as aspas não significam mais uma citação literal. Aparentemente, no seu estilo jornalístico, o texto que vem entre estes conhecidos sinais gráficos tanto pode significar algo reproduzido literalmente, palavra a palavra, como pode ser qualquer coisa que o jornalista ache que foi dito por alguém. E o pior é que, aqui, o próprio sentido da declaração episcopal foi distorcido: não se trata apenas da mesma coisa dita com palavras diferentes (o que, empregado entre aspas, já seria um absurdo), mas de duas declarações completamente distintas. Porque uma coisa é a «luta por justiça» ser mais importante que o número de católicos, e outra coisa é a constatação de que falta, a todos, uma maior «adesão ao cerne da mensagem cristã»!

Quem passa os olhos pela manchete, ou mesmo quem lê apenas os primeiros parágrafos, fica com a impressão de que a CNBB faz pouco caso da apostasia de milhões de fiéis, trata-a com indiferença, julga que ela não importa; quando na verdade o que se lê na entrevista é um lamento e um pesar pelos tristes números que os anticlericais divulgaram na noite de Natal. Não há o tom de menosprezo que abre a matéria. Este escândalo, portanto, por uma questão de justiça, não seja colocado nas já sobrecarregadas costas de D. Leonardo Steiner. O desdém da instituição não está na pena do seu secretário-geral, mas sim na redação defeituosa da sra. Ana Estela.

Em segundo lugar, é preciso dizer que o número absolutamente não surpreende. Não é verdade que o Brasil seja um país de maioria católica; há muito dizemos que pode até ser grande o número de batizados, mas não o de católicos. Porque “católico não-praticante” é uma contradição em termos, uma vez que a Fé ou bem é vivida, ou não é crida simplesmente. Isso é muito fácil de explicar. Entre diversas outras coisas, a Fé Católica manda que se vá à Missa aos domingos e dias santos. Se a pessoa de ordinário não vai à Missa, então é porque ela não acredita que precise ir à Missa aos domingos e dias santos — não crê na Fé Católica portanto. Uma outra pesquisa feita em 2013 dava conta de que apenas 28% dos que se diziam católicos –ou seja, 16% da população — iam à Missa uma vez na semana. Ora, isso — a prática religiosa semanal — é absolutamente o mínimo! Com menos do que isso não dá para ser adepto do Catolicismo. O número real de católicos brasileiros, assim, deve estar perto de uns 14% da população — o que está bem longe dos 50% que a última pesquisa tão generosamente nos concede.

A vastidão da impiedade sem dúvidas nos entristece; é verdadeiramente de se pasmar que quatro em cada cinco dos nossos conterrâneos estejam privados da graça dos sacramentos sem a qual não é possível obter o perdão dos pecados e a amizade com Deus. É preciso rezar, e rezar muito!, como o Anjo ensinou em Fátima, pedindo perdão pelos que não amam a Nosso Senhor. É preciso fazer apostolado vigoroso e incansável; não nos é permitido ficar indiferentes diante desta multidão de almas se perdendo à falta dos remédios espirituais mais básicos, e que estão aí, ao alcance de uma caminhada, distribuídos em profusão nas igrejas que os nossos antepassados espalharam Brasil afora. Deus pediu a Caim contas do seu irmão (cf. Gn IV, 9); também nós seremos cobrados, e n’Aquele Dia não Lhe poderemos responder que não somos custodiantes das almas que aprouve a Ele colocar em nosso caminho.

Mas há um terceiro aspecto a ser mencionado. É que, talvez por um ato falho, quiçá pela primeira vez em muitos anos, a resposta da Conferência dos Bispos à apostasia católica é surpreendentemente adequada. Dom Steiner — eu vivi para ver isso! — disse que a Igreja «cuida do anúncio dos valores do Evangelho» e «sua missão central (…) é anunciar integralmente o Evangelho de Cristo».

Sim, a Missão da Igreja é levar a toda criatura humana — a todos os confins da terra — o Evangelho de Cristo, a Boa-Nova da Salvação, em toda a sua integridade: sem nada lhe acrescentar ou suprimir. Como a CNBB é conhecida por há décadas desfigurar a mensagem de Nosso Senhor (cabendo-lhe, em perturbadora parcela, a responsabilidade pelo êxodo de católicos que a Igreja no Brasil vem sofrendo ano após ano), é um alento ver no secretário-geral da CNBB, justo nele!, essa preocupação (ao menos diante da imprensa) com a integralidade do anúncio do Evangelho. Se isso, apenas isso!, fosse feito com os devidos zelo e dedicação, assistiríamos muito em breve a um maravilhoso reflorescimento da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz.

A despeito das conotações políticas que a palavra tem no discurso público contemporâneo, «Justiça» é uma palavra muito cara à teologia bíblica e significa santidade. Neste sentido, a frase falsamente atribuída a D. Steiner seria profundamente católica e verdadeira, profética até: para além das pesquisas demográficas, o que importa é a luta pela santidade! Fazendo isso, somente isso!, Deus saberia abençoar o plantio e prover uma colheita generosa. Afinal, não foi o próprio Cristo quem disse que deveríamos buscar primeiro o Reino de Deus e a Sua Justiça, que tudo o mais nos seria dado por acréscimo (cf. Mt VI, 9)? Ouçamos as palavras d’Ele, inadvertidamente ecoadas na manchete adulterada de uma má jornalista. Saibamos lutar, com denodo e galhardia, pela justiça de Deus! Pois com isso teremos a certeza de que omnia adicientur nobis.

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11 thoughts on “O que importa é a luta pela santidade

  1. Renato

    Agora que Bergoglio está mostrando para o que veio – globalismo – o teólogo recifense resolveu não falar mais nada…

  2. Diulza Angelica dos Santos

    Os católicos estão em debandada,mas não estão indo para outras religiões,pelo menos nem todos conheço muitos inclusive eu,decepcionada com a CNBB,pela postura em apoio as pessoas com pensamentos abortista,comunistas,e baderneiros,são varias tendencias dentro da igreja,que nos incomoda.

  3. Camilo Soares Leite de Lima

    O sentido que a TL dá a termos como “valores do Evangelho” e “anúncio integral do Evangelho de Cristo” é bem diferente do que é dado pela ortodoxia católica ao longo dos séculos. E é no mínimo ingênuo presumir que é este, e não aquele, o sentido que o bispo tinha em mente ao dar sua declaração..

  4. Renato

    Não basta tentar explicar o que disse e o que não disse Bergoglio, agora o teólogo recifense vai tentar fazer isso com todo o clero modernista.

  5. Bruno Miranda

    Excelente texto. Jesus Cristo está no comando de tudo, mas não podemos ficar omisso à perda de fiéis. A culpa não é somente da CNBB. Nós, católicos, temos dado péssimo exemplo para aqueles que “estão de fora”. Temos rezado pouco. Não adianta querer defender a Tradição ou chamar o papa Francisco pelo nome secular (Bergoglio) se temos praticado a Fé Católica de forma medíocre. Quantos de nós temos rezado o terço todos os dias? Quantos de nós damos uma palavra amiga e de alento a quem precisa? Quantos de nós oferecemos apoio aos paroquianos que se sentam ao nosso lado na Missa? Cadê a vida em comunidade? Não dá pra esperar somente de Roma ou da CNBB. Já temos o Evangelho e a verdadeira Fé em nossas mãos. Então, mãos à obra!

  6. Renato

    Pois é Camilo. Não basta tentar dizer o que Bergoglio nunca disse, o teólogo recifense vai fazer o mesmo com o clero da teologia da libertação.

    Esse ai vai enrolar muito ainda.

  7. Jorge Ferraz (admin) Post author

    Camilo,

    Sabe-se que a TL modifica muitos conceitos-chaves do Cristianismo, como Fé e Esperança, Amor, Reino de Deus, pobreza etc. Tudo isso está bastante documentado, por exemplo, na Libertatis Nuntius ou naquela conferência do então Card. Ratzinger sobre a Teologia da Libertação.

    Confesso que não conheço a deturpação da expressão «anúncio integral do Evangelho de Cristo» feita pelos teólogos da libertação. Ao contrário até, os documentos do Magistério (como a LN citada) enfatizam a importância de ressaltar, contra o reducionismo da TL, justamente a integralidade do Evangelho (o destaque é do original):

    16. É por isso que os pastores devem vigiar sobre a qualidade e o conteúdo da catequese e da formação que devem sempre apresentar a integralidade da mensagem da salvação e os imperativos da verdadeira libertação humana, no quadro desta mensagem integral.

  8. JB

    Caro Bruno:

    Claro que todos temos culpa. Mas é preciso não ter falsos pudores e dizer o óbvio: se há tantas ovelhas que fogem e se perdem, a responsabilidade maior é do pastor que deixou os lobos entrarem no redil e afugentar as ovelhas.

  9. Isac

    EM SEU TEMPO, D MANUEL PESTANA ADMOESTAVA A CNBB: O BRASIL ESTÁ SE TORNANDO A ANTECÂMARA DO COMUNISMO!
    A Folha de S Paulo sempre foi um jornal esquerdista e, por meio de alguns redatores, dissimulava ser também à direita: o tal lãmina dupla, em cima do muro – não engana jamais – ao lado dos inimigos!
    Suponho que os católicos realmente assumidos, que sabem defender a Igreja, sufocam protestantes e doutras religiões, maçons, espíritas e o que vier pela frente, confrontarem-nos, não apenas de missa dominical, seriam menos de 1% – terei me enganado?!
    Que fez a CNBB naquele ínterim e até hoje? Ao que tudo indica, pouco ou nada senão apoio aos desafetos da Igreja, pois jamais criticou os ideologistas vermelhos por perverterem pesadamente a sociedade, antes e depois que entraram no poder com sua ajuda, relatado até pelo vilão-mor, Lula, pois o maldito PT nasceu nas CEBs da CNBB!
    Se dependesse da CNBB, a conspiradora Dilma não teria sido posta prá fora do poder, sabotando o Brasil e solapando as bases da fé católica!
    Quando acaso a CNBB reprimiu as novelas da Globo, BBBs e afins doutras emissoras usadas pelos comunistas para propagarem anticristianismo – a um clic, v sua familia na boemia – só apresentando devassidões para desvirtuarem as familias?
    Em todos os imprevistos dos comunistas recorriam à CNBB para dar um abafa e os “diálogos” entre as partes eram muitos amistosos, como D Damasceno sempre aos sorrisos com Dilma – situações de compañeros!
    Às eleições, confiramos se a CNBB emitiu algo parecido para instruir o povo, aproximadamente:
    “Estamos próximos ás eleições e cada católico deverá escolher dentre os candidatos o melhor, ou o menos ruim e atentar aos pertencentes a partidos de ideologia marxista que detestam a Igreja católica – são nossos inimigos.
    Também, têm o aborto, homossexualismo em todas as suas formas, uniões ilícitas, apoiam seitas, eutanasia, ideologia de gênero e mais mazelas incluídas no programa oficial de governo, caso do PT, PC do B, PSOL, PV, PSTU, PSB, PCB, PDT etc.
    Dessa forma, os católicos que votarem neles ou em seus candidatos, se vencerem pior ainda, compartilharão de todos os efeitos deleterios anti cristãos que refletirão na sociedade por apoiarem esses delinquentes e trastes humanos em suas péssimas gestões, duramente reprovados por tantos Santos Padres, punidos com excomunhão automática em caso de cristãos colaborarem com eles, como até no caso de lhes dar o voto, como bem os reprovou sem comiseração alguma o papa Leão XIII, “Os comunistas, socialistas e niilistas são uma peste mortal que como a serpente etc…. QAM.
    Apelamos para que reflitam nesses termos, embora não impondo para não votar neles – nem estaremos na cabine para conferir – mas questão de terem consciencia cristã e contas oportunamente a serem prestadas, permeadas de irresponsabilidade com a fé, complacencia e conluio com os maus, além de ajudarem na implantação do mal no mundo”.

  10. José Juarez Batista Leite

    A forma da Evangelização está incorreta e o seu conteúdo está incompleto.
    Com essa afirmação eu quero chamar a atenção para os dados objetivos que temos e que,em tese,deveriam sinalizar para um aumento no número de católicos e católicas no Brasil.Vejamos:temos uma rede de comunicação muito favorável com várias emissoras de televisão e rádio,imprensa escrita abundante na forma de jornais,boletins,revistas,livros.Movimentos católicos atuantes,surgimento de novas comunidades,pastorais em ação.Ou seja,em termos de recursos estamos bem aparelhados.Então como explicar a debandada dos católicos e católicas.Justamente pelo que foi afirmado anteriormente.Estão desprezando as formas de evangelização que independente dos tempos e lugares mostraram-se sempre eficazes e eficientes.É preciso se lançar mão do terço e do rosário de Nossa Senhora,dos outros terços menores como o da Misericórdia,das Santas Chagas,da Providência,do Amor,da Família;volvamos a nossa atenção para os tríduos,novenas e trezenas em honra a Nosso Senhor,Nossa Senhora,aos Santos e Santas e Anjos de Deus.Lancemos mão dos ofícios da Imaculada Conceição,da Paixão de Nosso Senhor,de São José,das Benditas Almas do purgatório.Utilizemos essas riquezas religiosas e espirituais com um novo ardor,isto é,sejamos criativos e dinâmicos de maneira a favorecer a participação o envolvimento e a interatividade.Não como se fossem algo secundário que se realiza para preencher tempo,mas como algo essencial e indispensável,pois quando esses recursos são bem utilizados concorrem para um melhor aproveitamento dos frutos da Santa Missa.Servem como preâmbulo,preparação.Essa é a forma adequada e consagrada pela Igreja em que deve estar moldada a Evangelização.Com relação ao conteúdo é necessário renovar,reavivar e fortalecer a Fé na Igreja Católica,Apostólica,Romana como Sacramento Universal de Salvação,isto é,na Evangelização que inclui a Catequese,Pregações,Homilias,Palestras,Conferências,Simpósios,Fóruns o tema da Igreja não pode ficar de fora.É preciso falar da Igreja de Cristo,descrevê-La,identificá-La,explaná-La,mostrar com clareza as suas riquezas espirituais,religiosas,humanas;dar as razões para a Sua indispensabilidade no que diz respeito à correção,mudança e aperfeiçoamento do homem e da mulher;como Meio privilegiado e singular para a experiência com as Graças e Bênçãos de Deus sem esquecer do Anúncio de Jesus Cristo e dos Valores Humanos assentados na Lei Natural.
    A diminuição no número de católicos e católicas no Brasil e em outros lugares do mundo não deve nos preocupar tão somente por causa da questão quantitativa,mas principalmente porque as mentiras,interpretações equivocadas e compreensões erradas sobre as Sagradas Escrituras e sobre a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo estão sendo sistemática e veementemente propagadas e assimiladas como se fossem verdades.Isso sim é motivo de muita preocupação porque priva o ser humano daquilo que lhe é de direito:a possibilidade do pleno desenvolvimento na sua integralidade e de viver na Liberdade de Filho e Filha de Deus,crescendo na Graça e no conhecimento do Todo-Poderoso.
    Se em mais ou menos cinquenta anos o percentual de católicos e católicas no Brasil diminuiu cerca de 50%,eu quero dizer que em 25 anos ou menos esse quadro poderá ser revertido se tivermos católicos e católicas dispostos a abraçar o desafio da Nova Evangelização.Já está mais do que na hora dos Senhores Cardeais,Bispos,Padres,Religiosos e Religiosas,Leigos e Leigas arregaçarmos as mangas e cairmos em campo.Nessa hora o que mais conta não é tanto a quantidade de Evangelizadores,mas a disposição,compromisso e responsabilidade daqueles e daquelas que se deixarem tocar e transformar pelas Graças e Bençãos de Deus,especialmente através da Sua Única e Legítima Igreja.A Igreja nasceu com umas 120 pessoas em Jerusalém e em pouco tempo a Sua rápida expansão foi admirável.Temos,ainda,umas 6 bilhões de pessoas para serem alcançadas pela Mensagem Libertadora de Cristo que depois de levantado na Cruz atrai todos a Si.Mãos à obra!