Pe. Eugenio Maria e o «embate de ciência versus fé»

Parece que ontem à noite foi ao ar um episódio do Conexão Repórter sobre milagres, onde o pe. Eugenio Maria foi entrevistado a título de “milagreiro” pelo Roberto Cabrini. Não vi o programa, aliás nem sabia dele; somente hoje vi o assunto ser comentado nas redes sociais. Não sei, portanto, em detalhes nem o conteúdo apresentado no SBT e nem a forma com a qual ele foi abordado.

Apenas me interessei pelo assunto porque eu já conheci o padre Eugenio Maria. Já estive numa das casas da FMDJ (agora não lembro se foi o Regina Pacis ou o Menino Jesus) em São Paulo, na companhia do Pe. Mateus Maria que, à época, era ligado à Fraternidade. Faz anos. O pe. Eugenio estava convalescendo — de uma cirurgia, penso, se a memória não me trai. Troquei com ele algumas breves palavras apenas. Não identifiquei então nenhum traço de charlatanismo ou abuso psicológico, muito pelo contrário: pareceu-me ele, então, um homem muito sério e muito comedido. Não acompanhei depois, à distância, o trabalho dele; mas guardei uma muito boa impressão da visita.

O Catolicismo, como já defendi incontáveis vezes aqui, é a religião do Homem das Dores e não da prosperidade material. Na senda de uma infinidade de santos, é preciso afirmar com clareza que o maior distintivo da religião cristã são as lágrimas e não os milagres. No sofrimento resignado dos cristãos — do qual os mártires enfrentando as feras do Coliseu são talvez o exemplo mais eloquente — o Cristianismo se mostra mais verdadeiro que nos milagres da Legenda Aurea. Foi o sangue dos mártires e não os milagres dos Apóstolos o que nos primórdios do Cristianismo se chamou de semente da Igreja.

Isso — atenção — não significa que os milagres não existam; significa que desempenham um papel secundário na vida cristã. Nosso Senhor um dia censurou os que Lhe pediam um milagre (cf. Mt XVI, 4); não é portanto em torno da busca pelo extraordinário que se deve erigir o itinerário da Fé. Há aliás uma outra passagem talvez até mais eloquente: encontra-se no Cap. XVI do Evangelho de S. Lucas, do versículo 20 até o final. A passagem é bem conhecida. O rico morreu e foi para o inferno. Lá, atormentado pelas chamas, pediu a Abraão que fizesse um milagre em favor dos seus irmãos (“Rogo-te então, pai, que mandes Lázaro [então falecido] à casa de meu pai”), a fim de que eles se emendassem e não terminassem no inferno também (“que não aconteça virem também eles parar neste lugar de tormentos”).

A resposta de Abraão é bastante dura: “Se não ouvirem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite algum dos mortos” (v. 31). O alcance desta afirmação talvez nos passe despercebido. Não se trata simplesmente de afirmar que existam pessoas que não se converteriam nem mesmo à vista de um milagre retumbante: antes, trata-se de estabelecer que o testemunho de «Moisés e os profetas» tem maior capacidade de convencimento do que a exortação de um morto recém levantado da tumba!

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A aplicação disso à questão dos “milagreiros” é bastante óbvia: se os incrédulos não dão ouvidos à Igreja, não se deixarão convencer nem mesmo diante dos mais portentosos milagres. É bem possível que o Cabrini não faça a menor idéia dessas coisas; o pe. Eugenio Maria, no entanto, pelo que dele me recordo, sabe-o muito bem. Por conseguinte, não tem sentido uma chamada sensacionalista que promete apresentar «como é possível curar o incurável com apenas um gesto»: uma tal coisa, se existisse e fosse alardeada pelo sacerdote, seria um verdadeiro desserviço ao Cristianismo. Os que porventura procurassem a Fé em busca de curas estariam simplesmente procurando errado, correndo o risco de não conseguir nem uma coisa nem outra — ou, pior ainda!, de conseguir a cura perdendo a Fé.

Não existe nenhum «embate» possível de «ciência versus fé», muito menos na questão dos milagres. E por uma razão bem simples: se os milagres não puderem ser reproduzidos em condições controladas então estão fora do âmbito da ciência; se o puderem, estão fora do âmbito da Fé. A própria forma de colocar o problema — em uma dicotomia impossível e nonsense — já revela o baixo nível da reportagem pretendida.

Em suma, não dá para seguir o caminho delineado pelo Roberto Cabrini: quem por ele enveredar vai se perder. Dá, no entanto, talvez, para se surpreender com a figura do pe. Eugenio Maria, que talvez exsurja católico — com a força do Catolicismo que, nele, um dia vislumbrei…! — a despeito do materialismo grotesco e autocontraditório com o qual se pretendeu contar-lhe a história. Se isso acontecer, louvado seja Deus! Não será a primeira vez que uma Fé sincera e sólida consegue fazer brotar coisas boas de onde nada de bom poderia vir.

Carta aberta para todos os cristãos – pe. Eugenio Maria

Com um pouco de atraso, publico – na íntegra – a corajosa “Carta aberta a todos os cristãos” do revmo. pe. Eugenio Maria, FMDJ. Os negritos e itálicos são do original que recebi, por email. O reverendíssimo sacerdote fala sobre diversos assuntos, com extrema pertinência e um raro poder de concisão. Em particular, a seguinte fase sobre o celibato é lapidar, e bem poderia ser gravada em letras garrafais na entrada de todos os seminários, e enviada para todos os “católicos” que militam pela abolição desta santa disciplina:

O problema verdadeiro é que o celibato vai contra a idéia que existe hoje de um sexo “não repressivo”, um sexo “sem preconceito” e a persistente existência do celibato é uma censura para o mundo ocidental hedonista.

Segue a carta. E que, neste ano sacerdotal, a Virgem Santíssima nos conceda santos sacerdotes.

* * *

Na carta aos cristãos da Irlanda o Papa fala para uma Igreja ferida e desorientada pelas notícias relativas aos padres pedófilos. Denuncia com voz fortíssima os “crimines abnormais”, “vergonha e desonra”, a violação da dignidade das vítimas, um golpe vibrado contra a Igreja “de tal modo a que não tinham chegado nem os séculos de perseguição”. Em nome da Igreja “exprime abertamente vergonha e remorso”. Enfrenta o problema do ponto de vista do direito canônico, reafirmando com força, como foi a “falta de aplicação” por parte de alguns Bispos e não as suas normas, a causar tanta vergonha. Assim como também a vida espiritual dos sacerdotes, cujo desleixo está na raiz do problema, e aos quais o Santo Padre pede a volta através da Adoração Eucarística, das Santas Missões e da prática freqüente da confissão. Se estes remédios forem tomados a sério, é possível que a Providência, que sabe tirar o bem também do mal, poderá, neste Ano Sacerdotal, levar os sacerdotes “para uma estação de renascimento e renovação espiritual”, mostrando ao mundo que “onde abundou o pecado superabundou a Graça” (Rom.5,20). Doutro lado, ninguém deve pensar que esta penosa situação possa resolver-se em tempo breve.

Todavia, o Papa oferece elementos de interpretação desse problema, que certamente não é especifico nem da Irlanda nem da Igreja. Bento XVI indica “os graves desafios à fé, nascidos de uma rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa”. “Verificou-se – explica o Papa – uma rápida mudança social, que muitas vezes atingiu com efeitos hostis a tradicional adesão do povo ao ensinamento e aos valores católicos”. Daí começou uma rápida descristianização da sociedade que entrou também no interior da Igreja: “a tendência também por parte de sacerdotes e religiosos, de adotar modo de pensamento e de julgamento da realidade secular, sem suficiente referimento ao Evangelho”. O programa de renovação proposto pelo Concilio Vaticano II foi às vezes mal interpretado. Muitas vezes, as práticas sacramentais e devocionais que sustêm a fé e as tornam capazes de crescer, como, por exemplo, as confissões freqüentes, as orações cotidianas e os retiros anuais, foram abandonados. É neste contexto geral de “enfraquecimento da fée de perda de respeito pela Igreja e pelos seus ensinamentos que devemos compreender o desconcertante problema do abuso sexual sobre os menores.

E o Papa Bento continua na sua reflexão: É verdade que as normas do Direito Canônico foram violadas, é verdade também que a vida de piedade de muitos sacerdotes ficou morna; por que isso aconteceu? E o Papa volta a falar de uma incompreensão dos documentos do Concilio Vaticano II por parte do Clero e, de modo especial, pelos Bispos, principais responsáveis pelo rebanho a eles confiado, que levou a uma secularização não só do mundo, mas também da Igreja. De fato, está claro para todos que existiu um relaxamento no crer, no se sentir Igreja e no comportamento dos cristãos. Desde o divórcio ao aborto e à homossexualidade, os governos e as leis que os regem não respeitam mais os preceitos das Igrejas Cristãs.

O ano de 1968 parece o tempo de uma perturbação dos costumes, que iniciou escavando sulcos profundos não somente na sociedade, mas também dentro da Igreja e, de fato, foi propriamente em 1968 o ano da dissensão pública contra a Encíclica “Humanae Vitae” de Paulo VI. O que houve de errado? Para mim, aquela tomada de posição até de eclesiásticos gerou uma crise de autoridade da qual dificilmente existirá retorno.

No inicio dos anos 90, um teólogo católico podia escrever que a “revolução cultural” de 1968 não foi um fenômeno que se abateu fora da Igreja, ao contrário, essa revolução foi preparada e introduzida pelos fermentos post-conciliares do catolicismo; se assim não fosse “permaneceriam incompreensíveis as crises e os fermentos internos do catolicismo post-conciliar”. O Teólogo em questão era o Cardeal Joseph Ratzinger, então Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé.

Várias hipóteses se deram a respeito daquele fenômeno, entre outras aquela de Alan Gilbert, segundo o qual a revolução dos anos 60 foi o boom econômico, que contribuiu para afastar as pessoas das Igrejas; e aquela de Callum Brown, segundo o qual foi decisiva a difusão da ideologia feminista, do divórcio, da pílula anticoncepcional e do aborto.

Na minha modesta opinião, somente esses fatores não poderiam explicar uma revolução tão grande. Sem dúvida alguma contribuiu o boom econômico e o feminismo, mas também aspectos mais estritamente culturais presentes fora da Igreja e dentro das comunidades cristãs, como o encontro entre “marxismo e psicanálise” e o nascer das “novas teologias”.

Bento XVI, na sua carta se mostra consciente de que existiu uma verdadeira revolução não menos importante que a Reforma Protestante e a Revolução Francesa, que foi rapidíssima e que assestou um duro golpe na tradicional adesão do povo ao ensino e aos valores católicos.

No Brasil tivemos um grande pensador católico, que não é muito apreciado pela maioria dos intelectuais católicos de esquerda, como também por vários Bispos da teologia da libertação, Plínio Corrêa de Oliveira, que falou de uma quarta revolução que penetrou “in interiore homine” capaz de desorganizar não só o corpo social, mas até o corpo humano.

A Igreja Católica não conseguiu entender a gravidade desta revolução que contagiou, segundo Bento XVI, “também sacerdotes e religiosos”, determinou incompreensões na interpretação do Concilio e causou uma “insuficiente formação humana e espiritual nos seminários e nos noviciados”. É claro que nem todos os sacerdotes e religiosos não formados suficientemente caíram na homossexualidade ou na pedofilia: sabemos com certeza absoluta, estatísticas nas mãos, que uma minoria verdadeiramente exígua caiu em tal depravação, embora gostássemos que fosse zero o número de homens da Igreja que se mancharam de tais graves delitos.

Mas a história da Quarta Revolução da qual falamos é importante para entender o que aconteceu depois, pedofilia inclusa e para encontrar remédios concretos.

Se esta revolução, como falava Plínio Corrêa de Oliveira, à diferença das precedentes revoluções, é moral e espiritual e toca, portanto, a interioridade do homem, então, somente da restauração da vida espiritual e de uma verdade integral da pessoa humana, poderão brotar os verdadeiros remédios. Para fazer isso, não bastam sociólogos, psicólogos e psiquiatras, são necessários Padres, Mestres e educadores Santos. Necessitamos do Papa, deste Papa que ainda uma vez diz a verdade na Caridade e pratica a caridade na verdade!

A questão dos padres e dos religiosos que abusaram de menores está ocupando muitas páginas dos jornais e também tempo da televisão. Justamente ficamos indignados por tais obscenidades e certamente aqueles que não vigiaram atentamente o rebanho que o Senhor Jesus lhe tinha confiado, Cardeais, Bispos, Superiores, padres espirituais, mestres dos noviços… deveriam igualmente ser punidos com extrema severidade (não basta trocar de paróquia,  para fazer-nos entender…). Dito isso, paremos de acusar sempre o mesmo imputado: a Igreja Católica e olhemos seriamente de onde vem a maioria absoluta desses fatos devassos.

Partamos da realidade e coloquemos de lado a ideologia. A pedofilia, infelizmente, sempre existiu como forma de perversão de algumas personalidades doentes. No século XV, na França, foi celebérrimo o acontecimento de Gilles de Rais: homem de origem nobre lutou ao lado de Joana dArc, confessou ter cometido repetidamente violência e abusos de menores. Gilles, verdadeiramente arrependido, caminhou contente para o patíbulo. Depois dele os pedófilos continuaram a existir, mas com um inegável crescimento neste último período da história; dizem-no as crônicas e os tribunais de menores. As violências contra menores, até bebês, são feita por pais, padrastos, madrastas, tios e amigos da família.

A explicação desse aumento, eu acredito que está certamente nesta nossa cultura sempre mais decadente, no qual o sexo se torna mania, uma obsessão contínua: é transmitido a cada momento do dia na TV, nos jornais, na internet, entra nas escolas onde à criança de quarta série se fala do ato sexual, encobrindo tudo como educação sexual. Doloroso é depois para mim aqueles programas que utilizam as crianças nos seus espetáculos de show: meninos metidos a pequenos divos, empenhados em cantar canções sedutoras se não até transgressivas. Obrigado Marta Suplicy por este progresso que tanto decanta cada vez que se torna a “paladina” dos gays, lésbicas e simpatizantes. Obrigado pela cultura que oferece aos brasileiros.

Queremos sempre fingir que a pedofilia seja o problema de alguns padres e não da sociedade como um todo. Queremos somente focar nos 17 casos de violência contra menores cometidos por religiosos e denunciados pelo governo austríaco e fazer de conta que não existem os outros 510 casos denunciados pelo mesmo Governo, cometidos por leigos nos mais diferentes ambientes? Assim como na Alemanha, desde 1995 foram denunciados 210 mil casos de abusos e somente 95 são imputáveis a religiosos. Dos outros silenciamos, não queremos fazer justiça? Será porque estão implicadas personalidades públicas e da política?

O “Corriere della Sera on line” do mês de março de 2010 apresentou 500 sites web com violências sexuais contra menores, de 3 a 12 anos, em menos de duas horas, denunciados pela associação “Meter onlus”, de um sacerdote italiano, que tive a honra de conhecer Don Di Noto, que há anos combate contra a pedofilia. Isso para dizer que na rede internet circula sempre com maior freqüência esse material pornográfico que leva muitas mentes fracas à emulação e que são origens de muitas ações criminais. Contudo, não se fala muito dessas coisas, aliás, parece que não interessam a ninguém: nem aos jornalistas nem aos políticos.

Da mesma maneira, ninguém se indignou quando, na Holanda, nasceu o partido dos pedófilos. A Holanda, como se sabe, é um país extremamente livre, extremamente laicizado, talvez por isso se possa perdoar-lhe tudo: da invasão islâmica, à droga livre, ao divórcio relâmpago, à perversão sexual difusa. Contudo, o nascimento do NVD (amor do próximo, liberdade, diversidade), devia fazer-nos refletir mais. Tal partido, de fato, reivindica a difusão na TV de pornografia (infantil e não) também durante o dia e a liceidade do sexo com meninos e animais, como simples variações dos gostos sexuais do tipo: você gosta assim, eu gosto assado!

Talvez não seja a mesma mensagem mais ou menos veiculada por muitos políticos da teoria do “gender”? Não é aquilo que se ouve dizer sempre mais vezes, isto é, que ninguém tem o direito de dizer o que é o amor verdadeiro, o que é família, o que é moral e o que não é? Não se diz sempre mais freqüentemente que ninguém tem o direito de limitar a livre sexualidade de qualquer pessoa? O relativismo triunfante de hoje afirma exatamente isso, muitas vezes contra aquela que chamam de a sexo-fobia católica. Não finjamos não entender!

No fim destas breves considerações sobre uma certa cultura atual que defende qualquer liberdade sexual, inclusive a pedofilia, seríamos hipócritas se ficássemos pasmos diante dos atos de pedofilia. Estudei em uma escola católica que tem hoje mais de cem anos e nunca ouvi falar de algum abuso sexual; contemporaneamente, era um fato conhecido que em uma escola estatal os professores faziam entender às moças, que apreciavam e premiavam as “mini saias”, que tinham comportamentos ambíguos e faziam apreçamentos pesados em voz baixa e, às vezes, em voz alta. O Cume destes acontecimentos foi o caso de um professor que teve um relacionamento sexual com uma aluna que depois se suicidou. Aquele professor, por anos, continuou a lecionar naquela escola, sem que ninguém o perturbasse. Naquela mesma escola, um sacerdote que ensinava religião, foi acusado de ter inclinações pedófilas. Uma senhora se apresentava todos os dias na frente da escola para acusá-lo. Explicou aos juízes, que a condenaram por mentiras e moléstias, que tinha conhecimento de tudo isso, pessoalmente, por Nossa Senhora, durante uma aparição. Mas, no entanto, o coitado do padre, reconhecido inocente, saiu em todos os jornais e na boca de todo mundo, tanto que teve que deixar o ensinamento.

Atentos, portanto, porque existem os pedófilos e hoje em dia, eis o progresso, também uma forte cultura pró-pedofilia veiculada quase que livremente! Mas existem também e em abundância os mitômanos, e aqueles que entenderam depressa que, com certas acusações, se destroem pessoas e se ganha dinheiro fácil.

Tornou-se moda sustentar que os escândalos dos abusos sexuais que atualmente afligem a Igreja, seja a maior crise desde o tempo da reforma protestante. No meu modesto parecer, os problemas dos abusos é somente uma pequeníssima parte da crise muito maior que arrastou a Igreja, depois do Vaticano II, que não foi entendido pela maioria dos Bispos e que se tornou algo de sério para ser consertado.

Abolir o celibato? A última coisa que um padre que abusa de coroinhas necessita e queira é ter uma mulher: Não existe nenhum celibato obrigatório na Igreja Anglicana, mas isto não impediu casos de pedofilia também ali. O problema verdadeiro é que o celibato vai contra a idéia que existe hoje de um sexo “não repressivo”, um sexo “sem preconceito” e a persistente existência do celibato é uma censura para o mundo ocidental hedonista; assim, o Vaticano deve ser persuadido a aboli-lo – como deve abolir a condenação do divórcio, da contracepção, da homossexualidade e de todos os outros fetiches da sociedade liberal.

As vítimas irlandesas ficaram desiludidas com a carta do Papa. Elas estavam desiludidas antes ainda de lê-la, antes que fosse escrita. Qualquer outra resposta diminuiria o poder que podem brandir contra a Igreja. Têm uma legitima razão para reclamar? Na maioria dos casos, sim. Elas têm um feroz ressentimento contra a “sujeira” (termo inventado por Bento XVI muito antes que começasse a pressão da opinião pública) que os ofendeu e os tratou como animais.

Como podia o clero transgredir tão gravemente a doutrina da Igreja? Quais doutrinas? Estes reatos tiveram lugar no sulco do Vaticano II, quando as doutrinas foram jogadas fora como lixo. Uma vez que se desonra o Corpo Místico de Cristo, sujar os coroinhas se torna fácil.

Os Sacramentos e as práticas devocionais “descuidados”; eles foram afrouxados ativamente por Bispos e sacerdotes a favor de pequenas comunidades de base, de confissões comunitárias que não tinham nenhum valor sacramental, da teologia da libertação de cunho marxista. Neste período que vivi inicialmente aqui no Brasil, existia um só pecado mortal na Igreja Católica: ousar olhar para a tradição milenária da Igreja. Um sacerdote que abusasse de um coroinha seria trocado de paróquia, mas para um sacerdote tradicionalista existia somente zombaria e até, se não agüentava, devia procurar-se uma nova Diocese. Nos seminários se ordenavam jovens padres “simpáticos’ que soubessem cantar, dançar e ganhar dinheiro… naturalmente para o bem dos pobres….. Não existia uma catequese séria de cunho doutrinal. Aquela foi uma geração, totalmente ignorante na fé, que na Irlanda alcançou a prosperidade material. Inicialmente eles ainda freqüentavam a Missa (ou aquela que era oferecida como Missa) somente por conformismo social. Depois os abusos sexuais deu aos agnósticos irlandeses a desculpa perfeita para a apostasia: dezena de milhares de pessoas que nunca foram abusadas, nem que conhecessem alguém que tivesse sido abusado, encontraram a desculpa para ficar na cama no domingo de manhã. Devemos confessar com profundo pesar, que foi por culpa da Igreja progressista a perda do significado do domingo como dia do Senhor, como tinha trovejado da Catedral de São Lourenço o então Cardeal Siri. E todos percebemos isso. Assim, hoje em dia, não se vai mais à Missa nem no sábado nem no domingo e, secularizando o domingo, abrimos as portas ao mundo, para não fazer mais descansar os trabalhadores. De fato os patrões se aproveitaram desta brecha para abrir lojas e supermercados também aos domingos, sem nenhuma culpa na consciência.

Os sacerdotes pedófilos não são os únicos a ser hipócritas. “Eu estou tão aborrecido com os escândalos dos abusos sexuais que estou deixando a Igreja”. Mas muito bem. Assim pelo fato de que alguns degenerados – que nunca deveriam ter sido ordenados – abusaram de jovens, significa que o Filho de Deus não veio sobre a terra para redimir a humanidade sobre a Cruz e fundar a Igreja? Este escândalo terrível compromete as verdades de fé mais do que a carreira de Alexandre VI ou de qualquer Papa corrupto da época do Renascimento.

Os Bispos deveriam ser constringidos a se demitir? Certamente, pelo menos 50% deles no mundo inteiro. Bispos, com suas mitras pseudo étnicas, acompanhados por padres que celebram a Eucaristia com indumentária africana e jogando pipoca, outros com paramentos em poliéster, com símbolos  naif que pregam sermões sem sentido algum, prejudicaram a Igreja mais do que os abusos sexuais: extinguiram a fé católica com suas fatuidades modernistas. Esses Bispos deveriam ser presos e fechados em mosteiros e passar o restante de suas vidas pensando como dar conta a Deus de sua missão fracassada e que custou milhões de almas perdidas para eternidade.

Bento XVI deveria aproveitar a vantagem desta onda popular de aversão contra este episcopado falido, para demiti-los; deveria chamar os Núncios Apostólicos e os Presidentes de cada Conferência Episcopal para esclarecer, de uma vez para sempre, as diretrizes a serem tomadas: “tolerância zero”! Seria uma oportunidade única para abater o pastor mercenário e todos aqueles que obstaculizam a “Summorum Pontificum”.

Com razão o presidente do Senado italiano Marcello Pera, em uma carta aberta, escreveu: “Esta guerra ao cristianismo não seria tão perigosa se os cristãos a entendessem Ao contrário, desta incompreensão participam muito deles. São aqueles teólogos frustrados pela supremacia intelectual de Bento XVI. Aqueles Bispos incertos que pensam que um compromisso com a modernidade seria a maneira melhor para atualizar a mensagem cristã. Aqueles Cardeais em crises de fé, que começam a insinuar que o celibato dos sacerdotes não é um dogma e que talvez fosse melhor repensá-lo. Aqueles intelectuais católicos que pensam existir um problema não resolvido entre cristianismo e sexualidade. Aquelas Conferências Episcopais que erram a ordem do dia e enquanto auspiciam a política das fronteiras abertas para todos, não têm a coragem de denunciar as agressões que os cristãos suportam e a humilhação que experimentam em vários lugares do mundo (…) Ou aqueles chanceleres, vindos do leste, que apresentam um belo ministro do exterior homossexual enquanto atacam o Papa sobre qualquer argumento ético, ou aqueles nascidos no Oeste, que pensam que o Ocidente deve ser laico, ou seja, anticristão. A guerra dos laicos continuará, porque um Papa como Bento XVI, que sorri mas que não desvia um milímetro, continua a alimentá-la”.

Penso que chegou o momento de interromper os “mea culpa” e recomeçar com a Apologética, para reconstruir tudo o que foi destruído nestes últimos 40 anos, para enfrentar liberais e secularistas como fizeram muitas gerações de católicos no passado; para proclamar novamente as verdades imutáveis da Única e Verdadeira Igreja de Jesus Cristo.

Pe. Eugenio Maria, FMDJ