Para toda a vida

Esta eu vi no blog do Carmadélio. Lembrei-me de outra propaganda da KFC que já pusera aqui; objetivos bem diferentes (afinal, neste caso é uma figura representativa da fidelidade conjugal sem outro objetivo que não enaltecer a própria vida conjugal), mas um mesmo plano de fundo. Uma mesma idéia de comunhão de almas até o fim. Uma mesma defesa apaixonada daquela união que é, segundo a Doutrina Católica, imagem no mundo da união entre Cristo e a Igreja. Entrega total e fiel por todos os dias da vida, até que a morte imponha a terrível separação.

Ontem, lembrei-me também de uma outra propaganda de geladeiras (acho que era da Consul) que vi há alguns anos. Era uma câmera dentro da geladeira, que só mostrava a porta sendo aberta e fechada: abria e aparecia uma menina pequena pegando algo, depois fechava. Abria e aparecia uma adolescentezinha, depois fechava. E assim, sucessivamente, apareciam uma jovem, uma universitária, uma noiva nos braços do marido, uma mulher grávida, uma outra criança pequena. E o slogan dizia “Consul: para toda a vida”. E é um alento ver que “toda a vida” ainda tem uma conotação católica, ao menos no terreno do apelo popular: se as propagandas utilizam-se destes valores, é porque a população (ainda) lhes é bem receptiva. E isto é um reconfortante refrigério. Fica a (agradável) sensação de que ainda há esperança.

Avalanche de críticas e insultos no Youtube contra jovens que defendem a Igreja

[Fonte: Religión Confidencial

Tradução: SOVA]

Avalanche de críticas e insultos no YouTube
contra um grupo de jovens que defende em vídeos a postura da Igreja

Um grupo de jovens católicos produziu 25 vídeos em que falam sobre temas como matrimônio, homossexualismo, celibato sacerdotal, ordenação de mulheres e as “riquezas” da Igreja. Os vídeos ecoaram em várias redes de televisão nacionais [espanholas] e produziram uma avalanche de ataques e insultos no YouTube.

Os vídeos, que podem ser vistos em www.arguments.es/proyectos/jmj, foram produzidos por um grupo de estudantes da Universidade de Navarra como preparação para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e propõem-se a dar uma resposta pessoal aos temas mais controvertidos da opinião pública sobre a Igreja.

Nos ultimos dias, os vídeos foram notícia nos meios de comunicação nacionais [da Espanha]. O periódico “Público” lhes dedicou uma página inteira e os vídeos foram veiculados em três canais de televisão: “Cuatro”, “TeleCinco” e “La Sexta”.

A consequência direta foi uma avalanche de críticas virulentas e agressivas a todos os vídeos. A maior parte não foi publicada no canal “catequesisarguments” do YouTube, por estarem cheias de insultos e obscenidades, especialmente contra as garotas que aparecem nos vídeos. No Twitter também tem havido muita repercussão.

O vídeos sobre o homossexualismo, que no começo tinha 3 mil visitas, já está com 30 mil, com 134 votos favoráveis e 556 contrários.

Os promotores da iniciativa pediram àqueles que gostaram dos vídeos que votem a favor ou deixem algum comentário positivo no YouTube. Para mais informações, visite o blog http://www.arguments.es/blogjmj/

‘Religión Confidencial’ publicou como ‘Vídeo do dia’ várias d[est]as gravações.
Veja-as aqui.

“Hierarquia dentro do Matrimônio” – prof. Carlos Ramalhete

[Em complemento ao post anterior do Deus lo Vult!, permito-me reproduzir na íntegra um email enviado pelo Carlos Ramalhete à lista Tradição Católica no início do mês passado. Achei que ele já estava disponível em algum lugar da net e ia somente linká-lo ao final do post passado; procurando, no entanto, não o encontrei. O texto é bem longo, mas é precioso. Recomendo enfaticamente a sua leitura atenciosa.

Fiz questão de mantê-lo tal e qual foi enviado, com os exemplos pessoais que foram lá citados, por considerá-los muito úteis e extremamente didáticos. Apenas fiz ligeiras correções tipográficas.

Fonte: Tradição Católica e Contra-Revolução.]

Pax Christi!

>Não concebo, e outros comigo como já falarei, que no matrimónio um
>seja superior e outro inferior, como ocorre numa hierarquia.

Creio que esteja havendo um grave engano sobre o que signifique hierarquia.

Isto não é incomum, devido à perversão do termo pela modernidade, e que é provavelmente o que faz com que ele seja evitado, a não ser em algumas raras ocasiões em que há alguma analogia com as hierarquias modernas (por exemplo, ao tratar de hierarquia eclesiática, caso em que a confusão leva a coisas como a tentativa americana de responsabilizar o Papa por crimes cometidos por um padre, como se o padre fosse um subordinado hierárquico ***no sentido moderno*** do Papa).

Vamos então ver algumas das diferenças:

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Fé e Política: EUA, Brasil, Roma

– Declaração de Manhattan: uma chamada para que os cristãos defendam, como cidadãos, as suas idéias. 152 líderes religiosos de três confissões cristãs (católicos, ortodoxos e protestantes) assinaram o documento. Os cristãos são encorajados a não abdicarem do debate público sobre temas como a vida, o matrimônio, a liberdade religiosa e a objeção de consciência.

A íntegra do documento (em inglês) pode ser encontrada aqui. O pe. Eugenio Maria, FMDJ, escreveu um artigo com os principais pontos da declaração. Seria imaginável uma coisa parecida no Brasil?

* * *

– Sim, é imaginável uma coisa parecida no Brasil, embora com todas as limitações desgraçadamente impostas pela nossa realidade eclesial. E saiu da pena do Arcebispo Emérito de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, em carta sobre a publicação do Catecismo Contra o Aborto. Será Goiana a Manhattan tupiniquim? Sua Excelência escreve: “Os cidadãos honestos não podem colaborar – através de seu voto democrático – nesta tragédia[,] colaborando para conferir cargos públicos a candidatos que defendam o aborto, o divórcio e outras violações da Lei de Deus. Tais candidatos não podem representar os católicos ou cristãos ou qualquer cidadão honesto”.

Clareza de palavras que faz muita falta nos nossos dias. Desgraçadamente, parte considerável do nosso clero é completamente alheia às questões políticas que realmente importam, e prefere matar a Fé na alma dos cristãos por meio do insidioso veneno esquerdista da Teologia da Libertação que, ferida mortalmente pela sua esterilidade e pela condenação do Magistério da Igreja, recusa-se a morrer e insiste em levar consigo para o Inferno tantas almas quantas conseguir enlaçar, sob o olhar indiferente ou cúmplice das sentinelas que deveriam velar pelo Povo de Deus a elas confiado. É lamentável.

* * *

– Teologia da Libertação que, aliás, foi mais uma vez criticada pelo Papa Bento XVI, em discurso aos bispos do sul do país na visita ad limina. Ecoa de Roma o grito dos católicos que não querem senão ser católicos de verdade. Vem da Cidade Eterna o socorro aos fiéis católicos brasileiros que estão como ovelhas sem pastor – ou como ovelhas “pastoreadas” por lobos.

Vem de Pedro! “[V]ale a pena lembrar que em agosto passado, completou 25 anos a Instrução Libertatis nuntius da Congregação da Doutrina da Fé, sobre alguns aspectos da teologia da libertação, nela sublinhando o perigo que comportava a assunção acrítica, feita por alguns teólogos de teses e metodologias provenientes do marxismo. As suas seqüelas mais ou menos visíveis feitas de rebelião, divisão, dissenso, ofensa, anarquia fazem-se sentir ainda, criando nas vossas comunidades diocesanas grande sofrimento e grave perda de forças vivas. Suplico a quantos de algum modo se sentiram atraídos, envolvidos e atingidos no seu íntimo por certos princípios enganadores da teologia da libertação, que se confrontem novamente com a referida Instrução, acolhendo a luz benigna que a mesma oferece de mão estendida”.

Que ouçam a voz do Papa. Que escutem o Pastor Angélico. Que sigam o Vigário de Cristo. Para que esta Terra de Santa Cruz possa honrar o seu “nome de batismo” – nome, aliás, evocado pelo Papa no discurso acima citado: que “o perdão oferecido e acolhido em nome e por amor da Santíssima Trindade, que adoramos em nossos corações, ponha fim à tribulação da querida Igreja que peregrina nas Terras de Santa Cruz”.

Up – Altas Aventuras

[ATENÇÃO! CONTÉM SPOILERS!]

upaltasaventurasAcho que eu nunca recomendei enfaticamente um filme cá no Deus lo Vult!. Faço-o agora, com o novo desenho da Pixar: Up – Altas aventuras é um filme primoroso.

Quem pretende assistir o filme, eu sugiro que não leia este post ainda, porque as revelações sobre o enredo podem tirar um pouco da graça de descobri-lo pouco a pouco, conforme a trama se desenrola na película. Ao mesmo tempo, não posso deixar de tecer alguns comentários sobre o desenho que assisti ontem à noite. Muita coisa poderia ser comentada.

Antes do mais, é inusitada a figura do herói: o protagonista da trama é um velho, viúvo, de bengala. É uma pessoa frágil e cheia de limitações, daquelas que nós nunca esperamos encontrar em situações perigosas ou enfrentando aventuras; no entanto, é precisamente este o personagem que a Pixar apresenta no desenho. Não é um alguém com super-poderes, nem um gênio de inteligência ilimitada, nem mesmo alguém de porte atlético que tenha força e velocidade: muito pelo contrário, é um senhor de idade que nem mesmo pode descer uma escada. Não é um executivo bem sucedido, nem famoso, nem aventureiro, nem nada: é um velho vendedor de balões viúvo. Personagem mais sem graça, impossível. E é aqui que o filme começa a surpreender.

Há várias formas de encontrar mensagens positivas no filme: nunca é tarde para recomeçar, as aparências enganam, os bens materiais não são a coisa mais importante da vida. São todas válidas, e todas essas coisas são mostradas nas cenas do filme. Mas a melhor de todas, para mim a que merece aplausos e faz com que o filme mereça ser assistido e divulgado, é referente ao amor e ao casamento.

Peço licença para contar a – na minha opinião – melhor parte da trama, refazendo o convite acima de que parem a leitura os que não assistiram ainda o filme e pretendem fazê-lo em breve. O filme começa quando o protagonista é ainda criança e assistia filmes de exploradores de selvas da América do Sul. É neste contexto que ele encontra a garota que, mais tarde, vai ser a sua esposa.

O sonho da menina é visitar as florestas da América do Sul quando crescer e viver as grandes aventuras com as quais sonhava. Ela tem um caderno que mostra ao garoto – “Meu livro de aventuras” -, cujas primeiras páginas estavam ocupadas com fotos de cataratas na Venezuela, penas de animais, folhas de árvores, etc. É um livro grande, mas que só está com as primeiras páginas preenchidas; todo o resto é de folhas em branco, iniciadas por uma página com o título “Coisas que vou fazer”, e a menina diz que, lá, ela vai escrever as aventuras que vai viver quando crescer.

O tempo passa, os dois crescem, apaixonam-se, casam-se, envelhecem juntos. O livro de aventuras da menina fica esquecido. Certa vez, o velho o encontra e, lembrando-se de que a esposa sonhava em viver aventuras na América do Sul quando criança, decide surpreendê-la com uma viagem ao lugar que ela sempre sonhou em visitar, mas não tem tempo: a mulher morre antes que ele possa viajar com ela.

“É uma animação ou um filme para chorar?”, ouvi alguém comentar na cadeira de trás. O fato é que o velho fica viúvo, sozinho, ranzinza, sem ter dado à esposa a oportunidade de viver as aventuras que ela sonhara desde criança. Quando ameaçam levá-lo para um asilo, ele decide empreender – finalmente – a viagem à América do Sul para preencher o “Meu livro de aventuras” da sua esposa, fazendo tudo o que ela sonhou fazer e eles não tiveram a oportunidade de fazer juntos. E o faz de uma forma inusitada: amarrando balões à sua casa e levando-a, flutuando, até as selvas sul-americanas. Quer colocar a casa no exato mesmo lugar – no alto, junto a uma catarata – onde a esposa a desenhou um dia, quando era criança.

Tem muito trabalho para fazê-lo e passa por muitas dificuldades até chegar lá. Encontra um garoto, um pequeno escoteiro, que o seguiu, tem que tomar conta dele, encontra um cachorro e um pássaro selvagem exótico (aos quais se afeiçoa o garoto), encontra um explorador que está caçando o tal pássaro, precisa escolher entre ajudar o garoto e o pássaro ou salvar a sua casa (que ainda não havia levado para o lugar onde queria)… ao final, enfim, consegue pôr a casa no alto da montanha, ao lado da cachoeira, exatamente onde a falecida esposa a desenhou quando criança.

Imagino o que ele sente: teve trabalho para chegar até ali, demorou bastante, a esposa não está mais com ele, mas ele está finalmente está vivendo as aventuras que a esposa, um dia, muitos anos atrás, confidenciou-lhe que desejava viver. Pega o velho “Meu livro de aventuras”, folheia-o mais uma vez, pára à página “Coisas que vou fazer”, e tem-se a impressão de que ele vai começar – enfim! – a escrever as aventuras da vida dele.

Confesso que o filme me enganou e me surpreendeu; achei realmente que o sonho de aventuras das crianças havia sido frustrado, que o caderno havia sido esquecido, que a vida de aventuras desejada na infância havia sido sufocada pelo quotidiano da vida “normal”, ou que a velha era digna de compaixão porque havia tido uma vida longa e, em um certo aspecto, frustrada, por não ter conseguido fazer o que sonhara quando criança. Ledo engano meu. Sentado à cadeira, parado à folha (logo no início do caderno, lembremo-nos!) das “Coisas que vou fazer”, o velho percebe que existe algo na folha seguinte. Vira a folha.

Uma foto do casamento. Outra foto dele carregando a noiva. Fotos deles passeando. Fotos deles deitados no parque. Páginas e mais páginas repletas de fotos da vida deles, sentados em casa, lendo livros, em pequenas e banais situações do quotidiano, ao longo dos anos. O caderno está todo preenchido, até à velhice, até à última folha, na qual está escrito alguma coisa como (não lembro exatamente porque, a esta hora, as lágrimas embaraçavam-me a visão): “obrigado pelas grandes aventuras que me proporcionou”.

Após isso, o velho se transforma. Larga o ar ranzinza, sorri, lança fora um monte de quinquilharias que havia na casa (fazendo com que ela flutue novamente), vai ajudar o pássaro que havia sido capturado e o garoto que havia ido salvá-lo. Consegue, afinal; mas a cena do “Meu livro de aventuras” é apoteótica, e nunca imaginei encontrá-la em um desenho animado moderno. É sensacional. Se eu aplaudo, elogio e recomendo este filme, é principalmente por causa disso: porque ele teve a coragem de apresentar uma vida conjugal longa, de companheirismo e de fidelidade, como sendo a grande aventura de uma vida.

Castidade, fidelidade, natalidade.

O documentário “Inverno Demográfico” (aqui referenciado) está legendado em português – foi um amigo que, gentilmente, passou-me a informação, aproveitando-me para dizer que o mesmo é espetacular, imperdível, e que, a despeito de ser uma produção americana, o DVD vendido no site é multilingüe, com legendas em português, espanhol, russo e romeno. A versão em inglês pode ser assistida na íntegra no Google Videos.

Um outro amigo, com quem estive rapidamente ontem – o Valter Romeiro, responsável direto pelo “Uma mesa cheia de crianças” aqui publicado há algum tempo – veio perguntar-me sobre o documentário; falei-lhe que não o havia ainda assistido. O assunto muito o interessa, e ele aproveitou-me para fazer uma curiosa pergunta e dar uma resposta, aos olhos do mundo, inusitada. A pergunta: como resolver este problema? A resposta: com aquilo que a Igreja ensina. Mas ele chegou à resposta da Igreja por um outro caminho, que vou tentar refazer aqui. Um caminho que tem muitíssimo valor por ser, digamos, “livre de influência religiosa”.

Ponhamos claramente o problema logo de início: até mesmo falando de um ponto de vista meramente natural, a baixa taxa de natalidade é danosa às sociedades. Se esta estiver abaixo da taxa de reposição (2.1 filhos por mulher), a população diminui ao longo do tempo, e isso é ruim para o Estado. Utilizemos um exemplo simples, apenas para fins ilustrativos: seja uma sociedade qualquer composta de dez cidadãos, cinco homens, cinco mulheres. Todos se casam; se cada um deles tiver apenas um único filho, quando os dez cidadãos originais morrerem, a nossa pequena sociedade vai estar ainda menor, com apenas cinco habitantes. Caso isso se mantenha, a sociedade desaparece, porque os cinco viram dois na terceira geração, os dois viram um na próxima, e este um que restou morre sozinho.

“Ah”, pode argumentar alguém, “mas evidentemente não queremos extinguir a humanidade; após uma redução da população, quando chegarmos a um número de habitantes que considerarmos razoável, aumentamos novamente as taxas de natalidade para mantê-lo”. Este raciocínio tem dois problemas: a mudança de mentalidade necessária para que isso ocorra (é difícil – e vamos voltar a isso daqui a pouco – “convencer” as pessoas a terem filhos depois de as terem ensinado a vida inteira que filhos “não prestam” e devem ser evitados) e um pequeno “detalhe” que as pessoas às vezes esquecem. Voltemos à nossa sociedade de dez habitantes. Na segunda geração ela tem apenas cinco habitantes, mas existe um intervalo de tempo em que ambas as gerações coexistem e, quando isso ocorre, temos somente cinco braços jovens para sustentar as quinze pessoas que formam a cidade. Qualquer pessoa há de convir que não é fácil fazer com que um terço da cidade sustente a cidade inteira; e, embora os números não sejam tão “redondos” num caso real, é fato matemático incontestável – salvo alguma situação atípica de extermínio de idosos – que o número de jovens diminui em relação ao de velhos quando as pessoas têm menos filhos. Eis, em linhas tão simples quanto consigo, a famigerada “crise da previdência”.

O “inverno demográfico” é danoso às sociedades – creio que isso já esteja suficientemente demonstrado. Eis o problema; ele sem de fato existe. Qual a solução? Na Europa, houve governos que tiveram a idéia de uma espécie de “bolsa-criança”: incentivo (financeiro) estatal para as mulheres que tivessem filhos. Idéia materialista, e que não dá resultado – diz o meu amigo economista – porque não é lucrativa. Para que uma mulher cuide de crianças, ela precisa abdicar ao menos de parte de sua vida profissional (já que o “tempo integral” dela vai precisar, evidentemente, ser dividido entre a família e o trabalho); outrossim, há os gastos que as crianças exigem… ora, para uma mulher que foi criada sob a quimera de uma “independência financeira”, sob uma ideologia consumista e materialista, sob o “beneplácito” de uma pseudo-liberdade individualista… acham realmente que ela vai encarar? Para se incentivar as pessoas a terem filhos somente por meios financeiros, a quantia oferecida teria que ser muito atrativa – o que é inviável.

Talvez mais importante do que isso, há o quesito “sobrevivência”. Não havendo casamento indissolúvel – portanto, não havendo estabilidade matrimonial – e estando a mulher permanentemente sob o “risco” de se ver sozinha, abandonada pelo marido, parece lógico que ela precise, de todo jeito, prover o próprio sustento, pois nunca se sabe quando pode dele precisar – e “ter filhos” é universalmente visto como a forma mais contraprodutiva possível de se obter independência financeira, ao menos a curto prazo. O divórcio desestimula, portanto, as famílias a terem filhos. “Ah, nem vem, o divórcio não tem nada a ver com isso, pois desde que o mundo é mundo que canalhas abandonam as esposas” – é verdade. Mas estes sempre foram vistos como canalhas. Com o divórcio institucionalizado, no entanto, eles se transformam em nada menos do que cidadãos de bem no pleno exercício dos seus direitos! Em qualquer lugar, a maior parte das pessoas é sinceramente mais simpática à idéia de usufruir de um seu direito do que de ser um canalha; é, portanto, óbvio que o risco das famílias “se destruírem” hoje é maior.

Para que haja natalidade, é portanto necessário haver estabilidade familiar; se aquela é fundamental para as sociedades, segue-se que esta também o é. Por conseguinte, defender a Família Indissolúvel é fundamental para as sociedades. E, não, ainda não terminamos, porque há um outro “destruidor de lares” que precisa ser desmascarado: a “liberdade” sexual.

Quando se prega a livre sexualidade, está-se – nos termos econômicos com os quais o meu amigo gosta de se expressar – desvalorizando um bem. O “bem” em questão é o prazer sexual; se, antes, para obtê-lo era necessário assumir todas as responsabilidades inerentes à formação de uma família, hoje em dia ele pode ser obtido em qualquer lugar, com qualquer pessoa, sem custos, sem responsabilidades… é um desincentivo à formação de famílias estáveis. Isso pode ser visto de maneira mais clara se olharmos para o problema sob um outro aspecto: a fidelidade é tão mais fácil de ser obtida quanto menos exposta ela estiver às tentações, como é evidente. Ora, no mundo depravado no qual vivemos, em que há uma oferta de sexo que independe completamente da proposta matrimonial, cada um dos cônjuges está submetido à permanente tentação de obter satisfação sexual fácil: o ato conjugal não é mais um bem próprio dos cônjuges, e sim uma coisa qualquer, que qualquer um obtém, em qualquer lugar. Ora, por que aquele homem de quarenta anos precisaria se contentar sexualmente com a sua mulher (que tem a sua mesma idade), quando pode muito bem satisfazer-se com uma jovem que tenha metade da idade dele? A “concorrência” é desleal, pois a esposa (ou o esposo) não tem mais algo de exclusivo para oferecer ao seu cônjuge: o que ela (ou ele) pode dar, outra(0s) o podem igualmente, e de uma maneira até mais atrativa… a tentação é permanente! Há alguma surpresa em constatar que muitos sucumbem? Em uma palavra: a “liberdade” sexual na juventude – que, vale salientar, obviamente não fica circunscrita a esta fase da vida – é evidentemente inimiga da fidelidade conjugal na idade adulta.

Uma vez que a castidade é necessária à fidelidade conjugal, e a fidelidade conjugal é necessária à natalidade, e a natalidade é necessária ao bem das sociedades, terminamos de encadear os argumentos e podemos dizer, ousadamente, que a castidade é necessária ao bem das sociedades; estas  precisam, portanto, de castidade, de fidelidade, de natalidade, se quiserem sobreviver e prosperar. É a solução para o problema inicial apontada pelo meu amigo economista, e é – sem nenhuma surpresa para nós – exatamente a solução apontada pela Igreja; só que obtida por meio de um caminho isento de argumentação religiosa. A Igreja está certa, e isso pode ser constatado: para que a humanidade saia do inverno demográfico, é necessário investir na fidelidade no casamento e na castidade antes dele. Que a humanidade enferma possa ouvir a voz da Igreja; e que, sob Seus ensinamentos, possa atingir o bem almejado, e que o faça depressa, para que não sofra tanto, e para que não sejam acumuladas perdas maiores do que as que já temos então. Que Nossa Senhora, Mãe de Deus, interceda por todos nós; e que o Seu Filho, Salvador da Humanidade, tenha de nós misericórdia.

Expulsando os lobos do redil

Não me incomodam tanto as pessoas que atacam a Igreja estando fora d’Ela. O que realmente me tira do sério são aqueles que se dizem “católicos” e, mesmo assim, fazem tudo de maneira diametralmente oposta àquilo que a Igreja ensina e pede. O mau testemunho que estas pessoas dão, o escândalo, as feridas que se disseminam por todo o Corpo Místico de Cristo – afinal, lembremo-nos da comunhão dos santos – são simplesmente terríveis. Tais pessoas terminam por “queimar o filme” da Igreja e, assim, afastar d’Ela as almas sinceras que buscam a Verdade que liberta, e que só na Igreja de Nosso Senhor pode ser encontrada em plenitude.

“Mas todo o que fizer cair no pecado a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que uma pedra de moinho lhe fosse posta ao pescoço e o lançassem ao mar!”, disse Nosso Senhor no Evangelho (Mc 9, 42). Pode-se traduzir também “todo o que escandalizar a um destes pequeninos” – no latim de São Jerônimo, o verbo é scandalizaverit – e, na minha opinião, desta forma fica mais evidente o mal que é o escândalo. Comentando esta passagem do Evangelho, o Catecismo da Igreja diz o seguinte:

O escândalo reveste-se duma gravidade particular conforme a autoridade dos que o causam ou a fraqueza dos que dele são vítimas. Ele inspirou esta maldição a nosso Senhor: «Mas se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem em Mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar» (Mt 18, 6). O escândalo é grave quando é causado por aqueles que, por natureza ou em virtude da função que exercem, tem a obrigação de ensinar e de educar os outros. Jesus censura-o nos escribas e fariseus, comparando-os a lobos disfarçados de cordeiros.
[CIC 2285]

Todo este preâmbulo foi necessário para que eu comentasse um caso que eu vi no Jornal Nacional de ontem, sobre um padre “casado” que insistia em celebrar os Sacramentos mesmo estando suspenso de ordens. O padre Osiel dos Santos chegava mesmo a dizer: “o que eu faço não é com ordem da diocese”. Ou seja: estamos diante de um caso de deliberado e consciente desprezo à autoridade da Igreja de quem o padre recebeu o ministério sacerdotal!

Sejamos claros: ninguém é obrigado a ser católico. Para quem é católico, ninguém é obrigado a ser padre. No entanto, se o sujeito livremente se decide por ser católico e – ainda – por ser ordenado sacerdote, tem a obrigação de “seguir as regras do jogo”, e ter pelo menos um mínimo de coerência e de consideração à Igreja para cujo serviço ele foi ordenado. Ninguém tem o “direito” de ser sacerdote do Deus Altíssimo; uma vez que atinja este estado, portanto, é necessário esforçar-se para ser digno dele. Agir como lobo que dispersa as ovelhas e pôr-lhes as almas em risco quando se tinha o encargo de guardá-las e conduzi-las a Deus é uma atitude particularmente perversa. Foi a pessoas assim que Jesus dirigiu aquelas duras palavras dos Evangelhos citadas mais acima.

Os Sacramentos da Igreja não são todos iguais. A Eucaristia, por exemplo, é validamente celebrada mesmo por um padre que esteja suspenso de ordens – embora seja ilícita. Mas as confissões e os matrimônios são inválidos mesmo, porque são Sacramentos que exigem o exercício da jurisdição da Igreja – coisa que um padre suspenso não possui. Portanto, o padre Osiel estava não somente escandalizando os fiéis, mas também enganando-lhes ao lhes oferecer “teatros” de Sacramentos que não têm valor. Ele deveria dizer não somente que não age “com ordem da diocese”; deveria dizer claramente que está fazendo teatro e “celebrando” casamentos sem valor algum, dizendo ainda – para que as pessoas que o procuram pudessem entender – que um casamento em presença dele e em presença de ninguém eram a mesma coisa, ou seja, nada. Mas por que alguém que despreza a Igreja iria se preocupar com as almas dos fiéis que Ela tem a missão de guardar?

N’O Globo, foi publicada a mesma notícia com um outro detalhe que vale a pena mencionar:

– Eu sempre lutei pelo celibato opcional e pela ordenação de mulheres – diz Osiel.

Eis, portanto, as garras do lobo de fora. Embora o celibato seja uma disciplina da Igreja, é antiquíssima, e santa e santificante, e a Igreja já deixou claro (inclusive recentemente) que não pretende alterá-la (cf. Sacramentum Caritatis, 24); mas a ordenação de mulheres é uma impossibilidade doutrinária, que simplesmente não pode ser feita, como a Igreja também já o disse outras vezes. Mulheres não podem ser ordenadas, como papagaios não podem ser batizados ou pedras não podem ser crismadas. Em qualquer um dos casos o sacramento é inválido e é um sacrilégio. A função da mulher – importantíssima e insubstituível – na Igreja é outra; leiam a Mulieris Dignitatem! E não aceitemos que um padre, que deveria guiar os fiéis pelo estreito caminho da Salvação, despreze a dignidade feminina com base em um inexistente igualitarismo entre os gêneros.

O padre diz que não crê estar fazendo nada de errado. Sim, está, é claro que está. Está traindo a Igreja, escandalizando o povo fiel, oferecendo simulações de sacramentos no lugar dos sacramentos verdadeiros, defendendo disparates já há muito tempo condenados pela Igreja. No site da Arquidiocese, encontra-se um comunicado de Sua Excelência Reverendíssima Dom Washington Cruz, avisando a todas as pessoas que o padre Osiel não pode celebrar os Sacramentos. Graças a Deus, as pessoas estão se cansando dos escândalos, e os bispos estão agindo verdadeiramente como sentinelas que são, defendendo os fiéis católicos de tudo aquilo que pode colocar em risco a salvação de suas almas, e expulsando valentemente os lobos do meio das ovelhas. Rezemos pela Igreja, para que Ela tenha sempre santos pastores, dignos do grave encargo que lhes foi confiado.

Um Padre e um Papa

Cito de segunda mão; já que eu falei recentemente sobre casamento aqui, vale a pena ler esta homilia de São João Crisóstomo sobre como escolher uma esposa. Cito o primeiro ponto da obra do santo, que é muitíssimo atual e aplicável universalmente para qualquer estado de vida que se deseje escolher, mormente nos nossos dias:

1) Portanto, quando fordes escolher uma esposa, não examineis somente as leis do Estado, mas, antes, examineis as leis da Igreja. Deus não vos julgará no último dia segundo as leis do Estado, mas segundo Suas leis.

Isto serve não somente para a escolha de uma esposa, mas para toda e qualquer escolha, por pequena que seja, que nós devemos fazer a cada dia de nossas vidas.

* * *

Hoje é dia de São Leão Magno, Papa. Vale a pena conferir a catequese de Bento XVI sobre ele. Destaco:

“Pedro falou pela boca de Leão”, prorromperam em uníssono os Padres conciliares. Sobretudo desta intervenção, e de outras feitas durante a controvérsia cristológica daqueles anos, sobressai com evidência como o Papa sentia com particular urgência as responsabilidades do Sucessor de Pedro, cujo papel é único na Igreja, porque “a um só apóstolo está confiado o que a todos os apóstolos é comunicado”, como afirma Leão num dos seus sermões para a festa dos santos Pedro e Paulo (83, 2).

São Leão Magno,
Rogai por nós!