Justificativas descabidas para a comunhão dos divorciados

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O artigo de D. Víctor Manuel Fernández sobre o Capítulo VIII da Amoris Laetitia publicado na última edição da revista Medellín — a despeito do que alguém poderia pensar por conta da nome da revista — está, em linhas gerais, bastante sensato: não autoriza de nenhuma maneira a sanha sacrílega de se admitir os divorciados recasados à comunhão eucarística que vem tomando conta de certos setores eclesiásticos. Haveria no entanto alguns apontamentos necessários, que passo a fazer abaixo.

Em primeiro lugar (medellín 168, p. 453), não há diferença rigorosamente nenhuma entre assumir o compromisso de viver em plena continência (São João Paulo II na Familiaris Consortio, 84) e esforçar-se por viver como amigos (Bento XVI na Sacramentum Caritatis, 29b): uma expressão implica na outra sem solução de continuidade. Afinal de contas, o único compromisso exigível ao cristão é o de se esforçar para fazer a vontade de Deus, uma vez que ninguém pode garantir a priori que nunca mais vai tornar a pecar; e viver como amigos significa, exatamente, viver em plena continência, uma vez que aos amigos não é facultada a prática de atos conjugais próprios dos esposos. Não há nenhuma evolução entre os dois documentos, como se a Igreja estivesse ensaiando “um passo à frente” nessa matéria; por sua vez, a proposta dos liberais de se conferir a Sagrada Eucaristia para quem vive em relações adulterinas não guarda nenhuma compatibilidade ou gradação com os documentos apresentados.

O artigo dá a entender que, anteriormente, os que viviam em segundas núpcias não podiam receber os Sacramentos nem mesmo se estivessem vivendo em plena continência (medellín 168, p. 452), sendo a autorização para comungar nesta última hipótese uma novidade trazida por São João Paulo II. Não sei se isso é exato mas, em qualquer caso, vem ao encontro de tanto quanto já falei aqui sobre o assunto: para mim é claro que o sentido da norma é evitar por um lado que as pessoas em pecado mortal comam e bebam a própria condenação (cf. CCE §1385) e, por outro lado, afastar mesmo qualquer aparência de confusão acerca da Doutrina Católica sobre o Matrimônio e a Eucaristia. A contrario sensu, portanto, se (note-se bem, SE) não há responsabilidade subjetiva apta a configurar pecado mortal e não se produzem escândalos nem se induz a erro acerca da Doutrina, então a participação discreta nos Sacramentos é lícita. Isso vale desde sempre, mesmo antes da AL ou da FC. Isso é a própria lógica interna da Liturgia (enquanto culto público) e dos Sacramentos (enquanto canais da Graça).

Infelizmente, contudo, a situação atual é a de escândalo institucionalizado, praticamente inexistindo alguma hipótese onde a tal “novidade” do Cap. VIII da Amoris Laetitia possa ser licitamente aplicada. A situação atual, ao contrário, talvez exigisse mesmo um recrudescimento da disciplina, impondo maiores obstáculos mesmo à comunhão eucarística (pelo menos à pública) dos que vivem em segundas núpcias praticando a plena continência. A confusão é generalizada e, para não correr o risco de menoscabar os Santos Sacramentos, talvez fosse mais pastoral, em certas circunstâncias, negar a Sagrada Comunhão a quem, conquanto interiormente em estado de Graça, não estivesse em condições exteriores de A receber.

Voltando ao artigo de D. Fernandéz, as comparações feitas com o Quinto e o Sétimo Mandamentos (medellín 168, p. 454-455) não têm pé nem cabeça. Matar alguém em legítima defesa não viola o mandamento de “não matar”, nem se apropriar da comida alheia em estado de necessidade viola o de “não furtar”. Isso é arquiconhecido de todo mundo e nunca esteve em discussão, consta em qualquer catecismo ou manual de teologia moral. Em contrapartida, ninguém jamais cogitou que a convivência more uxorio com alguém que não o cônjuge legítimo pudesse ser coisa diferente de adultério ou fornicação!

E o motivo do descabimento da comparação é muito fácil de se ver. É lícito ao agredido tirar a vida do agressor injusto porque, se ele não o fizesse, seria morto: a legítima defesa se justifica porque é conditio sine qua non para a preservação da própria vida. Do mesmo modo o furto famélico é lícito porque, se a pessoa não comesse, iria morrer de fome, e a vida é um bem maior do que a propriedade; além do quê, no estado de necessidade que justifica o furto famélico há uma violação objetiva da destinação universal dos bens, há um uso desordenado da propriedade.

Ou seja, tanto um caso quanto o outro se justificam, por um lado, porque se está diante de uma injustiça em ato (uma agressão, no caso da legítima defesa; uma desordem na destinação universal dos bens, no caso do estado de necessidade) mantida por um ser humano concreto (o agressor ou o mau proprietário); e, por outro lado, porque quem repele com força a violência sofrida ou quem se apropria daquilo que não lhe pertence o fazem legitimamente apenas porque não lhes resta mais nada a fazer, porque esta é a ultima ratio, sem a qual morreriam.

Coisa completamente diferente ocorre no caso dos divorciados recasados: nem estão diante de um agressor injusto, uma vez que os fautores do adultério são eles próprios; nem estão ausentes as outras opções, uma vez que tanto a continência quanto até mesmo a própria separação permanecem como alternativas; nem, tampouco, se encontram diante de uma situação objetiva de injustiça, uma vez que a indissolubilidade é um mandamento de Deus e não uma desordem introduzida pelo homem. É claro, portanto, de uma clareza meridiana, que as diferentes situações nada guardam em comum uma com as outras. Não é possível, em absoluto, procurar uma justificativa para o adultério raciocinando a partir do estado de necessidade ou da legítima defesa!

No artigo de D. Fernandéz há, por fim, uma outra comparação, para dizer o mínimo, forçada. As “mudanças” da posição da Igreja a respeito da escravidão ou da salvação dos não-católicos (medellín 168, p. 460-461) não são, em absoluto, “mudanças de disciplina” (!) e nem se prestam a justificar a alegada permissão para que casais adulterinos possam receber a Comunhão Eucarística. Quanto à salvação dos não-católicos diga-se, simplesmente, que o Batismo de Desejo sempre foi reconhecido pela Igreja, recebendo inclusive consagração expressa em Trento. Mas a referência à escravidão é que faz o nonsense atingir níveis inimagináveis.

Ora, a escravidão jamais foi “ensinada”, sendo tão-somente tolerada quer como pena (no caso de Nicolau V e as guerras ibéricas), quer como mal menor (no caso do tráfico negreiro): o que mudou de lá para cá não foi o ensino da Igreja (nem “a compreensão da Igreja a respeito da Doutrina” nem nada do tipo), mas tão-somente as circunstâncias externas. O que acontece é que, hoje, por força da própria pregação do Cristianismo séculos afora, não há mais espaço — graças a Deus! — para a prática daquilo que a Doutrina Cristã sempre apontou como um mal. Isso é exatamente o oposto do que historicamente aconteceu com o divórcio, cuja maldade intrínseca a Igreja sempre sustentou com intransigência mesmo perante os poderosos do mundo. Na abolição da escravatura foi a Igreja que venceu e se impôs perante o mundo; admitir a comunhão dos divorciados recasados, ao contrário, seria a derrota da Doutrina Cristã, seria o mundo se impondo à Igreja. É evidente que semelhante interpretação não pode prosperar; contra ela é mister combater com todas as forças.

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6 thoughts on “Justificativas descabidas para a comunhão dos divorciados

  1. Wilson Ramiro

    Nada no texto é sensato!!!! Dê um giro pelos autores das referências.

  2. zcla

    Gostaria de mais informações acerca da escravidão tolerada como pena e como mal menor. Paz e bem!

  3. Geraldo

    O texto bem elaborado de uma “permissãozinha em casos especiais” de D Fernández ao que pareceria, facilitará a (a profanação) S Comunhão aos adúlteros, muitos escãndalos públicos, espeialmente a familiares, vivendo em pleno adulterio, incentivando a pecar “sem culpa”!
    Seria por anular o 6º Mandamento ou mitigá-lo conforme esse mundo alienado à fé católica de hoje, ao estilo das relativistas seitas protestantes, onde v é o auto espírito santo a se iluminar, portanto, possuindo “infuso o pleno dom do discernimento” e decidindo corretamente!
    Eis aí o porque do Vaticano permitir o pleno exercicio do “múnus sacerdotal” a uns Pe Arturo Abascal – o demonio inexiste; Pe James Martin, pró sodomitas, D Vincenzo Paglia num mural na catedral de Terni e ele numa bacanal gay; D Luigi Capozzi, outro na orgia gay: D Coccopalmerio, apoiador desses; recepção no Vaticano de milicias comunistas, o MST do Stédile globalistas, a abortista Emma Bonini e mais anticristãos, além de governantes comunistas, tipo Lula, Kirchener, Mujica, o cocaleiro Evo Morales e mais trastes, a serviço do anticristo apoiados pela ONU-NOM

  4. JB

    Merece ainda ser lembrado o seguinte:

    (i) Salvo erro, o artigo em nenhum momento invoca a ignorância invencível como argumento para a comunhão dos divorciados. Como era óbvio para (quase) todos, não se trata de dar a comunhão para quem, por um justo motivo qualquer, é incapaz de entender o significado do matrimônio que contraiu e que, portanto, não pecou subjetivamente.
    Trata-se isso sim de justificar a manutenção de uma situação objetiva de pecado mortal baseando-se em circunstâncias do tipo “o segundo marido não admite viver castamente e ameaça abandonar os filhos”.

    Essa é uma mudança radical na moral católica. Torna obsoleto e dispensável o conceito de ato intrinsecamente perverso. Doravante, qualquer ação humana pode potencialmente ser ordenada a um bem maior (evitar a solidão, prover o lar, bem-estar dos filhos etc.).

    (ii) Embora pareça apenas um detalhe, é emblemático o silêncio de D. Fernandez acerca do canon 915, o qual, em outros tempos mais felizes, proibia a comunhão dos divorciados. O canon continua em vigor(?) mas passou a ser ostensivamente ignorado. Aliás, o Código de Direito Canônico nem uma linha mereceu da parte de D. Fernandez.

    (iii) Dom Fernandez é um dos teólogos preferidos de Francisco, tendo sido por ele escolhido como reitor do seminário de Buenos Aires e sagrado bispo. Até o advento de Bergoglio a Buenos Aires, Dom Fernandez era mais conhecido na sua terra como autor de um curioso livro sobre a arte de beijar, um tema peculiar para a pena de um sacerdote celibatário. O livro está esgotado na editora, mas pode ser encontrado em outras livrarias internet afora.

    http://www.edlumen.net/index.php?route=product/product&product_id=207